sexta-feira, setembro 14, 2018

O caçador de veados


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O lugar é quase no meio do nada mas é um encanto quer a nível paisagístico quer a nível de arquitectura, decoração e do que proporciona: é um turismo rural nas redondezas de Vila Velha de Ródão e quem esteja interessado facilmente lá chega. Ao pequeno almoço para além do normal, tínhamos umas deliciosas empadas. Trouxémos queijos e mel. Também jantámos lá. Muito bom.

Em volta das casinhas há árvores que rivalizam com as minhas em passarada. Tanto pássaro, tanto chilreio. Acordar a ouvir belos trinados é do melhor que há, parece que estamos no céu. E à noite? Como festejam a alegria da sua liberdade...

Ontem, quando fui saber uma coisa à recepção, um rapaz bonito -- gigante, de cabelo muito curto, com botas e vestido com roupa desportiva em cor de azeitona verde-seco claro -- estava ao telefone, em português. Quando me viu à porta, disse-me num inglês fluente que a senhora da recepção já vinha, que tinha estado a falar ao telefone com ela. Disse-lhe que era portuguesa e ele riu-se e pediu-me desculpa.

Depois vi vários outros homens vestidos da mesma maneira, falando alto, rindo. Falavam em francês, o gigante falando um francês fluente com eles. Vários cães muito pretos corriam em sua volta.

Hoje de manhã, como sempre, acordei com o meu marido a regressar de uma caminhada. Disse-me que num telheiro, junto às máquinas, junto a um dos extremos do lago, estava uma cabeça de veado mas que dava ideia de já ter alguns dias.


Quis ir ver. Perguntei-lhe se não fazia impressão. Ele disse que achava que não mas que eu visse de longe.

Mas não sou de ver de longe. Aproximei-me. Fotografei. Qualquer coisa de majestoso naquela grande cabeça, naquelas imponentes ramificações e, ao mesmo tempo, alguma tristeza pela rendição impotente ali tão patente. Uma vida e um corpo reduzidos a uma coisa que se vai ser um troféu de caça.


Depois, voltámos e fui sentar-me à sombra, a ler. Lá do alto, de entre o portão da herdade, vi que a carrinha quase dourada, de caixa aberta, regressava.

Quando parou ao pé das casas, saíram os homens, saltaram os cães. Era o gigante que vinha a conduzir. O meu marido chamou-me a atenção para a faca que trazia à cintura. Não era uma faca: era um grande punhal.

Falavam em francês, estavam animados. Os cães também estavam contentes.

Como estava muito calor, mudei de lugar. E entrei em casa, fui beber água. Depois sentei-me à porta de casa. 

Passado um bocado, o meu marido veio dizer-me que tinham caçado um veado, que estava na carrinha. (Chamo-lhe carrinha mas não deve ser o nome. Mas não sei como se chama, não sei se será um SUV de caixa aberta). 

O gigante estava à porta da casa onde estavam os outros, que tinham entrado, e falava animadamente para dentro, num francês fluentíssimo.

Disse ao meu marido que queria ver. Levantei-me, fui ter com o gigante. Talvez trinta e tal anos, certamente mais de um metro e noventa, um porte impressionante, escultural. Cabelo claro, rapado, olhos muito verdes, muito claros. Disse-lhe: 'Apanharam um veado, não foi? Posso ver?'. Ele disse-me num português com um sotaque que na véspera eu não tinha percebido: 'Já o esventrámos. Para não estragar a carne, limpamos logo. Pode não ser bonito de ver'. Respondi: 'Gostava de ver'. Ele veio comigo, os cães brincando em volta. Ia com a minha máquina.

Então o gigante começou a falar: 'É um veado velho. E teve uma morte digna'. Olhei-o, espantada. 'Neste contexto, o que é ter uma morte digna?'. Ele explicou: 'Deixámo-lo correr, reagiu com os seus instintos'. E acrescentou: 'E não sofreu. Isso, para mim, é fundamental'. Cheguei ao carro. Ele voltou a avisar: 'Não está bonito para ser visto. Pode impressionar'. Espreitei. Um animal enorme. Enchia toda a caixa aberta do carro. Uma armadura imponente, um pêlo de uma bela cor, uma cabeça de belo porte. E lá estava: todo o peito até à barriga aberto e ensanguentado. Mas isso não me incomodou.

O gigante, com aquele belo rosto de deus grego e aquele olhar límpido, continuava: 'Já podíamos ter caçado um há mais tempo mas faço questão que seja um animal velho, em fim de vida, e temos que o tratar bem, deixá-lo correr, e fazer de maneira que não sofra'. Ele falava e eu olhava o belo animal jazendo. Não fui capaz de fotografar. Se tinha morrido de uma forma digna, não era eu que iria fotografá-lo assim, definitivamente indefeso, derrotado.

