quinta-feira, março 05, 2020

Como evitar o contágio pelo coronavírus



Por muito que a comunicação venha fazendo a divulgação a verdade é que, socialmente -- em especial, em ambiente profissional --, os hábitos ainda não começaram a alterar-se. Continua a ser frequente que, ao chegarmos ao pé de pessoas com quem vamos ter reuniões, se dirijam a nós para os beijinhos ou apertos de mão da ordem. E, por vezes, fica quase impossível evitá-lo sem que pareçamos indelicados ou paranóicos.

O melhor que há a fazer é, por antecipação, tomarmos a iniciativa de dizer: 'Como estamos em período de distanciamento social, cumprimentamo-nos de longe'. E acenamos com a cabeça ou fazemos um gesto circular de meio-adeus, tudo com um sorriso de simpatia ou de cumplicidade. 

Continua também a não ser vulgar, ao chegarmos ao nosso local de trabalho, em especial quando isso implica já ter mexido em botões de elevador, em maçanetas de portas, etc, irmos lavar as mãos. E falo em lavar pois, com os desinfectantes praticamente esgotados, talvez não os tenhamos à disposição, e uma boa lavagem de mãos, de 20 segundos, será suficiente. Mas isso ainda não é vulgar. E é bom que entre nos nossos hábitos.

Divulgo o vídeo abaixo apesar de haver muita gente que desvaloriza este vírus. Mas não deve ser desvalorizado pois é muito contagiante e não apenas não há vacina nem tratamento como se desconhece muito do seu comportamento. Sobretudo, a estatística revela taxas de mortalidade muito elevadas em alguns grupos.

Tomara que consigamos conter o COVID-19 pois a verdade é que, estando ainda numa fase mais do que incipiente, o funcionamento das organizações já está a ser muito afectado. E falo, agora, em concreto, das empresas. E tomáramos todos que o tecido económico das empresas não venha a ser afectado de forma acentuada. Penso que todos desejamos que não haja falências, despedimentos, etc. Por isso, por nós e por todos, acho que é bom que levemos a prevenção a sério.

Peço, pois, a vossa atenção para este vídeo com Sarah Boseley, a editora de saúde do Guardian. Tenho pena que não seja em português mas, para quem percebe inglês, é claro e objectivo.


quarta-feira, março 04, 2020

A Livraria do Mondego





Bem. Agora que já declinei a palavra ignorância em versão ted cruz, recuo no tempo, àquele magnífico e longinquo tempo em que gozei umas maravilhosas e longas férias no miolo do meu país. Chovia e os campos estavam verdes e os rios corriam airosos enquanto a água jorrava dos montes, saltitando nos regatos que ladeiam as estradas. O meu marido disse: 'Parece que estamos noutro sítio'. Por vezes sou lenta: 'Noutro como?'. E ele: 'No Minho'. Olhei melhor: sim, idílico, verdinho e lindo como o Minho. Mas também concluí que se calhar o que se pode concluir não é isso, é que não é só o Minho que é idílico, verdinho e lindo.

Muito por ali ardeu. Há encostas todas ardidas. Deve ter sido uma aflição, um susto de morte. Mas tudo renasce e, ao lado de troncos ardidos, há agora rebentos verdes de dar gosto.


E então, no adeus até à próxima, quando vínhamos no descair de regresso a casa, fomos à procura da Livraria. Como o IP3 está em obras, saímos pelo desvio. E quando chegámos lá não dava para 'entrar'. E quando estávamos a ver onde é que se podia parar o carro ou onde é que havia um desvio para lá ir ver, já estávamos noutro lugar. Pensei que o culpado -- sim, porque nestas coisas tem sempre que haver um culpado -- tinha sido o meu marido. 'Se calhar passaste o sítio para se virar para lá'. Ele: 'Viste alguma saída?'. De facto, não. Não desisti: 'Mas se calhar havia sítio para parar o carro'. E ele: 'Viste algum?'. Pois, de facto também não. Mas alguma coisa tinha que haver. Se aquele era um lugar a visitar, como não haver maneira de vê-lo? O meu marido, já deserto de se ver livre das minhas incursões, continuou. E já noutra aldeia. E eu: 'Desculpa lá. Não pode ser. Volta para trás. Quero visitar e alguma maneira há-de haver'. Embora contrariado, lá me fez a vontade. Disse: 'Só vejo uma possibilidade, onde diz pescas'. 'Então vamos lá ver''. Em boa hora. Lá ele levou o carro por uma estradinha inclinada. E aí vimos o carreiro, rente ao rio, rente à encosta. E tão bonito, tão bonito.


