quinta-feira, junho 16, 2022

Tempos sem tempo dentro.
Casas com a natureza dentro.

 



Nem vale a pena eu aflorar pois parecerá que estou para aqui a armar-me ao pingarelho. Ou bem que era precisa e explicava mesmo a complexa situação (que, a não resolver-se, terá pesado impacto económico e mediático) ou mais vale ficar calada.

O que posso dizer é que foi desde que me levantei até há pouco. Telefonemas a atropelarem-se, danças e contradanças, gente que se compromete para logo se descomprometer -- foi obra. E o complicado é que nada ficou resolvido. Por isso temo que me estraguem o feriado. 

Ao longo da minha vida profissional tenho passado por momentos em que me vejo em becos sem saída. Nunca é fácil. Mas mais difícil é quando se está com uma equipa em que não se tem confiança a cem por cento. Imagine-se, então, quando, ainda por cima, há muitas frentes abertas em simultâneo e a gente tem forçosamente que delegar (porque é fisicamente impossível estar em todas) e quando a gente sabe, porque sabe, que alguns não vão dar conta do recado. Fica uma danada sensação de insegurança.

Nunca mais consegui ter tempo para pegar num livro, nunca mais tive tempo de me sentar no cadeirão lá de cima de onde vejo a copa das árvores, nunca mais tive tempo para ter tempo para mim.

É muito absurdo isto de passar um dia e outro e outro e a gente deixar o tempo escorrer para o fim dos tempos sem conseguir agarrar nem um bocadinho dele. 

Faz tempo comecei um diário. Depois de andar há anos a pensar deitar mãos à obra, nesse dia pensei que era o dia certo para começar. Pois nunca mais tive disponibilidade nem disposição para retomar. 

No inverno ansiava pelos dias grandes, pensava que as horas de dia a mais bastariam para me dar a mim as horas de fazer coisa nenhuma por que eu tanta ansiava. Não tenho tido essa sorte.

Enfim. Adiante.

Tinha deixado as almofadas nas espreguiçadeiras e, apesar de estar a ouvir como que um longínquo ribombar e apesar de ver o tempo a escurecer, não dei logo conta da chuva. Quando dei por ela, fui a correr lá fora mas já as almofadas estavam ensopadas. Trouxe-as para debaixo do terraço e pu-las a ver se escorrem, sobre as costas de outras cadeiras.

Ao fim do dia fomos até à praia. O carro estava todo sujo. A chuva devia estar cheia de terra. E estava frio, vento, humidade. A pequena fera toda agitada com os pelos em remoinho pelo vento. 

Não tinha levado agasalho, tinha pensado que ia gostar de sentir na pele a aragem fresca e molhada. Mas estava para além disso e senti algum frio.

Vimos aquele senhor simpático que tem um cãozinho parecido com o nosso mas em ponto mais pequeno, um rafeirinho arraçado de urso felpudo, uma coisa muito fofa. No outro dia veio falar connosco, veio confirmar que o nosso é um Serra de Aires, diz que sempre gostou de Serras de Aires. O nosso gostou muito do mini me e foi amizade recíproca. Também achei o senhor uma simpatia. 

Vimos também um grupo animado. Riam-se, abraçavam-se, chegavam-se uns aos outros, faziam poses. Um outro, com equipamento profissional, filmava-os. Uma outra dava instruções. Reconheci um conhecido actor. Se calhar era o elenco de alguma telenovela. Há tantos novos actores e actrizes que não conheço que já começo a sentir-me um bocado fora deste mundo. Digo-o sem nostalgia mas com um sentimento bom de liberdade,

À hora de almoço fui dar uma volta com o urso felpudo, num instante, entre reuniões, em passada involuntariamente aeróbica. Voltei a passar pela casa em que os donos andam junto ao chão com um regador pequenino, um sachinho, uma pazinha a amanhar os pequenos canteiros. Em volta de cada árvore há uma fiada de amores-perfeitos, depois uma fiada de pequenos seixos brancos. Há um pequeno lago com fetos em volta, pedrinhas, mais amores-perfeitos. Tudo mimoso. Reparei que, num recanto, quase escondido, há um caracol colorido em cerâmica pintada. Kitsch e inocente. O senhor lá estava de joelhos, as mãos na terra, boné na cabeça apesar de estar à sombra. Enterneço-me sempre que passo por lá. Tudo ali mostra o amor e o vagar com que aquelas mãos tocam e tratam de tudo.

Há uma outra casa em que estão a arranjar uma zona do jardim. Estão a fazer não sei se será um jacuzi ou um lago. É pequeno mas fundo. No outro dia, a dona, uma mulher jovem de rabo de cavalo, estava lá dentro a colar pastilhas cerâmicas, uma a uma, à mão. Hoje vi que a superfície interior está quase coberta. Há quadradinhos azul turquesa, outros verde água. Antes das obras, estavam lá sempre dois cães que faziam uma dança de desafio e sedução com o nosso urso que correspondia, encavalitando-se na vedação, ladrando lá para dentro, saltando e dando ao rabo. Agora os cães desapareceram e o ursinho não compreende. Encavalita-se, espreita, anda de um lado para o outro a ver se os vê. Mas não. Não sei deles. Devem estar na parte de trás ou dentro de casa ou noutra casa. Engraçado, isto. Conhece ele melhor os cães vizinhos do que eu conheço as pessoas. 


E é isto. Nada mais a declarar. despeço-me com dois vídeos que vi e que mostram casas cheias de harmonia e natureza. Mesmo que se viva num andar, há-de haver maneira de levar a natureza até lá. As casas não podem ser tristes, soturnas, desligadas dos ciclos da vida. Pelo contrário devem ser acolhedoras, luminosas, amistosas. A vida das pessoas é mais feliz se a casa em que vivem for uma casa clara, tranquila, simples. E no outro dia li que mesmo umas bonitas flores artificiais transmitem a sensação florida e serena tão útil numa casa. Há solução para (quase) tudo.

