Estava eu a olhar a televisão para ver quem tinha ganho as eleições no PSD, quando o meu marido reparou no que passava em 'última hora' - uma vez mais as chamas estavam na origem de mortes, desta vez em Tondela, numa pacífica associação recreativa onde se jogava a sueca.
Logo as televisões se apressaram para lá para mostrar carros de bombeiros e ambulâncias e para ouvir populares. Mais tarde, um senhor todo aperaltado, de chapéu, casaco novo e gravata, falava e, com o entusiasmo de falar para a televisão, até sorria ao relatar o aparato de viaturas e a confusão com feridos e cadáveres que, segundo ele, estavam a estorvar.
Dir-se-ia que a vitória de Rui Rio se viu logo ensombrada por factos tristes. Claro que não tem nada ver nem é nenhum mau augúrio. Só estou a falar disto pois, durante toda a noite televisiva, as reportagens em torno da vitória de Rui Rio eram intercaladas por reportagens a partir de Tondela.
Mas, enfim, não quero contribuir para mais angústias, assombrações, ou pensamentos tristes. Já basta o que aconteceu.
Por isso, deixem que, antes, traga para aqui o azul das águas, da serenidade e da leveza. Ou dos rostos do muro azul. Rostos vivos que habitam a rua e se pintam de azul ou que sonham em azul.
O muro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa continua, continua, continua por 1 km. Em determinado ponto, um azul marinho e profundo começa a cobri-lo e os rostos surgem para nos encarar.
Poema azul de Sophia por Maria Bethânia
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E este sábado in heaven estava assim, o céu azul e o reflexo da grande figueira numa pequena mancha de água no chão.
E os pássaros estavam em festa, cantando, cantando, numa alegria, numa euforia. As árvores eram palco de orquestra, uma música, uma cantoria.
Não me parece que Rui Rio seja alternativa válida face a António Costa. É menos arrojado e menos corajoso que Costa, é menos 'moderno' e aberto à mudança que o Costa, é menos cosmopolita e menos consensualizador do que Costa, é menos sensível a questões sociais e culturais do que Costa. Portanto, não vejo que os portugueses, entre Costa e Rui Rio, tenham dúvidas em optar por Costa.
Contudo, Rio é uma pessoa credível, não é estarola, não é populista, não é troca-tintas, não é ignorante para além da conta, não é gabarola, nem, em geral, incompetente. Portanto, poderá fazer uma oposição saudável à actual maioria e não envergonhará os eleitores laranjas. Penso, aliás, que poderá reorganizar o partido e dar-lhe alguma sustentabilidade, nomeadamente a nível ideológico, área em que aquele partido anda tão falho. Não será nunca brilhante pois não é um visonário e falta-lhe aquela bagagem ou apetência cultural que faz a diferença. Mas, diga-se em abono da verdade, que Rui Rio vira a página da mediocridade absoluta que se viveu durante a lamentável égide lapariana.
Quanto a Santana Lopes é o que se sabe. Gosta de andar nestes bailaricos armados, gosta de se fazer ora de menino-guerreiro ora de bebé-prematuro, ora de ensaiar a pose de senador. Em suma: não se enxerga. E lá irá continuar o seu percurso mudando de mulher, de ocupação profissional, de ideias, de ambições.
E se alguns acharão que isto foi uma derrota para Marcelo -- que apadrinhou a candidatura do que hoje saíu derrotado -- tenho para mim que talvez tenha sido, sim, uma derrota mas que foi, sobretudo, um alívio. Depois de ver o Flopes nos debates e de ter constatado que a idade apenas o tinha piorado, Marcelo devia estar a rogar a todos os santinhos para que os eleitores laranjas não cometessem o disparate de o pôr à frente do partido. Rui Rio é atilado e centrado demais para se derreter com os excessos de Marcelo e para ser a voz do dono mas, enfim, do mal o menos. Um maluco a dizer parvoíces ou a aventurar-se à maluca por terrenos que não domina, dizendo disparates a toda a hora, é tudo o que Marcelo dispensaria.
Portanto, chegou a hora de Rui Rio. E não duvido de que terá com ele o partido -- que depois de anos de desafecto, andará, certamente, carente de uma liderança racional -- e o discreto beneplácito de Marcelo.
Contudo, também para ser sincera, tenho que confessar: tenho uma certa pena pois Rui Rio não deve inspirar-me grandes galhofas enquanto que com o derrotado bebé-incubado o gozo estava garantido.
Tal como não lerei a maior parte dos livros que, certamente, gostaria de ler, também, de certeza, não visitarei grande parte dos lugares que amaria de paixão.
Assim é a vida: breve, incompleta.
Tenho um questionário para acabar de responder. Volta e meia, isto. Como gosto de responder a testes, não me importo. Mais um assessment. A minha alma já voi virada e revirada do avesso não sei quantas vezes e os resultados, cá para mim, mostram sempre o mesmo. Contudo, por algum motivo que desconheço, não os aproveitam de umas vezes para as outras. Se calhar acham que, de cada vez, a metodologia é melhor e que é melhor sujeitaram-nos a nova lente para descobrirem o ser secreto que se esconde debaixo da nossa pele. Não me importo. E vai haver uma entrevista, eu e mais duas pessoas, durante mais de duas horas. Acho graça, não me incomoda nada. Só que este é estranho, não percebo o sentido de algumas perguntas. A outras não me apetece responder, versam coisas com que nada tenho a ver. Mas, se não responder, aquela coisa não segue adiante. E longo, longo. Tinha que sair, já era tarde e aquilo ainda a meio. Resolvi acabá-lo agora em casa. Mas cheguei tarde, não me apetece.