Monumento natural que marca a paisagem das margens do Mondego junto a Penacova, a Livraria do Mondego é um monumento que o tempo esculpiu ao longo de mais de 400 milhões de anos.
Depois de ter recebido o Alva, seu afluente da margem esquerda, o Mondego estrangula-se ao atravessar o contraforte de Entre Penedos e surgem as altas assentadas de quartzíticos dispostos quase verticalmente, como se de livros numa estante se tratasse, o que de resto deu origem à designação popular de Livraria do Mondego.
Constituída por quartzíticos do Ordovícico, a Livraria do Mondego foi, por Galopim de Carvalho, classificada como um Geomonumento ao Nível do Afloramento, constituindo-se, pelas caraterísticas geológicas que encerra e pela graciosidade escultórica que o tempo lhe incutiu, como um dos mais singulares monumentos naturais de Portugal. (...)


Quanto às pescas, fiquei a saber que há pesca sem morte. O meu marido disse: 'Fazem um buraco no peixe e depois arrependem-se e atiram-no ao rio. Deve ir em bom estado'. Mas agora que escrevo penso que, se calhar, não é pesca com anzol. Se calhar, é com camaroeiro ou coisa assim.


Mas, voltando à livraria. Não sei se imaginam a paz que é andar, sem vivalma nas redondezas -- por inacreditável que possa parecer éramos mesmo só nós -- só passarinhos a cantarem, os sons do rio, e aquelas rochas tão bonitas, os reflexos nas águas, tudo tão tranquilo e lindo. Fomos pelo carreiro, subimos até lá acima à estrada, uma vista deslumbrante. Algumas vertigens, confesso. Não há protecção, assusta. Mas tão bonito.

E parecem mesmo livros, empilhados, arrumados numa estante. As rochas têm vida, são também divindades. Não quero saber que achem que sou maluca. Cada um tem as suas crenças e a mim dá-me para as estas. Observam-nos em silêncio e eu acho que protegem aqueles que as respeitam.


E, por bibliotecas e livros, li um texto que me encheu de alegria. Afinal há uma explicação para a minha panca: conhecer os limites da minha ignorância.
O grande leitor é aquele que compra livros sabendo de antemão que não os vai ler, mas cujo interesse e a relevância reconhece. Isso é muito mais importante  do que propriamente ter o gosto de ler os livros todos. De resto, um dos tópicos de todos os escritores é contra os filisteus que entram lá em casa e perguntam: “Ena, tantos livros! Já leu isto tudo?!” Não há ninguém que não se enfureça com essa pergunta, porque, na verdade, a biblioteca não é para ler tudo, é para ela existir. O livro na verdade não existe, o que existe é a biblioteca. Um livro nunca está sozinho. E ter muitos livros em casa é muito melhor que não ter, porque mesmo que a pessoa não os leia, fica a saber a quantidade de coisas que não conhece. Em vez de lamentarmos todos os grandes clássicos que nunca vamos ler, devemos perceber é que, no fundo, nós lemos para ter conhecimento daquilo que não conhecemos, para conhecer os limites da nossa ignorância. Ora, isso também se consegue não lendo livro nenhum, mas é preciso conviver com eles. 
Abel Barros Baptista 

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Se puderem vão conhecer: lugares lindos. É o que vos digo.

Pode apontar um país?



Confesso: não sou boa a geografia. Quando andava no liceu eram os meus dois pontos fracos: geografia e história. Nos dois casos, as professoras queriam que decorássemos a matéria. Grande parte dos meus colegas tirava de letra: 'marravam' e já estava. Espantavam-se quando eu me queixava que não era capaz: mas qual é a dificuldade? Mas... e eu que nunca consegui decorar nada? Mas é que nem consigo tentar. Desespero perante a perspectiva de ter que fazê-lo. Nem consigo tentar. Nunca consegui.

A única vez que me lembro, tinha para aí uns cinco anos, foi quando, na festa de natal da escola infantil, tive que ir declamar um poema de homenagem a um senhor director, que era estrangeiro, senhor de idade, que provavelmente ia retirar-se. Então a plateia estava cheia e eu subi ao palco, de tranças e creio que com o vestidinho que tinha levado como menina de alianças ao casamento dos meus tios. E declamei o poema e toda a gente bateu muitas palmas. E eu tinha uma salva de prata para oferecer ao senhore na salva estava um papelinho com o poema. Esse poema eu decorei e não me lembro de sentir stress na situação.