A flood-proof home that looks to the river Thames for inspiration

Take a tour of former professional dancer and teacher Elizabeth Rose’s innovative stilt house. Sitting pretty above the flood plain on the banks of the River Thames, the timber-clad house, designed by Knox Bhavan, is a lesson in future-proofed architecture that takes cues from its natural surroundings.


How to Use the Principles of Biophilic Design in Your Interiors

Wildwood Spa is a private and secluded spa in the forest. This luxury one-bedroom self-contained spa sleeps two and is located in the picturesque village of Lee near Ilfracombe. It is nestled amongst 12 acres of private woodland on the North Devon coastline. 

It is a glowing example of how the principles of Biophilic Design can be applied to our interiors to create homes that are inspirational, restorative and healthy.

Studies have shown that biophilic design can provide opportunities for mental and emotional restoration by reducing stress, tension, anxiety, anger, fatigue, and confusion. It can also improve cognitive function and creativity. It can help to improve our physical well-being by relaxing our muscles, lowering our blood pressure and reducing stress hormone (cortisol) levels in the bloodstream. It can also speed up healing.

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Pinturas de Nazmi Ziya Güran.
Crying of Earth. OLOX duo com Gennady Tkachenko-Papizh, Jivan Gasparyan & Jivan Gasparyan JR

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Desejo-vos um bom dia feriado
Renascimento. Recomeço. Sorte. Paz.

quarta-feira, junho 15, 2022

Crises, chapéus, árvores

 


Tive um dia assaz complicado. E a complicação começou bem cedo. A meio do dia pensei: Não estou para aturar isto. Depois pensei: tenho que ser consequente. Mas não me deram tempo para equacionar cenários de retirada. E agora, depois da meia-noite, o que posso dizer é que não fui consequente. Daqui a nada começa o dia e ainda antes de começar já eu estarei enredada em pareceres jurídicos, crises, resoluções contratuais e outros petiscos que tais. 

Mas, como dizia, a procissão começou ao raiar d'alba. Aliás, estava a ter um pesadelo quando fui acordada pelo telefone. Em condições normais teria ficado possuída por ter sido acordada quase de madrugada. Assim, salvou-me do pesadelo. 

Já não é a primeira vez que tenho este pesadelo. Sonhei que estava com várias crianças cá em casa, um dos quais ainda bebé, e que eu mal dava conta de tomar conta de tantos. E que tinha pedido à minha mãe para se ocupar do bebé. E, à noite, tinha reparado que o bebé estava invulgarmente magrinho e sem força. E eu tinha perguntado à minha mãe se tinha dado de comer ao bebé e ela, toda chorosa, tinha confessado que, no meio da barafunda, se tinha esquecido. Desde manhã que o bebé estava sem comer. O meu desespero não se imagina. Tinha pegado no bebé, toda eu numa aflição, tinha preparado leite e uma papa e o bebé estava tão fraco que mal conseguia comer. E eu numa angústia, agarrando-o, eu chorando, pedindo-lhe desculpa, implorando que comesse, que ficasse bom.

Não sei de onde veio este sonho. Se calhar foi que na véspera eu estava a ver se os meninos estavam bem, se não queriam mais, e a minha filha gozou, disse qualquer coisa como que eu só estava bem quando os via a comer, que se pudesse lhes dava de comer à boca, nem sei se não falou em alimentar toda a gente à sonda. Qualquer coisa nesta base. Respondi que é coisa de caranguejo. Os caranguejos gostam de receber, gostam de cozinhar, de alimentar os outros. Nessa altura o mais velho olhou-me consternado: 'Acreditas em signos...? Uma pessoa inteligente... Agora decepcionaste-me, Tá...' Disse-lhe que acredito um bocadinho, que sei que não faz qualquer sentido, que é uma coisa muito sem jeito mas que a descrição dos caranguejos encaixa muito em mim. Gozaram comigo. E eu não consegui rebater os seus argumentos nem dizer nada em minha defesa. Há coisas que não se explicam.

Mas o dia foi todo recheado de problemas. Pior ainda porque há gente que não aguenta as contrariedades e rapidamente entra em pânico. E há os que, estando em pânico, se entregam imediatamente, declaram rendição num ápice. Ou seja, ainda nem o outro lado esboçou qualquer reivindicação e já eles abriram as pernas (pardon my french). Depois há os que, ao panicarem, bloqueiam, deixam de pensar, ficam em estado de estupor catatónico. Estes, nos casos piores, ficam burros de todo. E há os piores, os que ficam a mil, stressados, agressivos, implicantes, conflituosos. Hoje calhou-me de tudo. E o pior foi quando um incauto, nesse estado de pânico, resolveu destravar-se e tentar vir espetar-se contra mim. Não garanto que não lhe tenha levantado a voz, irritada. Por dentro, só pensava: não há paciência.

E, neste registo, fui andando até perto das oito da noite. 

Como estão longínquos os sonhos inocentes que alimentava nos meus trintas e quarentas de que aos cinquentas me retiraria ou me atiraria à gestão autárquica. Já nessa altura vivia com demasiada intensidade, imaginando que não me aguentaria assim para além dos cinquenta. Não sei que idade tinha, talvez trintas e tais, fiz um PPR para se vencer por volta dos cinquenta. Ilusões, ilusões. Ainda cá ando, devorada por problemas. Passo a vida a pedir -- ou melhor, a implorar -- que não me tragam problemas, que me tragam soluções. Mas qual quê. Todo o santo dia: 'temos aqui um problema'. A falta de mão-de-obra é total e generalizada e isso desespera quem não consegue ter equipas completas. 

