domingo, setembro 09, 2018

Um sábado que, não sei porquê, me soube a domingo





Já dormem há algum tempo. O dia hoje foi mais calmo. O bebé, no outro, dia levou vacinas e isso, parecendo que não, sempre deve dar algum abalo. Para além disso, está com quatro dentes a romperem, o que lhe deve doer. Por isso, tem andado mau para comer. E isso dificulta um bocado a vida. A gente sem saber o que há-de dar que ele coma bem e ele, com a mão, a afastar tudo e a fechar a boca. Perde-se tempo e a mim, que gosto de alimentar o mundo e de ver todos bem nutridos, frustra-me. Por exemplo, este sábado ao pequeno almoço vi-me e desejei-me para ele comer alguma coisa de jeito. Leite no chão, bocadinhos de pão com manteiga por cima da mesa. Ovo também não. Nada. Vá lá que depois quis uma banana. Mas a verdade é que, para a tarde, a coisa mudou.

Mas que não se pense que tem andado com mau feitio. Não. Sempre feliz da vida, só mesmo aquilo da comida. 

Só que é muito irrequieto. O convívio permanente com miúdos mais crescidos torna-o afoito, descarado. Trepa, encavalita-se, abre tudo, mexe em tudo. E os outros, meus ricos meninos, também consomem muita atenção e mão-de-obra.

Os pais vieram buscá-los de manhã e a meio da tarde fomos buscá-los à porta da Festa do Avante (uma confusão de deixar doidos os mais tranquilos... imagine-se o meu marido que de tranquilo não tem muito). Depois fomos com eles até casa dos meus pais. O meu pai, como diz a minha mãe, estava endiabrado. Irritado, só a chamar, a protestar, a zangar-se. E não ouve quase nada. Um caso sério. A minha mãe, com a cabeça em água, mas, ainda assim, fez um bolo revestido a chocolate e crepes. Os miúdos adoram lá estar: brincam no quintal, lancham, exploram aquela escrivaninha que é uma verdadeira arca do tesouro.

Tinha trazido uma sacada de figos para levar à minha mãe mas, no meio da confusão, esqueci-me. Ficou desiludida, gosta tanto de figos. Mas com tanta coisa sempre que saímos de casa (levar as fraldas e o leite para o meu pai, o leite sem lactose para ela, casacos para os meninos, as chaves da fechadura nova do apartamento dela aqui perto de mim -- a que, desde que o meu pai teve o avc, nunca mais pôde vir, com grande desgosto para ela -- e mais sei lá o quê), alguma coisa haveria de ficar esquecida.

Quando chegámos a casa fiz o jantar. Enquanto isso, eles tomaram banho sob a supervisão do avô. Inclusivamente, arriscou-se hoje a dar sozinho banho ao bebé para eu não me atrasar com o jantar. Depois comeram de gosto, incluindo o bebé. Ao primeiro sinal de não querer mais, parei logo pois já estava admirada com a quantidade que tinha comido. A seguir, o do meio, que é um artista, cantou e improvisou e eu fiz vídeos. No meio das canções, quando o bebé o interrompia, ele, com a bisgana de creme que usou como microfone, colocava-a com espontaneidade à frente da boca do irmão e dizia: 'Diz cocó'. O bebé dizia cocó e o artista continuava a gravação, como se aquele momento fizesse parte da actuação.

Depois foram dormir. E eu aproveitei para vir aqui espairecer.


A meio do dia, depois deles saírem, fomos passear na praia mas estávamos os dois tão desasados que, ao sairmos do carro, até parecia que estávamos coxos. Almoçámos na praia e a seguir fomos ao supermercado. Quando aqui chegámos, vínhamos tão pedrados de sono 
(é que, pela parte que me toca, a noite passada tive espertina -- cansada como estava e quase sem conseguir dormir; e, quando dormia, era um sono tão leve que ouvia cada pequeno suspiro de qualquer das crianças; e o bebé estava ao lado da minha cama mas, imaginem, os outros estavam noutra divisão e eu, ouvido de tísica, a ouvi-los)
que foi estender-me no sofá e adormecer de imediato. O meu marido na mesma: disse que sentia o corpo dormente, que estava precisado de uma coisa daquelas que '... dá-te asas...'. Com o sono com que eu estava, nem percebi. Ele disse: 'red bull'. Também eu.


E pronto. Foi um sono curto pois logo a seguir tivemos que arrancar para aquele belo local onde se situa a Festa: a verdadeira imagem do país suburbano, uma barafunda urbanística, uma coisa com aspecto meio bagunçado -- e agora atolado de carros e confusão. Enfim. Sobre isso já falei ontem.

Ah. Não é completamente verdade que tenha adormecido de imediato: ainda deu para ler um bocado da Adélia Prado. Uma gostosura de prosa. Gosto mesmo dela. Lê-se e relê-se e é sempre coisa nova, original, intrínseca, íntima, divertida, um gozo em estado puro. Só depois de umas páginas é que apaguei. Mas, quando falo em apagar, é apagar mesmo. Pimbas. Tiro e queda.


Quando acordei, para aí uma hora depois, estava cheia de calor. Fui tomar banho e, como sempre que estou cansada e a precisar de tirar carga de cima, fui buscar a tesoura da costura e cortei o cabelo. Tirei-lhe altura e volume. Um desbaste dos valentes. Fiquei outra, assim: dormida, lavada, de cabelo cortado.

E é isto. Tudo jóia. Fiquei com pena foi de não ter levado os figos à minha mãe. Ainda pensei ir levá-los amanhã mas não dá que o dia vai ser também dos cheios de programa.


Tenho ideia que o texto não seguiu a sequência cronológica pelo que, descrito assim, o antes e o depois fora da sequência, o dia ainda deve ter parecido mais atrapalhado do que foi na verdade já que, a sério, apesar de um bocado cansativo, até foi um dia calminho e bom. E feliz.

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E, por favor, não levem a mal que me fique por estes temas tão banais e tão meus. Mas não apenas ando, na realidade, um bocado afastada do mundo mundano (digamos assim) como, do que vou sabendo, tudo o que é notícia me parece pouco digno de registo. Rui Rio com aquela falta de jeito de dar dó, Cristas e aquela sua veia para a cretinice, televisões todo o santo dia em directo a dar as eleições no Sporting... baahhh... não me apetece falar de nada disso, que pincel.

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As fotografias que hoje aqui me apeteceu ter referem-se à Companhia de Bailado de Martha Graham que também interpreta a Diversion of Angels no vídeo já aqui acima. 

Lá em cima, Stacey Kent interpreta What a Wonderful World.

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E a todos desejo um feliz dia de domingo -- porque, de facto, hoje é que é domingo

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sábado, setembro 08, 2018

Avante?