Em algumas questões, é pedido que se ordenem as nossas prioridades de vida. Quando me apareceu essa resposta disponível para escolher, coloquei sempre em primeiro lugar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal. Jamais sacrifiquei a vida pessoal à profissional. Mas, de facto, sempre trabalhei muito. Se tivesse ficado professora como a minha mãe tanto desejou para mim, a minha vida teria sido bem outra, certamente com mais tempo livre e muito menos maçadas.
No carro, agora à noite, um telefonema. Defendi, uma vez mais e com grande convicção, que algumas pessoas deviam ser postas a andar. Não é bonito dizer isto aqui pois, de forma descontextualizada, pode parecer uma patifaria da minha parte. Mas não é ou, pelo menos, assim o acho. Tenho para mim que é inadmissível que uma meia dúzia de pessoas, com a sua incompetência ou má fé, ponha em risco os postos de trabalho de muitas centenas. Contudo, como todas as opiniões, a minha também pode ser considerada injusta ou arbitrária. Admito. Mas é a minha opinião e tudo farei para levar a minha adiante, travando as guerras que tiver que travar, desgastando-me o que tiver que me desgastar.
Mas, com tanta coisa a toda a hora, a verdade é que ando desde o princípio da semana para responder ao dito questionário e, durante o dia, não tenho conseguido. Tanta reunião, tanta coisa para tratar, tanta coisa sempre. E mal me sento no gabinete, entra um, depois outro e depois outro. Ou os telefones. Ou os mails a chegarem. Penso: quero chegar cedo a casa, quero não ter mais nada que fazer, quero ter tempo para os mails pessoais, quero ter tempo para ler. Mas o dia estendeu-se, o trânsito complicou-se, cheguei com uma hora de atraso à fisioterapia, na volta mais trânsito, horas roubadas ao meu tempo. À hora de almoço queria ter caminhado nos Jardins, queria ter tido tempo para a livraria. Nada, trânsito e mais trânsito e daí a nada outra reunião noutra ponta da cidade. E isto, nestes detalhes, não é uma escolha. São as circunstâncias que nos vão conduzindo ao longo da vida.
Várias vezes e de diferentes maneiras, no questionário, perguntam onde me vejo nos próximos anos. Tudo é de escolha de entre várias possíveis, não há respostas livres. Se pudesse, teria respondido que 'não sei nem me interessa saber'. Mas não tenho como responder assim e, então, rendo-me a dar uma resposta que não é a minha. Mas fico a pensar que há coisas absurdas a que me sujeito e, bem vistas as coisas, não sei bem a troco e quê.
Ao almoço, não havia nenhuma mesa livre. Sentámo-nos numa mesa onde estava uma senhora. Passado um bocado, chegou uma amiga dela e, ainda mal se tinha sentado, já estava a conversar, a contar que tinha ido a uma agência de viagens para tratar de uma ida a S. Petersburgo e logo contou da luta das mulheres russas e a outra recomendou que ela fosse ver um certo museu e logo mostrou que conhecia bem aquelas bandas. E eu, ao lado, entre reuniões e trânsito, a almoçar à pressa, sem tempo para sequer sonhar em ir passear, a pensar que há tantos, tantos lugares que gostava de conhecer e onde, de certeza, nunca irei.
E agora, uma da manhã, eu praticamente a dormir, sem conseguir ir aos mails pessoais, sem ser capaz de alinhar meia dúzia de palavras.
Gostava de aqui vos contar de como gostaria de fazer um percurso de bibliotecas e de livrarias. Mostro-vos algumas cujas fotografais encontrei na Elle francesa. De todas as que ali se vêem, só conheço a Lello (cuja escadaria se pode antever na 2ª destas fotografias que aqui tenho).
Também gostava de fazer um percurso de belos edifícios abandonados e decadentes. Ou de jardins. Ou de florestas que nasceram do nada. Ou de castelos ou palácios à beira de rios.
Gostava. Gostava mesmo.
Mas como não sei se algum dia conseguirei fazê-lo, vou-me contentando em ver fotografias e vídeos. Quem não tem cão, caça com gato, quem não passeia com os pés, passeia com os olhos.
O rio Caño Cristales em Meta, Colombia
O homem que plantou uma floresta
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Não estou capaz de reler o que para aqui acabei de escrever e tenho a nítida sensação de que o texto vem aos tombos por aí abaixo. Várias vezes adormeci pelo que não estou nada certa de ter retomado o texto onde o tinha deixado. Relevem, please, se a escrita estiver cambaleante.
Agora está frio. Até tenho o aquecimento ligado para estar aqui quentinha no meu ninho enquanto escrevinho. Mas sei que isto não é nada. Estou bem lembrada da canícula que nos abrasou durante os longos meses de verão. Posso não ser uma mente brilhante mas burra como o Trump acho que não sou. Galhofeiro como os mentecaptos gostam de se mostrar, até se arma em engraçado, mandando vir algum aquecimento lá dos sítios onde o há para ajudar a combater os frios extremos lá nos States. Brincalhão. Mas do Donald todas as patacoadas se esperam pelo que mais vale nem o trazer à colação.
A questão é que isto do aquecimento global já se faz notar às escâncaras. Não é só a seca, a vegetação ressequida, as barragens vazias, os animais a definharem, a água a ter que ir em carros cisternas para terras à míngua de uma gota -- são também as mostras de um degelo que já é mais do episódico, são os corais a morrerem aos cachos... E, agora, outra. Com as águas mais quentes, parece que desaparecem as tartarugas-machos. Só nascem meninas. Uma comunidade de tartarugas fêmeas. E isto, caneco, faz questionar o que aí virá.
Não é só que lugares onde apenas há mulheres sejam lugares insuportáveis -- discussões, invejas, puxões de cabelo, tareias na lama. É sabido que sim. Mas o pior nem é isso. O pior é que a coisa, depois, tende à extinção. Os machos podem não servir para muita coisa, so many tough women say -- assediadores de meia tigela e pouco mais, queixam-se elas -- mas, enfim, para plantarem sementinha onde ela faz falta, para isso ainda alguns servem. Agora se o rácio se agudiza e, às tantas, já só há um para noventa e nove fêmeas (e todas à beira de um ataque de nervos), imagine-se a desgraceira.