O momento melhor foi quando, ao fim do dia, fui regar com mangueira. O jardim tem rega automática mas os vasos à frente, no terraço de trás e no terraço e nas escadas de lado têm que ser regados à mão. Agora, para não dar cabo dos ombros a transportar regadores de 10 litros de água, uso a mangueira. Já temos mais um ponto de água, onde pusemos uma mangueira, e no outro ponto há uma mangueira grande. Ando descalça a regar e, para não ficar toda molhada, vesti um fato de banho. Esta de ficar molhada tem uma explicação: uma das mangueiras tem um furo a meio e esguincha que é uma frescura, fica tudo molhado à volta. Afinal já estava um bocado frio, uma aragem um bocado húmida. Seja como for, soube-me bem andar à fresca, descalça, os pés no chão molhado.

O meu jardim está bonito, frondoso, as árvores verdejantes, compostas. Mesmo nos dias de muito calor, quando se chega da rua e se entra, sente-se logo a frescura, parece que se entra num outro clima. 

No outro dia, in heaven, a minha mãe dizia para a minha filha, referindo-se a mim: 'quis plantar árvores de metro a metro, não descansou enquanto não encheu tudo de árvores, agora está assim, uma mata'. Confirmei. Não terá sido de metro a metro mas era assim que, antes, quando o terreno era apenas mato rasteiro e pedras, eu imaginava un petit bois, o meu pequeno bosque, um lugar fresco, onde pudéssemos passear à sombra das árvores plantadas por nós. 

Aqui nesta casa também me agrada a ideia de ter árvores generosas, com boa sombra para acolher os nossos corpos quentes. O meu marido olha para as copas que se alargam e os ramos que tombam, verdadeiras cortinas arrendadas em verde, e tem vontade de desbastar. Não. Não quero. As árvores são fêmeas que acolhem nos seus braços os pássaros e quem queira acolher-se à sua beira. 


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As fotografias mostram os belos chapéus do Royal Ascot (love, love, love) e vieram ao som de Sarah Vaughan que interpreta Speak Low
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Desejo-vos uma boa quarta-feira
Beleza. Elegância. Harmonia. Paz.

terça-feira, junho 14, 2022

A arte da vida

 



Nunca sabemos quanto mais tempo vamos viver. Não conseguimos saber até onde o nosso corpo e a nossa mente aguentarão nem sabemos determinar até onde os acasos nos levarão. Nem sabemos se gostaremos de viver se vivermos para além do que seria necessário. 

As múmias que reescrevem a sua própria história e abrem caminho por entre o esquecimento para imporem os seus próprios memoriais e flausinices, querendo ficar para a posteridade ungidos em patine dourada, apenas mostram como são fúteis e vãs. 

Ou aqueles outros, pobres coitados, que inventaram ilusões para se desenharem aos olhos dos outros como inteligentes e hábeis executivos, tentando construir um património a partir do nada e depois escondendo-o, urdindo falsificações, e depois fugindo para a outra ponta do mundo para tentar comprar a imortalidade que lhe fugia por entre os dedos, acabam regressando a casa dentro de um caixão e sem amigos que amparem a queda num buraco de terra.

Ou aqueles e aquelas que se injectam e se cortam para repuxar a pele e eliminar os sinais do tempo querendo simular uma juventude eterna, em que eternidade acreditam? Com quantos anos se sentem quando se vêem no espelho? Tudo porque querem entrar gentilmente e de rosto liso e infantil na boa noite escura? Quantas inúteis quimeras.

Correr atrás de absurdos objectivos, acumular luxos, contabilizar likes, emojis, visualizações, seguidores, querer ter muitos amigos mesmo sabendo que são amigos virtuais, ostentar dias fantásticos esquecendo que isso é o mesmo que exibir medalhas de pechisbeque -- tudo coisas que, aos meus olhos, não fazem qualquer sentido.

Para mim, a vida é ir por um caminho e, a cada bifurcação, ir escolhendo por onde continuar, um passo depois do outro, um dia depois do outro, e, a cada dia, a cada passo, ir gostando do que se vê, do que se sente, do que se cheira e ouve, e ter sempre a motivação, a curiosidade, o encantamento de ir em frente. 


Há por aqui casas fabulosas, de uma arquitectura extraordinária. De vez em quando, quando vamos a passar, abrem-se os portões e saem grandes carros. Começo a conhecer as casas mas não conheço quem lá vive. 

Há uma casa que tem sempre as grandes portas de vidro abertas para o jardim. Nós passamos e conseguimos ver alguém reclinado num sofá, a ler, enquanto cá fora os cães brincam. Nunca consegui ver a cara das pessoas pois olho furtivamente.

Há uma outra casa que destoa um pouco: é muito grande, por fora é quase toda revestida a madeira, quase parece um conjunto de cabanas. As portadas estão quase todas fechadas. Mas, cá fora, numa mesa num recanto que mal se vê da rua, está às vezes um homem a trabalhar num computador. Acho estranho. Não sei se vive sozinho naquela casa tão grande e quase sempre toda fechada. O meu marido diz-me que sei lá eu se ele está a trabalhar. Penso, mas não digo, que pode estar a escrever um livro.

Numa outra casa que se percebe que é das mais antigas, vive um casal já de alguma idade. O jardim é mimoso e costumo vê-los, ambos de chapéu, debruçados sobre os canteiros, por vezes de joelhos, plantando amores-perfeitos, colocando pedrinhas em volta, com umas tesourinhas aparando indesejados rebentos, tratando dos vasinhos. Se os visse na rua não os reconheceria pois creio que nunca lhes vi o rosto.


Costumamos cruzar-nos com um senhor que agora anda de calções e com um chapéu. Anda a passear o seu pastor alemão. Cumprimenta-nos, o cão puxa e rosna, quer atirar-se ao nosso mas o senhor diz que é só aparência de mau. Consigo identificar o binómio cinotécnico mas, se o visse sozinho, acho que não conseguiria identificá-lo de per se

Há também uma senhora que anda a passear a sua cadela. Não a leva pela trela. Diz-nos que ela não faz mal. Mas ela não lhe obedece e, em vão, a senhora farta-se de chamar e dar-lhe ordens. Há aquela dinâmica entre elas, ficando a ideia de que a cadela é que manda na senhora. Quando passamos por ela, a senhora ri-se, desculpa a cadela, 'É assim mas é só para brincar, não faz mal a ninguém'. A cadela permanece indiferente, a fazer das dela, não perde tempo a justificar a senhora.

