sábado, agosto 25, 2018

Aquiles em Petersburgo com Manguel em arrumações
- e eu a ter visões e a cirandar entre estantes para espantar as canseiras e para aprovisionar livros como se não houvesse amanhã





É que é muita coisa. Por me saberem fora por uns dias, toda a gente se precipitou a despachar para cima de mim tudo o que costuma ser aspergido gradualmente. Nestes dias não, foi de mangueirada. O mail não parava, os pedidos disto, daquilo e do outro ainda menos. Queria suspender a actividade durante uns segundos a ver se ficava tudo em ordem e nem conseguia tempo para pensar. Uma impotência para gerir o meu tempo, tanto usam e abusam dele.

Há muito tempo que não tenho umas vacances grandes e descansadas. E a verdade é que até parece que já me desabituei de ir descansada para férias. Há dois anos foi o que foi. O ano passado foi o bom e o bonito. Estou a escrever e a bater na madeira para afugentar os maus ventos. Quero e preciso de paz de espírito. Só eu sei o quanto o preciso. Só eu sei o que têm sido os últimos tempos. Sem tréguas. Um carrocel. (E, não, Chevy, não tem sido ao som do Quim Barreiros, tem sido bem pior).

Mas fui intervalando e, nos intervalos, como sempre, não sobrevive uma única preocupação. A minha cabeça felizmente tem um sistema de tipo carro-vassoura que varre tudo o que de mau apanha à frente.

Ontem à noite juntámo-nos todos numa festa de anos. Uma leoa que insiste em ser leoa mas que, cá para mim, está mais para virgem do que para leoa -- mas não faz mal, cada um é o que quiser ser, quer ser leoa, pois que seja leoa. Quando a ideia era fazer os festejos num restaurante, protestei. E o meu marido protestou comigo, ou seja, não ao meu lado mas contra mim. Queixa-se que estou sempre a chegar-me à frente sem medir bem o trabalho que as coisas dão. Mas embirro com almoços ou jantares de família no restaurante, sejam de aniversário ou não. Para começar, os miúdos chegam a um ponto em que já não atinam sentados. Acresce que o bebé, que é fino, saíu o mais irrequieto e folião de todos. Mantê-lo sossegado na cadeirinha é uma miragem. Portanto, estarmos num lugar público -- um grupo grande e ruidoso, com crianças brincalhonas e irrequietas -- e querer manter a compostura é missão impossível, é uma dor de cabeça. É que convém não maçar os demais convivas, certo? Portanto, sugeri: e porque não cá em casa? O meu marido logo contrariado: depois de um dia de trabalho, como vais conseguir dar conta do recado? E a louça? E a desarrumação? E, não te esqueças, no dia seguinte trabalhamos.


Mas ela que não, que não, que preferia num restaurante. Mas, depois de várias iterações, acabou mesmo por ser cá em casa e ao meu marido desapareceram logo os protestos mal a neta foi ter com ele para lhe pedir um abracinho e mal beija e pede um give me five aos outros, ou seja, mal se vê rodeado daquela criançada linda e bem disposta. Portanto, casa cheia. E depois da janta e dos parabéns a você e de se apagarem as velas, o queridíssimo penúltimo foi buscar a guitarra e tocou e cantou, o bebé tocou e dançou, e todos fizeram um jogo e o bebé tentou desmanchar-lhes o jogo e todos se enfureceram com ele e pegaram-ne ao colo de qualquer maneira para o tirarem dali e ele, ar de quem não quer a coisa, sorrateiro, voltou uma e outra e outra vez... E, para mim, vê-los e fotografá-los é uma alegria do tamanho do mundo. Claro que fico um bocado cansada mas passa logo e não há nada melhor do que ter toda a descendência, descontraída e feliz da vida, em nossa volta.

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E eu vinha aqui para dizer outra coisa e, sem me dar conta, desatei outra vez a descrever as minhas minudências.

Queria dizer que, como se não tivesse aqui mais do que muitos livros por ler, fui abastecer-me como gosto de fazer quando vou estar uns dias longe das livrarias. Ia para As almas mortas mas não me apeteceu. Gosto de me desenfiar, não sou de seguir conselhos à risca. Optei antes pelos Contos de Petersburgo. E, como fiquei apaixonada pelo Carlos Fuentes, trouxe também o Aquiles ou o Guerrilheiro e o Assassino. No outro dia já tinha trazido outros como, por exemplo, aquele do Manguel, o Embalando a minha biblioteca que, só de vê-lo, fez tocar em mim todas as campainhas.

Tem graça isto. Há uma fauna que vagueia por entre as estantes. Eu faço parte. As estantes já me devem reconhecer. Só não sou do género de pegar num livro e de me pôr por lá sentada a ler. Para isso ainda não me deu. Gosto de ler com privacidade. E gosto de ler reclinada. E ali, não sei porquê, parece que não me dá jeito deitar. Só se encontrasse algum senhor com ar simpático e lhe perguntasse se não se importava que me deitasse com a cabeça sobre as suas pernas. Assim, talvez já pudesse ser. Agora pôr-me ali sentada, a seco, no meio dos outros, não.

Quando a gente vai várias vezes à mesma livraria acaba por já conhecer alguns rostos e por ver outros que nunca viu. Ou, então, acaba por ver alguns que já não via desde há meses, ficando-se, então, na dúvida se são eles mesmos. Se um estava de casacão no inverno e agora a gente o vê de calções e manga curta, fica a dúvida: é o mesmo? E depois, se já o viu noutro sítio, noutra livraria, fica na dúvida se é o mesmo ou se será simplesmente alguém parecido com aquele actor conhecido de uma série americana. E depois a gente pensa: na volta este é aquele que ninguém sabe quem é. Mas depois a gente pensa que, de tanto andar entre personagens literárias, já começa a ficcionar a propósito de cada pessoa com que se cruza. E fica a pensar: que livro seria aquele que ele levava na mão? Um livro com tanta página. Seria qual? Porque mais importante que a identidade de uma pessoa é o livro que a pessoa leva na mão. Ou não. Eu, por exemplo, se for vista com um livro do Banana na mão passarei por ser aquilo que posso parecer mas não sou, porque, para ser isso, teria que ter na outra mão o último do Paulo Coelho -- e, caraças, isso é que não. 

