Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, abril 25, 2015

E onde é que a autora de Um Jeito Manso estava no 25 de Abril...?







Em 74, quando foi o 25 de Abril, já o devo ter contado, estava numa residência universitária. Não nos deixaram sair e a rua estava cheia de tropas. Ao lado havia um quartel e ao fundo o Rádio Clube. Tropas e creio que chaimites por todo o lado. A guerra na rua e para nós, de janela, numa excitação, aquilo era uma festa. Ouvíamos a rádio e tínhamos vontade de sair mas tanta tropa na rua iniba-nos um bocado. Eu era uma miúda mas toda eu estava orientada para o reviralho. O meu namorado da altura era todo de esquerda, os meus amigos também, os meus pais moderados mas a favor da democracia, um dos meus tios o mais possível, uma das minhas avós tinha um verdadeiro espírito de comuna, um irmão dela avó esteve deportado e depois vivia na clandestinidade e, portanto, embora fosse tenra a idade, toda eu ansiava que viesse o perfume da liberdade.




E estávamos naquilo, de janela, todas a combinar sairmos de qualquer maneira, mesmo contra as ordens, quando, às tantas, toca a campainha da residência, um susto, o que seria? - isto deviam ser umas dez da manhã. A directora, a medo, foi ver e nós todas a ver se eram os militares que nos vinham prender, quase todas ainda de pijamas ou de calçõezitos de dormir. E nisto abre-se a porta da sala onde estávamos e vejo a minha mãe. Tinha vindo a Lisboa nesse dia, quando saíu de casa não sabia que havia revolução, tinha vindo de autocarro e, quando chegou, viu que havia sururu, a custo lá arranjou um taxi e a custo lá o convenceu a ir para aquela rua pois o taxista dizia que estava cercada. Mas ela, talvez temendo que a filha se visse no meio da guerra, tanto pediu que ele lá a levou para me ir resgatar. Eu, quando a vi, parecia que estava a ver uma aparição, ali, no meio da guerra, a minha mãe!

Anda, vai-te vestir, vamos ver se conseguimos ir para casa!, disse-me ela. Nem pensar, devo eu ter respondido. Todas de roda dela, ela a contar a sua aventura, a dizer que não queria aparecer em casa, ao meu pai, e sem mim e eu que era o que faltava eu ir-me embora a meio da revolução e as outras que ela me deixasse ficar. Não sei como, lá se convenceu a ir-se embora e a deixar-me para trás, provavelmente sob promessa de eu não sair de casa.

Está bem, está. Podia lá perder-se uma festa daquelas. Foram dias de alegria e liberdade. Havia uma efervescência no ar como não há explicação. Na faculdade desataram a fazer saneamentos, coisas às quais não achei muita piada. Uma vez quiseram expulsar uma rapariga, que eu não conhecia, apenas porque namorava um rapaz que diziam que era de direita ou colaboracionista ou sei lá o quê. Ela manteve-se digna e corajosa e eu votei contra a expulsão dela. Depois acho que a coisa amainou.

Na residência, a directora foi à vida e acho que devemos ter arranjado uma comissão. Ou nem isso. Aquilo passou a ser uma casa franca, só quem não tinha namorado é que não o levou para lá. Não é que aquilo se tornasse um antro de vício e perdição mas era normal haver rapazes na sala, na biblioteca, na cozinha. Uma vez, meses depois, houve lá um barulho anormal qualquer a meio da tarde, e eu saí do quarto e quase todas as portas se abriram e de quase todos espreitaram cabeças de raparigas e rapazes.




Por essa altura havia muitas RGAs, nem sei bem o que lá se discutia, eu pasmava como aparecia aquela gente toda que fazia moções a propósito de tudo. Uma dessas vezes, RGA ou Plenário, nem sei, numa sala de um pavilhão, uma sala apinhada de gente, eu estava sentada num parapeito de uma janela, que no chão mal havia lugar, quando vi entrar um revolucionário, barbudo, guedelhudo, misto de ar de desportista e de guerrilheiro, talvez de cristo, lindo de morrer. E ele parou junto à porta, girou o olhar pela sala e o seu olhar deteve-se no meu. Foi tiro e queda - embora só um ano e tal depois a coisa se tenha concretizado pois eu nada sabia dele nem ele de mim e apenas raramente nos cruzávamos. Soube depois que tinha vindo de Coimbra e tinha pousado ali antes de transitar para outra escola.