Já o contei. Uns colegas diziam que a Festa do Avante era engraçada e tanto o referi em casa que, uma vez, resolvemos ir ver. Eram os miúdos ainda pequenos e era a Festa na Ajuda. Estava um calor desgraçado e só me lembro do pó e dos miúdos todos transpirados. Odiaram, não havia lá nada que lhes interessasse, o meu marido também cheio de calor e já arreliado com a rebelião das crianças e também sem perceber qual a graça daquilo -- e eu própria não via lá nada que valesse a pena. Mas, já que ali estávamos, para quê aquele clima de crise? Bolas. Ainda comprei uma ou outra peça de artesanato mas também nada de especial. Até que, quando já estavam mal dispostos de vez -- que só eu é que os arrastava para secas daquelas -- foi a minha vez de ficar francamente entediada com aquilo. E entediada não será a expressão. Conto de novo: era hora de almoçarmos e só víamos barraquinhas que serviam na base da comida em prato de plástico e nós que arranjássemos onde nos sentarmos. Ninguém se deixava seduzir por nenhum pitéu, o que um tolerava o outro detestava e não conseguíamos reunir consenso. Mas o pior é que, onde eu me dirigisse a saber o que serviam, toda a gente, toda a gente -- repito -- me tratava por tu e por camarada. E eu tenho esta coisa, vem de criança, trato por você quem não conheço. E ali era tudo camarada, tu cá, tu lá... e eu ficava sem saber como responder. Se tratasse por você, ficaria desconfortável para quem me tinha tratado por tu... e eu tratar por tu alguém que nunca tinha visto na vida e que, do nada, me tratava por camarada... nem pensar.  Desconfortável. Nem me lembro se ainda petiscámos alguma coisa ou se desandámos.

E remédio santo. Nunca mais.


Até que os miúdos cresceram e, já adolescente, o meu filho arranjou amigos na JCP e começou a frequentar a Festa. Nunca lá vai a comícios e, do que percebo, nem a concertos. Nunca lhe perguntei mas, do que lhe percebo, nem será essa a sua tendência política. Mas isso eu não quero saber, cada um com a sua ideia. Mas gosta de ir ao Avante, gosta de estar com amigos do tempo da adolescência, de petiscar e de estar por lá. Ainda não há muito foram todos acampar. Um bando de jovens casais cheios de filharada. Alguns ainda se mantêm no PCP (pelo menos uma acho que sim), outros não faço ideia, presumo que não mas nem isso vem ao caso. Do que percebo, há ali um certo espírito de amizade fraternal e intemporal que se mantém. E eu acho isso uma coisa extraordinária e louvável.

E todos os anos vai, ele e a mulher (que alinha pelo mesmo diapasão).


Aqui há uns anos, uns cinco ou seis, nem sei, convenceu-me a ir lá ver, um dia de manhã, com pouca barafunda, falou-me em exposições, em cultura, um espaço heterogénio. Fomos, open minded. Fotografei muito. Motivos não faltam. Muita gente nova. E outra com idade, muita gente vinda de longe. Um ambiente curioso, quase de excursionistas. Mas, decididamente, não é a minha praia. E se politicamente não posso rever-me no espírito, na atitude e nos valores do PCP, a verdade é que também não encontro naquela Feira (ou Festa, como é designada) nada que me possa interessar. Aquele clima meio de missão com que todos os anos para lá vão montar aquilo para depois desmontarem, para ali andarem durante três dias na conversa uns com os outros, genericamente dizendo mal do mundo e achando-se os melhores à superfície da terra, é qualquer coisa que a mim me parece descabelada. Gosto que as coisas tenham uma certa racionalidade e nada ali me parece racional. Mas podia ser belo. Mas também não é belo. Podia ser um ambiente de pura evasão, de um lirismo estético que me fosse apelativo. Mas também não. Gente meio alternativa mas um alternativo de gosto duvidoso. E muita gente ainda com a boina do Che, foice e martelo, coisas de um passado que não volta e que não sei se alguma vez foi bom. Aliás, sei que não foi.
Sempre uma coisa na base do whisful thinking, um sonho nunca concretizado de amanhãs que haveriam de cantar e que nunca cantaram. Portanto, há para ali um misto de saudosismo, de alienação, de revolta contra incertos -- ou seja, muita inconsequência.

Mas claro que há gostos para tudo e ainda bem que assim é.

O que sei é que cá tenho os meus três pimentinhas mais lindos a dormir. Estivemos todos juntos durante o dia mas de tarde os pais lá foram à sua festa. Amanhã vêm buscá-los de manhã e levam-nos até lá, para almoçarem com os amigos. Para os miúdos é uma festa: dizem que desenham, que brincam com outros meninos. Depois vamos lá buscá-los à tarde e seguimos para casa dos meus pais e, de novo, dormirão cá em casa. O meu filho esteve a tentar aliciar-me a ir no domingo, diz que poderei desforrar-me a fotografar porque motivos de interesse é o que não falta. Sei que sim. Mas não. Não me convence. Já lá estive, já vi. 

É que eu poderia achar que é o idealismo que une aquelas pessoas. Mas tirando os jovens que vão para estarem uns com os outros, na conversa, na boa, curtindo a amizade, o que me parece é que, em geral, há uma espécie de ressabiamento enraizado na alma, um desencanto por saberem que o que defendem -- e que, em parte, é válido -- dispensaria aquela conversa já completamente desusada, deslocada, desfocada.


O mundo está longe de ser perfeito: há desigualdades gritantes e, pior, desigualdade de oportunidades, há muita exploração, há motivos mais do que suficientes para se lutar por um mundo melhor. Mas os problemas são de uma natureza bem mais profunda do que eles referem, as causas têm outros contornos, as motivações da actual sociedade são outras, as memórias de grande parte da população activa são outras. O futuro tem que ser melhor, tem mesmo, e eu não sei dizer quais os caminhos para lá se chegar -- mas uma coisa eu sei, são outros, não são os que o PCP preconizam.


sexta-feira, setembro 07, 2018

Tempo de verão já com um certo toque de outono.
Retrato de outro dia de férias, hoje com um drama inside




Dormem agora os cinco na casa do lado a que, pomposamente, gosto de chamar estúdio. A alvorada será cedo. Adormecem cedo, acordam cedo. Adormeceram aqui e mais tarde foram, meio a dormir, para a outra casa.

O meu marido acha que estava um mocho na figueira que está ao pé da cozinha. Foi lá fora e ouviu um piar que antes nunca tinha ouvido. Bateu no tronco ou não sei quê, não percebi bem, e depois ouviu um bater de asas sem conseguir levantar voo. Acho que não devia tê-lo feito. Para que foi ele assutar o pássaro? Ele diz que queria saber que piar era aquele. Gosto da ideia de ter um mocho ou uma coruja aqui à porta de casa.