Se, com a calorama, a moda das tartarugas se pega à espécie humana nem quero pensar. Juro. Não dá. Não iria aguentar viver só rodeada de mulheres. É que nem pensava duas vezes: ia direitinha aos Himalaias. E ia logo, antes que os hábitos se alterassem, antes que a malta lá comece a ir muito à escola, a ver muita televisão, a ficar moralista
Ali, lá bem no cocuruto, naquela aldeia em que uma mulher tem, no mínimo, três maridos é que eu estava bem. Ajudam na casa, com as crianças, nos trabalhos em geral. E aceitam bem as escalas, não são de arranjar problemas com ciumeiras bobas. Na maior parte das vezes, são irmãos. Mas eu nisso não seria esquisita: irmãos, primos, tanto me daria. Agradeceria era se um deles fosse jeitoso com as mãos para me dar umas belas massagens, isso sim.
Portanto, já sabem. Se a temperatura subir demais e se começar a haver tartarugas-meninas a mais, já sabem onde me poderão encontrar que eu não vou ficar cá para ver, que não me arrisco a ficar no meio de mulherame, todas a embirrarem umas com as outras e nada de amor com sabor a testosterona. Mas, nesse caso, se perceberem que me pirei para as montanhas, não levem a mal mas dispenso visitas femininas para não irem para lá desestabilizar o rácio que está tão bem como está, uma mulher para um mínimo de três cavalheiros.
Atenção. Sou contra o sofrimento dos animais. E que ninguém venha tresler o que estou a dizer porque a leitura é única: sou contra.
Mas tenho alguns pecadilhos na consciência, confesso. Por exemplo, tenho mixed feelings em relação a touradas porque gosto do ambiente da festa, gosto da destreza e elegância dos cavalos no toureio, gosto (e assusto-me) da coragem algo tresloucada dos forcados, percebo o apelo do confronto entre o homem e a fera. No entanto, custa-me ver o atordoamento do touro, custa-me ver o dorso sangrando, custa-me ver, em Espanha, o touro vergado, exibindo uma morte humilhante mas que é vivida de forma apoteótica pelos aficcionados. Não vou a touradas ao vivo mas, na televisão, volta e meia vejo -- e gosto -- e os sentimentos contraditórios são os de sempre.
E cães e gatos. Não concebo que alguém os maltrate. E aquilo de que já falei: galinhas e patos. Gostava de ter animais lá no campo. Mas seria incapaz de os matar ou, sequer, de ver matá-los.
E ainda me lembro com um misto de horror e divertimento da vez em que, tendo na altura galinhas numa capoeira que o meu pai tinha feito no quintal e tendo ele que ficar a trabalhar até tarde, incumbiu a minha mãe de matar uma galinha. Foi um festival. Eu deveria ajudá-la mas mal a galinha esbracejava ou gania, eu largava a fugir em vez de ficar com a tigela a aparar o sangue. E a minha mãe gritava e deixava a galinha a cada guincho que a galinha dava. A pobre galinha toda ensanguentada, a querer fugir de nós, a cabeça já meio off, e nós, cheias de medo, aos gritos, a querermos fugir dela.
Portanto, que não se pense que sou uma alma empedernida. Nada disso. Um coração de manteiga, o meu.
Mas há maus tratos nos quais nunca tinha pensado. Isto das lagostas na Suiça deixou-me banzada. Atordoar as lagostas antes de as transportar em gelo ou de as cozinhar...? Caneco.
O Governo suíço proibiu a prática de cozer lagostas frescas e também vai deixar de ser permitido fazer o transporte destes animais vivos sobre gelo ou em água gelada.
Os defensores dos direitos dos animais e alguns cientistas argumentam que as lagostas e outros crustáceos possuem sistemas nervosos sofisticados e, provavelmente, sentem dor significativa quando são cozidos vivos.
De acordo com a emissora pública suíça RTS, "as lagostas terão de ser atordoadas antes de serem mortas" e apenas o choque elétrico ou a "destruição mecânica" do cérebro da lagosta serão considerados métodos aceites de atordoar os animais antes de serem cozinhados.
Em Itália, o Supremo Tribunal também decretou, em junho do ano passado, que as lagostas não podem ser mantidas vivas sobre gelo nos restaurantes, antes de serem cozidas.
Juro. Sem ironias. Perplexa. Nunca me tinha ocorrido. Volta e meia a minha mãe fazia caracóis em casa. Eu própria já o fiz. E assisti aos pobres a tentarem fugir do tacho. Desatenta, mais do que insensível, não me ocorreu vê-los como animais de verdade, em sofrimento. Pensava, isso sim, em comê-los.
Por isso, mais uma vez estou com mixed feelings a propósito agora disto. Por um lado parece-me um exagero. Por outro, porque não poupar os bichos à dor? Contudo, é tema que não quero aprofundar demais não vá, às tantas, perder a vontade de os comer e isso, caraças, é que não.
Quanto ao método, face à notícia da liberalização do canábis para fins terapêuticos, lembrei-me que uma boa seria fazer uma little queimada de erva na cuisine e pôr os pobres indefesos a inalarem. Quando estivessem bem felizes e com uma bela duma moca, então, ala para o tacho.
Mas, enfim, com isto não quero chocar aquela deputada Galriça. Portanto, se a preocupação do sofrimento das amêijoas ou das lagostas vier para Portugal e se a decisão for de lhes dar choques eléctricos e a deputada galriça lhe parecer melhor, pois que não seja por isso. Ou então, arranjar maneira de os bichos só cheirarem, sem inalar, não vá tomarem-lhe o gosto (o pormenor de irem morrer a seguir, para a deputada Galriça não deve ser atenuante). Por mim, tudo bem. Peace and love, pessoal. E um pratinho de camarões, caracóis ou tremoços para todos.