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E, de momento, é isto. Agora vou ler uma contestação porque vou ter que enviar o meu parecer e aquela gaita tem umas cinquenta páginas ou mais, na volta tem é umas cem, um pincel intragável, e não me apetece estar em férias e andar com porcarias complicadas às costas.

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Mas antes, minha gente, pensando numas coisas cá minhas, vou mas é dar uma dançadinha a preceito. 
Juntem-se ao bailarico, se faz favor.

You don't own me 
- Grace interpreta e Kate Moss dança


sexta-feira, agosto 24, 2018

Cristina Ferreira, a nova caga-milhões, vai para a SIC
-- e eu digo o que tenho a dizer sobre o assunto


E o que tenho a dizer é muito pouco. Não costumo ver programas com ela. Se calhava passar de raspão pela TVI, desistia logo: Cristina Ferreira grita muito, ri histriónicamente e muitas vezes com uma intensidade que me parece forçada. É bonita e elegante mas tem um gosto que, por vezes, parece duvidoso, não raras vezes a atirar para o pimba.

A minha mãe dizia que as manhãs na TVI, com ela e com o Goucha, eram uma festa: que estavam sempre, os dois, a dizer graças, que as pessoas presentes no estúdio se fartavam de rir. Admito. Para o público da manhã, essencialmente gente reformada, um par de jarras daqueles, brincalhões e, volta e meia, brejeiros, são mesmo capazes de ser uma boa companhia.

Aqui há pouco tempo, num almoço -- para aí uma mesa de uns vinte, todos animados -- alguém dizia que uma que lá estava, uma jovem toda comunicativa, dava uma Judite de Sousa. Vários disseram que não, coitada, que ideia, consolaram-na, que não levasse a sério -- mas logo alguém corrigiu: só se fosse uma Judite em bom. Logo alguém a seguir sugeriu uma variante: uma Cristina Ferreira mas sem os guinchos. E logo meio mundo gozou com os exageros e os gritos da Cristina. Até que alguém disse: 'Ainda estou para perceber o que e que ela tem para ter tanta fama' ao que um outro respondeu: 'Vai ao ginásio onde ela vai que logo vês o que é que ela tem'. E todos se riram porque esse que tinha falado anda bem mais elegante, perdeu peso e passa a vida a ir ao ginásio. 

Portanto.

Ou seja, bocas mais ou menos machistas à parte, a questão é que, naquela mesa, nenhuma voz se levantou para gabar os dotes profissionais da dita Cristina.

Há tempos cruzei-me com ela num centro comercial e mal a reconhecia de tão simples e normal ela ia. Bonitinha mas nada daquela beleza hollywoodesca que a caracteriza.

E estou a referir-me ao seu aspecto físico pois, a bem verdade, não consigo reconhecer-lhe um mérito profissional dentro da minha gama de interesses. No ramo dos programas popularuchos, sim. 

Com esta transferência para a SIC, não sei bem o que pensa aquela estação ganhar  mas admito que saibam fazer contas e que tenham avaliado o valor do branding Cristina. Parece que a SIC não vai de vento em popa e eu questionaria o retorno de um custo pesado como aquele de que se fala. Mas quem lá está dentro é que sabe como fazer contas, não eu que sou mais bolos e, ainda por cima, bolos de outra natureza.

Seja como for, a bem da verdade, a mim isto nada me diz: não sou accionista da SIC nem frequento os espaços televisivos que ela ocupa. Portanto, o que eu estimo é o que eu desejo.  

Olha, aqui abaixo está muito bem.


PS: Agora uma coisa me assoma ao espírito: não ia sendo tempo de se moralizarem um bocado as disparidades de ordenados nas empresas? Quantas pessoas na SIC ganharão não mais do que uns míseros 1% do que ela vai ganhar? 

quinta-feira, agosto 23, 2018

Os Góticos, a Condessa de D'haussonville, Adão, um casal aos beijos, a Liberdade, a Mona Lisa e a boa da Andrómeda -- tudo foi, minha gente, ao Burning Man, the Sziget Festival




Não sou de campismo, não sou de concertos de verão, festivais do sol, do vento, do mexilhão do nordeste, da cana rachada da lezíria ou da sopa da pedra de alguidares-de-cima, não sou de futebóis, comícios, manifs, procissões -- em suma, não sou de ajuntamentos. Sou de hotéis de qualidade, sejam eles grandes ou pequenos, sejam eles na montanha, no mar ou na cidade. Lembro-me agora de um Le Meridien no sopé de uma montanha perto de Zurique. Lembro-me do Le Chat em Hônfleur. Opostos em tudo e, no entanto, tão bem guardados na minha memória.

Não que seja de me armar em besta. Não sou. Talvez mais bicho do mato e, se calhar, por ser mesmo um bocado elitista. Mas elitista no sentido de achar que, se não me agrada mesmo, então não vale a pena, mais vale ficar quieta em casa. Elitista porque elejo cuidadosamente os meus destinos.