Hoje aconteceu uma coisa. Quando me levantei, fui comer figos à figueira grande que há lá em baixo e que, de tão grande, chega cá acima (esta ao pé da cozinha é brava). Quando estava a lamber-me com eles, uns dourados e outros rubros, ouvi o meu marido lá em baixo: 'Anda cá ver o que aconteceu à figueira'. Quis que me dissesse o que era mas não, quis que eu fosse ver. Fui. Nem percebi bem. Ela é enorme, está carregada de figos maduros, as pernadas tombam pelo chão. De longe não percebi nada de anormal. Disse para eu me aproximar. Um horror. Tal o peso que o tronco se rachou ao meio, na vertical, e metade da árvore estava vergada até ao chão. Fiquei cheia de pena como se fosse um animal de muita estimação. Não sei se a metade de pé sobreviverá só com meio tronco e com aquela superfície aberta, exposta ao ar. Tomara que sim. E ele, coitado, andou o dia quase todo a serrar os ramos da metade tombada da árvore para os poder transportar. Apanhou um grande alguidar de figos e a maior parte ficou lá caída. Aliás caíam com o tronco a ser serrado, ou rebentavam-se com os impulsos. Uma pena. O meu marido disse que, se calhar, não deveríamos deixar que tivessem tantos troncos ou troncos daquela envergadura, deveríamos desbastar as figueiras. Mas dá pena. É que rapidamente passam de árvores nuas e tristes a árvores pujantes e prenhas e, logo de seguida, a carregadas de filhos. Em que momento se deveriam cortar? Quando estão nuas, tristes e inofensivas? Quando começam a renascer? Quando os filhos lhes despontam? Não sei. Em qualquer altura parece crueldade.

Perto da hora do almoço fomos a uma pequena -- nem sei bem como lhe chamar, talvez empresa -- empresa de tratamento de pedras. Quando choveu muito, alguma telha deve ter ficado desencontrada e deixou acumular água. Então repassou água do telado e caíu aqui em cima do móvel onte está a televisão. 
É um móvel antiquíssimo, nem sei bem como designá-lo, talvez louceiro. Era de uma tia do meu marido ou da avó, nem ele sabe quem é que levou o móvel lá para casa. Sei que, quando morreu a tia que era solteira e morava na casa dos pais, avós do meu marido, este foi um dos móveis com que ficámos. 
E a água danificou um pouco a madeira do tampo. Então, lembrei-me de lhe pôr, em cima, uma pedra mármore. Aqui, nas redondezas encontra-se tudo. Perdida no meio da serra que se avista daqui, lá estava aquela pequena oficina. Uma patroa, um empregado, pedras na rua, um barracão onde o empregado corte e faz o polimento. Escolhi a pedra, dei as medidas, decidi o acabamento. Hoje, ainda estávamos só nós, fomos lá buscá-la. Trinta euros. O móvel fica ainda mais bonito.

O bebé é que ainda não descobriu os tesouros que lá se escondem. Louças antigas que vieram de lá, revistas, sei lá que mais.


Tão pequenino, o bebé e já aprendeu a adorar estar cá. Anda à aventura, a descobrir cada pormenor. O tempo todo está a dizer 'A póta' e a querer ir lá para fora. Agora de noite, eu dizia-lhe: 'Agora não, agora não se pode, está de noite' e ele encolhia os ombros, punha a cabecinha de lado, conformado. Mas, passado um minuto, fazia nova tentativa. De vez para vez que cá está, são notórios os progressos. Da sala de jantar para a sala da televisão há uns degraus. Já os desce na maior. Senta-se e aí vem ele. A subir é nas calmas, é mesmo a pé. E só queria que o vissem a fazer moche ao irmão. O pai diz~lhe: 'Faz moche ao mano!'. O mano deita-se no chão e ele atira-se, todo maluco, ar de folião, para cima do mano. E fartam-se de rir os dois. Aliás, rimo-nos todos.

Ah, e no meio da ida ao supermercado e à pedra e das limpezas (hoje foi dia de vidros e do forno e do micro-ondas e de varrer lá fora), antes deles chegarem, ainda consegui ler um pouco dos Diários. Estou mesmo a vê-la a levar tareia dos leitores menos dados à ironia e à maldadezinha se aquilo fosse escrito num blog. Eu vou lendo e, de cada vez que leio alguma coisa a que um dia queira voltar ou transcrever aqui, vou fazendo uma dobrinha no canto da folha. O drama é que quase não há folha sem dobrinha.

E agora, se me permitem vou dar o expediente por encerrado e retirar-me para os meus aposentos onde o meu compagnon de route já deve ir no quinto sono.


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As fotografias são de Russell James e estão aqui porque calhou ver fotografias dele e pensei que não era tarde nem era cedo. À falta de melhor, ficavam já aqui -- e se alguém for tão insensível a ponto de  achar que não têm nada a ver e que mais valia que aqui não estivessem pois, olhem, uma vez mais paciência,  nada a fazer. É fecharem os olhos e fazerem o favor de imaginar outras mais adequadas: passarinhos, florzinhas. Eu podia ir procurar das minhas mas, a sério, já não consigo. Sorry.

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Ah, é verdade. Não percam o vídeo do post que se segue que mostra um acontecimento surpreendente e que, se vira moda, só pode trazer-nos melhor qualidade de vida. Vejam mesmo, está bem?

Como esta é que nunca se tinha visto.
Acho que a moda devia pegar.
Eu, por exemplo, se soubesse fazer isto e estivesse a participar em reuniões com o Mário Nogueira, a Avoila, a Cristas, o Paulo Rangel, a Ana Gomes, o Bruno de Carvalho, o José Rodrigues dos Santos, a Júlia Pinheiro e mais uns quantos desatava a fazer isto até eles se calarem.


A coisa não se passou cá, foi nos States. Durante uma audiência, alguém na assistência começou uma interpelação de protesto que maçou Billy Long, um congressista que durante anos foi leiloeiro. A reacção dele foi inesperada e durou até que ela se calou e foi retirada da sala.

Gostava que a moda pegasse, ou desta maneira ou de outras maneiras igualmente criativas.

Por exemplo, acho que, quando o Mário Nogueira vier com ameaças, alguém lhe deveria perguntar o que é que ele acha de metade das baixas dos professores serem fraudulentas e, até ele desistir de se armar em última coca-cola do deserto, com direito a reposições de privilégios que mais ninguém tem, deveria armar alguma forma de cagarim até ele desistir de moer a paciência aos portuguesas.

Ou a Cristas, no Parlamento. Quando se levantasse com desenhos pueris e desatasse naquela algaraviada pindérica e arruaceira, alguém da Mesa da Presidência deveria começar um número qualquer até que ela se sentisse diassuadida de continuar e se sentasse, caladinha e sossegadinha.

Ou naquele programa de televisão: quando o Rangel desatasse a cacarejar, os outros deveriam desatar também a cacarejar, impedindo-o de massacrar os telespectadores.

Coisa assim.

Mas vejam, por favor.