E há um homem bonito que anda de bicicleta pelo caminho de fora e que leva um cão bonito pela trela, agarrada à bicicleta. O senhor sorri, cumprimenta-nos e diz bom dia mas, quando fala com o cão, não percebemos o que diz, ainda não conseguimos identificar aquela língua. Se o vir fora da bicicleta e sem o cão estou certa de que não o reconhecerei.


E eu, que sempre participei na elaboração de planos estratégicos e na definição de visões e outras coisas supostamente rigorosas e relevantes e que sempre tanto gostei de conhecer outras terras, museus, galerias, lojas e tudo o mais, agora sinto-me feliz com as coisas mais simples, viver um dia de cada vez, estar no meu jardim a ouvir os pássaros, estar com os meus, tratar da casa, caminhar por aqui, ver os jardins das outras casas, entrever o corpo de alguém que lê na sua sala, cruzar-me com pessoas que passeiam o cão e nos cumprimentam com um sorridente bom dia. 


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A propósito, deixem que partilhe um vídeo muito tranquilo, onde as palavras e os gestos são vagarosos, serenos e simples. Felizmente está legendado em português (do Brasil...). Traduzo (às três pancadas) o texto de apresentação no youtube.

A arte da vida
Como uma estrela em ascensão no campo da matemática abstrata, Michael  Behrens descobriu que podia ver beleza e padrões onde outros não conseguiam. Mas o seu caminho não era estar dentro da academia, nem mesmo dentro da sociedade. Ele partiu numa grande aventura para unificar o seu budismo com sua capacidade de ter uma visão expandida da realidade. Ele criou beleza num lugar onde ninguém mais o faria, e fez amigos entre os golfinhos.

Zaya e Maurizio foram ao Havaí há alguns anos e, numa praia remota, conheceram Michael. Depois de um tempo, ficou claro que Michael não era um homem comum… Nós conversamos sobre física quântica, budismo, espiritualidade, arte e ele convidou-nos para a sua casa depois de se certificar de que tínhamos “sapatos suficientemente bons”

Logo depois de estacionarmos o carro numa estrada remota, entendemos o porquê…Michael mora no meio de uma selva densa, a 20 minutos da estrada num terreno que ele mesmo limpou. …à mão!!!

Ele levou todo o material aos ombros e construiu um jardim incrível baseado na geometria sagrada. Um lugar incrível dedicado à beleza e impraticabilidade...

A casa não tem água corrente no interior, apenas um chuveiro do lado de fora e sem eletricidade. Michael comprou recentemente um pequeno painel solar para poder continuar a sua pesquisa e comunicar através de seu computador com outros matemáticos e com o mundo. (...)


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Pinturas de Claude Monet ao som de Jacob Collier - Never Gonna Be Alone (com Lizzy McAlpine & John Mayer) 

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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Boa sorte. Confiança. Paz

segunda-feira, junho 13, 2022

Com vossa licença, agora vou falar um bocadinho a sério

 


À hora de almoço, já por volta das três da tarde, liguei a televisão. Não sei qual o canal ou o programa mas sei que se apresentavam equipamentos que aliam a inteligência artificial à realidade aumentada. Mostravam como um cirurgião pode estar a operar e, através dos óculos, não apenas vê o doente como vê imagens ou instruções relacionadas com o que tem que fazer. Ou como a cirurgia pode decorrer sob orientação de um outro médico num outro país. 

Nada disto me é estranho. A par dos avanços a nível da computação (tantas vezes tão perigosamente desregulada*) há os avanços a nível das comunicações. Quando se faz uma incisão ou quando se tem que extrair um tumor não se pode ficar à espera que as comunicações se refaçam, caso vão abaixo ou caso haja um delay que ponha em perigo a saúde do paciente. 

Agora, com as tecnologias 5G (e 6G) e com a computação na nuvem, poderosa, ubíqua, a ciência médica está numa daquelas fronteiras em que, daqui por algum tempo, olharemos para trás e ficaremos espantados com a falibilidade e demora nos resultados dos exames, na falibilidade na interpretação e diagnósticos por parte dos médicos.

Só que, no mesmo dia, era notícia de abertura a falta de médicos nas urgências e as fatais consequências que isso está a provocar. Várias urgências fechadas em várias especialidades. Um bebé que se perdeu por falta de assistência atempada. E não sei se foi o único.

A ideia de que uma mãe, depois da alegria e ansiedade da gravidez, quando vê chegada a hora, não tem quem a acuda, deixa-me muito perturbada, parte-me o coração.

Há poucos médicos no país e há pouca organização nos hospitais. Não sei se os horários estão bem feitos, se as escalas estão ajustadas. Mas sei que quando se fazem horas extraordinárias, em especial ao fim de semana, se adquire o direito a dias de compensação. Fazer horas extraordinárias é uma bola de neve de custos e ineficiências. Quando se gozam esses dias de compensação, como as equipas estão curtas, alguém terá que compensar, fazendo mais horas extraordinárias. Mas há limites legais às horas extraordinárias. Portanto, é um círculo vicioso do qual é difícil sair.

Supostamente, não se podem gozar férias ou compensações sem autorização. Por isso, se os médicos e enfermeiros foram todos gozar férias ou dias de compensação durante estes dias de junho é porque alguém os autorizou.

Mas para isso, as chefias têm que estar a ver os dias de férias que as pessoas pretendem gozar e têm que avaliar se não estão a ir vários ao mesmo tempo. Se as chefias não o fazem, quando se dá por ela, chega o dia e a escala está incompleta. E se faltam enfermeiros, anestesiologistas, técnicos de eletromedicina ou médicos, a equipa não pode funcionar. Fecha o serviço.