No meio dos meses conturbados que se viveram na faculdade, numa cadeira em que meio mundo tinha chumbado, votaram para que houvesse passagem administrativa. Foi a única passagem administrativa do curso. Eu tinha tido 18 nessa cadeira e fiquei com 10, é minha nota mais baixa, e logo uma cadeira a que eu tinha achado tanta piada, toda ela bolas fechadas e bolas abertas. Não me importei embora tenha ficado com uma certa pena porque, em vez de ter beneficiado com isso, levei foi uma tareia. Mas nunca daí veio mal ao mundo. De qualquer forma, sendo um curso de gente marrona, acho que mal se deu pela revolução (tirando essa excentricidade da passagem administrativa), toda a gente continuou aplicada, a fazer trabalhos, a pôr o dedo no ar e a ficar no fim para tirar dúvidas com os professores. Eu não, nunca me encaixei naquele espírito, tinha muita revolução para curtir, teatro que não acabava, filmes uns atrás de outros, uma agitação boa, uma festa constante e muito amor no ar.




E depois veio a Alameda, o 25 de Novembro (outro dia animado na minha vida), e, aos poucos, a festa foi perdendo o perfume da revolução, as coisas aquietaram-se, perderam alguma graça, e, aos poucos, os burocratas começaram a instalar-se, e mais tarde veio o cavaco e foram vindo uns e outros e agora ainda estamos longe de ser uma democracia desenvolvida, somos ainda um país com os pés presos ao antigamente, muita gente pequenina, invejosa, mázinha, muita falta de golpe de asa, muito servilismo, muita gente a viver mal, na pobreza, na ignorância mas, ainda assim, a gostar de quem a maltrata e impede de voar.

Talvez ainda tenham que passar mais uns quantos anos para que aquele espírito de liberdade se volte a sentir de novo trazendo promessas de futuro no ar e que venha para ficar. Mas não sei. Cada vez parece que sei menos disto tudo. Mas sei que burocrata, apática, inerte, indiferente e egoísta isso não serei - nunca.

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As fotografias foram feitas há pouco. Os Ganhões de Castro Verde cantam "Grândola, Vila Morena"

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Permitam que vos diga que o relato do meu 24 de Abril deste ano está já aqui abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia 25 de Abril. 
E viva a liberdade!

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9 comentários:

Vitor disse...

Que bem fica a linda e guerreira Amazona !
Bem a propósito, representando, para mim, a " guerreira UJM " que não poupa as suas certeiras " flechas " . . .
Quarenta Anos passaram,já, sobre A Grande Madrugada e o Verdadeiro Dia!
Tanta Esperança e. . . tanto desencanto e frustração , tambem .
Vivemos tempos tristes e perigosos, de novo !
Que a " Cavalaria" não seja esquecida, nunca !
VIVA o 25 de Abril !
Vitor


Humberto Barbosa disse...

VINTE E CINCO DE ABRIL
Este é um poema
com saudade da festa
Dias de vermelho
de damasco e de riso
Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido
Este é um poema
feito de memória
Da pressa incontida
no passo corrido
De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido
Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido
Com palavras
do corpo e de lembrança
Exigindo o futuro
a promessa e o grito
Este é um poema
cantando
a liberdade
De lágrimas costuradas
suturando o sorriso
Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo
Este é um poema
torneando o avesso
Da luz da madrugada
de uma noz de vidro
Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício
Este é um poema
de visitar a História
Da revolução
o ganho
e também o perdido
Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo
Maria Teresa Horta, inédito

Anónimo disse...

Gostei dos cravos como pano de fundo. Quanto à Amazona, a flecha vai direita ao coração deste governo. E de Cavaco. Feridos de morte, morrerão daqui a uns meses. Altura em beberei um flute de espumante a festejar os respectivos enterros.
P.Rufino

Rosa Pinto disse...

Era adolescente quando do 25 de Abril de 74.
Não me deixaram ir à escola. Tinha acontecido uma revolução. É agora que a vida melhora, ouvi.
Seguiram-se outros e outros. Foram uma festa. As condições de vida melhoraram. Cresceram os bens, as viagens, melhorou a educação, a saúde.
Estamos em 2015. Tudo aos poucos desmorona. E estamos já habituados, o trabalho falta, a educação escasseia, na saúde poupa-se.
A tudo me adapto. Com esforço e sem outro remédio espero por outras políticas.
Ah! E os valores? Esses que me ensinaram e que os pais se orgulhavam por transmitir aos filhos. Foram beliscados e não importa idade, cor politica. Quem tem nota-se, quem não tem revela-se.
Pela primeira vez não tenho esperança em Abril. Até pode mudar o governo. As conquistas de Abril, consagradas no Constituição, reforçadas. O que não muda, de certeza, são os egos inflamados que continuam por aí e com ou sem mérito conseguiram alcançar estruturas do poder e vão continuar a fazer pela sua vidinha.
Bom feriado.

ECD disse...