Concertos ao ar livre, até ver, mais aqueles de Oeiras, o Cool Jazz. Mas gosto, sobretudo, é de salas frescas e silenciosas e de museus, de parques serenos, e do mar e de praias quase desertas. E de montanhas e de bosques of my own. E gosto de caminhar e de fotografar, gosto de estar com os meus amores, gosto de ler em sossego. Gosto de deambular pelas livrarias. Coisas assim. E de escrever. E de conversar.

Se vejo na televisão aqueles recintos repletos de gente, se vejo fotografias de tendas e acampamentos, de festanças colectivas e de altas barafundas, a única coisa que me ocorre é que ali é que ninguém me apanha.


Agora que estou cansada de tanto trabalho e o mais possível a precisar de férias, sinto-me incapaz de escolher um destino. Parece que só me apetece não fazer nada. Dormir. Apetece-me pensar que era bom que pudesse ter ara aí uns dois meses de férias: quinze dias para remodelar a arrumação dos livros, reorganizar s roupeiros, dar roupas e sapatos, livrar-me de excessos e inutilidades. Duas semanas para ir de carro até Florença, parando nas aldeias das montanhas, nas praias pequeninas. Aproveitar para conhecer Siena. Se calhar mais uma ou duas semanas para ir até à Sardenha e à Córsega. Ou não. Talvez isso descaracterizasse a natureza do passeio. Ficariam para o ano que vem. Depois mais uma ou duas semanas para ir até ao Algarve, talvez até Lagos, cidade sempre tão branca e feliz. Depois mais quinze dias de paz in heaven. Isto, sim, seriam férias.


Mas não. Em vez disso, apenas uns poucos dias e vamos ver se não são uma tortura de mails e telefonemas e documentos para ver e outros para aprovar. Dantes, quando ia, dizia que podiam ligar à vontade. Agora digo: se houver problemas, façam a caridade de me poupar. Ficam a olhar para mim, a rir. Acham que é uma piada. É.. é...

O meu marido diz: qualquer dia estamos de férias e ainda não decidimos o que vamos fazer. Mas, saturada como ando, parece que não consigo pensar ou decidir nada. E, pelos vistos, ele também não.


Quando a televisão mostra qualquer estivalidade, pasmo com os milhares de pessoas que acorrem, que sabiam que aquilo ia acontecer, que com antecedência compram bilhetes, que se predispõem a ir com antecedência, que passam horas ao ar livre, ao calor, que sabem as canções de cor, que saltam e cantam. Fico mesmo admirada. Que motivação e energia aquelas pessoas têm....Sinto-me um bicho raro, alheado de toda esta realidade. Quanto muito, em dias assim, se me apetecer laurear, penso em ir para o escurinho do cinema ou ir calcorrear ruas, fotografando e observando quem passa. Ou sentar-me numa esplanada à beira rio. Ou ir petiscar, sem pressa, degustando petisquinhos e conversando.

Ainda no outro dia, estando todos na nossa casa de campo, o meu filho sugeriu que, em vez de jantarmos em casa, podíamos ir procurar alguma festa de aldeia nas proximidades, petiscar por lá. Para ele isto é um programa apetecível. Para mim nem pouco mais ou menos. Acho que a última vez que me senti atraída por feiras de verão era eu adolescente e mal podia esperar que chegasse a noite para nos irmos encontrar nos carrinhos de choque, nos carrocéis, nas farturas.

Agora, tomara que ninguém se lembre de me envolver em tais programas.


Mas, enfim. Não vos maço mais com esta lamúria que não é lamúria. Parece que me apetece algo e não sei o que é, só sei que um Ferrero Rocher não é. Não há saldos, livros ou gelados que me tragam aquilo de que preciso -- e pressinto que é isto mesmo: descanso, férias, quebra da rotina. Preciso. 

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As imagens que escolhi como entremeio para o meu desfiar de lamentos mostram parcelas de pinturas, do mais clássico que há, inseridas em fotografias de festivas de verão -- e eu acho que fazem todo o sentido neste novo contexto. O artista é Márton Neményi e eu acho que ele tem muito sentido de humor, coisa que muito me agrada. E, como seria de esperar, provêm do Bored Panda.


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Lá em cima, Haley Reinhart interpreta Baby It’s You 
(dont't ask me why)

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Omarosa, Trump e Randy Rainbow



Ali tudo é mau de mais. Quando os Estados Unidos, a seguir ao Obama, escolhem (ou são levados a escolher, tanto me dá) um palhaço como o Trump, tudo se pode esperar.

Os cépticos dirão que o Obama também não foi grande coisa e rapidamente apontarão algumas falhas lamentáveis na sua governação. Mas os cépticos vivem afogados no permanente fel que lhes azeda a existência, valorizando tudo o que é mau e desvalorizando tudo o que é bom ou razoável. Portanto, passo adiante e foco-me na desgraça a que, agora, quotidianamente, se assiste.

E o que é um facto incontornável é que a aldrabice, por mais esfarrapada que seja, ali campeia a par e passo com a vigarice, a chantagem, a ameaça, a desconsideração, o mais descarado vale-tudo, a ausência de escrúpulos, de coerência e, até, de cultura ou boa educação. 

O que cerca Trump poderia ser um reality show rasca, ao nível dos da TVI, aqueles Love on Top ou Quinta dos Segredos ou das Celebridades ou o que for em que dá ideia que repescam tudo o que é vadiagem, prostituição, futilidade, pimbalhada e ignorância. O mesmo baixo nível que se encontra na entourage de Trump. A gente até se esquece que aquilo é a Casa Branca.

Os escândalos rebentam como castanhas quentes e cada qual mais cabeludo que o anterior. Artistas porno, adultérios, advogados que compram o silêncio, jogadas com agentes russos envolvendo hackers e produtores de sites e de fake news - you name it. Que tenha metido a filha o genro ali no meio até já é pormenor. Tudo ali parece inverosímil e, para perplexidade geral, é sempre tudo verdade.