Ou seja, a ciência avança a toda a velocidade em tudo o que é de ponta mas descura-se o básico, descuram-se os processos. Aí onde deveria haver automatismos para racionalizar horários e escalas, automatismos para calcular o número de técnicos, enfermeiros, auxiliares, técnicos, médicos por especialidade, não há nada que se aproveite. É tudo a olho, à mão, ingerível, sujeito a todo o tipo de falhas e erros..

Não sei quais os projectos que o PRR vai financiar mas a área da organização, da automatização de processos em organizações complexas, deveria estar contemplada. Sem gestão, sem boa gestão, sem gestão controlada, nada funciona.

E não apenas a da automatização de processos deveria estar contemplada: também a da construção de modelos de apoio à decisão. 

A Investigação Operacional -- e, no caso dos Hospitais, a teoria das Filas de Espera -- deveria ser obrigatória. Atendendo à sazonalidade das doenças, à criticidade das enfermidades e à reputação da instituição que se pretende manter, consegue determinar-se qual a duração máxima admissível para uma espera numa sala de atendimento hospitalar. Haverá casos em que a espera pode chegar às duas horas e daí não virá mal ao mundo. Mas se chegar às seis ou oito, de forma continuada ou se alguém morrer sem ser atendido, aí ter-se-á pisado a linha vermelha. Com o indicador do tempo máximo de espera, a estimando-se o afluxo de doentes e a duração média de atendimento, consegue determinar-se qual o número de equipas de atendimento. 

Nada disto é transcendente. Mas requer conhecimento, requer compreensão pelos factores que influenciam o comportamento dos sistemas, requer investimento, requer liderança.

Muitas vezes tudo isto parece óbvio e, no entanto, não se consegue levar adiante pois haverá sempre alguém que se opõe, alguém que não acredita, alguém que boicota, alguém que desiste perante as dificuldades.

E, no entanto, enquanto isto não for encarado sem os holofotes do mediatismo e sem a leviandade dos néscios, somos nós, os utentes, nós que quando ficamos doentes nos sentimos impotentes e indefesos, que ficamos à mercê de uma máquina complexa -- em que uns estão cansados, outros desmotivados, outros distraídos, outros contrariados -- que nos pode deixar entregues a um acaso que, por vezes, não é misericordioso.

Mas uma coisa é o cálculo digamos que mais ou menos científico dos recursos necessários por especialidade -- outra é a capacidade para pôr em prática o resultado dos cálculos. Por exemplo, se não houver recursos, não os podemos inventar.

Então, é preciso alargar o âmbito da análise e, neste caso, pensar a montante. 

Não seria difícil às equipas de investigação das Matemáticas determinar o número de vagas que deveriam ser abertas nos próximos anos das Faculdades de Medicina para optimizar o preenchimentos das necessidades (seja no Público, seja no Privado). Se há x doentes disto, y daquilo, localizados geograficamente consoante uma distribuição conhecida, se em média, as pessoas de cada grupo recorrem às urgências ou ao ambulatório z vezes por ano, se isso desencadeia internamentos em w% dos casos, se implica t% de cirurgias, etc, etc, então, deve haver n médicos de cada especialidade e o mesmo para as restantes categorias profissionais. Conjugue-se isso com a idade dos que hoje trabalham para prever quando saem do activo e conseguir-se-á chegar à matriz das necessidades.

Ouço dizer que é a Ordem dos Médicos, podre de corporativismo, que boicota a abertura de vagas nas Escolas de Medicina. Não sei se é, se não. Mas sei que as políticas públicas e a necessidade nacional devem ter prioridade sobre os interesses de classe.

¨[via PdC]

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Caminhamos, pois, a diferentes velocidades. As tecnologias avançam, a ciência avança. Mas a organização e a compreensão do que deve ser feito para que a organização seja mais eficiente não avançam. Pelo contrário, por vezes até parece que regridem.


Isto é agravado, naturalmente, pela maior longevidade das pessoas, que acarreta mais doentes a tratar durante mais anos e, cada vez mais, pelas epidemias, pelos novos vírus, por uma série de ínfimos organismos em transumância dos bichos para os homens e, se calhar, dos homens para os bichos, pelas doenças resultantes de um planeta cada vez mais exausto, instável e febril.

Sabemos sequenciar os genomas, sabemos fotografar estas células misteriosas que imobilizam o mundo. Mas não sabemos como evitar ficar reféns delas nem como restituir as coisas à sua normalidade primordial.


Já aqui o disse várias vezes: deve haver grupos de reflexão que identifiquem os grandes desafios dos próximos anos. São muitos e todos eles urgentes. Prioritizá-los e arranjar recursos humanos e financeiros para os tratar requer uma conjugação de ideias. E quem deve contribuir para essas ideias não devem ser os assessores de pacotilha que pululam pelos centros de poder nem os amigos dos amigos dos amigos. Não: tem que ser gente com cabeça e que contribua com ideias para o bem de todos, sem pensar no seu próprio bem.

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Há uns anos, muitos, um amigo foi passar férias a Marraquexe. Quando chegou vinha encantado com os hábitos daquelas gentes mas dizia que mau, mau, tinha sido o calor. A temperatura era elevada, a humidade baixa. Falava: para cima de 40º, insuportável. Nessa altura, eu era ainda muito novinha, não tinha ideia de ser habitual temperaturas tão elevadas, custava-me até pensar como seria possível viver com temperaturas tão elevadas. Agora, por cá, temperaturas assim começam a entrar na nossa habituação. Mas o que custa... Estes dias têm sido terríveis, um calor abafado. E sabemos que não vai voltar ao que era antes pois estamos na recta ascendente das temperaturas.

O mundo não está a ser capaz de inverter a tendência da decadência do planeta. A habitabilidade estará cada vez mais comprometida num número crescente de pontos do planeta. E nem falo na loucura da guerra que um qualquer psicopata pode desencadear e em que o resto do mundo fica impotente, incapaz de travá-lo.