A partir daí só me lembro de não voltar a conseguir. Nem isso nem corrigir os erros. Aquilo de ter que escrever cinco vezes a palavra onde tivesse dado erro. É que eu percebia o erro e achava que já não precisava nem queria repetir. Achava uma humilhação e um absurdo. Geralmente dava poucos erros mas, se um acontecia, não havia necessidade de me submeter à violência de escrever cinco vezes a mesma palavra.

Quando estava na quarta classe, muitos meninos iam para a explicação para se prepararem para os exames não apenas da 4ª classe mas também de admissão. Eu não fui porque, sendo a minha mãe professora, era estúpido ir para a explicação. Então a minha mãe tentava que eu fizesse ditados e só isso já me enervava. Detestava ditados, coisa sem valor acrescentado, uma perda de tempo. E, se calhava algum erro, era uma guerra. Levava a minha mãe ao desespero. Recusava-me a cópias, recusava-me a repetir as palavras em que tinha errado. Não havia dia que ela não ficasse possessa, capaz de me desfazer à bolachada. Claro que não o fazia mas lembro-me bem da pilha de nervos em que ficava. 

Agora imagine-se ter que decorar países, capitais, população, orografia, clima, coisas assim. Não tinha pachorra, abria o livro e via tanta coisa para decorar que desistia logo. Sofria com aquilo. Foram sempre as minhas notas mais fracas. Apenas sabia o que apanhava do ar. Não mais que isso. Ainda agora, dez mil anos depois, por vezes sonho que chego ao liceu e toda a gente sabe que há teste menos eu, que ali estou sem ter estudado, sem saber nada. Penso que vem das agruras que sentia quando chegava ao dia do teste e ouvia os meus colegas dizerem que tinham feito uma directa, que tinham feito cábulas, que estavam mais do que preparados. E eu, que nunca fiz uma directa enquanto estudei, não tinha tentado decorar coisa alguma, nem sequer me tinha dado ao trabalho de fazer cábulas, coisa que nunca fiz, e, de repente sentia um quase pânico, sentindo-me irresponsável, preguiçosa, inconsciente. E entrava para o teste pensando que deveria ter-me esforçado, arrependida. Mas, na vez seguinte, acontecia o mesmo. Não conseguia.

E essa ignorância e aversão manteve-se. Até tremo quando o meu filho, querendo apanhar-me na curva, me pergunta, à frente dos meninos, qual é a capital do Casaquistão. Não faço nem ideia. Mas, ainda assim, apesar de tudo, sei bem mais do que os ignorantes viscerais que aparecem neste vídeo. Há gente mesmo bronca. 


terça-feira, março 03, 2020

Mestre Alfredo, no seu cantinho, nobre guardião das memórias do Lorvão







Será talvez por preguiça ou comodismo que não vão conhecer-se lugares lindos que, facilmente, se podem ver indo e vindo no mesmo dia. Isto, bem entendido, para quem tem meios de locomoção e condições para o fazer. 
Faço esta observação porque tendo a escrever como se todas as pessoas que me lêem tivessem condições idênticas às minhas. Mas basta a gente andar pelo interior do país para perceber que uma coisa é viver numa cidade grande, onde, mal ou bem, se pode fazer quase tudo o que se quer e outra é viver numa aldeia ou numa pequena vila em que as possibilidades de tudo são, a todos os níveis, bem mais escassas.
Acabei de vir de lá e já estou com vontade de lá voltar. Não é a primeira vez que passeamos por aquelas bandas. Mas o país é tão micro maravilhoso que a gente pode estar por ali perto e ficar sem conhecer lugares lindos mesmo ali ao lado. 


Quando começo a escrever penso que tenho que me conter, dosear nos adjectivos. Penso que quem não vê as coisas com um olhar inocente como o meu, é bem capaz de achar que exagero, que não é nada assim como o descrevo, transbordante de belezura. Mas, mal começo, já estou a contar tal como a minha cabeça processa o que vê, uma torrente de encantamento.