Claro que lá chegará o dia em que a justiça se encarregará de varrer de lá esta sinistra e macarrónica figura. Mas, enquanto isso não acontece, o mundo vai assistindo, pasmado, à sistemática degradação completa dos princípios, da ética, do civismo.

No entanto sabido é que, onde há um risco para uns, há uma oportunidade para outros.

Comediantes, cartoonistas, jornais e revistas têm uma fonte de inspiração diária. Será fraco o consolo mas, enfim, não havendo outras alegrias, que se aproveitem estas.

Aqui abaixo, em mais um suculento vídeo, o talentoso Randy Rainbow parodia o recente escândalo Omarosa, mais uma ex-fiel que, agora, virou inimiga número 1, ameaçando poder fazer muitos mais estragos.

Omarosa!


quarta-feira, agosto 22, 2018

Selecção e sedução.
Love me Tinder




Imaginemos.

Uma situação muito simples. A cada uma das pessoas que já se me dirigiu por mail, e já foram muitas, eu convidava para se encontrar comigo. Ficariam todas muito admiradas: sou esquiva, bicho do mato. Várias já me convidaram -- para um lançamento de livro, para uma sessão disto e daquilo, para um café, para um jantar, para me oferecer um presente. Tenho um pretexto que é bem real e que me ajuda a não ter que mentir: tenho a vida de tal forma preenchida que não consigo acomodar novas andanças. Mas, mesmo que tivesse o tempo todo por minha conta, haveria de me furtar. Prefiro-me transparente, invisível, intangível. Por isso, cada um dos meus Leitores, recebendo um afável e inesperado convite, estranharia; mas, por simpatia e, presumo, alguma curiosidade, compareceria.

Ou outra possibilidade.

Inscrevia-me no Tinder (e quem vos garante que já por lá não ando a cirandar?) e, toda faceira e galante, desenvolvia um saboroso jogo de sedução online. E, ao longo de uns tempos, ia marcando um encontro com cada um dos meus interlocutores. Poderia ser numa clareira de um parque ou num jardim. Imaginemos, talvez, o coreto de um Jardim. 

Em qualquer dos casos marcaria, com cada um, o mesmo dia, a mesma hora, o mesmo local. Cada um pensaria que o encontro seria apenas entre nós dois (ou duas) mas, uma vez lá chegados, constatariam que, à volta do coreto, se reunia um grande grupo de pessoas. Mas os jardins são públicos. Não desconfiariam que todos ali estavam ao mesmo.

Então, uma mulher subiria ao coreto. Como ninguém me conhece, ficariam admirados. Será? Não será?

Seria. Seria eu, sim.
Não exactamente igual à mulher que escolhi para ilustrar o post mas eu. Eu tal como sou.
Sorridente, cumprimentaria o belo grupo que rodearia o coreto. Diria nomes, todos os nomes de Leitores de que me lembrasse. Veria os sorrisos. Agradeceria a presença e, gaiatamente, desculpar-me-ia pela maldade de os não ter avisado do que se iria passar.

E diria: Sim, vamos ter um encontro a dois. Mas primeiro tenho que escolher com quem vai ser. Ganha o que merecer. 

Olhariam uns para os outros, uns desanimados, outros intrigados, quase todos sorrindo. 

E, então, provocadoramente, eu perguntaria: Há aqui alguém que tenha apoiado o Passos Coelho?

Silêncio. Numa altura destas quem é que confessa tal simpatia em público? Agora, parece que nunca ninguém apoiou tal alimária. Teria que insistir: Se há alguém, agradeço que ponha a mão no ar.

A medo, uns quantos, poucos, levantariam o braço. E, aí, eu diria: Muito bem. É de louvar a sinceridade. Mas façam o favor de se retirarem. O láparo e eu somos imiscíveis. E, com ar falsamente zangado, ordenaria: Andor.

Os outros desatariam a gritar em uníssono: 'Andor! Andor!' e os laranjas enrustidos não teriam como lá ficar. Rabo entre as pernas, entre apupos de rejeição, era vê-los a zarpar de fininho.

A seguir perguntaria: Há aqui alguém que tenha tido um desgosto de amor por ter sido abandonado? Silêncio. Gente a olhar em volta. Eu insistiria: Quem já foi abandonado faça o favor de levantar o braço.

E, então, hesitantemente, alguns levantavam a mão. Podem também sair, diria eu, Confio na opinião de quem vos abandonou. E esses, uns homens, outros mulheres, abandonariam o local, acabrunhados, duas vezes rejeitados.

Muito bem, estamos no bom caminho. Nada como uma boa depuração. Continuemos: há aqui alguém que durma de pijama?, seria a minha pergunta seguinte e, uma vez mais, temendo o veredicto, ninguém se acusaria. Eu insistiria: Já o disse e, do que me conhecem, sabem-no bem: sinceridade e coragem são fundamentais. Quem dorme de pijama que dê um passo em frente porque, obviamente, não tem aqui cabimento.

Com alguma timidez, alguns homens e algumas mulheres, dá-lo-iam e, claro, imediatamente foram instados a abandonar o espaço.

A seguir: Se há aqui algum Nandinho, alguma Mariazinha ou alguma Lenita agradeço que perceba que deve desistir. E, com ar injustiçado, três pessoas afastar-se-iam, abanando a cabeça. Toda a gente começaria a pensar que o que estava ali a passar-se era inadmissível. Mas nenhum dos que ainda não tinha sido escorraçado tomaria a iniciativa de se ir embora.

E continuaria: Fumadores. Não gosto do hálito do tabaco. Incomoda-me. Lamento. Pode ser boa gente mas sou sensível a cheiros; e cheiro a boca velha e requentada não dá. Podem ir. E uns quantos catarrentos tiraram o maço de tabaco do bolso e afastar-se-iam-se a fumar e a praguejar.