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quinta-feira, setembro 06, 2018

Olha o espertinho do algoritmo do YouTube com indirectas, insinuando que careço de um lifting...




Já estou de volta ao campo. Hoje o dia foi um pouco mais tranquilo mas, como sempre, cheio de cenas. Num momento em que tudo parecia sereno -- o bebé a dormir, os mais crescidos estranhamente aquietados -- aparece o meu marido que, tenho ideia, tinha acabado de se deitar no sofá, a dizer: 'Acho que uma gaivota se enfiou outra vez na varanda' e, todo irritado, foi buscar uma vassoura.

Ouvia-se o barulho de alguma coisa a bater contra o estore da porta de vidro que dá para a varanda. Fui levantar a persiana no canto onde se ouvia e lá estava ela: grande, branca e assustada. Mas havia mais: um monte escuro, penugento. Aí a coisa perturbou-me. 'Não sei se não está lá um pombo morto'. Entretanto, toda a gente veio a correr. Gritos. 'Que horror! Um pombo morto!'. Depois o meu filho: 'Um ovo'. Fui ver. De facto, um ovo. Depois reparei: não sei se terá havido um ninho. Uma confusão de palhas. Foi agora nas férias que aconteceu. O meu filho enojado com a cena do pombo morto. Eu que, na outra vez, consegui acalmar a gaivota e, com uma vassoura a servir de alavanca, a elevei até voar., desta vez não me afoitei. Aquele monte de penas ali repeliu-me um bocado. Teve que ser o meu marido. Só que ele não leva jeito como encantador de gaivotas. Portanto, aquilo foi uma refrega, basicamente uma luta à vassourada, ele a querer que ela saisse do canto e a pobre da gaivota completamente assarapantada. A varanda é estreita e não tem largueza para uma gaivora abrir as asas e ganhar balanço para voar. Tentava mas as asas batiam de lado e gritava de dar dó. O meu filho foi, então, à loja do chinês ali perto para ver se arranjava uma pá de lavoura ou outra coisa que desse para tentar passar por baixo dela e levantá-la. Não havia. Regressou com uma pá do lixo de chapa e cabo alto e outra coisa que não percebi o que era, uma espécie de vassoura. E luvas e sacos pretos grandes. Então o meu marido começou por apanhar o pombo morto e o lixo que havia em volta. As crianças, do lado de dentro, observavam, excitadas. No entretanto, apanharam um pacote de bolachas e, enquanto gritavam de susto, comiam bolachas. Por fim, não sei como, ele lá conseguiu que a gaivota se empoleirasse na pá e lá a atirou para voar por cima da varanda, com toda a gente a gritar de susto e alegria. A seguir foi pôr o saco com o pombo lá abaixo, ao lixo, depois pôs a roupa para lavar e foi tomar banho. Enfim. É o que dá morar num andar muito alto perto do rio.

Bem.


Entretanto, as crianças mais crescidas foram pôr-se a brincar aos presos e aos ladrões e polícias. E ela era a polícia e mandava prender os ladrões. Mas faziam uma barulheira incrível. E eu, que não queria que acordassem o bebé, ameacei: 'Se continuam neste chinfrim, ponho-os mas é no isolamento'. Pois bem. Instantaneamente, desataram a gritar ainda mais, a rir, e a reivindicar: 'I-so-la-men-to! I-so-la-men-to!'. E, acto contínuo, pegaram nas mantinhas e nas almofadas que encontraram e ela foi pôr-se atrás de uma estante e eles na casinha de banho de apoio à sala. E eu, aparvalhada com aquilo: 'Mas esperem lá. Não desarrumem ainda mais a sala! Isolamento não é acampamento!'. Mas já ela tinha ido buscar um telemóvel e eles outro, para ficarem a ouvir música. Depois ela foi buscar o coelho de peluche que tinha sido do pai: 'Já fui buscar um animal de estimação!'. E eles foram buscar o telefone fixo. E ela quis um cofre. E de repente ali estavam a ouvir músicas no youtube, a cantar. E eu a tentar explicar: 'O isolamento na prisão não é isto... Caluda. Acordam o bebé..'.

E acordaram mesmo.


E pronto, eles ainda jogaram à bola e o bebé, de cada vez que dá um pontapé, levanta os dois braços e grita 'Golo....!' e depois brincaram às lutas e ela, no meio da confusão, fingiu que estava a dormir e que era sonâmbula. Depois o irmão irritou-a e ela irritou-se com o irmão e gritou com ele e eu: 'Schiuuuu... Mas que é isso? Parece que estás histérica...' E ela, 'Não estou nada! E quem diz é quem é!'. E pronto.

A seguir foram lanchar. E depois o bebé pôs um chapéu meu e ficou a parecer um mexicano -- e lá se foram na maior alegria. E nós fomos levar o outro pimentinha a casa da minha filha. Mal entrou no carro, deixou-se dormir. Quando chegámos, já lá estava o mais velho que teve o seu primeiro dia de escola. 'Muito mais liberdade...' disse ele, orgulhoso. E eu lembrei-o: 'Mais liberdade, mais responsabilidade'. Estava feliz. Crescido, ar já de rapazinho.

E depois da conversa em dia com a minha filha, pusemo-nos a caminho. Novo carregamento no supermercado e cá estamos. Claro que, no percurso para cá, foi tiro e queda: dormi o sono dos justos. Mesmo bom. 


Agora aqui, sossegada da vida, vendo a televisão (quatro canais e mais o canal parlamento, a rtp3 e o canal memória), estou a ver a nova telenovela da sic e é sempre aquela coisa agradável de ver. Não me lembro como se chama mas, apesar de estar no começo, já vai se apegando. Agorinha mesmo um casal se formando: a cozinheira Cacau com o negão-todo-o-serviço. Embeiçaram-se e logo ali mesmo a coisa pintou e rolou. Nada de perder tempo. E, enquanto vejo, espreito se há novidades que se aproveitem e, ao abrir o youtube, desta vez uma novidade: conselhos de massagem facial, ioga facial e outros conselhos para tirar os vestígios de stress da cara. Não sei onde foi ele achar que estou precisada de um trato facial mas a verdade é que, pelo sim, pelo não, já me levantei e já fui observar-me ao espelho. Será...? Na volta... Voltei a pôr um video e, enquanto a Deborah Secco tenta dar o golpe da barriga num bonitão que nunca vi antes e que está a fazer de um tal ex-cantor cuja família está a facturar à conta de o mundo pensar que morreu, fui fazendo os movimentos de lifting que a senhora exemplificava.

Daqui por uns dias, quanto fizer a minha gloriosa rentrée no trabalho, vou estar vinte anos mais nova, sem uma ruguinha, sem um papinho, toda esticadinha, toda descansadinha. E isto com zero botox, só com os conselhos de mon ami algoritmo.