De vez em quando "paro" num pergunta tola só desculpavel atendendo à nostalgia que o passar dos anos trás: o que seriamos/ que seria Portugal hoje sem o 25 de Abril? De certeza muito diferentes do que somos hoje e sobretudo nao tinhamos sido, em simultaneo protagonistas e testemunhas interessadas, de acontecimentos irrepetiveis Viva o 25 de Abril.

lidiasantos almeida sousa disse...

https://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=UQ0dML_br34

Fernando Ribeiro disse...

No 25 de abril eu tinha metido férias da minha comissão militar em Angola, onde estava colocado na fronteira norte. Eu estava cá em Portugal (na Metrópole, como então se dizia), para rever a família, e regressei a Angola em 4 de maio.

Como alferes miliciano que era, eu comandava um pelotão. Metade dos meus soldados eram angolanos, todos negros menos um que era mestiço claríssimo. A partir do 25 de abril, os meus subordinados angolanos passaram a esperar um futuro que antes não tinham podido esperar, porque lhes estivera vedado pelo colonialismo.

Eles esperaram poder aceder a empregos que até então tinham sido tacitamente reservados a brancos, como os de motoristas de táxi ou empregados bancários. Esperaram poder ganhar tanto e ter as mesmas possibilidades de promoção e de aumento de salário que um branco que fizesse o mesmo trabalho que eles. Esperaram poder entrar nos estabelecimentos comerciais que quisessem, sem receio de serem atendidos com maus modos e enxotados por serem negros, e sem terem que pagar mais do que pagaria um branco pelos mesmos artigos. Esperaram ter condições que lhes permitissem viver numa casa que merecesse o nome de casa, e não numa construção precária de adobe ou de blocos de cimento ou numa cubata. Esperaram que os seus filhos viessem a ter os estudos que eles próprios não puderam ter, apesar da sua enorme vontade de aprender. Enfim, eles viram abrir-se diante de si a perspetiva de uma vida muito mais livre, próspera e feliz do que a que tinham tido até então. Esperaram vir a ter, enfim, uma vida sem humilhações e sem pobreza.

Porém, quando no fim nos separámos, as nossas vidas — a minha por um lado e as deles por outro — tomaram caminhos terrivelmente distintos. Enquanto eu pude recomeçar a minha vida e acabar o meu curso de Engenharia num Portugal em paz, os meus antigos subordinados angolanos mergulharam numa guerra incomparavelmente mais terrível do que a guerra de guerrilhas que eles e eu tínhamos enfrentado juntos: a guerra civil que estalou em Angola em 1975 e que só terminou definitivamente em 2002.

Muitos dos meus antigos subordinados angolanos eram oriundos do Huambo (antiga Nova Lisboa), do Kuito (antiga Silva Porto), de Malanje e de outras terras onde a guerra civil atingiu o seu paroxismo. Estes meus antigos companheiros apanharam em cheio um dilúvio de fogo e de metralha que durou anos e anos a fio. Mais tarde ou mais cedo devem ter sido obrigados a abandonar tudo o que tinham e a procurar refúgio no mato ou então a tomar o caminho de Luanda, Benguela, Lubango ou outro sítio onde se pudessem sentir mais seguros. Devem ter enfrentado a fome, as doenças, as minas e sabe-se lá o que mais. Quantos deles terão conseguido sobreviver a tudo isto? Tremo só de pensar. Naquela guerra houve tantos mortos! Tantos corpos despedaçados! Tantas famílias destroçadas! Todos os sonhos e todas as esperanças que, a seguir ao 25 de Abril, estes meus antigos camaradas de armas tinham alimentado, foram varridos por uma arrasadora torrente de guerra e de morte.

De todos eles, só sei o destino de dois. O mestiço claro veio para Portugal em 1984, para junto da família paterna, e vive agora em Évora. Um outro antigo soldado meu, que era negro e por quem quase dei a minha vida num incidente que não importa aqui relatar, alistou-se nas FAPLA (o braço armado do MPLA) e acabou por morrer perto do Huambo em 1982. Ele era um herói.

Diz-se que um homem não chora, mas neste momento estou com os olhos cheios de lágrimas, de saudades imensas de todos eles.

Um Jeito Manso disse...

Caro Fernando Ribeiro,

E eu em lágrimas com as suas palavras.

Um abraço.

Vitor disse...

Como me emocionou o comentário do Leitor Fernando Ribeiro !
Palavras sentidas, reveladoras de um Nobre Espírito e Caracter .
Sei do que fala!
Sempre defendi aquela Boa Gente e foram angolanos, negros, alguns dos melhores Homens que comandei.
Para o Fernando Ribeiro , meu ex-Camarada , mais novo , a minha Continência e Forte Abraço com a enorme saudade daquela tão bela Angola.

Vitor