Da mesma forma como -- e já aqui falei disso -- mais facilmente me punha ao lado das prostitutas do que das 'mães de Bragança', também agora, intuitivamente, me sinto mais próxima da Catherine Deneuve e outras do que das Oprahs Winfreys desta vida.
E, no entanto, não apenas não li qualquer dos manifestos como nem reflecti muito sobre o tema. É mesmo uma questão de intuição (ou genética, coisa cá da minha maneira de ser). Aliás, acho que nem é bem uma coisa nem outra, nem intuição nem genética, mas está a faltar-me a palavra certa. Mas é qualquer coisa nesta base.
Sobre este tema, várias vezes tenho pensado: trabalhando desde menina e moça em empresas maioritariamente masculinas, alguma vez fui assediada? Que me lembre não. E na rua? Que me lembre também não.
No outro dia, o meu marido, a propósito de uma que na televisão se insurgia sobre o facto de em Portugal nenhuma mulher se ter chegado à frente a acusar alguém, dizia, na brincadeira: 'A ela, de certeza, nenhum homem assediava, até para não ficar mal visto perante os outros homens'. Afirmação politicamente incorrecta, nos tempos que correm. E, no entanto, eu ri-me.
Penso nos piropos e graças que ouvi ao longo da minha vida e não tenho dúvida de que alegraram e apimentaram os meus dias. Desde os mais inteligentes e sofisticados até aos mais brejeiros, não me lembro de alguma vez me ter sentido verdadeiramente incomodada. Lembro-me, sim, de, em tempos idos, em autocarros apinhados, ter sentido homens parvos encostarem-se ou apalparem-me e eu me virar para eles e dizer: 'Agradeço que se afaste porque me está a incomodar', deixando-os aparvalhados, envergonhados. Lembro-me que um, uma vez, se armou em ordinário e desatou a ripostar, tendo-lhe eu dito que se calasse e tivesse vergonha. Portanto, quando saía do autocarro vinha até satisfeita com a sensação de ter posto na ordem um parvalhão.
Lembro-me também de, ao passar na rua, ouvir indecências e de fazer de conta que não ouvia ou, pelo contrário, olhar com ar interrogador, deixando os cobardolas atrapalhados.
Mas assédio, por exemplo, no trabalho, nunca. Nem nunca nada de parecido se proporcionou. Desde sempre a única mulher a chegar a um cargo de direcção, e tinha apenas trinta e um anos quando isso aconteceu, sempre me senti respeitada e nunca a nenhum passou pela cabeça ousar pisar o risco.
Lembro-me de uma colega que, insegura e psicologicamente algo frágil (embora aparentando o contrário), confidenciava que um qualquer lhe fazia convites ousados, dizendo ela que cedia pois percebia que, se não aceitasse, ficaria prejudicada. Sempre achei isso uma ficção da parte dela pois assistia à atitude a priori permissiva da parte dela e à forma até cautelosa como ele se aventurava.
E já aqui contei algumas vezes. Tempos houve, trabalhando eu uma grande empresa, em que havia em permanência casos e mais casos. Uma festa. A minha secretária tinha um caso com o meu melhor amigo, outro meu amigo tinha um caso com uma estagiária, um colaborador meu tinha um caso com a secretária do presidente, outro colega tinha casos com umas atrás de outras (e, como contei há pouco tempo, foi apanhado em pleno acto em cima da mesa de reuniões do gabinete um dia em que ficou até mais tarde), o vice-presidente tinha um caso com a contabilista. Etc., etc. Tantos casos que nem dá para acreditar. Alguns destes casos acabaram, outros deram em casório ou união de facto. Antes de serem casos, havia a fase da sedução. Assédio? Não direi. Melhor: nunca vi vestígios disso. Sedução, isso sim. Assisti de perto a muitos destes casos. A minha secretária, por exemplo, que andava de brincadeirinha com o meu colega (casadíssimo) e ele com ela, queixava-se-me uma vez: 'Muita conversa, muita conversa... mas passar à acção está quieto...'. Até que um dia, na sequência de um jantar de despedida de outro colega, a coisa se deu. No dia seguinte, descreveu-me ela como finalmente lá o tinha conseguido levar para casa. E eu parva com aquilo, ele tão apenas brincalhão e tão amigo da mulher, e ela, contrarando-me: 'Sim, sim... Pois olhe que não... Muito bem, lhe digo eu'. E um ar aprovador sobre a performance dele.
Ou seja, no meio daquele forrobodó (e estou a falar de uma grande empresa, moderna, produtiva, rentável), nunca vi nada que se parecesse com assédio ou sexo forçado ou moléstia de algum tipo.
E falo no passado mas poderia falar no presente. Mas menos, muito menos. Não sei porquê mas parece que há menos hormonas em circulação. Casos assim, às claras, no puro descaramento, já vejo muito menos. Piropos malandros ou divertidos também muito menos. Os homens parece que estão a desabituar-se da arte do galanteio. A malandrice com graça pode não ser minimamente ofensiva e trazer divertimento aos dias. Mas parece que é coisa que está a sair de circulação.
Já aqui contei uma que a mim me divertiu imenso e que ainda me faz rir. Por isso, desculpme se me repito. Tinha um colega, muito engraçado e onde a malícia, ainda que inocente, era permanente. Uma vez a minha filha foi visitar-me e levou o que na altura era o seu único filho. Então, uma colega minha foi lá vê-los e, para minha surpresa, disse-me: 'Já ali estive com o avô'. E eu, admiradíssima: 'Com o avô? Mas ela veio sozinha..'. Esclarece, então, ela: 'Estou a falar do Dr. M'. Ri-me mas quase me ofendi: 'Ah, olha o disparate...'. Ao fim do dia, aparece-me ele no gabinete, todo lampeiro. Digo-lhe, toda cheia de repreensão: 'Olha lá... mas estás parvo ou quê...? Então andas a dizer que és o avô da criança...?'. E ele, ar de santinho: 'Mas não disse de quem é que sou pai...'. O que eu me ri a imaginá-lo pai do meu genro... ou seja, a ter um caso com a sogra da minha filha...