O gigante dizia: 'Eu sou guia de caça mas, da maneira que são muitos caçadores portugueses, sou anti-caça. Eu não caço animais jovens, eu não caço por vaidade. Quando ouço alguns caçadores a gabarem-se do que fazem até me arrepio, matam tudo o que se atravesse à frente, sem respeito. Eu prezo a sustentabilidade, a ecologia. Eu sou francês. Em França os caçadores são apreciados, somos mais de um milhão, os caçadores são respeitados, ajudam a manter o equilíbrio, são os proprietários que nos querem para os animais em excesso não destruirem as plantações. Ou para não irem para as estradas. Em Portugal, os caçadores são mal vistos. Por isso, estou a dizer-lhe isto'. E sorria, um sorriso franco.

Disse-lhe: 'A caça é uma actividade nobre'. Ele olhou para mim e disse: 'Em Portugal quase ninguém pensa assim. Mas é'.

E é. Vista da forma como este belo gigante a vê, é. É ancestral, é da nossa natureza animal. E quando há respeito pela dignidade do outro, é, certamente, uma actividade onde há beleza, uma beleza fatal.

E lembrei-me de um amigo caçador, o respeito dele pelos animais, a adrenalina que diz sentir quando prepara as coisas e vai de noite para o campo, o que diz sentir quando vai pelo mato esperar a madrugada, o frio saudável que prenuncia a chegada da luz da manhã, a excitação dos cães, o nervoso miudinho e bom que diz sentir quando os rumores da noite anunciam a passagem de animais.

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Não faz mal, eu também nunca tinha ouvido falar no Rei Vamba




O castelo supostamente amaldiçoado e de que ontem falei é o chamado Castelo do Rei Vamba que também é conhecido por Castelo de Ródão e Castelo da Vila Ruivas.


Transcrevo da Sapo Viagens
Na verdade não é um castelo mas sim uma torre de vigia que desempenhou um papel importante devido à sua localização. D. Sancho I doou a torre aos Templários no séc. XII e nesta fase funcionava para vigilância dos mouros.
Séculos depois, nas invasões francesas, serviu como posto de artilharia.
Eleição de Vamba como rei - Francisco de Paula Van Halen, 1843.

Sobre Vamba, supostamente nascido em Penamacor em 643, transcrevo da Wikipedia:
Após Recesvinto, Vamba foi eleito rei. Teve que lidar com revoltas em Tarraconense, e devido a isto, sentiu a necessidade de reformar o exército. Aprovou uma lei declarando que todos os duques, condes e outros líderes militares, bem como bispos, tinham que vir em auxílio do reino uma vez que a ameaça fosse conhecida, com perigo de severa punição. Vamba foi finalmente deposto num golpe.
Mas onde podemos conhecer os fantásticos amores e desamores do rei é em Contos Populares e Lendas dos Cortelhões e dos Plingacheiros de Francisco Henriques, Vila Velha de Ródão, Associação de Estudos do Alto Tejo, 2001
Vamba, rei suevo ou visigótico, fundou o castelo de Ródão, onde vivia com sua mulher, filhos e restante corte. Por força das andanças de caça e guerra ficava a rainha encarregue do governo, o que a levou em determinada altura a falar com o rei mouro que governava na outra margem. Namoravam sentados em cadeiras de pedra situadas numa e noutra margem das Portas. O namoro foi prolongado, como prolongada seria a ausência do rei, até que a rainha, de amores perdida, resolveu abandonar o seu rei e castelo e acolher-se à capital do rei mouro. O rei Vamba conhecedor destes amores, que uniam as margens do grande rio, mas furioso pelo desconchavo, muito prudentemente urdiu o estratagema necessário ao resgate da sua rainha. De combinação com os seus guerreiros e filhos, por caminhos ínvios, de forma a não ser detectado pelos espias do rei mouro, dirigiu-se para a sua capital, em cujas proximidades se esconderam com a prévia combinação que ao seu toque de trombeta lhe acudissem.  


Disfarçado de peregrino, entrou no castelo do rei mouro, pedindo esmola, chegando a falar com a rainha sua mulher. Esta, ao reconhece-lo, fingiu ser prisioneira e escondeu-o no próprio quarto, avisando o rei mouro do mesmo. O rei Vamba, feito prisioneiro, pediu à generosidade do seu inimigo que lhe concedesse tocar pela última vez a sua corna. Tocou, tanto tocou, que os seus companheiros, já de atalaia, lhe acudiram, derrotaram o exército, mataram o rei mouro e trouxeram a rainha para o castelo de Ródão.  