Atrás do comboiozinho feito de troncos de madeira, a escada que leva ao Cantinho do Alfredo

Esta segunda-feira, mal acordei fiz o que faço quase todos os dias: fui ver a rua, banhar o olhar nas águas do rio. Mas desta vez o rio era outro. Chovia e estava frio, não consegui ir para a varanda. Fiquei à porta do quarto e, com a máquina, ia aproximando a imagem até onde a minha visão míope não alcançava. Os patos que voavam e desciam  para continuarem deslizando, aproveitando a corrente, os ramos nus e argênteos das árvores, os pássaros que atravessam os ares soltando gritos que se perdem entre as ramagens -- e eu, quase em êxtase, longe de tudo, apenas e toda ali. Eis senão vi uma coisa estranha, clara, por vezes quase parecia que era luminosa, uma coisa que vinha à superfície, ondulando sob e sobre a água. De vez em quando levantava a cabeça, quase como um periscópio branco e orgânico. Quis fotografar e quase não consegui. Estava distante, as águas corriam, a coisa serpenteava e a chuva ainda menos ajudava. Impossível de focar. Pensei que estava a ver o monstro de Loch Ness mas em ponto pequeno, talvez uma cria do dito. Agora estive a ver as tentativas de fotografia e o melhor que consegui foi isto que aqui abaixo vos mostro. E reparo agora como a coisa é comprida. E diga, sem souber, de que se trata. Uma lampreia?


Mas hoje quero contar-vos a visita que fizemos ao Lorvão. Estando nós instalados sobre um braço de rio na Barragem da Aguieira e tendo tão pouco tempo, circunscrevemo-nos aos lugares mais ou menos em redor, que são vários e todos lindos.



Um deles foi o Lorvão. Parece um daqueles lugares mágicos, envoltos em esquecimento, em neblina e em beleza. É certo que o dia chuvoso ajudou à imagem mas estou em crer que, mesmo em dias de sol e calor, a beleza se mantém.


Dado o adiantado da hora, não vou deter-me no Mosteiro que é imponente, austero e que, para falar francamente, me pareceu triste e meio abandonado, com um senhor com cara de poucos amigos a enunciar que poderia fazer uma visita. Uma vez mais fiquei com pena. O País tem obras extraordinárias e tantas delas são pouco conhecidas, mal divulgadas.


Mas do que quero falar é do Cantinho do Alfredo. Instalado numa sala do mosteiro aberta ao exterior, ali está o Mestre Alfredo, artesão de Lorvão, fazendo as suas peças em xisto e madeira que representam a memória do lugar. 


Segundo ele, muito do que as freiras fizeram, casas no exterior do mosteiro, está hoje ao abandono. E ele, com a ajuda de fotografias ou da sua memória ou da memória local ou dos conhecimentos do historiador da terra vai tentando reproduzir. E com que pormenor e cuidado o faz e com que entrega delas fala. Tem também peças para vender e eu trouxe uma casinha de xisto.


Mas a graça maior de tudo aquilo é que as peças têm vida, a água corre, a nora move-se, as luzes acendem-se. Mostrou e explicou cada peça, com orgulho no seu trabalho e na beleza da sua terra e, ao mesmo tempo, mostrando preocupação pelo abandono das coisas, pela terra com pouca vida, com receio de que tudo se perca.


E, lá dentro, mostrou-nos também a terrível roda dos enjeitados, mostrando como funcionava. Tempos de miséria. Olhei sentindo tristeza por todas as mães que ali foram entregar os seus bebés por não terem como criá-los.

No fim, perguntei se me autorizava a fotografá-lo e logo se dispôs a isso. Não tem mail para eu lhe enviar as fotografias ou o link para esta minha humilde homenagem mas talvez lhe escreva um postal a dizer-lhe que gostei muito de conhecê-lo.

Mestre Alfredo, guardião das memórias do Lorvão
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E a ver se amanhã vos falo de uma livraria ímpar

Vidas duplas


Para que o único dia de férias parecesse uma big semana de férias foi encostado ao fim de semana e foi aproveitado até à medula.
Pelo meio aconteceu um contratempo mas bola para a frente, coração ao largo, e o mantra de que tudo se resolve e há coisas piores sempre presente. Não era um detail que ia manchar os tão desejados dias felizes.
Hoje o dia já foi de regresso. Se conseguir ainda mostro o sítio tão lindo que hoje conheci. Uma livraria como nunca vi igual.

Mas, para já, abro um intervalo para ir directa aos finalmentes. A cena é que, turismo degustado com o espanto de quem vê maravilhas naturais pela primeirissimamente vez, eis-nos de regresso a casa. Mas antes das máquinas de roupa, da panela de sopa, do estufado, das arrumações e demais obrigações domésticas e quotidianas, vamos mas é curtir as vacances até à última gota. Bora ao cinema. 