Enfim.
Claro que há casos e casos e o que não faltarão serão sabujos e badalhocos que se aproveitam da fragilidade de algumas mulheres vulneráveis. Sei que sim. Por exemplo, estou a lembrar-me que tive um colega, mais velho que eu, que foi criado na Casa Pia pois a mãe, trabalhando como empregada doméstica e tendo engravidado do patrão, não pode ficar com ele nem o pai o perfilhou. Só muito mais tarde, já ele a trabalhar, pode libertar a mãe da sua condição de quase escrava da casa onde trabalhava como interna. Quantos casos destes. Casos e casos. Casos tantas vezes vividos em silêncio, acobertados pelos mais pios usos e costumes, tantas vezes sob o beneplácito da igreja.
Mas aí, mais do que assédio, o que há é abuso sexual ou franco abuso de posição dominante (digamos assim) -- o que nada tem a ver com situações em que, por vezes, as mulheres falam como se fossem umas virgens ofendidas, umas tadinhas que fazem sexo oral contrariadas, umas beatas que ficam melindradas porque ouviram brejeirices e que agora, ao fim de vinte anos, vêm falar disso como se tivessem andado todo esse tempo com o piropo atravessado ou como se nunca tivessem contribuído para a situação em que se envolveram. Menorizam-se as mulheres que se fazem de indefesas e frágeis quando, tantas vezes, aceitaram, interesseiramente, favorecer esse tipo de situações.
Saibam as mulheres, antes, ver-se como iguais em direitos e poderes em relação aos homens, saibam afirmar as suas vontades sem se inferiorizarem, saibam as mulheres gostar de ser mulheres, nomeadamente prezando a sua natural feminilidade, saibam as mulheres apreciar a virilidade masculina e dar valor aos naturais jogos de sedução, saibamos todos apreciar a vida em tudo o que ela tem de bom. E não tentemos moralizar e beatificar tudo, incluindo os sentidos, o humor, a alegria, a malícia, a sedução.
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E eu por mim fico de bom gosto a apanhar a almofada que o malandro do David Gandy está a atirar. Mas, para os meus Leitores mais moralistas que não gostam de ver homens mal comportados, então recomendo que desçam até ao post seguinte para lerem sobre a orelha encarnada do Santana Lopes.
Confesso: comecei a ver agora a ver e está a iniciar-se a segunda parte do debate. Não faço ideia como terá corrida a primeira parte. Agora, no dealbar do 2º round, a a Judite já atirou o osso da Sta Mana Joana para cima da mesa. Ambos dizem que é não assunto mas, quais marias-tagarelas, não se calam. Apesar de tudo, e apesar de não estar a prestar muita atenção, parece-me que o Rui Rio é mais atilado que o outro estarola que, so far, só disse estarolices.
Seja como for, a única coisa que tenho a dizer é que a orelha do Santana Lopes está muito encarnada. Só lhe vejo uma pelo que não sei se a outra também está escarlate como esta deste lado, a esquerda. Mas está a fazer-me impressão. Dizia-se que alguém estava a falar mal de alguém se esse alguém ficasse com a orelha a estalar de vermelhidão. Portanto, não sabendo se é ou não verdade, uma coisa deve ser certa: há ali coisa com 'alguém'. What eu não sei. Às tantas, é o Professor Marcelo (que fez bem em dar um chega para lá nas vizinhas cuscas que aí andavam a saracotear-se a propósito do que a inocente ministra tinha dito) que está a ver o debate e, arrependido, a morder as mãos, vendo bem a leviandade e a maluqueira que vai na cabeça daquele pintas a quem, impensadamente, recebeu no palácio para lhe dar a benção. Deve estar mortificado, entre dentes rogando pragas ao 'seu' candidato: cabeludo da treta, desbocado, cabeça de vento, nunca mais ganha tino, para que é que fui recebê-lo na véspera?, que insensatez a minha....
Mas pronto, isto sou eu a imaginar que aquela orelha rubra resulta do arrependimento do Rei dos Afectos, o nosso ubíquo São Marcelo, e dos desabafos que se lhe soltam mesmo sem querer. Tirando isso, parece que não há mais nada a dizer. Só que alguém devia levar um saquinho de gelo para arrefecer a orelha do estarola.
Pronto. Agora vou jantar. E duvido que o meu compagnon de route queira ver este triste espectáculo. Caraças.
Às vezes digo na brincadeira que acho que já devia ter direito a ser um homem. De facto, já fiz dois filhos, já escrevi material que dava para um monte de livros e já plantei nem sei quantas árvores. Um homem e dos grandes.
Mas, claro, é brincadeirinha pois estou muito bem como estou, mulher de corpo e alma.
No entanto, metáforas à parte, isto de uma pessoa ter que fazer certas coisas para atingir o estatuto de gente inteira faz-me sentido. Não sei como seria eu se, por algum acidente do destino, eu não tivesse conseguido ter filhos, não me desse ao desfrute de escrever sempre que me apetece ou não tivesse tido a oportunidade de plantar árvores. Se penso nisso, concluo a mesma coisa do que quando alvitro o que teria acontecido se a minha mãe tivesse casado com outro que não com o meu pai: não era eu que aqui estava.