Julgada pelo conselho e por sugestão do filho mais novo, foi a rainha condenada a ser atada a uma mó de moinho e despenhada pela íngreme encosta para o Tejo, dizendo-se, ainda hoje, que por onde o corpo rolou nunca mais cresceu mato.  

A rainha, ao saber de tão cruel castigo, teria proferido: 

Adeus Ródão, adeus Ródão, 

Cercada de muita murta 

E terra de muita puta. 
Não terás mulheres honradas 
Nem cavalos regalados 
Nem padres coroados

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E uma coisa tenho eu a dizer: Vila Velha de Ródão vale bem uma visita, é linda

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quinta-feira, setembro 13, 2018

Na Beira, quase no Alentejo, quase em Espanha




Descansar é bom e estar in heaven, naquele abençoado lugar que, na terra, eu posso sentir como meu, como se lá estivessem as minhas raízes, como se lá fosse o meu ninho, como se fosse o meu refúgio e o meu eterno sonho é melhor ainda.

Mas quem não está habituado a estar sossegado, sossega um, dois dias, e logo fica com vontade de arranjar o que fazer mesmo que, estando de férias, o ter que fazer possa não ser senão ir passear. E somos os dois assim. 'Vamos fazer o quê?' -- pergunta-me ele, quando se deita, descansado, ou quando acaba de desramar azinheiras ou aroeiras. Outras vezes sou eu que, ao sol, na espreguiçadeira, lhe pergunto, porque parece que temos que ter sempre o que fazer. É absurdo mas é o que é.


E, portanto, assim foi. Noutras alturas, iríamos para outras paragens. Ainda hoje, ao jantar, ele dizia que há já algum tempo que não vamos a Madrid. Efectivamente era nosso costume irmos várias vezes por ano a Madrid e eu até achava que poderia viver lá. Aquelas ruidosas e amplas avenidas, aqueles animados passseios largos, aquela gente faladora e perfumada, os parques com cedros gigantes, faziam-me sentir bem, perfeitamente integrada.

Um amigo foi para lá viver, alugou um apartamento numa praça junto a um jardim, mesmo no centro, perto da empresa onde trabalhava. Um dia em que lá fui em serviço, levou-me a ver a sua casa, decorada com bom gosto, com pinturas, objectos de arte. Fomos à varanda. Ao fim do dia os pássaros no jardim cantavam com toda a energia e ele estava feliz. 


Mas, entretanto, qualquer coisa em mim mudou. Aliás, acho que não foi em mim. Foi o avc do meu pai, é o estado de dependência em que vive, é a idade dele e da minha mãe, é a dificuldade que, por isso, tenho em ir para longe. E são os meninos. Pode ser preciso estarmos por perto. Ou melhor: preciso de estar por perto. 

Por isso, agora o nosso destino é quase sempre o nosso país, tão cheio de lugares lindos, tão diverso e raro.

Hoje andámos num sítio onde já passámos algumas vezes, uma das quais a pé, por caminhos montanheiros, fazendo um pic-nic num lugar ermo e de uma beleza assombrosa. Foi há uns anos, há muitos, eram os meus filhos ainda miúdos. Fomos com um grupo de amigos, todos com filhos mais ou menos da mesma idade. Um dos amigos tinha os livros da Gulbenkian que apontava percursos especiais. Na altura não havia GPS. Era ele e o livro, eram mapas antigos e mapas recentes, era o sentido de orientação. Deixávamos o carro e entrávamos por carreiros à procura do sítio onde se alcançava a vista mais prodigiosa. Não sei como nos aventurávamos a andar em caminhos pedregosos, a subir e a descer com as crianças atrás, sacos com farnel. Lembro-me do medo que tinha, o meu filho sempre tão afoito e irrequieto, aquelas rochas, aquelas alturas. Mas aventurávamo-nos e era uma festa.


De então para cá, tem sido de carro. Mas é um passeio sempre muito bonito, sempre cheio de recantos por descobrir.

Não andámos hojes pelas escarpas mas por lugares mais seguros. E valeu tudo, até andarmos os dois de gaivota num lago de águas repletas de limos e de peixes, a apanharmos sol, eu a fotografar, feliz como um dos muitos patos que por ali também andava a nadar. 


Também eu nadei. Não no lago -- que não sou pata -- e aqueles limos e peixes a ensarilharem-se-me nas pernas haveriam de me dar ânsias. Nadei em águas límpidas e salgadas, a olhar a paisagem, nadei quando o sol batia de frente, nadei quando o sol começou a pôr-se e a luz dourada pousou sobre o lago, nadei quando os pássaros já tinham largado numa alegre cantoria à desgarrada.


E à noite andámos a passear às escuras, apenas o céu iluminando os nossos passos, apenas o silêncio por companhia.