E lá fomos: uma sala com meia dúzia de pessoas, ausência de pipocas, um filme sem perseguições, sem monstros, sem tiros, sem brigas, sem sangue. Um filme civilizado, bem representado, actual, simpático, divertido. E com a Binoche, luminosa como toujours. Livros em papel ou e-books, o mundo da edição num mundo digital, e escreve-se mais e melhor apesar de ninguém tem paciência para ler?, algoritmos a condicionar o gosto dos leitores, escrita autobiográfica ou autoficcionada, verdades ou meia verdades, hipocrisia ou savoir faire, inteligência conjugal e social e etc. E isto em casas bem decoradas, ambientes simpáticos. E amores não tão clandestinos quanto isso. E falado em francês que, a seguir ao italiano, é a língua em que melhor se diz e faz o amour.

Ou seja, um filme bom de ver com umas fantásticas cenas e música finais, à laia de cerise sur le gateau. Pâtisserie e da fina. 

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Depois viemos para a casa e foi non stop até há pouco. Vou agora ver as fotografias para tentar organizar-me para vos mostrar pelo menos dois sítios que acho que merecem uma visita.

segunda-feira, março 02, 2020

Praia fluvial do Vimieiro, um lugar de um outro mundo







Há pouco tempo, um colega apareceu-me no gabinete e perguntou: Quer ver como era quando era nova? e deu uma gargalhada. Não percebi. Ele, rindo-se, acrescentou: E o Paulinho? Um menino. Chamou-me, então, que fosse ao seu gabinete. Foi à estante e, de uma pilha de revistas, escolheu uma. Era uma revista que, no tempo do papel, se fazia no Grupo. Agora ainda se faz mas, como é bom de ver, já é tudo para ver no computador, uma tremenda falta de graça. Mas, então, folheou a revista e mostrou-me: Olhe para si. E eu vi-me. Teria, naquela altura, seguramente menos uns dezassete ou dezoito anos do que tenho hoje. Pesaria cinquenta e poucos quilos e usava o cabelo bem curto, quase uma Jean Seberg. Na primeira fotografia, de grupo, estamos todos junto ao autocarro que nos levaria para um fim de semana de aventura. Tínhamos todos ar de jovens, ríamos sem saber ao que íamos. Eu estava com uns jeans, uns ténis, uma blusinha justa, decotada, sem mangas. Numa outra fotografia já tenho outra blusa, estou sentada num chão atapetado de erva, encostada a uma árvore, ao lado de outros colegas. Combinávamos uma estratégia e, pelo ar atento de todos, levávamos aquilo muito a sério. Numa outra estou com eles a fazer uma jangada e noutra já vou em cima dela com alguns deles, todos com um colete que identificava a equipa. Não apareço naquela corda oscilante, suspensa por cima do rio, onde apanhei um dos grandes sustos da minha vida, e é pena que não tivessem registado esse grande momento. Nem há fotografias das provas de orientação diurna, muito menos do festival que foi a orientação nocturna.


Nessas fotografias mal consegui localizar o colega que estava agora a mostrar a revista. Ele ajudou-me: Então não reconhece aqui o menino? Não mesmo. Agora tem o cabelo completamente branco enquanto naquela altura não apenas tinha metade do volume que tem hoje como tinha o cabelo todo preto. 

Com quem ele se divertiu mais, e eu também, foi com o Paulo, grande director da 'casa', então quase um puto, tal o ar de menino, tal o cabelinho à beto e o outfit de rapazola. Olhe aqui o nosso grande Paulinho...! E riu à gargalhada. Eu também.

Nunca mais tinha conseguido localizar onde tinha sido esse épico evento de team building. Nem ele nem o Paulinho se lembravam. Um dizia: Seria Canas de Senhorim? Pelo menos o hotel acho que era. Outro dizia: Não sei. Penela? Ou Penalva? Não nos lembrávamos. 


Pois bem. Sem querer, agora vim parar a esses lugares. Hoje, à hora de almoço, estive no Panorâmico onde, numa das vezes, tínhamos almoçado. E hoje reconheci o lugar onde fizemos as jangadas e as águas em que remámos como se tivéssemos que chegar mesmo a um certo destino. Os homens são muito competitivos e eu vi-me e desejei-me para os acompanhar para que não os fizesse perder o lugar na competição. Eles próprios, quando andávamos por montes e vales a correr, a escorregar e a trepar, quando me viam a perder a força, me davam a mão e puxavam por mim.