Diria, então: Homens lourinhos e ladies com nails artísticas também não aprecio... Fazer o quê? Gostos... Alguém protestaria: 'Não tem sentido. Tudo isto é arbitrário'. Mas eu concederia: É verdade. Gostar ou não gostar não é coisa muito racional. Mas saiam, por favor, os que forem como eu disse. E lá se afastariam mais uns quantos.

Está quase. Está quase a encontrar-se a pessoa que vai sair comigo, um encontro memorável, juro. Mas agora afastem-se todos os que tenham mais do que uma tatuagem ou em que a tatuagem seja indiscreta ou de mau gosto.

Lá de baixo, ouvir-se-ia um desafio: 'Ai é? E quem é que vai avaliar?'

E eu esclareceria: Nos casos em que não há capacidade de auto-avaliação, eu. Quem tiver dúvidas, mostre-as. Se necessário, dispa-se. E, após uns instantes, conformados, saíriam mais uns quantos.

Passemos a coisas sérias: quem estiver aqui para um simples engate, para tirar umas casquinha ou para se armar em esperto, fora daqui. Só me interessa gente séria e bem intencionada. Mas quem estiver para um noivado a sério, também fora daqui. Só de pensar que há quem diga noivo ou noiva ou esposo ou esposa fico incomodada. E mais uns quantos, quase os últimos, afastar-se-iam, sorrindo como se tivessem ganho alguma medalha que só eles viam mas, no fundo, intrigados com a verdadeira razão pela qual estavam a ser afastados.

Sobram três pessoas: uma mulher e dois homens. Está difícil. Vou ter que usar critérios um pouco exigentes, quiçá, até, injustos. Mas é a vida. Um dia bem passado comigo requer que me digam poesia. Se algum dos três não souber um poema de cor, terá que perceber que deve afastar-se. A mulher afastar-se-ia, piscando-me o olho. Percebê-la-ia e retribuíria.

Ficariam dois homens. Idades aproximadas, fisicamente não muito díspares, rostos agradáveis. Então eu diria: Podia ficar com os dois. Não seria mal visto. Mas, para já, como não vos conheço bem, prefiro não arriscar. Mostrem-me as vossas mãos. Umas seriam mais a meu gosto. Desceria e dirigir-me-ia a esse. Olhá-lo-ia nos olhos. Diria o seu nome. Ele confirmaria e diria: 'Reconheceu-me'. Eu abraçá-lo-ia. Depois dar-lhe-ia a mão e afastar-nos-íamos os dois. 

As câmaras tudo teriam filmado.

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E isto foi, mais coisa, menos coisa, o que fez Natasha Aponte no outro dia, em Nova Iorque. Marcou encontros com 'amigos' do Tinder e pregou-lhes uma partida deste género. Ainda não são claras as motivações: a realização de um vídeo, uma campanha, publicidade.

Seja para o que for, acho delicioso e mal posso esperar por aprontar uma destas. Vale? Alinham?

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Uma coisa posso eu, desde já, prometer: o programa não incluiria um almoço perto do céu como estes que abaixo partilho convosco.

Almoçar no céu, a 5.584 km de distância e com um intervalo de 86 anos



Já contei que padeço de vertigens? E alguém aí desse lado sabe o que isso é? Se não sabem, não consigo explicar.

Mas posso tentar: é a gente, só de pensar nisso, ficar logo com uma estranha moleza nos pés, um formigueiro que não se sente mas que está lá, uma aflição instantânea, a sensação que se vai cair sem ter onde agarrar.

Quando era pequena, os meus pais gostavam de ir para praias sem ninguém, praias abrigadas entre rochas. Lembro-me de uma para a qual se descia por uma escada de cimento, construída junto a um rochedo. De um lado tinha a pedra, do outro não tinha nada. Aquilo para mim era uma tortura. Os meus pais não ligavam nenhuma ao meu terror e, de resto, acho que disfarçava para não passar por caguinchas. Adorava aquela pequeníssima praia, as pocinhas, andar aos mexilhões, tudo -- excepto entrar e sair dela.

Também já contei que, adolescente, chegavam uns amigos de barco, uma turma de malta destemida, e trepavam às rochas mais altas e atiraravam-se de lá, em mergulho, com acrobacias pelos ares. Um deles era o meu apaixonado. Eu ficava fascinada com tamanha valentia. Mas todos o faziam, rapazes e raparigas. Todos menos eu. Odiava ser a maricas do grupo. Toda a gente subia, na maior risota. E eu, feita corajosa, punha-me a trepar. Mas, chegada a meio, trespassada pelas vertigens, ficava imobilizada. Os outros todos, rapazes e raparigas, na maior descontração e eu ali, feita totó, agarradinha às pedras, com medo de me despenhar. E vir para baixo...? Pá, que horror. Só de pensar nisso já estou cheia delas. Não querendo dar parte de fraca, parte a andar de gatas, parte a vir sentada, o que me salvava do ridículo é que os outros, no despique em que andavam, transbordantes de energia, nem davam por mim. Ou, então, faziam a caridade de fingir que não se apercebiam daquele meu papelinho.

E quando ia ao circo e vinha o número dos trapezistas...? O que eu penava. À medida que eles atingiam as alturas, o meu sofrimento ia crescendo. Tinha a sensação que se iam atirar, sem rede, sem nada que os salvasse, atraídos pelo irrecusável abismo.