Quando estudava e era muito boa aluna, custava-me aceitar elogios e parabéns e não era por falsa modéstia: é que, genuinamente, achava que o que alcançava era por acaso. Não por louvável mérito mas, sempre, por mero acaso. Já o contei muitas vezes: nunca fui de me esforçar. A vida tem solicitações demais para eu as desperdiçar e, em vez de as agarrar, andar a perseguir outras. Talvez por isso, nunca fiz directas enquanto estudava, nunca sofri de males de amor, nunca me senti frustrada por não ter alguma coisa. Contentava-me (e contento-me) com o que a vida punha (e põe) no meu caminho. E se a vida tem sido generosa. Pôs-me um par de mãos que escrevem que se fartam -- e eu não as impeço. Pôs-me um homem mesmo ao meu gosto no meu caminho -- e, por ele, larguei o que tinha. E em boa hora o fiz pois este, certamente melhor do que o outro o faria, completa-me e com ele fiz os meus filhos queridos que me completam ainda mais. E pôs-me um bocado de terra em bruto debaixo dos meus pés -- e eu não desdenhei de tanta pedra e tanto mato. E ainda bem. Fez-me sonhar, imaginei que dela fazia um petit bois e, de facto, dela nasceu um pequeno bosque onde florescem pássaros, borboletas, flores, frutos, sombras, grutas, aconchegos.
As minhas árvores minúsculas pelas quais lutei como uma fera luta por crias frágeis e indefesos, estão hoje enormes, vigorosas. Encanto-me com elas. Fotografo os troncos, passo as mãos pelos fios de seiva cristalizada, abrigo-me à sua sombra, vejo como a vegetação que junto delas também se abriga se diversifica. Aparo as ramagens que a desconfiguram, espreito as bagas, os rebentos, as pinhas, os frutos, os verdes, a beleza total, passo a mão pelas suas rugas, aspiro o perfume que exalam, sinto o bafo morno da terra que se amacia para melhor as tratar. Deslumbro-me com a generosidade da mãe-terra de cujo ventre vem o alimento que faz viver as minhas queridas árvores.
Há quem sinta devoção por deuses abstractos ou por ídolos concretos. Eu sou mais de outros mundos: eu sinto-me abençoada quando na presença de milagres como a existência de árvores. Não sei se são seres divinos, metamorfoses de espíritos livres, acasos improváveis ou o quê. Mas sei que são uma fonte de maravilhamento e religiosidade, isso eu sei. Olhando-as eu toco o céu.
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E estou a escrever estas palavras e mostrar estas fotografias que fiz no fim de semana in heaven -- mais um post a propósito de árvores -- pois a L., Leitora amiga a quem muito agradeço, me enviou um vídeo que logo me encantou: Judi Dench e a sua paixão por árvores. Atrás desse vídeo vieram os que aqui partilho convosco.
E aqui chegados permito-me sugerir que não percam tempo com rapazoladas e hugalexadas em volta do que a ministra Francisca disse sobre a putativa Sta Mana Joana. Deixem isso para a gentinha desqualificada que pulula por entre os balcões televisivos onde se despacham comentários a metro. Nem percam tempo com aquele outro rapazola fora de prazo que, perante a Dominatrix de Sousa, mostrou que tem mais graça quando anda armado em conquistador das dúzias do que quando, inutilmente, tenta parecer credível. Por isso, aceitem o meu conselho: fiquem por aqui em vez de descerem ao post que se segue. Aquilo de que ali se fala não se aproveita para nada.
Ouvi de manhã, na rádio, as palavras ponderadas da ministra. Gosto da ministra Francisca Van Dunen. É directa, objectiva, inteligente, equilibrada. Foi cautelosa no que disse, como sempre o é. Mas, conhecendo o galinheiro que é este país, pensei: 'A cambada dos ex-PàFs, à falta de assunto, vai cair em cima disto a pés juntos. Umas vizinhas, umas coscuvilheiras. Não vão perder a oportunidade para exercerem a sua habitual calhandrice'
De facto assim foi: tudo o que é hugalex das ideias aí anda no rebeubéu, como se estivesse para acontecer um dilúvio ou como se, nas mãos da mana Vidal, os processos estivessem a andar a toda a bisga ou como se naquelas bandas só se visse bom senso e respeito pelo segredo de justiça.
[Sim, sim. Uma coisa exemplar. Na maior parte das vezes uma pessoa até pasma com o que sai dali. E tem razão o meu terrorista preferido: Tem piada falar em autonomia, imparcialidade e independência da PGR no país onde o caso Teconoforma passou em branco depois de Bruxelas considerar ter havido fraude. Tem piada falar em autonomia, imparcialidade e independência da PGR no país onde não houve corrompidos nem corruptores no "processo dos submarinos" que deu condenações por corrupção na Alemanha.]
Mas não foram só os huguinhos desta vida a apressar-se a bolsar patacoadas. A habitual seita da maledicência não tardou. Jornalistas, comentadores, oposições unidas e demais descerebrados aí estão em pleno processo de crucificação da ministra e, em simultâneo, de beatificação da dita bela Joana.
E o que tenho a dizer a isto é que não há pachorra. Com esta histeria, uns dão mau nome à política, outros ao jornalismo e outros à ilustre alma lusitana que, por esta amostra, se vê reduzida à mais pelintra tuguice intelectual.
[Por estas e por outras é que se cria um caldo acultural que acolhe bem os populistas].
Nestas ocasiões é que o nosso São Marcelo devia intervir e fazer um ponto de ordem à mesa para pôr esta gente que parece que não tem mais que fazer senão andar a fazer casos de tudo o que alguém diz ou faz, a atear crises, falsas polémicas, intriguices. A falta de produtividade de um país também se mede nisto, no tempo que muita gente ocupa a falar sobre coisa nenhuma. Vou mais é fazer zapping para não me enervar com esta cambadilha.
Irra.