Tinha de memória que tinham sido lugares lindos mas, na altura, o convívio, a palhaçada, a diversão e a ocupação permanente não deixavam grande espaço para o desfrute das belezas naturais. 


Hoje não, hoje estive dedicada não à aventura e à competição mas ao encantamento. E se me encantei. Quanta beleza. A água corre, sala e canta por aqui. Para além de nós, hoje, quatro franceses. E, mais à frente, dentro de água, um pescador. Pensei na felicidade que deve ser estar assim, ali, em paz, sem pressa, sem ruído, entre verdes e sombras quase douradas na água, esperando o peixe. Um luxo. O verdadeiro luxo é isto, o contacto directo e silencioso com a natureza. Luxo e felicidade.


Maravilhada, fotografei sem parar. Andei pelos caminhos de pedra, junto às levadas de água, pelas margens do rio. Tudo tão lindo. Pudesse eu e convidava-vos a todos a virem até aqui visitar estes lugares que parecem de um outro tempo, de um outro planeta que não aquele, citadino, que habito durante a semana. Tudo tão puro e límpido e intocável, tudo tão tranquilo e belo.


Os pássaros cantam no maior chilreio e os patos deslizam pela água e, de vez em quando, vêm dar uma volta a pé, sem se importarem com a presença humana. E a sua plumagem tem umas cores que parecem perfeitas demais para não terem sido desenhadas e pintadas por alguém. Mas certamente o grande deus que é o acaso e o tempo que aperfeiçoa todas as coisas explicam o que por aqui se pode ver.

E até os cogumelos, senhores, até os cogumelos em alegre ajuntamento, estão solares, atrevidos, serzinhos brincalhões de dentinhos de fora.


Chove enquanto escrevo. Chove muito. A chuva foi este domingo uma constante. Agora ouço também o vento. Tão bom andar por aqui com este tempo abençoado. Era bom que pudesse ficar mais uns dias. Mas não dá. Fica para a próxima.

Ainda tenho outros lugares bonitos para vos mostrar, mormente, o espaço do Senhor Alfredo,  mas agora já não consigo, tenho que apagar a luz. Fica, talvez, para amanhã.

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Envio daqui os meus votos para que Luis Sepúlveda tenha consigo a imagem de Greta Garbo para que o proteja. Era dele a história de que não há muito aqui falei. Mas se não for a Greta Garbo pois que qualquer outra santo ou santo da sua afeição zele por ele.

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Se ainda não conhecem Santa Comba Dão, não deixem de visitá-la ao vivo ou, se não puderem, aqui

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Hoje não consigo comentar os comentários pois, reconheço, já estou a pisar o risco. 

Desejo-vos uma bela semana, a começar já por esta segunda-feira

Santa Comba Dão -- a surpresa das surpresas






Os tanques de lavar a roupa com a água do rio

Ontem falei. Imaginava uma terra de casas escuras, sem flores, sem ponta de graça, tudo gente mumificada em casas quase abandonadas e lúgubres. A minha filha ajudou-me a definir o que eu imaginava: uma terra austera. Mas era pior que austera, o que eu imaginava.
Quando penso que não sou preconceituosa, sou confrontada com o meu absurdo preconceito. Sou preconceituosa, sim, e da pior espécie, da espécie que ignora que o é.
Até hoje nunca tinha sentido qualquer vontade de visitar Santa Comba. Mas nem eu nem o meu marido. Era como se, sem ser necessário verbalizá-lo, achássemos que o espírito do velho das botas -- o supremo beato da voz de cana rachada, o sinistro parceiro da D. Maria, criadora de galinhas em S. Bento, santo patrono da PIDE e apascentador de visõezinhas cinzentas e pequeninas, grande fomentador do permanente atraso de vida, do crónico sentimento de culpa e do medo da liberdade, fascistazeco de trazer por casa -- vivesse ainda por entre casas sombrias e para sempre tocadas pelo venenosa baba do dito.

Passámos, pois, sempre ao largo.

Mas ontem, estando a passar perto, sugeri: vamos lá espreitar.


E em boa hora o fizemos. Que surpresa. Uma preciosidade, uma beleza, uma pérola florida, chilreante de água. 

Por aqui tem chovido que deus a dá. Por isso, ontem, descuidadamente sem chapéu de chuva, a meio do passeio a pé, tivemos que correr para o carro. Mas o que vimos, fez-me sentir pena.