Só não digo a referência dos vídeos para os meus Leitores -- em especial os mais ingénuos, os que ainda acreditam que esta que aqui vos escreve talvez seja a modos que um bocadinhozinho intelectual -- não ficarem decepcionados demais. Telenovelas da Globo ainda vá que não vá... agora vídeos de massagem facial... puxa vida, essa não.


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As imagens mostram algumas caras conhecidas no Festival di Venezia 2018 

A última mostra uma cria de leão das montanhas descoberta em Santa Monica 

A música lá em cima é Maksim interpretando Somewhere in time de John Barry.

Não sei se dizer se há alguma relação entre as imagens, entre elas e a música ou entre qualquer delas e o texto -- mas isso também não me parece preocupante. 

quarta-feira, setembro 05, 2018

Retrato de um tranquilo dia de férias




Há bocado acordei meio sobressaltada. Um barulho. Era o computador no chão. Tinha adormecido profundamente. A alvorada foi cedo. Nada de mais mas, para o usual dos últimos dias, cedo. Fomos buscar dois pimentinhas. A minha filha já começou a trabalhar. Depois fomos ter a casa do meu filho que estava sozinho, ainda de férias, com uma chamada de trabalho, e os seus três pimentinhas em pijama. Depois fomos todos para um parque onde puderam andar de bicicleta. O bebé também quis andar de trotineta e eu a segurá-lo e ele feliz da vida com a velocidade. Tirando isso, era andar a segurar nele para não ser atropelado pelos outros, exímios ciclistas. De lá fomos almoçar. Era para ser num restaurante italiano que parece que é agradável, com coisas boas para miúdos, mas estava fechado. Fomos a outro e ficámos na rua. O bebé só queria andar a correr atrás dos pombos e, quando o punhamos na cadeirinha ou ao nosso colo, fazia chinfrim, puxava os individuais ou atirava coisas para o chão. Preferível tê-lo no chão. Tive que ir a correr atrás dele, várias vezes, pois corre a uma velocidade estonteante. Os outros, felizmente, já se portam razoavelmente e comeram que se fartaram. Só que o mano do meio, para ajudar à festa, à socapa atirava migalhas para os pombos.


Depois fomos comer um gelado (mas eu não comi), com cada um a querer sua coisa e a senhora, já desnorteada, a dizer que só atendia um de sua vez. Aí o bebé resolveu fazer cocó e ficou um cheiro insuportável. O meu filho dizia: 'O caos. Só faltava isto'. O meu marido incomodado, como se a criança tivesse culpa. 'Eh pá que cheiro. Este puto...!'

De lá viémos cá para casa e o bebé estava de tal maneira que teve que ir para a banheira. A seguir caíu redondo na sua sesta. Como não podíamos sair, os outros quatro estiveram a ver televisão. Mas um queria desenhos animados e os outros futebol, ou uns futebol e outros wrestling. Um desentendimento. Depois os três rapazes acharam por bem fazer judo ou malucadas do wrestling e eu sempre com medo que se magoem e ela, coitada, como eles estão na deles e não lhe ligam patavina, quis pintar-me as unhas e que eu a ela, e foi buscar a caixa das maquilhagens e maquilhou-me e quis que eu a maquilhasse a ela. E eu fotografei-a, linda, linda, os olhos claríssimos, a pele linda. E depois foi hora do lanche e uns queriam isto e outros aquilo mas o avô atalhou e comeram o que havia. E a seguir já não se aturavam mas como o bebé ainda dormia, resolveu-se que eu ficaria em casa mas que eles iriam arejar. Ela quis ir a uma biblioteca e mais nenhum queria, que não, que nem pensar. Depois o avô disse que ia com ela e eles que fizessem o que quisessem e ponto final. Aí, o primo mais velho também alinhou e lá foram os três. Os outros dois quiseram ficar em casa a jogar à bola na sala grande, com o tio. Já desisti. Acho que a bola deve ser leve -- e entrego o destino das minhas peças à divina providência.


Entretanto, fazia-se tarde, fui acordar o bebé. Depois fiz e dei-lhe uma papa. Como tinha comido pouco ao almoço, devorou uma tigelona de papa de iogurte e fruta num abrir e fechar de olhos. 

Depois de trocar a fralda, lá foram os três com o pai e nós fomos com os outros dois ter com a minha filha que, entretanto, tinha ido ao Stapples aviar as big listas de material escolar de ambos. Parecia uma feira popular em dia de enchente. Engarrafamento para entrar no parque, quase sem lugar para estacionar e uma confusão brutal de jovens adultos com big listas nas mãos a aviar material para dentro dos carrinhos. Uma barafunda inexplicável. Um comércio absurdo. Lá nos viémos embora. Engarrafamento para sair do parque e grandes bichas na estrada -- e eu e o meu marido à beira da exaustão. 

Quando chegámos, fomos ao supermercado porque amanhã o programa se repete com a diferença que é menos um -- o mais velho já tem escola. Mas o almoço vai ser em casa porque é impossível mantê-los sossegados num restaurante, especialmente o bebé, e eu esgoto-me naquelas confusões, até porque acho que não devemos incomodar as outras pessoas. Mas manter cinco crianças sossegadas durante muito tempo é obra.


Depois, estava tão cansada que até parece que sentia formigueiro na pele. Pensei que só me passava com um gelado. O meu marido disse que nem percebia como é que em vez de querer ir deitar-me ainda me apetecia ir comer um gelado. Mas é: um gelado retempera-me. Depois, quando regressei, fiz o jantar, pus uma máquina a lavar, rapei-lhe o cabelo, tomei um duche de água fria, telefonei à minha mãe, depois falei ao telefone com a minha filha (na Stapples não tinha dado para pormos a conversa em dia), depois fui jantar e, mal aqui cheguei, já depois das dez da noite, aterrei e adormeci.

Com isto, nem vi televisão nem vi notícias nem mails (só os de trabalho que esses continuam, impiedosamente, a cair-me em cima. Já tirei o som das notificações pois, no meio da confusão de cinco pimentinhas super bem dispostos e super enérgicos, o som daquilo dar-me-ia conta da cabeça). 

Ah, e fiz montes de fotografias. Estão grandes, lindos, bronzeados. Só apetece registar estes momentos em que estão tão transbordantes de alegria. O mais crescido fez agora dez anos e vai para o 5º ano, numa escola de grandes. Ela acabou de fazer oito e vai para o 3º ano, o primo tem sete e vai para o 2º e o mano do meio, que também acabou de fazer seis, para o 1º. O bebé, que tem ano e meio e passa o dia a tagarelar, a mexer, a desafiar e a rir, continua na sua escolinha.


E eu, agora que dormi um bocado, já estou fresca. E feliz, feliz da vida.

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Não são os pimentinhas que aqui vos mostro: estes foram fotografadas pela fotógrafa lituana Simona Tiškė

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terça-feira, setembro 04, 2018

Dá uma trinquinha..!
- Não dou...
Dá lá...
- Não dou...