Agora, ao ver as fotografias feitas à noite, detecto pontos que não percebo o que são. A lente está limpa, já o confirmei. Seriam pontos de luz despenhando-se do céu? Fragmentos não sei de quê entontecidos pelo flash? Não sei.

Se calhar não estávamos tão sozinhos como pensávamos. Nunca sabemos tudo. Aliás, o que sabemos é nada. 

E ainda bem que assim é.


E desçam, por favor, a ver se descobrem qual o castelo amaldiçoado que abaixo vos mostro

Era uma vez um castelo que dizem amaldiçoado


A rainha, ao ser atirada escarpa abaixo, rogou a a maldição eterna que dizem que dura até aos dias de hoje:

Cercada de muita murta,
E terra de muita puta,
Não terás mulheres honradas,
nem cavalos regalados,
nem padres coroados

Já lá vão mais de mil e trezentos anos. À sua volta a paisagem é desoladora, tudo ardido. 


Ergue-se no topo e de lá a paisagem é estonteante. Mas, quando os amores são fortes, não há arvoredos, rios serpenteando por entre rochedos, não há azul das águas ou dos céus ou gritos dos grifos que aquietem os apelos do coração. 

Um rei mouro de pele tisnada e sangue quente desafiou o domínio de outro rei, escavou a rocha, abriu túneis sob o leito do rio, construíu labirintos onde dar largas à sua paixão. A rainha não conseguiu resistir a tanta bravura e tentação.

Ora os ciúmes nunca foram bons conselheiros. O rei despeitado rapidamente pôs fim a tanto amor. 

A tragédia acabou com a paixão proibida.


E a maldição ficou inscrita no lugar. O ano passado o fogo voltou a destruir o arvoredo e, se bem que já teime em despontar de novo, é ainda um castelo triste e solitário que se eleva acima das cinzas. Reza a lenda que, por onde o corpo rolou, nunca mais cresceu mato.


Lá em baixo o rio corre -- tranquilo e indiferente como são sempre as coisas e as pessoas muito belas.


quarta-feira, setembro 12, 2018

Esta doce forma de existir





Estou de férias, a meio da terceira semana. Tanto tenho feito que parece que estou de férias há séculos e temo que, quando regressar, já não saiba conduzir ou trabalhar nem seja capaz de estar confinada a espaços onde as janelas não abrem e onde todo o santo dia respiro ar condicionado e atravesso situações que parecem querer distanciar-se de mim. 


Estes dias têm sido deliciosamente calmos, ociosos, banhados a luz dourada. Relembro as brincadeiras dos meus meninos, os seus abracinhos carinhosos, as suas palavras inocentes e felizes. Caminho por entre os pinheiros, os cedros, as aroeiras, o alecrim, o alfazema e as madressilvas, apanho figos e devoro-os, doces, carnudos, irresistíveis, deito-me ao sol, leio, durmo. Está calor. Ando, quase todo o dia, nua. 




Ao fim do dia levanta-se uma aragem abençoada, muito leve, muito levemente fresca, fazendo nas ramagens aquele som que parece o de uma suave ondulação marítima. Durante todo o dia o que se ouve são os pássaros, o zumbido de um insecto dançando sobre as flores, um avião que passa lá muito em cima, por vezes um sino ou um cão ao longe.


Muitas vezes, quando estou deitada lá fora, fecho os olhos e deixo-me estar assim, sem nada pensar, apenas sentindo a suavidade do ar sobre a pele, sentindo o perfume morno das árvores e da terra, ouvindo os sons quase inaudíveis que habitam o silêncio. Nessas alturas, a vida na cidade parece-me improvável, longínqua. A existência parece-me perfeita, eterna.


Sinto que podia viver sempre assim, nesta vida simples, sem sentir falta do bulício da cidade. Falo todos os dias com os meus filhos, sei que estão bem e que os meninos também, falo duas vezes por dia com a minha mãe, sei dela e do meu pai. Deles, sim, sentiria falta se não pudesse vê-los todas as semanas. Mas do resto não. Nem do trânsito, nem das lojas, nem do ruído das ruas, nem das intrigas, nem das espúrias ambições, nem das palavras com que os executivos enchem a boca, nem dos objectivos económicos, nem dos rácios, nem sei lá do quê. Nenhuma falta se não os tivesse tal como agora que estou longe não sinto quaisquer saudades.


Penso que gostaria de voltar a bordar, a fazer os meus grandes tapetes de arraiolos. Ou pintar. Telas enormes para sentir o prazer largo da liberdade. 