Não há muito tempo fomos a um castelo. Sabia que a vista de lá devia ser estonteante. O meu marido foi e disse para eu ir, que era mesmo muito bonito, que a escada era larga, que não havia problema. Enchi-me de coragem. O meu marido disse: 'Olha para cima, não olhes para baixo'. Caramba, já tenho idade para saber controlar as fobias. Respirei fundo, enchi-me de coragem. Lá fui. Quando estava quase a atingir o passadiço lá em cima e com as pernas já tolhidas e os pés ainda mais, toda eu a sentir as maganas das vertigens a picarem-me a sola dos pés e a amarinharem por mim acima, olhei para baixo. Ai... só de pensar... Deu-me um medo... Já não consegui acabar de subir mas o pior é que estava paralisada, com medo de descer. Teve o meu marido que se vir pôr ao pé de mim, já não me lembro se atrás, se à frente, e eu ali fui, devagarinho, cheinha de miaufa, toda eu entrevadinha, acagaçadinha.

Portanto, imaginem como me sinto eu ver a fotografia lá em cima, Lunch Atop a Skyscaper, supostamente da autoria de Charles C. Ebbets, feita há 86 anos, onde se vêem os operarários que trabalharam na construção do Rockefeller Plaza, um arranha-céus de 70 andares, a almoçar, sem qualquer protecção, a mais de 250 metros do chão, à altura do 69º andar. Um pesadelo. Esvai-se-me a sensibilidade dos pés só de olhar para ela.

A fotografia abaixo, da autoria de Jonathan Brady, foi tirada agora em Londres, num arranha-céus, a 140 metros. A ideia foi da Deliveroo, um entregador de comidas, concorrente da Uber Eats, que, durante uns dias, convidou os londrinos para uma refeição que simula a outra. Mas, do que percebi, trata-se de uma estrutura segura que tem logo o telhado ali por baixo. Presumo que ainda iremos ter um anúncio com isto pelo que vou esperar pelo making of para perceber se as vertigens que sinto ao olhar são legítimas ou estúpidas.

Já agora, tem-se especulado se o almoço na viga de ferro do edifício em construção em 1932 estava mesmo suspensa sobre o nada ou se haveria uma plataforma um pouco abaixo. Seja como for, com ou sem protecção, é preciso tê-los no sítio para andar empoleirado com os pés tão longe do chão e sem cinto, suspensórios, fraldas, rede por baixo, pára-quedas nas costas e um anjinho da guarda a voar em volta.


terça-feira, agosto 21, 2018

Tablóides, arte e coincidências do caneco





Nada se inventa, tudo se recria. Já lá dizia o Lavoisier. Ou seria o La Palice? Ou o caracolinhos da Quercus? Ou as meninas da reciclagem? Ou um daqueles sabichões que não podem ver nem cão nem gato que não digam que isso também na Grécia? Não interessa. O ponto é que ele há coisas.


E há-as de todo o género. Para mim, a pior de todas é haver pessoas iguais a mim. Isso atrapalha-me a existência. Quando penso em tal coisa, claro. Mas, quando penso nisso, eriço-me. Os cães quando se assustam eriçam-se. Eu também. Metaforicamente falando, claro. E ainda por cima dizerem que a minha voz também é igual. Pode lá ser. Clones? E a forma como me rio. E como ando. O cabelo. Tudo. Dizem que tudo igual. Não querem acreditar que eu não seja a outra. Isso faz-me muita espécie. Preferia pensar que sou one of a kind. Eu. Única. Mas não. Pelo menos mais duas iguaizinhas a mim. Se aparecerem ainda mais uma ou duas e viro commodity.


Outra do além é a gente parecer que conhece outra pessoa. Que conhece mesmo, mesmo. Que adivinha o que a outra pensa. Nunca a conheceu na realidade mas sente que a conhece por dentro e por fora como se, noutras vidas, a tivesse conhecido completamente. Ninguém acredita numa coisa destas e a gente também não tem explicação nem quer aprofundar. Mas as coisas são mesmo assim e não interessa tentar perceber o que está para além do nosso entendimento pelo que é melhor nem ir por aí. E, assim sendo, quanto a isto, façam o favor de fazer de conta que não leram.


Outra: adivinhar. Adivinhar simplesmente. Saber antes de saber. Começarem a contar-nos uma história e nem ser preciso continuarem porque se consegue adivinhar tudo. Uma história de verdade, quero eu dizer, uma história cheia de meandros, de mal feito à socapa, de jogadas e mistérios inconfessáveis. E eu adivinhar tudo. Quase pelas exactas palavras em que os factos reais foram proferidos. Deixar os outros transidos, a terem medo de terem sido espiados, sem saberem como explicar que eu reproduza com tal exactidão todos os segredos que traziam tão bem escondidos. De onde me vem esse conhecimento? Não sei. Mas também não me interessa. Bom mesmo era que adivinhasse o número do euromilhões mas isso está quieto. Portanto, está bem, está. Vou ali e já venho.


Mas enfim. Coisas do caneco, é o que é. 

Mas também boas são estas que aqui estou a partilhar convosco. Pinturas de antanho que parecem ter sido inspiradas por actores de Hollywood, pelas socialites que habitam o Instagram ou as revistas de moda e sociedade.  