Como será viver neste planeta daqui por um par de anos? Temperaturas insuportáveis, seca, doenças, pragas, escassez de profissionais, escassez de materiais, descontentamentos generalizados... e as instituições desorganizadas, sem recursos suficientes, desnorteadas sem saberem como acorrer a todas as necessidades?

O mal não é apenas nosso, português, mas compete a cada país traçar as políticas que invertam o declínio que parece estar a tornar-se inexorável. Seria bom que o Professor Marcelo, em vez de andar por aí num permanente carrossel de 'bocas', condecorações, visitas e abraços, pensasse no que poderia fazer para que por cá, neste nosso pequeno rectângulo, se começasse a equacionar o futuro com o pragmatismo que se impõe.

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E o futuro já aqui tão próximo. 

Por exemplo: Calor mata trabalhadores migrantes no Catar


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A música é Falling na interpretação de Julee Cruise que se foi há poucos dias

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Desejo-vos um bom Dia de Sto António
Saúde. Confiança. Paz


domingo, junho 12, 2022

Um sábado com saborzinho a domingo


Dia bom, tranquilo. Tinha pedido para não me acordarem mas nasci para sofrer e esta de não me deixarem dormir é cruz que parece que nasceu pregada às minhas costas: às oito e picos já eu estava a ser incomodada com um barulho estranho aos pés da cama. Era o urso com um ténis do dono, balouçando-o pelos atacadores, fazendo um chinfrim. O meu marido tinha saído do quarto e deixado a porta aberta e, claro está, o abusador-mor não perde uma oportunidade para ver o que pode fazer  de interdito. Ainda tentei dormir mas já não deu.

Fomos às compras ao centro comercial. Não quis ir sozinha e, está bom de ver, tive que vencer uma grande resistência. Tudo lhe serviu de desculpa. A última agora é: 'Coitado do cão, tem que ficar sozinho'. Sim, sim. Mas lá veio. Centros comerciais para o meu marido é quase tortura e ir para um ao fim de semana para ele é sinónimo de bater no fundo. Mas com este calor, animou-o a perspectiva de toda a gente ter ido para a praia e aquilo estar deserto. Mal entrou no parque de estacionamento e o viu cheio, ficou logo com vontade de dar meia volta. Convenci-o a ir para um piso mais abaixo pois já sei do que a casa gasta: se tem que dar algumas voltas para descobrir um lugar, fica logo mal disposto e, a partir daí, a coisa tem tudo para correr mal ou seja, ainda não entrou e já está deserto para se vir embora..

Curiosamente, por sua alta recriação, lembrou-se de aproveitar a ocasião para comprar uns jeans. Aqueles com que mais anda estão velhos, largos, já sem ponta por onde se pegue. Por mais que eu lhe diga que vista outras calças, diz que se sente bem com eles. Lavam-se e vestem-se, lavam-se e vestem-se. Só ainda não se desfizeram porque a ganga deve ser de boa qualidade. Mas estão coçados que só visto. Não gosta de sentir a roupa justa pelo que não adere às modelos fit nem por mais uma. Na loja pegou numas, tradicionais na cor e no corte, foi ao provador e dali para a caixa. Não experimentou outros modelos nem outros tamanhos. Mas pronto, vá lá, aleluia, pelo menos comprou uns jeans.

É tão raro ir agora ao shopping que tenho sempre vontade de dar um giro a ver em que param as modas. Mas o meu marido é a antítese do consumidor ideal. O nosso propósito era um e não admite um milímetro de desvio. Claro que eu poderia ter ido à revelia mas como continuo em processo de rehab, também não insisto. Continuo a achar que não tenho falta de nada. 
[Contudo, no outro dia, por acaso cedi à tentação. Num dos dias em que fomos para o campo depois do trabalho, fomos buscar o jantar a um restaurante e, entre o escolhermos e o irmos buscar, demos uma volta por ali. E, então, vi uma loja de roupas gigante. Uma loja chinesa, como é bom de ver. Já passava das oito e eles abertos. Claro que o meu marido se passa 'Dizes que não tens falta de nada mas nem a um chinês resistes.' Não quis saber, fui dar uma circulada. E vi umas blusinhas bonitas e uns calções brancos a bom preço (uso imenso calções brancos e estou sempre a precisar, pois quero ter no campo e aqui em casa, e já se sabe que coisas brancas se sujam bastante; ou melhor, mal se sujam, nota-se logo). Uma das blusinhas, em florzinhas azuis, muito fresca e bonita, tinha umas cavas largas demais. Trouxe na mesma e pedi à minha mãe para ver se podia ajustar debaixo dos braços. Fartou-se de protestar. 'Mau corte, fazem tudo mal feito, descose-se para arranjar e depois é uma chatice porque as costuras e os pespontos parece que são feitos de outra maneira, é difícil bater certo'. Pedi que não complicasse, que cortasse e refizesse a costura. Diz que ela é que sabe, que não gosta de fazer 'albardices' e, que, se lhe peço para arranjar, é para ficar bem arranjado. Pronto, ok.]

Mas, tirando isso, é abstinência. Não preciso mesmo de mais nada. 

Mas a tentação ainda chama por mim. Por exemplo, a perfumaria. Olhei e vi um cartaz com promoções. A vontade de lá entrar e estar a experimentar perfumes só eu sei. Por acaso, numa das lojas, ao pagarmos, tinham testers de perfumes da marca da casa junto à caixa. Pulverizei um braço e um bocado do vestido apesar de ser perfume de homem. Foi mais forte que eu. Quando entrámos no carro, o meu marido admirou-se: 'A que é que cheira? Não me digas que puseste perfume?'. Pois foi. 

A seguir ao almoço, reclinei-me no sofá e pus-me a ver uma série na Netflix. Gosto de séries e filmes escandinavos. Chateia-me é ter que estar a ler as legendas porque não pesco uma palavra. Mas, enfim, é o que é. A verdade é que gosto bastante. Aqui não há muito tempo, num fim de semana, vi o Toscana. Agora estou a ver Dois Verões. Não há cenas às escuras em que a gente não vê metade, não há tiros nem perseguições, não há macacadas parvas. Há luz, boas interpretações, histórias simples mas bem urdidas. É do que ando precisada. Não me apetece puxar pela cabeça nem pela visão.