E ler. Estive lá fora a ler até às sete e tal da tarde, já o sol se punha sobre as serras, já os troncos das árvores começavam a ficar azulados. A ler. A ler memórias alheias, pensamentos que não são os meus, a ler. A ler. Tão bom ler assim, nua, ao entardecer, o ar a ficar mais fresco, mais leve. 

De vez em quando um pássaro levanta-se de uma árvore. Por vezes, outros a seguir fazem o mesmo. Fico a vê-los voar para longe. O meu pensamento por vezes acompanha-os. Mas a maior parte do tempo não. Fica aqui. In heaven.


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Alô, alô Mário Nogueira!
Ora vamos lá a comentar o facto de os professores portugueses, afinal, até ganharem bem e, afinal, até trabalharem menos que os congéneres da OCDE.
Pode ser? Pode comentar?
Agradeço.


Um colega meu goza imenso com a vida profissional e com o respectivo tempo de (in)actividade da mulher. Descreve o dia dela como sendo em parte passado no café com colegas a dizer mal de outros colegas, nomeadamente dos da Direcção, depois uma pequena parte na escola, depois uma ida ao ginásio, depois ao café, de novo para conversar com colegas. Em casa lá vê de vez em quando uns testes e, recorrentemente, diz mal da vida de professora. Tenho ideia, mas não juro, que terá um horário de 16 horas por semana. Ora, isso faz o marido em dois dias -- sem se queixar.

Há tempo, num sábado, fizémos um almoço em casa de um outro colega. Os cônjuges também foram. Como os meus colegas são homens, acabei inevitavelmente no grupinho das mulheres. Duas delas são professoras e, de tal forma estavam obcecadas com a sua condição de exploradas, que monopolizaram a conversa. Com cada coisa que diziam eu ficava arrepiada. De vez em quando eu trocava olhares com uma outra que é cirurgiã (no público e no privado) e com outra que é química e que mostravam estar igualmente estupefactas. Uma outra não trabalha pelo que ainda mais afastada estava de toda a conversa. As professoras relatavam, entusiasmadamente, factos relativos à sua vida profissional como se fossem feitos notáveis que, só por si, as fizessem ficar dispensadas de trabalhar mais horas, mais anos. Para quem, como eu (e como a médica e a química), trabalha de sol a sol, sujeita a toda a espécie de pressões e dissabores, tudo o que elas relatavam era canja de galinha ou, pelo menos, eram meros ossos do ofício. Mas, por motivos que só elas sabem, consideravam-se umas vítimas e dignas de serem o centro de todas as atenções. 

Lembro-me sempre de a minha mãe, agora professora reformada, ter ficado altamente contrariada por eu ter deixado a vida lectiva (fui professora do secundário durante dois anos e tal), dizendo que eu ia trocar uma vida regalada, com muito tempo livre, por uma vida de trabalhos, em que ficaria sem tempo para mim e para a família que estava a formar. E tinha razão. 

Pois bem.


(...)  "Ao contrário de quase todos os outros países da OCDE, os professores portugueses, do pré-escolar ao ensino secundário, ganham mais do que outros trabalhadores com educação terciária [ensino superior]", diz o relatório, precisando que esta diferença "varia de 35% a mais no 3.º ciclo para 50% a mais no pré-escolar". Os diretores também são referidos, com a OCDE a concluir que estes "ganham o dobro do que os trabalhadores com o ensino superior ganham em média". (...)

A OCDE reconhece que, além do salário, é importante garantir outras "boas condições de trabalho" e que esta é uma variável "que engloba várias dimensões, muitas das quais são difíceis de medir". No entanto, diz também que, "pelo menos em termos de tempo dedicado ao ensino, os professores em Portugal beneficiam de horários mais leves do que na média da OCDE, e têm comparativamente mais tempo para atividades não letivas, como a preparação de aulas e a correção de trabalhos de casa".

Por exemplo, diz, "nos programas do terceiro ciclo em Portugal, o tempo dedicado às atividades letivas é de 616 horas por ano (a média da OCDE é de 701), o seu tempo de trabalho requerido na escola é de 920 horas (a média da OCDE é de 1178) e os professores passam 42% do seu horário total de trabalho a lecionar (quando a média, entre os países com dados disponíveis, é de 44%)".

O relatório lembra ainda que, "como noutros países, a carga de trabalho e exigência em termos de ensino podem evoluir ao longo da carreira dos professores" e que, em Portugal, "os professores podem beneficiar de uma redução dos horários letivos devido à sua idade ou anos de profissão, ou por se dedicarem a atividades extracurriculares na escola".