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Para a coisa ficar ainda mais trumpizada, só mesmo o Santana Lopes ganhar as eleições. Vi um bocado da entrevista na SIC, com a Clara de Sousa toda dominatrix, e até senti algum incómodo pela actuação do candidato Flopes: só palermices, só narcisices, só vulgaridades, só nescidades. Quando calhou ser primeiro-ministro foi um circo. Entretanto, parece que refinou na parvoíce. Tão mau foi o espectáculo que deu, que, para minha surpresa, dei por mim a achar que aqueles pobres laranjas ficariam melhor servidos com o mangas-de-alpaca do Rio. Coitados. Ao que aquilo chegou... De dar dó.
O dia de férias in heaven durou até mais tarde do que devia pois, no regresso, encaixámos-lhe uma ida a casa dos meus pais e, para desespero do meu marido, ainda uma ida à Zara para ver se, nos saldos, arranjava algumas peças de vestuário para os miúdos. Contudo, tendo encontrado tudo já muito escolhido, a demora foi maior pois gosto de ser igualitária no que lhes dou. Ora, aquilo estava mesmo muito esgotado. Encontrando algumas coisas para alguns, em especial para ela (há sempe mais coisas para meninas), para não ser desigual, tive que me empenhar muito, rebuscar tudo, uma e outra vez, para ver se não vinham três ou quatro coisas para ela e nenhuma ou uma ou duas coisas fraquitas para outros. O meu marido não percebe estes meus cuidados. Por ele, chegava lá, encontrávamos quatro ou cinco coisas aproveitáveis, pagava e estava feito. Se eram três coisas para ela, uma para um e outra para outro, ficando dois sem nada, não é coisa que lhe causasse apreensão ou que ficasse com necessidade de se explicar: era o que havia de jeito e ponto final. Mas eu não sou assim. Não faço isso.
Veio de lá meio furioso e o 'meio' está aqui apenas para aligeirar a prosa.
Acresce que, ao entrarmos na rua, que é estreita, estava um camião a descarregar nem sei o quê. Tivemos que ficar na fila de carros que se formou. E ele cada vez mais furioso. Depois perguntou-me o que era o jantar. Respondi que eu ia comer fruta. Ainda mais furioso ficou. Disse-lhe que lhe fazia o jantar que ele quisesse. 'O quê?', a voz passada. E eu: 'O que quiseres'. Furioso: 'Já percebi tudo'. Não percebi o que é que ele tinha percebido mas nem respondi. Eram dez da noite. Fui para a sala separar as roupas dos miúdos por sacos, juntando os talões de troca já que a jovem que estava na caixa não os agrafou a cada peça. Ele fez arroz e comeu com atum e salada. Eu comi um dióspiro e amêndoas. Tinha-me prevenido. Antes de entrar para a Zara, fui comer uma empada de galinha. Ele não quis. Disse depois que nunca imaginou que nos demorássemos tanto. Como se a culpa da dificuldade em arranjar roupa aproveitável no fim dos saldos para cinco crianças fosse minha.
Bem.
E estive a arrumar as sobras do fim de semana já que deixamos sempre o frigorífico desligado. Também estive a passar a ferro a blusa que vou vestir amanhã já que tenho uma reunião bem cedo, não tenho tempo para isso de manhã.
Com este programa de festas, só consegui chegar à sala já tarde. E, tendo ido ver os mails, encontrei um que me deixou impressionadíssima. Fiquei um bocado sem nada fazer, como se nem fosse capaz de assimilar o que tinha lido. Li e reli e depois, a custo, emocionada, consegui responder. Mas respondi com a convicção que não estava a encontrar as palavras certas. Mas não sei se há palavras certas, seja para o que for, quanto mais para situações limites.
E fiquei sem vontade para inventar motivos para escrever sobre outra coisa qualquer. Há alturas em que percebemos como as nossas palavras podem soar fúteis para quem, aí desse lado, se defronta com problemas verdadeiramente sérios.
Por isso, não levem a mal, mas hoje não vou desenvolver qualquer ideia. Estou sem ideias.
Comecei a ler um livro e estou a gostar muito. Não é ficção. São memórias de um tempo inenarrável na vida de uma mulher, quando criança. Memória por Correspondência, O Livro de Emma Reyes, Emma Reyes.
Vinha com ideia de escrever sobre o que tinha lido, talvez até transcrever um ou outro excerto. Contudo, agora não sei do livro. Mas não me apetece ir à procura. Até pode ter ficado no carro. Mas nem é isso. É que estou sem palavras. A vida por vezes tira o chão a algumas pessoas e eu, quando sei de algumas dessas situações, ficou tão impressionada que acho que as minhas fracas palavras não contêm a sabedoria ou a sensibilidade para poderem ser de préstimo para quem aqui vem procurar alguma companhia ou distração. O que sei é que a coragem de que se calhar todos somos capazes não sabendo disso antes de sermos postos à prova é uma coisa que me impressiona muito. Ou se calhar não é coragem, é resiliência. Não sei.
Do que entretanto já soube, a história de Emma Reyes é também a extraordinária história de uma mulher muito corajosa, uma mulher de uma fantástica resiliência. E, por isso, por uma curiosa coincidência, talvez não seja despropositado que, não tendo palavras ajustadas para o que estou a sentir depois do mail que recebi, aqui deixe referência ao livro de memórias por correspondência de uma mulher que teve uma infância muito estranha e muito difícil e que, através da escrita, encontrou a melhor forma de exorcizar a recordação desses seus tempos tão duros.
Ia para escrever sobre o que se passou este domingo in heaven mas comecei a ver o filme da RTP, o Freeheld, e deixei-me ficar, de gosto, a ver. Julianne Moore e a Ellen Page (que, por acaso, casou recentemente com Emma Portner) numa história verídica. O sofrimento encenado de uma forma exemplar, muito digna. Uma luta muito triste mas mais do que justa.
Por isso, a esta hora já era para ter escrito e estar na cama e ainda estou no início da escrita. É a minha sina.