De tarde, tivemos cá meia trupe, como sempre bem dispostos e ruidosos. A outra metade andava pelos santos, a petiscar e a flanar. Íamos recebendo fotografias deles, verdadeiros turistas, ora de trotineta ora nos comes. Lisboa sempre bela e animada, acolhedora para quem a quiser viver.

Às tantas, por cá, eu estava a fazer uma coisa que o meu dog guard deve ter interpretado como se eu me estivesse a colocar em risco. Então, tentou impedir-me. Tentou agarrar-me, encavalitou-se em mim a bater castanholas com os dentes, coisa que eu acho que ele usa como manobra intimidatória. Eu dizia-lhe: 'Que estupidez é essa? Aiii!!!! Quieto!!!!' coisa que agora já costuma resultar mas que, no caso, não surtiu efeito. Então, nesta manobra, cheguei-me para trás sem ver que um dos meninos estava atrás de mim. Ou seja, caí por cima dele. Levantámo-nos todos a rir com o moche que a avozinha fez ao netinho. Claro que, com todos estes reboliços, a pequena fera fica meio desatinada. 

Nestas alturas, o meu marido retira-se. Creio que vem deitar-se no sofá da sala, não sei se a ver futebol se a dormitar. Hoje, o mais velho, quando se estava a despedir, disse que o avô tem cenário ou que tem estilo, qualquer coisa do género. Ficou admirado. O mais novo confirmou, pelos vistos também acha. Sendo de poucas palavras e zero gestos de carinho, a verdade é que os netos gostam mesmo dele. Achei graça. 

Jantámos na rua. Não tive que fazer nada, apenas compor uma salada. Foram os restos da churrascada da véspera. O terraço com o jasmim e as buganvílias em flor, a noite quente de um dia grande, o lusco-fusco já com as luzinhas solares, fica um cantinho acolhedor. Gosto de luzinhas, grinaldas com luzinhas. Arranjei umas bolas brancas muito simples. Fica bonito. 

E, pronto, nada mais a reportar. Não vi televisão, não sei de notícias, não li, não fotografei, não cozinhei. Por isso, hoje não passa disto, cenas desta minha simples vidinha.


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Numa tentativa de vos oferecer qualquer coisa para que a passagem por aqui não seja completamente dada por perdida, eis um vídeo em que um assistente de bordo ilustra as instruções de segurança a bordo de forma assaz criativa e bem disposta. 


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Pinturas de Alma Thomas ao som de Água de Beber, de António Carlos Jobim, pelo Stringspace

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz

sábado, junho 11, 2022

Um dia no campo

 


Por vezes, quando ligo o computador à noite, penso que não vou ser capaz de escrever nada. Hoje é um desses dias. Estou sem força para puxar assunto. Tenho sono.

Uns dias porque as reuniões tiveram que ser muito cedo, outro porque fui, bem cedo, fazer análises, hoje porque o programa de festas assim o exigia, a verdade é que todos os dias fui acumulando défice de descanso.

Na quinta feira, depois de ao fim da tarde ir fazer alguns exames de revisão (e, noc-noc-noc -- três vezes na madeira -- parece que so far so good), fui ao supermercado. Vim de lá tão carregada que nem consegui tirar os sacos do carro. Quilos de carne. Feijão preto. Muito pão. Muita fruta. Sumos. Cebolas. Couscous. Azeitonas. Tremoços. Sei lá. Às tantas nem sei bem calcular as quantidades certas para cada coisa. 

É uma realidade em geometria variável. São muitos e a malta miúda come se não houvesse amanhã. O mais crescido já está bem mais alto que eu. Já começou a dar aquele salto que dão os rapazinhos quando se preparam para virar adolescentes. E todos os dias está maior, mais assertivo, mais divertido.

À saída do supermercado, tinha conseguido enfiar os sacos no carro,  porque não tinha outro remédio mas, ao chegar a casa, quando fui tentar tirá-los, mostraram-se inamovíveis. Tive que chamar o meu marido, pois claro. Depois foi arrumar tudo, parte no frigorífico, parte no saco que haveria de seguir viagem. E esta sexta-feira, logo de manhã, ala moço que se faz tarde, vá de arrumar tudo e ir buscar a minha mãe. De lá seguimos para o campo. Churrasco. Quando chegaram, já eu tinha separado as carnes de frango num tabuleiro, as de porco noutro, as de vaca noutro. Separado e temperado, cada umas de sua maneira. Quando chegaram, o meu filho ateou o fogo e, a seguir, de avental e tudo a preceito, atirou-se ao trabalho. Um cheirinho bom a churrascada, aquele apetite que logo é ateado.

Tínhamos pensado comer cá fora. Montámos duas mesas para complementar os lugares da mesa residente debaixo do telheiro. Mas estava calor e muito insecto. Então, levantámos o arsenal que tinha sido levado para lá e fomos montar arraiais na sala de jantar. O meu marido estava um bocado aborrecido porque o ano passado trocámos de mesa para termos uma maior e afinal a mesa grande continua a não ser solução. Tivemos que montar mais duas. Depois de almoço, quando estávamos na cozinha, disse ao meu marido, que se calhar devíamos ter uma outra mesa grande. Ia-se atirando ao ar. Não percebi aquela reação. Explicou: 'Andaste meses à procura de uma mesa grande e já estás a querer trocá-la por outra?'. Mas não era isso: a nova é para manter, o que eu dizia era uma desmontável maior do que uma das duas desmontáveis. Mas ele não quis ouvir. 