E eu, que já não consigo ouvir o Mário Nogueira, fico a pensar: 
  • Não percebe ele que está a degradar a imagem dos professores aos olhos do resto da população?
  • E não percebe ele que, com as conclusões de relatório como este da OCDE, ainda mais ridículo fica perante quem exerce outras profissões?
Fazem bandeira da pretensão de ter de volta os anos em que a progressão esteve congelada. Também eu gostava. Ganho menos agora do que ganhava há uns anos. Com ordenados congelados e com uma carga fiscal que me come mais de metade do que ganho, também eu gostava que nada disto tivesse acontecido. Mas aconteceu. Havia de ter graça que os restantes profissionais tivessem que suportar eternamente uma carga fiscal devoradora para fazer face às reivindicações dos senhores professores que acham que têm direitos que os outros cidadãos não têm.

E de que é que os professores estão à espera para correrem com aquele exemplar do sindicalismo pré-histórico que, em vez de defender e prestigiar os seus membros, apenas faz crescer os anticorpos contra eles por parte do resto da população? 

Tão caladinho que este insuportável Nogueira andou nos tempos da troika e tão amiguinho que era do Crato... e agora é que lhe deu para andar outra vez a moer a paciência aos portugueses? Chiça.


PS: E uma perguntinha: porque é que o Mário Nogueira e os seus muchachos só chateiam o Governo e só fazem reivindicações para os professores do ensino público ? No ensino privado os professores estão todos bem? Trabalham o mesmo que os do público? Ganham tão bem como no público? Têm a mesma segurança que no ensino público? Por acaso gostava de perceber o porquê do silêncio em relação ao que se passa nos colégios e universidades privadas.

(Mas, enfim, nada de diferente do que se passa na Saúde. Interrogo-me porque é que a Ordem dos Médicos ou a dos Enfermeiros nunca falam sobre o que se passa no privado. Será que, por lá, é tudo um mar de rosas...? Pergunto)

terça-feira, setembro 11, 2018

Joana Marques Vidal? Maria José Morgado?
Vou ali e já venho.
Deve haver alguém competente para o lugar e parece-me óbvio que nem uma nem outra o é


Casos a arrastarem-se e arrastarem-se e arrastarem-se durante anos, incapacidade total para fixar e fazer cumprir prazos, sistemáticas fugas de informação e quebras do segredo de justiça, sistemas informáticos em que, pelos vistos, nem os responsáveis confiam, casos mediáticos em que o julgamento ocorre na praça pública ainda antes de haver acusação de facto -- estas, para mim, são algumas das características dominantes da era Joana Marques Vidal.

O meu ponto de vista é o de uma vulgar cidadã e, não obstante ter orientações naturais, 
(ex: sou heterossexual, sou agnóstica, sou a favor da liberdade, da democracia, da igualdade de oportunidades, sou humanista, sou contra a exploração do homem pelo homem -- e, daqui por algum tempo, acrescentarei que também sou contra a exploração do homem pelos robots ou pela algoritmia decorrente da inteligência artificial -- etc.), 
tento ser objectiva e imparcial na formulação das minhas opiniões. Por isso, não é porque o Marques Mendes, as Direitas-Unidas e sei lá quem mais defende que a Santa Mana Joana é a única alma à superfície da terra que pode desempenhar o cargo com competência que eu estou aqui a dizer que se vão catar.

Digo-o porque, do que conheço, o que há é uma mão cheia de argumentos para lhe dizer que adeusinho, bye-bye, que vá mas é fazer aquilo para que tem jeito. E se não souber o que é -- eu também não sei pelo que aqui não poderei deixar a dica -- pois que vá fazer testes psico-técnicos. Mas, se lhe der aquilo que é óbvio, que tem jeito é para o marketing auto-promocional, esqueça. Para esse peditório o país já deu. Já está santificada em vida sem nunca ter feito qualquer milagre. Que quer mais? Pense noutra, nessa não. Ou, se já não estiver para ir em busca do seu verdadeiro eu, pois que veja se o Costa muda a cena da idade da reforma e do diabo do factor da sustentabilidade e vá mas é curtir a vidinha.

Em alternativa à Sta Mana, há quem se lembre da Maria José Morgado. Outro susto. Falando sempre num registo encriptado, lançando insinuações contra incertos, como se tivesse muita sujeira escondida na manga e, a todo o momento, pudesse pôr a boca no trombone, dali nunca se ouviu nad que se pudesse aproveitar. Aridez total. Quem a oiça dirá que Portugal é um antro de corrupção, de sacanagem e de total ladroagem e que nada há a fazer pois, em cima disto, existe um polvo de interesses políticos, futebolísticos e, quiçá, religiosos, um gigantesco e sinistro polvo que tudo abafa, que tudo compra. E soluçoes para isto, ó Senhora Dona Magistrada? - dá vontade de lhe perguntar. Mas, se alguém lhe perguntar isto, ela certamente fará um daqueles seus sorrisos que insinuam secretas podridões e dará a entender que não valerá a pena sequer tentar. E, no meio daquelas afirmações redondas mas sempre atiradas com uma assertividade extraordinária, parece perceber-se-lhe a insinuação de que o que é preciso é uma justiça musculada, atalhar a eito, passar por cima dos direitos e liberdades individuais. E, inevitavelmente, somos levados a desconfiar de que naquele peito ginasticado pulsa um coração que, mesmo que de forma não confessa, é ainda um fiel devoto da pura e dura linha mrpp.