[E, no meio desta doce temática, perceberão que o Rui Rio, o Fernando Negrão e o Flopes das Caves Aliança não passem de um insignificante Post Scriptum]





Não é que não goste de docinhos. 
Eu gosto. 
  Não é que me furte a uma trinquinha. 
  Eu não furto. 
   Não é que não curta coisa bonita. 
    Eu curto. 
     Não é que eu não seja de dar uma mordidinha em coisa bonita. 
      Eu sou. Juro que sou.
Mas é que é tão lindo, tão lindo... Coisa assim nem parece feita para ser mordiscada.

            Nem mesmo para saborear devagar.

                 Coisa de tanta beleza parece feita só para ser olhada.

                          Nem para mexer. Só olhar. Olhar. Quanto muito, vá lá, comer com os olhos.

E, depois, então, talvez... talvez... uma trinquinha.
                                                                                Uma little, little, little trinquinha. 
Com sentimento de culpa.
                                          Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.
Mil perdões por pecar, mil perdões. Não devia, sei que não devia, mil perdões. Mas teve que ser. Sou uma pecadora. Mil perdões. E prometo voltar a pecar, prometo. A sério. Prometo. Pecar uma e outra e outra vez. Pecar cada vez mais, pecar cada vez melhor. Pecar agora e na hora da minha morte. Ámen.
















Comer um Mondrian, um Delacroix, um Van Gogh, um Bosch (?), um Hokusai, um Magritte, uma Frida Kahlo, um Kandinksy não sei se é um pecado, se é uma bênção. Sei, sim, que são obras de arte. Comestíveis. Tortik Annushka, Moscovo -- e é tudo para comer e, ao que dizem, delicioso.

Nem todos os bolos se referem a pinturas: há bolos de toda a espécie e feitio, desde os mimosos até aos abstractos, todos simplesmente maravilhosos.



E aqui fica a dica aos Leitores e Leitoras mais prendados e/ou ousados: tentem.

E bom apetite.
[Sem sentimentos de culpa, claro.]

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E queiram fazer o favor de descer até ao post seguinte onde se ensina a cura (caseira) para dez maleitas

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PS

E não estranhem as temáticas: vale tudo para não ter que falar do Rui Rio e do Fernando Negrão. É que eu é mais bolos. E, demais, sou caridosa. Fazer o quê? Tenho um coração cheio de doçura. Deixá-los lá, coitados, naquelas macacadas deles. Não vão a lado nenhum. Para quê perder o tempo com aquelas indigências, coisa tão patética que até enternece...? Para dar cabo deles já chega o Marques Mendes e os outros laranjas que já andam pelos cabelos com aquela dupla mais cómica que o Sr. Feliz e Sr. Contente.

Ah, é verdade, recebi agora um mail de académico na área da Big Data a avisar para andarmos de olho no Menino-Guerreiro das Caves Aliança -- o tal que, em seu devido tempo não se ensaiou nada para lançar campanhas difamatórias contra Sócrates -- por ser de temer que, para se projectar junto da opinião pública e manipular vontades para as próximas eleições, resolva preparar uma à moda do Trump-Bannon. Aqui fica o aviso.

Dores de cabeça, nariz entupido, fadiga, dores nas costas, stress, dor de dentes, náuseas, pulsações aceleradas, peso a mais, insónia.
Tenho aqui a solução fácil, rápida e económica para tudo.
E não, não é banha da cobra.
Eu explico:
ora ponha aqui o seu dedinho


Começo por relembrar os factos: a minha formação de base está ligada às ciências, aos números, à lógica. Depois da escola, fiz mais umas formações mas nada ligado às paranormalidades, às realidades alternativas ou às coisas esquisitas.

Para mais, havendo na família próxima gente ligadas às medicinas, mal fora se, depois de tudo, eu fosse descambar para as curandeirices. Nada.

No entanto, não fecho a porta a nada do que não tendo explicação evidente, mal também não faça e, em acréscimo, apresente boas provas estatísticas.

Portanto, se me disserem para hibernar, besuntada com lama, alimentando-me de papas de azeite, espelta em pó e raízes de pessegueiro, aí não me apanham. Mas já se for coisa simples como apertar um pontinho da mão, massajar o canto da testa ou andar com o dedinho à roda junto ao tornezelo, aí... porque não?

Para mais, sou muito avessa a comprimidos e sou dada a acreditar que da natureza vem muito do que nos faz sentir bem e que, de nós, vem muito do que nos ajuda a manter equilibrados. Desde há muito que, se me dói a cabeça, carrego nos lados da testa e a coisa resolve-se. Portanto, tentar o que aqui se ensina também não custa.

Agora uma coisa me surpreendeu: é quando desaconselham a massagem num certo ponto às grávidas por poder desencadear o trabalho de parto.... A sério...? É que, se for mesmo verdade, capaz de esta coisa de carregar aqui durante uns segundinhos ainda ter alguns efeitos colaterais. Portanto, é tentar ... mas com moderação não vá aquilo desentupir o nariz mas, ao mesmo tempo, fazer crescer as unhas para além da conta. Por exemplo. Por outro lado, podem acontecer surpresas. Por exemplo, se carregar demais no pontinho que alivia o stress e de repente começar a crescer o cabelo aos carecas. We'll never know...


A coisa dá pelo nome de Reflexologia e nada como experimentar.



segunda-feira, setembro 03, 2018

Ottoline




Quarta-feira, 17 de Outubro [de 1917]

Fui a Londres esta tarde ver a exposição de quadros no Heal's. A Ottoline* não estava à vontade; rigorosamente abotoada até acima em veludo azul, chapéu como um guarda-sol, gola de cetim, perolada, pálpebras pintadas e cabelo vermelho-dourado. Escusado será dizer que não vi nada dos quadros. Estava presente o Aldous Huxley -- infinitamente comprido e magro, com um olho branco opaco. Uma bela juventude. Tomámos chá com o Roger. Eu estava bastante consciente da tensão. 

A Ott. lânguida, refugiando-se nos seus grandes ares de senhora, o que é sempre deprimente. Ambos pareciam ter a sua discussão bastante presente. Fui a pé com ela debaixo de chuva até Oxford Street, comprou-me cravos vermelhos, sem cordialidade.


Segunda-feira, 19 de Novembro

(...) É difícil dar a impressão do conjunto, salvo que não foi muito diferente do que imaginara. Gente espalhada numa sala cor de lacre: o Aldous Huxley a brincar com grandes discos redondos de marfim e mármore-verde -- o jogo de damas de Garsington; a Brett de calças; o Philip tremendamente envolto no melhor couro; a Ottoline, como sempre, veludo e pérolas; dois dogues. 

O Lytton semi-reclinado numa vasta cadeira. Bugigangas a mais para uma verdadeira beleza, demasiados perfumes e sedas, e um ar quente que era um bocado pesado. Bandos de pessoas deslocavam-se de sala para sala -- o domingo inteiro. Por momentos, o sentido daquilo parecia esmorecer; e, desta forma, o dia foi evidentemente muito comprido. 