Outra das dificuldades é ter onde colocar todos os tabuleiros da comida. Com a sala (que, por acaso até nem é pequena) com tantas mesas de refeição e, portanto, com menos espaço de circulação, temos que colocar a comida onde qualquer um possa servir-se sem incomodar os restantes. O melhor sítio que arranjei foi uma mesa que está na sala que está dois degraus abaixo, e pôr a mesa mesmo encostada aos degraus. Felizmente, o urso felpudo portou-se como um gentleman: não atacou a comida.

O dia foi uma maravilha. Todos bem dispostos, os meninos muito unidos, sempre a brincarem, a luz muito bonita. Muitas fotografias para ilustrar a boa onda, os bons momentos, os saltos, as brincadeiras, os sorrisos, o sol, as cores.

À tarde, não sei como conseguiram lanchar. Eu não consegui. Mas eles sim. Acho extraordinário. A minha filha nunca foi muito comilona mas o meu filho sempre comeu bem e na adolescência eu ia aumentando a dose a cada semana que passava e era um processo sempre incremental. Mas agora a realidade é uma realidade aumentada. Tenho que multiplicar por muitos esta dúvida. Pensava que só queriam lanchar uns iogurtes e uma fruta e que cachorros só lá para mais tarde. Mas não. Às seis e tal, já estava tudo pronto para um lanche a preceito. Cachorros, batatas fritas e, pronto, vá lá, alguma fruta. Só uns quantos juntaram iogurte. E, todos, é bom de ver, o célebre bolo de cenoura com cobertura de chocolate da bisa.

Quando, ao fim do dia, se foram todos embora, fui arrumar a casa e recolher os pertences: um par de meias debaixo de uma das mesas, um elástico do cabelo, umas havaianas num canto do corredor. No outro dia, dois pares de óculos escuros. 

Depois fomos levar a minha mãe. E depois regressámos. 

Eu cansada. E o que bebi de água ao longo do dia...? Não é que a comida estivesse salgada. Ponho pouco sal. Compenso com as ervas e os outros temperos. Não sei se foi do calor, se do movimento. Mas, mais que eu, o urso felpudo. Durante todo o dia com tanto movimento e tanto barulho, não conseguiu pregar olho, não conseguiu descansar, tão pouco comeu. Chegou, atirou-se para o chão e ainda está no mesmo sítio, ferrado.

E eu, agora, tenho que me ir deitar. Mas, antes, ainda vou à cozinha beber mais um copo de água. Este sábado, que me vai parecer um domingo, vai ser um novo dia. E eu já fiz o pedido: que ninguém me acorde. Please.


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As fotografias pertencem ao conjunto The week in wildlife – in pictures e vêm na companhia de Peter Gabriel com Quiet Steam (thanks K.)
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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Afecto. Paz

sexta-feira, junho 10, 2022

O carteiro que queria para si as cartas dos outros

 



Quando acontece um qualquer crime, os polícias e os jornalistas vão interrogar vizinhos e conhecidos. E, salvo raras excepções, verifica-se que foram todos colhidos de surpresa. O suspeito é quase sempre uma pessoa reservada, tida como boa pessoa, nunca se soube de problemas, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, por vezes até acontece que ia tomar um café e cumprimentava toda a gente, alguém dirá que era amigo de seu amigo. 

Todos põem em perspectiva os tempos anteriores em que nada o faria prever e dirão que não compreendem, que parecia uma pessoa normal, uma pessoa de bem, que nunca arranjou problemas com vizinhos, que se metia em casa lá com as coisas dele. Ninguém saberá dizer ao certo que coisas eram essas, era pessoa de poucas falas. Mas sempre muito correcto. 

Alguém lembrará que um dia em que chovia e ventava com força, o viram a ajudar a Dona Adelina que, coitada, já velhinha, quase ia levada pelos ventos, a chuva batendo-lhe em todas as direcções. E, ao ouvir lembrar esse gesto delicado, outro se lembrará que, noutra vez em que ardeu um bocado de mato nas traseiras do Vizinho Manuel Coelho, ele foi dos primeiros a aparecer com um balde e uma pá para ajudar no que fosse preciso. Prestável mas acanhado, concluirão.

Mais tarde as televisões mostrá-lo-ão a sair do carro da polícia à entrada no tribunal. Irá de cara baixa, tentando encobrir-se do olhar dos outros, talvez vá envergonhado, talvez arrependido. Ou talvez apenas não queira sentir a rejeição que os seus actos provocaram.

Geralmente é assim.

Neste caso não sei pois, do que averiguei, pouco se sabe. Mas não me admiraria.

O nome não foi divulgado. Sabe-se apenas que tem 62 anos.

Vivia sozinho em Biar, um lugar no sopé das montanhas de Alicante. Pouco mais se sabia dele. Era normal. Reservado.

Um dia vendeu a casa. E não a esvaziou. Deixou a casa cheia de sacos cheios de coisas. Em todas as divisões deixou ficar aqueles sacos cheios. 

Teve que ser a equipa contratada pelos novos donos para renovar a casa a remover o lixo. E foi então que descobriram o que continham os sacos: cerca de vinte mil cartas, muitas ainda seladas, incluindo facturas, documentos oficiais. 

Ao que parece, o carteiro acidental ia aos Correios buscar a correspondência e, em vez de distribui-la pelos destinatários, guardava-a em casa. Durante um ano aconteceu isto até que, por irregularidades mal explicadas, foi demitido.

Ainda pouco mais se sabe. Será que lia as cartas? Será que construía histórias a partir do que lia? Será que as palavras dos outros lhe faziam companhia? Ou será que não sabia ler e não sabia a quem deveria entregar as cartas?

Um dia saber-se-á. Para já está preso. 

Talvez um dia as cartas venham a chegar aos seus destinatários. Ou talvez já não façam qualquer sentido, talvez a vida das pessoas tenha seguido por outro caminho.

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Já agora, um outro carteiro que sempre me enternece: o Carteiro de Pablo Neruda

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Fotografias de Nick Knight na companhia de La Petite Fille De La Mer (Vangelis)

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Desejo-vos um bom dia

Poesia. Beleza. Tolerância. Generosidade. Afecto. Paz.