Por isso, por favor: a Maria José Morgado também não.

Mas não há crise, o povo é sereno: sendo Portugal um país de mentes brilhantes, algum magistrado capaz haverá de haver que consiga exercer a função de Procurador-Geral com denodo e competência, voltanto a devolver a confiança aos portugueses. Tenhamos fé.

Pessoas parecidas com os seus cães?
ou
Cães parecidos com os seus donos?



A minha cãzinha era uma boxer e tirando a cor do cabelo onde, enfim, talvez houvesse algumas afinidades, no resto não sei se seríamos muito parecidas. Só se fosse na maneira de ser. 


No entanto, a verdade é que há, em muitos casos, parece haver uma transmutação entre os membros do binómio homem-cão. Só na minha rua conheço vários casos. 


Há um homem jovem com ar possante e com qualquer coisa de altivo que costuma passear um boxer enorme, igualmente possante e igualmente sóbrio e distante. 


Há uma senhora magrinha, com um cabelo encrespado, que ela tenta esticar, pintado de uma cor que se vê ser muito artificial e com um aspecto nervoso. Tem um caniche de pelo igualmente encrespado a que ela rapa umas partes e que ladra de modo igualmente enervado. 


E há uma senhora, que é mãe de uma ex-colega de escola da minha filha, e que sempre foi uma mulher neutra, quase invisível, sem feições que se destaquem, vestida de uma forma ausente. Desde sempre a conheci a passear um caozinho insignificante, pequeno, indistinto, igualmente pacato. Não pode ser o mesmo cão mas, quando um morre, deve substituí-lo por outro igual. Ela também está sempre igual.


O fotógrafo britânico Gerrard Gethings demonstra este fenómeno numa série de fotografias das quais aqui mostro algumas.


Portanto.

Aqui na blogosfera conhecemos os cães de algumas e alguns bloggers mas não conhecemos os próprios. Contudo, face a esta significativa amostragem, fácil será podermos concluir como serão. Certo?


Até já.

segunda-feira, setembro 10, 2018

O querido numen que habita in heaven






Os meninos dormem toda a noite. Uma sorte. E eu a noite passada também dormi bem. E o bebé acordou com um apetite que me pôs logo contente. Para o pequeno-almoço, os manos tiveram ovo mexido, pão com queijo, acompanhado, no caso do mano do meio, com um copo de leite frio e, no dela, com um iogurte (até nisso é parecida comigo: por ela, comia vários por dia). Pois o bebé comeu um bocado de ovo mexido, depois uma tigela de nestum e depois ainda comeu o pão que sobrou de um dos manos. Entretanto, algum tempo depois, viu o avô a comer uma bolacha de aveia tufada com algas e também quis, pelo que comeu um pouco. A satisfação que me dá entregá-los a todos bem alimentados ninguém imagina.

Depois lavaram-se, vestiram-se, pentearam-se e foram brincar enquanto os pais não os foram buscar.


Quando saíram, já eu estava cheia de saudades. O meu marido disse: olha a diferença. E era. O silêncio. A casa, de repente, ficou silenciosa. Durante uma porção de tempo andámos a arrumar, a apanhar coisinhas do chão, a acasalar pecinhas de jogos, a pôr tampas em canetas. Depois fiz uma máquina de roupa e o meu marido pôs a secar.

A seguir, voltámos a pegar em armas e bagagens e ala moço que se fazia tarde. Campo. Claro que no carro aconteceu-me aquilo que acontece aos bebés: ao fim de pouco tempo, estava a dormir. Acordei  logo a seguir, quando o meu marido parou para abastecer. E viémos a relembrar coisas deles: a assertividade dela, a malandrice do mano do meio, a teimosia do bebé, a graça de todos.

Quando liguei para a minha mãe, ela perguntou se já estávamos a caminho e disse que devíamos arranjar um helicóptero. E é. Dava jeito.


Quando chegámos aqui ao campo, a casa estava como a tínhamos deixado na sexta à tarde, quando de cá tínhamos saído com os três meninos. Num instante, pusemo-nos a arrumar e limpar e, mal acabei, deitei-me no sofá, com um livro, pensando que dava para descansar por uns minutos. O meu marido lembrou-me que tinha a máquina cheia de lençóis, que podia pô-la a lavar. Eu respondi-lhe que nem pensar, que ficava para depois, que precisava de pousar por um bocado e que, para mais, eles não deviam tardar. Pois, nesse preciso instante, ouvimos apitar. Era a minha filha, a chegar com os meninos. E pronto.