Descobri-as atarvés do The Guardian, lugar onde encontro sempre alguma coisa que me interessa. Transcrevo alguns excertos do artigo: Beyoncé meets Botticelli: how tabloid photos throw new light on old masters
Tabloid Art History delights in hilarious yet visually convincing collisions of high art and celebrity culture. Melania Trump giving Michelle Obama a gift is compared with a manuscript illumination of Christine de Pizan presenting her book The City of Women to Queen Isabeau and Géricault’s Romantic vision of despair, The Raft of the Medusa, is matched with a pic of The Real Housewives of New York slumped on the floor at an airport.
Is this a lazy reduction of great works of art to the status of memes to snigger at? No, it’s a fresh and insightful way to look at art – and at life. We’re surrounded by great art all the time, these iconographic couplings reveal. Everyone is a statue or a painting, just waiting to be recognised. Harry Styles looks like an Egon Schiele self-portrait in a certain light. 
This game works because great art is universal. The gestures and expressions that artists such as Botticelli and Schiele saw in the world around them and distilled into sombre monumental images amount to a gallery of human possibility, a museum of moods, experiences and fates. All human life is in their masterpieces. So why is it surprising that Beyoncé looks for a moment like a Botticelli? He painted the way he did because he observed the street life around him with insight and truth. It’s no wonder today’s tabloid images and selfies occasionally throw up images of the same human truths.

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E depois deste momento dedicado à arte, queiram, por favor, deslizar até às árvores que dão rolhas, uma reportagem do Great Big Story.

Árvores que dão rolhas



Cá para mim sou totó encartada. Mais propriamente a versão feminina e anciã do grande Banana (e, a quem esteja afastado desta nova mística que faz as delícias da pequenada, recomendo vivamente que se vão instruir pois se há falhas imperdoáveis esta é seguramente uma delas). 

Tendo chegado um pouco mais cedo a casa, já deu para caminhar e, como o jantar é um upgrade  das sobras do almoço de ontem, deu para aqui me pôr reclinada no sofá e, bingo, de imediato tiro e queda, logo a dormir.

Agora acordei e fui espreitar as sugestões do grande algoritmo e mais um bingo: um vídeo com um homem com cara de português. Dado que pertence à Great Big Story tive que ir confirmar. Ora bem. Branco é galinha o pôs: português e quase alentejano. Ele os companheiros de jorna. Se é que não alentejanos mesmo.


E aqui entra a minha totozice: podia ir ver se Coruche pertence ao Alentejo mas não me apetece. E podia ir ver se as minhas azinheiras também dão rolhas mas também não me apetece. Até porque, se não sei, devia saber. Há básicos e estas duas dúvidas são daquelas que eu nem sob tortura aqui devia confessar.

Também devia saber isto das azinheiras por outras vias. Há entre os parentes quem viva da coisa; mas nesse caso a árvore é o sobreiro o cujo também dá bolota, acho eu, como a azinheira. E conheço uma pessoa cujos pais eram donos de uma empresa de cortiça e que perderam tudo a seguir ao 25 de Abril e depois o senhor ficou tão abalado que, como diz o filho, 'desaderiu da realidade'. Portanto, eu deveria já ter tirado a coisa a limpo junto de fontes bem informadas em vez de estar para aqui feita arraçada de intelectual da literatura, daqueles seres que sabem tudo menos o que interessa. 


E, pronto, adiante.

Entretanto já jantei e aqui estou de volta ao post mas não vou escrever nada para não incomodar quem me lê. Passo a palavra aos apanhadores de rolhas e ao chefe deles que tem um ar muito simpático apesar de falar inglês sem o sotaque de Sua Majestade.

Que entrem os garbosos portugais, toujours gais, morenos, bem alimentados e com uma força braçal de ninguém pôr defeito.


segunda-feira, agosto 20, 2018

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.



Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face.





Uma mulher desliza entre o verde que a rodeia. Respira com vagar, aspira os odores, sente os cheiros que a terra exala. Queria ser bicho e esconder-se ali, entre a folhagem, sob a caruma, entre os troncos das árvores. Está calor e sente saudade da frescura e do sereno afago da sombra. Desloca-se sob as árvores, procura abrigos onde o silêncio e o sossego sejam uma boa companhia.


Mesmo que não caminhe, os seus pensamentos vagueiam. Percorre memórias, relembra palavras lidas, imagina rostos, inventa biografias, constrói histórias. Por vezes abre os olhos mas não os foca na proximidade. Procura a lonjura onde se escondem aqueles em quem pensa.

As cigarras subiram para a copa das árvores e não dão tréguas. Inflamadas, agitadas, electrificam o ar quando a mulher o quereria pacificado. Queria o elegante esvoaçar das rolas, o canto alegre dos pássaros. Mas refugiaram-se do calor, procuraram outras paragens. Ou, então, estão apenas indolentes, silenciosos.

Depois volta a fechar os olhos. Os seus pensamentos continuam envoltos em verde, entrelaçados nos arabescos que os jogos de luz desenham. Solitariamente continua a entretecer lembranças, fiapos de conversas, poemas soltos, ecos de acordes longínquos.


Nos muros há poemas. Foi a mulher que os escolheu e ali os quis ter. E há pinturas. E há árvores e flores. E caruma. E a pesada ausência do canto dos pássaros. A mulher caminha e diz, num murmúrio só seu, os poemas que vai lendo.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.


Não quer muita coisa da vida, esta mulher. Quer apenas a inteireza das frontes inocentes e corajosas, a doçura espontânea dos corações amáveis, o abraço tão longamente esperado, adivinhado, tão desejado. Quer também a verdade das palavras. A verdade sem espelhos enganadores, sem perigosos labirintos. Só a verdade limpa e boa. Não é muito. Mas, se calhar, é.

A mulher caminha. Caminha com os seus passos solitários e silenciosos e com os seus pensamentos secretos. Vai nua, descalça. Assim gosta de andar, o sol e o calor na pele, a transpiração na nuca, no ventre.

- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.

Depois ouve uma agitação entre as folhas, o som vivo de um outro ser. Detem-se. Espera. Espera que o silêncio pouse, de novo, sobre os seus passos.

E olha.