Depois do chá, estive talvez durante uma hora à lareira de lenha com a Ottoline. No conjunto, gostei mais dela do que os seus amigos me tinham preparado para gostar. A vitalidade pareceu-me um crédito a seu favor, e na conversa privada os seus eflúvios dão lugar a algumas irrupções bastante evidentes de perspicácia. (...)


Quinta-feira, 22 de Novembro

Vangloriei-me tanto em Garsington sobre este caderno e o encanto de o encher a partir de uma fonte inesgotável, que tenho vergonha de falhar dias; e, no entanto, como assinalei, a única hipótese que ele tem é aguardar a minha disposição. Por falar nisso, a Ottoline tem um, embora devotado à sua "vida interior", o que me faz reflectir que não tenho uma vida interior. 

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Nota

* Lady Ottoline Morrell (1873 - 1938), casada com Philip Morrell, aristocrata, protectora das artes, anfitriã de artistas e intelectuais na sua casa de Londres e na mansão rural de Garsington. Inspirou personagens de romances, nomeadamente a D. H. Lawrence e Aldous Huxley. Dos vários casos extraconjugais, o mais célebre foi talvez com Bertrand Russel.


[Dorothy Brett, Lytton Strachey, Ottoline Morrell e Bertrand Russell]
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A célebre cena dos figos no filme do livro homónimo Women in Love na qual Eleanor Bron interpreta Hermione Roddice, personagem inspirada por Ottoline.



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O texto e a nota sobre Ottoline são excertos de Os Diários de Virginia Woolf

O excerto do octeto de Schubert está aqui por ser uma das referências de Virginia Woolf ("Cheguei ao Acolian Hall, paguei o meu xelim e ouvi um octeto de Schubert muito longo e muito belo". Nas notas pode ler-se que se trata do que aqui partilho]

Os figos com o seu pingo de mel viviam aqui, in heaven, antes de eu os comer. Sem cerimónias.

domingo, setembro 02, 2018

Teias de aranha que não acabam, figos muito doces, roupa lavada, guisadinho apurado, conchinhas ao vento.
[Ou seja: estou de volta ao campo]




De tal ordem foi que já aqui tenho uma bolha na mão, entre o polegar e o indicador. E a lida ainda vai a meio. Máquinas de roupa já foram três. Até a mantinha que está na cadeira de balouço, os panos que tenho sobre os sofás aqui da sala e as forras das almofadas foram.

Comecei por varrer lá fora, na estradinha empedrada que vem do portão até a casa, muita folha seca, mas estava calor de mais. Impossível. Um calor marroquino, seco e opressivo.

Vim, então, para dentro, a ver se dava conta das teias de aranha. Não há explicação. Tantas. Com uma vassoura ao alto, andei que tempos naquilo. Nos cantos, em volta dos candeeiros, entre os candeeiros e os cantos, nas clarabóias, por todo o lado. Acresce uma situação que só desajuda. Mantivemos o acabamento que a casa tinha quando a comprámos: rugoso, rústico. Já deveríamos ter acabado com isto há séculos mas de tal forma já nos habituámos que parece que desvirtuaríamos a sua genética se puséssemos as paredes lisas. Mas o que se passa é que tirar as teias de aranha nestas superficies é um castigo. Tem que ser muito ao de leve para ficarem agarradas à vassoura e não entranhadas por entre as rugosidades. E o engraçado é que (felizmente) mal se vêem as aranhas, só o lindo serviços que fazem na nossa ausência.


Só me apetecia dizer aquilo que aquela minha parente, pessoa cheia de finesse, que, um dia, quando chegámos à sua bela quinta nas faldas da serra 
-- uma quinta onde existe a casa grande, cheia de traça e graça, e depois mais quatro casas mais pequenas, em banda, uma para cada um dos filhos e respectivas famílias, e mais a grande casa de vidro de apoio à grande piscina e ao relvado gigante, casa essa que é composta por uma imensa sala quase toda envidraçada (e que tem, num canto, uma lareira e noutro um balcão onde os muitos homens da casa se juntam a beber refrescos) mais um pequena cozinha e uma casa de banho -- 
e estando nós a passar sob a extensa pérgola que faz sombra a uma mesa de madeira quilométrica com bancos igualmente quilométricos e vendo tudo pintalgado, me diz: 'Cabrões dos pássaros, cagam tudo'. A sério.  Loura e chique como só ela e sai-se-me com uma daquelas.
E se fosse só com essa... No meio da maior sofisticação, com a maior das naturalidades, intercalava um vernáculo que, no conjunto, me soava sempre a coisa hilariante.
Pois bem. Mentalmente, enquanto hoje andava de vassoura e despregar gigantes teias de aranha do tecto, ia dizendo: 'Cabronas das aranhas...enchem tudo de teias'. É que até nas casas de banho, senhores.


Depois varri parte da casa -- mas ainda nem metade foi --, sacudi tapetes, limpei o pó e apliquei aquele spray que repele o pó e trata a madeira. Quando o meu marido, regressado da sua labuta, entrou em casa, ficou arreliado, que não eram horas de andar a pôr porcarias nos móveis. Então abriu as portas de vidro, mantendo as portadas de madeira, de fora, fechadas (para não entrar o calor nem melgas) e ligou a ventoinha de pé alto, que roda, a meio caminho entre a sala de estar e a sala de jantar para espantar o cheiro. E eu que acho que aquele cheirinho até é bom.  


Ao fim do dia, já com a bolha na mão de tanto varrer e lavar, cansada e já o ar mais fresco, resolvi ir fazer uma caminhada. Comi uma barrigada de figos. Doces, doces, desfazendo-se em doçura na boca. Mas pouco andei, se uns dois quilómetros foi muito. Cansada. O calor retira-me energia. 

Para o jantar fiz uma coisa de que gosto muito. Mas, em mais uma manifestação prática do que é um casamento, adaptei-a para ser também ao gosto do meu marido. À vinda, passámos pelo supermercado. Trouxe peixes mas, no balcão das carnes, numa humilde caixinha entalada num canto, vi aquilo a que se chama cachola ou fressura ou lá o que é: os miúdos de porco (acho que fígado, pulmão, baço). Tudo partido aos bocadinhos. O meu marido abomina. Então trouxe também rojões.


Cozinhei assim:
num talcho espaçoso, pus azeite, duas cebolonas, louro, salsa, coentros, uns quatro ou cinco tomates e toda aquela carne e miudezas. Envolvi, pus um pouco de sal e mais um bocado de alecrim. Cozinhou durante um bocadão, acho que para cima de uma hora, em lume brando. Quando vi que estava tudo bem macio, juntei água e uma boa mão cheia de feijão-verde cortado aos bocados e mais uns dois tomates e mais uma cebola às rodelas grossas. Passado um bocado, juntei o arroz basmati. Quando estava quase sem água, desliguei. Ficou a apurar.  
Pois vos digo que sabia tão bem quanto cheirava. Ele comeu os rojões, eu as miudezas. Acompanhámos com salada de alface e tomate (temperados com azeite e com os nossos orégãos) e com vinho branco alentejano, bem fresquinho.