Grandes, grandes. Posso passar dois ou três dias sem os ver que, quando os revejo, já lhes noto diferença. O mais velho caminha a passos largos para, não tarda, estar da minha altura.

Estivemos a apanhar sol, a ler, a conversar, a apanhar figos, os meninos a treparem às árvores, a implicarem um com o outro, a serem amigos como se nada fosse. E fomos ver a casa de troncos que o tio fez e fomos passear e, ao fim do dia, jantámos e claro que é sempre uma boa disposição. São uns brincalhões, sempre muito bem dispostos, com um fantástico sentido de humor. Farto-me de rir com eles.

Depois foram cedo porque esta segunda-feira é dia de escola.

Quando nos vimos aqui na sala, só os dois, o meu marido disse que já sentia falta de ter que fazer alguma coisa. E eu fiquei numa inércia total, incapaz de ter acção para fazer o que quer que fosse. O meu marido ainda disse: temos que resolver se vamos a algum lado. Mas pode ser que amanhã eu consiga pensar se quero voltar a fazer a mala e pôr-me a caminho para algum destino ou se quero é deixar-me aqui ficar a descansar. A minha filha esteve a sugerir um lugar muito bonito onde esteve recentemente mas ainda não consigo pensar.


E eu, aqui sossegada, a televisão a dar nem sei bem o quê, finalmente consegui disponibilidade para passar as fotografias da máquina, para as ver, para escolher algumas para aqui ilustrar o que têm sido estes dias felizes. Como se vê, apanhámos bom tempo e assim-assim, estivemos no campo e na cidade, na rua e dentro de casa. Claro que as fotografias mais bonitas são aquelas em que se vêem os seus rostinhos lindos e felizes da vida. Mas como não os quero aqui ter à vista, vejo-me condicionada a escolher aquelas em que estão de costas ou de lado. Como é bom de ver, quando os fotografo, quero 'apanhá-los' no melhor ângulo e, portanto, são poucas as fotografias em que estão com os rostos ocultos. Não interessa. Dá para dar uma ideia de como desfrutam bem este seu tempo mágico da infância. E, para mim, é um prazer vê-los e um privilégio assistir ao seu crescimento.

Entretanto, vi no mail da empresa que esta segunda-feira há uma big reunião de dia inteiro fora de Lisboa e só me apeteceu benzer-me por estar de férias e não ter que madrugar para passar um dia inteiro numa cena que, para mim, ia ser um castigo. Cá para mim, fizeram de propósito e tenho que agradecer a amabilidade porque o meu colega que convocou a reunião, conhecendo-me bem como me conhece, sabia bem que, se eu lá estivesse, a coisa corria sérios riscos de não correr especialmente bem. Portanto, acho que isto de ter férias na altura em que as empresas fazem a rentrée é uma grande ideia.


E, assim sendo, enquanto os outros estiverem fechados numa sala a aprender uma coisa que deveriam ter nos genes e, se não têm, também não é com coisas daquelas que lá vão, eu vou estar numa espreguiçadeira ao solinho ou à sombrinha, a ler, ou vou estar a passear sobre a caruma perfumada, ou a apanhar figos, e a preguiçar, a deixar-me dormir ao ar livre, a ouvir os passarinhos, a sentir o perfume das árvores.

Para mais, estou com três livros em simultâneo e qualquer deles me enche de prazer: os Diários da Virginia Woolf, o Solte os Cachorros da Adélia Prado e o Embalando a minha biblioteca de Alberto Manguel.

Que mais se pode querer de umas férias?

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Sempre que deambulávamos pelo jardim, dizíamos que éramos os seus guardiões, nunca os seus donos, porque (como em todos os jardins) o sítio parecia-nos possuído por um espírito independente, aquilo a que os antigos chamavam numen. Numa explicação acerca da numinosidade dos jardins, Plínio diz que ela acontece porque, outrora, as árvores foram os templos dos deuses e que os deuses jamais o tinham esquecido.



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Tinha nas prateleiras dezenas de livros muito maus de que não me desfiz, não fosse dar-se o caso de alguma vez precisar do exemplo de um livro que eu julgasse mau. Balzac, n'O Primo Pons, avança uma justificação para este comportamento obsessivo: "Uma obsessão é um prazer que atingiu o estatuto de ideia."

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A itálico, dois pequenos excertos de 'Embalando a minha biblioteca' de Alberto Manguel