Porque é que nunca eu tinha ouvido dizer que esta terra é tão bonita? Mas bonita, bonita mesmo. Será que, tal como eu, há mais gente presa a preconceitos, sem vontade de ir conhecer? Ou será que quem lá vive ou conhece o segredo da sua graça, se envergonha de mostrar orgulho? É que parece uma heresia daquelas de que qualquer pagão ou santo se deveria arrepender. Morar aqui deve ser um privilégio. O som da água, dos passarinhos, a tranquilidade do lugar só pode ser uma benção. Quanto ao espírito ruim do velho das botas pois que se dane ou descanse em paz, tanto faz. Já era. Saltemos a pés juntos em cima da lembrança dele, sempre que tal se nos ocorra, para que nenhum outro vírus da mesma estirpe volte a atentar o nosso juízo. E abençoemos a beleza desta terra que não tem culpa nenhuma de quem lá nasceu.


De resto, parece que não foi bem em Santa Comba Dão mas no Vimieiro, outro lugar abençoado de que daqui a nada já falo, que o sinistro rato de sacristia nasceu. Mas tanto dá. Era o que faltava que um rato merdoso pudesse destruir a beleza do lugar que o viu nasceu. Não pode.

Portanto, viva Santa Comba Dão.


A terminar e num àparte. Quando estava a andar e a fotografar, reparei como dois prédios estavam tão inacreditavelmente juntos. Quase que de um, estendendo o braço, se poderia tocar no outro. Apontei e fotografei. O meu marido disse 'a senhora não deve ter achado graça nenhuma a que a tivesses fotografado'. Fiquei espantada. Míope como sou não tinha visto senhora nenhuma mas fiquei arreliada comigo mesmo. Coitada da senhora, estava na sua vida e passa uma qualquer na rua e fotografa-a. Contudo, à noite, ao ver a fotografia, verifiquei que a senhora sorriu para mim. Tivesse eu reparado nisso e tê-la-ia cumprimentado. Coloco aqui a fotografia ou, melhor, a ampliação da parte da fotografia em que se vê a senhora (como a ideia foi fotografar os dois prédios encostadas, a senhora, na fotografia original, é quase um pormenor no infinito) como forma de retribuir o seu simpático sorriso. Muito obrigada.


Até já, no Vimieiro.

domingo, março 01, 2020

Numa cabana sobre o rio, a ouvir a chuva





Foi por mero acaso. Era para ser noutro sítio, num lugar normal. Mas depois este tempo, de chuva, 
aí não, que graça tem?, não achas? 
acho, mas então onde?, aqui? 
aí acho que não, junto à praia com o tempo assim não tem grande jeito
pois, concordo, mas então onde?
não sei, não estou bem a ver
olha, e se for aqui? 
não sei, parece que também não me inspira, 
e assim, nesta hesitante preguiça, acabámos por pensar vir conhecer a região onde o meu filho tinha estado recentemente. Escolhemos um lugar que pareceu bonito, diferente. Cheio, excepto uma última cabana na encosta sobre o rio, desistência de última hora. Como uma casinha na árvore, mignonne como um ninho aconchegado. Um ninho feito de madeira, ainda com o perfume da madeira, confortável, pequenino e suficiente. Uma pequena cabana mergulhada na natureza.


Agora, enquanto escrevo, ouço a chuva a cair lá fora. Som tão bom. Ouço e é um som familiar, melhor: maternal, coisa do início dos tempos.

Tudo aqui está cheio de vida e de beleza. Fomos a pé até ao rio. As rochas estão molhadas, a terra está atapetada de musgo. Andámos no passadiço sobre as águas, vimos as margens férteis, as árvores inclinando-se, as folhagens tentadas, querendo ir a banhos. Tudo tão bonito, tão verde.


Vim com vários livros -- e, se agora não estivesse aqui tão quentinha, levantava-me e ia fotografá-los para vos mostrar -- mas, na estação de serviço, deu-me aquela vontade que me dá quando me cheira a férias e que antes me levava sempre a querer comprar uma revista e que agora, um pouco mais sensata, se ficou pelo Expresso. Mas ainda só li no carro pois aqui o tempo não tem chegado para desfrutar leituras. De tarde, fomos conhecer as redondezas e já tive uma agradável surpresa. A ver se ainda vos mostro. Ia à procura de uma terra soturna e austera (austera foi a minha filha que disse há pouco quando lhe contei da surpresa por ir a contar que a terra estivesse embrenhada em seco negrume e não me ocorria a palavra para o classificar). Que terra preciosa fui descobrir. Tenho mesmo que falar nela. 