Falta-me dizer que agora, quando estamos lá fora, temos uma nova música no ar. Ao som dos pássaros junta-se agora o som leve e fresco das conchas batendo no vidro da garrafa que trouxémos de Lagos.

PS: Quanto a leituras, hoje o dia não rendeu muito. Estive a ler uma entrevista à Lydia Davis no 3º livro das Entrevistas da Paris Review, por sinal bem interessante -- parte da qual sobre tradução, sobre as opções que se lhe colocam quando traduz os diferentes autores -- mas com o meu proverbial défice de sono, adormeci e, portanto, não passei disso. Mas o que não me falta é tempo. Se bem que amanhã tenho mais limpezas para fazer e eu, quando me atiro à faxina, não descanso enquanto não deixo tudo num brinquinho, recendendo a limpeza e a frescura. Ah, é verdade, a ver se amanhã não me esqueço de vos mostrar os frasquinhos com os orégãos que sequei-

sábado, setembro 01, 2018

Theresa May e outros políticos que não dão uma para a caixa quando se trata de darem um pezinho de dança


Theresa May é desajeitada por natureza. Tenta parecer descontraída mas, quando alguém não leva jeito e é coisa genética, por mais que faça, mais ridícula fica. Em casos assim, cá para mim a solução é assumir e não pretender parecer que se está na sua praia.

No extremo oposto temos pessoas que nasceram para estar bem, estejam onde estiverem. Marcelo ou Obama, por exemplo, estejam dentro ou fora de água, num palco ou numa pista de dança, com novos ou com velhos, estão sempre na boa, integrados, fazendo naturalmente parte da festa.

Mas a desengonçada Theresa May, coitada, é uma verdadeira arara. Se quer dizer uma piada, capaz da coisa lhe sair despropositadamente brejeira. Se quer mostrar alegria, ri aos solvancos de uma maneira estranha que rapidamente se torna viral, se quer ser apenas simpática, acaba feita totó, levada pela mão como lhe aconteceu com o Trump . Agora quis dançar e foi um papelinho. 

Foi na África do Sul e é ver para crer.

Aqui têmo-la, pois, a fazer mais uma das suas figurinhas tristes -- mas o autor do vídeo achou por bem não a deixar sozinha, mostrando como a dança não é natural para algumas figuras políticas.


A cova do desespero, juro, não me há-de tragar
-- Escreveu Virginia num longínquo 21 de Janeiro --





Claro que, estando nós a ler na nossa língua e não na versão original, não sabemos se o que lemos é mérito apenas do escritor ou se o tradutor o enriqueceu (ou empobreceu) com o seu próprio estilo. Já me aconteceu ler textos que atravessam os tempos e são tidos por obras extraordinárias e eu os achar tocados por uma desconcertante pobreza estilística. Por exemplo, tenho dúvidas sobre o mérito como tradutor de Frederico Lourenço. Traduzir obras vastas e complexas não é coisa à altura de qualquer um pelo que persistência e determinação não se lhe podem negar -- mas já arte e intuição, sabendo interpretar a vontade do autor, disso tenho dúvidas.

Diz Jorge Vaz de Carvalho -- que também se tem abalançado à tradução de obras de envergadura -- que o seu critério geral é deixar transparecer o original, como se se limitasse a copiar respeitosamente o que a autora escreveria se usasse a língua portuguesa, procurando aquilo a que ele já chamou 'a especificidade identitária do texto'.
Não deve ser fácil pegar num texto, especialmente quando se tem pela frente a tradução de seiscentas e tal páginas escritas com fluência, por vezes num registo de coloquialidade, por vezes com uma sinceridade desarmante, e conseguir não desmerecer o original. Traduzir anos de vida para outra língua não desvirtuando o bater de coração do autor enquanto escrevia não é coisa que qualquer um consiga, pelo que, ao lermos um livro traduzido, não devemos deixar de valorizar o mérito do tradutor. Digo eu.
De facto, um diário é um texto escrito despreocupadamente, geralmente sem edição, um 'escrevinhar não premeditado', sem a censura interna que impõe o politicamente correcto e, talvez por isso, as palavras fluam de forma mais espontânea, mais próximas da intimidade de quem as escreve.

Escrever um blog pode ser a mesma coisa que escrever um diário. Escrever sem agenda, sem propósito, escrever pelo simples escrever de escrever. Regista-se o que se fez, o que se pensou, o que sentiu, o que se quer, o que se recorda, aquilo de que se gosta, ou barafusta-se com aquilo de que se não gosta. A mão como um prolongamento, em linha directa, da mente, do coração, da pele.

Os Diários de Virginia são assim: ao longo de anos, dia após dia -- e até poucos dias antes de ter desistido de viver, tragada pela escura cova do desespero --, Virginia vai registando o decorrer dos seus dias: os seus passeios, nomeadamente as caminhadas que dá com o marido e com o cão, os livros que lê, as visitas que faz e que recebe, os amigos, os familiares, os concertos a que vai, as conversas que tem, os acidentes domésticos, a procura de casa, os insignificantes desentendimentos, o tempo, as maleitas, o que está a escrever, o que o marido está a escrever, as idas à biblioteca e as opiniões sobre as pessoas com quem se cruza, as compras que faz. Sobre tudo Virginia foi escrevendo.

Uma vida, por mais profícua que seja, quando dividida em dias, e os dias em momentos, é uma realidade fractal na qual as suas partículas elementares são pequenos nadas, quase iguais aos pequenos nadas de toda a gente. 

Talvez que a diferença esteja na forma como se vivem os nadas e como deles se consegue fazer o sumo que a maioria negligencia e, tanto mais, quanto o sumo é saboroso, único, requintado, quase viciante.

Estou a referir-me, claro, aos Diários de Virginia Woof, traduzidos por Jorge Vaz de Carvalho que também prefacia o livro e nos ajuda na compreensão das referências através de exaustivas notas. Virginia Woolf escreveu os seus diários em papel. Se fosse hoje, teria certamente um blog e eu seria, sem dúvida, uma sua devota seguidora.


E é a leitura deste livro, um blog em papel, que eu vivamente recomendo. 


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Já agora:

A Vida de Virginia Woolf
[legendado em português]


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Lá em cima é Jelly d'Arányi interpretando Mozart Serenade in D K.250 'Haffner' - (ii) Menuetto; Trio, numa gravação de 1925.

Lembrei-me de a ter aqui porque, nos seus Diários,Virginia refere que ia ouvi-la tocar, a ela e às irmãs.