Enquanto escrevo, ouço uma chuva leve e penso que devia ser mais forte. No outro dia o vizinho lá da ponta, quando o meu marido disse que ainda bem que já começou a cair alguma chuva, encolheu os ombros e disse que isto não é chuva de verdade, é só chuva de entreter. Mas com esta chuvita miúda que tem caído de quando em vez, a terra humedeceu e começam a aparecer os cogumelos. Estão por todo o lado, de todos os tamanhos e cores. E junto aos muros, rebentam ervinhas, florzinhas. Encanta-me a beleza fractal da natureza.
Os troncos das árvores, e mesmo os velhos troncos mortos, cobrem-se de líquenes, uns amarelos, outros brancos, uns mais rendilhados, outros mais aveludados. E em tudo eu vejo perfeição. Aprendendo, aqui na natureza, a conhecer as diferentes fases da vida e as diferentes formas de que se revestem, eu aprendo também a aceita e a respeitar melhor os ciclos imparáveis da vida humana.
Mesmo as minhas laranjeiras, tão fracas, tão carenciadas de tratamento (comprei um produto, a ver se vejo como se aplica para tratar delas, coitadas), dão umas laranjas tão bonitas e doces.
Mas fazia mesmo falta, agora, um belo aguaceiro. Ouço um pingo aqui, um pingo ali e, de facto, isso não é nada.
Aqui onde estou, está a salamandra com um belo fogo e o conforto que resulta deste calor orgânico e perfumado é qualquer coisa de aconchegante e bom.
Mas vou contar para que é que precisava que chovesse a sério.
No outro dia, a meio da semana, o meu filho disse que gostava de vir plantar uma horta, aqui in heaven.
Sempre teve esta ideia mas o terreno é hostil, pedregoso. Pelo menos era. Cada vez parece mais fértil. Já vos contei sobre esta transformação que parece mágica. Até a terra escureceu, se tornou mais macia. Deve haver explicação lógica mas a mim, que pouco sei de coisas da terra, isto parece-me coisa do domínio do mistério, do quase divino. Só que, ao tornar-se fértil, à terra tudo lhe nasce: silvados potentíssimos, tojo rijo que forma uma mata densa. Quase impossível limpar a terra, torná-la lisinha, despedregada, desmatada. Mas ele tinha esta ideia desde sempre. Na casa dele já tem a sua horta de que todos lá em casa tratam com entusiasmo. Também eu, de vez em quando pensava nisso. No outro dia, tinha dito ao meu marido: um dia vamos tentar fazer uma horta, podermos comer o que plantamos. Até acrescentei que gostava de ter galinhas e patos para termos ovos. Mas depois veio aquela velha questão: matar os animais nem pensar, não somos capazes. E haveriam de envelhecer e cair para o lado e não nos vemos a lidar bem com a situação. Por isso, pronto, animais de criação, não. Também gostava de ter uma cabrinha. Só que a cabrinha haveria de comer a horta. Por isso, cabrinha também não. Só a horta, portanto. Um dia. Por isso, quando o meu filho disse que gostava de cá vir fazer uma horta, pensei que ele tinha lido os meus pensamentos.
Então vieram cá todos tratar do assunto. Compraram acelgas, beterrabas, couve-chinesa, couve-flor, cebolas, morangos e outras coisas de que agora não me lembro. Vieram enxadas, vieram redes para fazer uma vedação a ver se os coelhos nao dão conta de tudo.
Foram escolher um sítio. É junto à barreira, perto de um pinheiro e de uma figueira. Limparam o terreno, cavaram. Deve ter sido trabalho árduo. Pouco tempo estive ao pé deles pois estava a passear o bebé no carrinho e de guarda aos miúdos que estavam a andar de bicicleta. Depois vim com eles para casa para acabar o almoço, enquanto eles brincavam e brigavam (conforme contei no post abaixo).
Passado um bocado recebi uma sms da minha nora com uma fotografia da horta. Ela própria andou a dispor as plantinhas. Uma maravilha. Estou encantada e desejando que medrem.
Sendo eu da beira do mar e da margem dos rios e devota das ondas, da maresia, do deslizar das águas e do voo das gaivotas, tenho este lado telúrico, muito próximo da terra, como se parte de mim precisasse deste contacto directo com o dela brota e nela vive.
Depois de almoço fui lá ver. Iam fazer a vedação mas não consegui ficar a fazer a reportagem pois as solicitações nestes dias são mais do que muitas. Mas depois fotografo para vos mostrar.
Também andaram a cortar ramos de árvores com a motosserra e a transformá-los em pequenos troncos para a lareira e para a salamandra. Custaram a conseguir pô-la a trabalhar. Não dava nem por mais uma. Às tantas acho que perceberam que o motor se tinha afogado e viram, nas instruções, o que fazer nessas circunstâncias. O meu marido com isto nas mãos é um perigo.
Tremo com o que ele vai fazer pois é apologista de fazer limpezas radicais. No entanto, reconheço que estava uma floresta um pouco indómita e que agora já está mais desafogada e limpa.
Não se regou a horta porque, se chover, fica regada. Mas, se de manhã vir que a terra está seca, vamos mesmo ter que regá-la. Penso que cá de cima, com mangueira, se conseguirá regar. Senão levamos garrafões e despeja-se uma pinga em cada plantinha.
E isto tudo para vos dizer que estou mesmo feliz. Não apenas foi um dia muito bem passado como... já tenho uma horta! A ver é se os coelhos não arranjam maneira de entrar através da rede e dar conta de tudo. Dantes, quando plantávamos as arvorezinhas que agora estão gigantes, era frequente chegarmos cá na semana seguinte e os coelhos terem comido tudo. Até os tubinhos de rega eles roíam. Ou, se não eram os coelhos, eram outros bichos. Por isso, fiquei um bocado traumatizada. Mas pode ser que não, que não consigam passar pela rede.