O outro ser está também em suspenso, em silêncio. Aguarda. Olha. Uma mulher que quer ser um bicho respira devagar, toda ela imóvel. E junto a si, igualmente imóvel, o outro ser, entre o verde e as folhas enrubescidas, aguarda. Tudo se conjuga nesse instante: a tranquilidade, a perfeição dos momentos únicos e inesperados, a vontade de que nada perturbe o sonho feliz, o silêncio e a paz das nossas existências.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


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Excerto de O amor em visita de Herberto Helder
Embers de Max Richter
Fotografias feitas este domingo in heaven

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domingo, agosto 19, 2018

Flores e Thought of you


Hoje estou sem palavras. Pode ser que, daqui a nada, qualquer coisa aconteça em mim e a coisa se destrave e a ususal torrente aconteça. Mas agora tenho calor, tenho sono, penso na semana que tenho pela frente e as ideias esvaem-se como que sugadas por uma força que me é alheia. A televisão não dá nada que se aproveite e, imagine-se, a opção acabou por recair nos apanhados da SIC. Se me ponho a olhar, desato logo a rir mas não era bem isto que me apetecia estar a fazer. E eu estou com preguiça para ir buscar o livro que estou quase a acabar. Uma indolência recaíu sobre mim. Estive a passar as fotografias de hoje para o computador mas o vagar com que as vejo revela bem a vontade que tenho de ir. Ir. Ir sinónimo de estar no ir. Há uma saturação que cresce dentro de mim que não sei se tem a ver com a falta de férias, se com o calor se com outra coisa qualquer.

Seja o que for, fico-me pelas flores brancas e docemente perfumadas, sinónimo de uma tranquilidade que, cada vez mais, me é imprescindível. E fico-me pelo The thouhgt of you.




A tarde de sábado foi assim


Assim:



Com a diferença que, na maior parte do tempo, não estive deitada mas, sim, sentada. E com a diferença que não pareço irmã da minha filha.

E com a diferença que da cor daquelas duas formosas veraneantes está a minha filha e não eu. Nem nunca estarei. Nem nunca estive. Os morenos apanham um ar de sol e ficam com uma cor de dar gosto. Ela, tal como o pai e como o filho mais velho, têm uma pele fantástica, num tom mesmo bonito. O meu marido, então, ainda mais acentuado: apanha um raio de sol e vira marroquino (e eu tenho esta particularidade: gosto de homens tisnados). Eu ou fico vermelha ou mantenho-me branca. Na melhor das hipóteses, no fim do verão, adquiro uma leve tonalidade de pêssego. Mas está tudo certo. Já interiorizei esta minha deficiência. Já lá vai o tempo em que me sentia frustrada quando, regressada ao trabalho e achando-me detentora de um belo tom de bronze, toda a gente olhava para mim e, com pena, perguntava: 'Então...? Este ano não foi à praia..?.'. Agora, olhem, já aceitei: sou copinho de leite por dentro e por fora e nada a fazer.


E, em relação às duas beldades, também com a diferença que começo a assimilar que nunca mais terei o corpo que tinha há uns anos, e nem vale a pena ter uma alimentação moderada. É de mim, é da genética. E é da idade. E haja saúde.

E com a diferença que quer eu quer ela estivemos a ler. Ela mais que eu. Eu estive a fotografar, a conversar, a olhar para o ar. Ela esteve a acabar o Livro da Emma Reyes. Eu comecei o último do Pedro Juan mas achei que quando os tenho por perto prefiro dedicar-lhes toda a atenção. O Pedro Juan pode esperar. Amanhã logo me ocupo dele. Cubano danado. Ainda não perdeu a mão. Nas primeiras páginas comecei a arreliar-me. Frases muito curtas. Cortes despropositados. Não aprecio quando a lógica do corte não me parece elegante. Na escrita como na vida em geral a elegância é fundamental. Mas depois, com o caminhar da escrita, aquela carnalidade bruta do Pedro Juan voltou a impor-se. Não é coisa que se leia com o pessoalzinho à volta.


E já há figos. Já levaram para casa e eu já me alambei com alguns. Agora é que vou voltar a engordar de verdade. Os figos são bicho calórico. Pior: são bicho tentador, carne suculenta, mel rosado. O meu marido põe-se a olhar para mim e diz: 'Estás mais bonita'. Gosta de me ver com os quilos que eu acho que estão a mais. Naturalmente, fico balançada: ou agrado a ele ou agrado a mim. O pior é que, para agradar a ele, na verdade, também agrado a mim pois comer bem é, para mim, um dos prazeres da vida.


A casa cheira a orégãos. Os meninos fotografaram a mesa onde, ali na sala de jantar, os pus a secar. Um cheiro bom a campo. E os figos também cheiram bem. No outro dia tive que ir à farmácia a ver se comprava uma coisa para o meu pai. Enquanto esperava a vez pus-me a cirandar. Perfumes, cremes, loções corporais. Tentam-me. É aquele meu lado etrusco -- mas agora não vem ao caso pelo que não vou desenvolver. Uma loção cheirava a figos. Havia um tester: pus um bocado no braço. Cheiro bom. Mas vai que há mais quem, como eu, não resista a figos. Um risco. Não trouxe. Não quero chegar a casa já meio comida. Já basta o que basta.

E mais?

Assim de repente não estou a ver. Só se for que estava descalça, dei uma topada numa pedra. Agora tenho um dedo do pé super dorido e, acabei de constatar neste preciso instante, inchado e ensanguentado. E, note-se, já tomei banho pelo meio. Portanto, só pode ser grave. Ou seja, estou imprópria para dançar em pontas.



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PS: É certo que há aquilo do nome do agremiação do Flopes afinal não ser o Partido do Sexo e do Love mas sim Caves Aliança. Não tem graça, muito déjà-vu. Não comento. Só comento coisas que se aproveitam, não desinspirações, indigências. Sou caridosa.

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Até já.