Aqui ao meu lado um cavalheiro lê um livro. Como é usual, é um livro de História. Não sei porque escolheu uma área tão radicalmente oposta à História. Penso que um dia que tenha tempo para isso ainda irá dedicar-se mesmo à coisa. Estava tão absorto que nem deve ter reparado que o fotografei. Mas, para aqui mostrar, já lhe cortei um pedaço senão passava-se. Assim só se vê o livro que está a segurar. Não costumo estar na cama a escrever no computador enquanto ele lê. Agora também podia estar ali, na zona do sofá ou na secretária. Mas apetece-me estar aqui, quentinha. Ele, receando que estivesse frio, trouxe para dormir uma blusa fininha preta, creio que foi o meu filho que lhe deu quando ele fazia pilates ou lá o que era no ginásio. Agora aqui de tshirt preta e de óculos, coisa que só usa para ler, até me surpreendeu. Disse-lhe que só falta estar de gola alta para parecer o Sócrates. Ele olhou espantado, não percebeu. Acrescentei que aliás só falta também ter mais cabelo. E, pensando bem, acho que o Sócrates nem usa óculos. Se calhar, bem vistas as coisas, razão tem ele para não perceber.


Entretanto, o som da chuva abrandou e ouço agora também uma aragem mais forte. As árvores nuas estão lindas.

Há aqui umas que não sei o que são mas que dão umas coisas curiosas, nunca tinha visto. Ainda pensei que talvez fossem castanhas mas não, as castanhas vêm envoltas em ouricinhos. Lembrei-me da palavra bugalho e fui ver. Sim, é capaz de ser bugalho. Se calhar são carvalhos estas árvores.

Este planeta é uma gigante arca do tesouro a céu aberto. Maravilho-me com tudo isto que brota da terra, construções surpreendentes, infinitos milagres.


E o  mesmo sobre o meu país. Tão lindo. Gostava de chegar ao mapa e dividi-lo em quadrículas para, escrupulosamente, as conhecer bem uma a uma. Não deve haver bocadinho que não seja cheio de encantos. 

Bem.

Vou ver se leio um pouco mais e se depois ainda cá volto para um petit rien. Podia já tratar disso mas estou com vontade de ir ler ali umas coisas. Tenho pena que o Expresso, a nível de jornalismo político e/ou de actualidade, seja tão leviano, tão populista, por vezes tão torpemente vulgar. A primeira página deste sábado é apenas mais um exemplo disso, uma descontextualização infame do que Graça Freitas disse. Não posso pactuar com essa linha editorial e, de cada vez que constato que perderam completamente a vergonha, mais me convenço que não devo comprar o jornal. Mas a nível cultural continuo a encontrar múltiplos motivos de interesse. Há ali gente que, ano após ano, sustentadamente, mantém a qualidade na análise e na escrita, a elegância no uso da palavra, a frescura das ideias nascidas de novo. Quando os releio sinto prazer. Ler o que uma pessoa inteligente e culta escreve é estimulante. E, por eles, tenho muita pena de não poder acompanhá-los com a regularidade que mereciam.


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Do LS, Leitor que de vez em quando me oferece poemas, muitas vezes enviando-me também vídeos nos quais os poemas são lidos por si, recebi ontem dois. Cometo a ousadia de aqui transcrever um deles sem antes obter a sua autorização mas penso que ele perceberá que seria uma pena eu não os partilhar com todos os que por aqui me aturam.  E, LS, uma vez mais, agradeço a sua simpatia e generosidade.

A ânsia
a febre
a fome
no teu ventre se afundando
me consome;
um gesto de asas
preso na garganta,
os dias suspensos
de teus dedos,
os cabelos densos
de segredos...
Rios de desejo
correndo ao rés da pele
na superfície febril
dos teus braços...
A ânsia
a febre
a fome
ao ritmo dos teus passos
desvendando
lentamente
o mistério do teu nome.


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Agora que se sabe que o Luis Sepúlveda está infectado com o COVID-19 e que esteve em Portugal,  no Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim,  sugiro a leitura que o João L. deixou, em comentário, no post abaixo: COVID-19—New Insights on a Rapidly Changing Epidemic

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E a todos desejo um bom domingo