Mãe Maria
Maria Bethânia
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Lídia saía do emprego cansada e já enervada. Aliás, também era assim que se levantava todos os dias, cansada e enervada.
Neste dia, tal como nos outros dias, sem saber se havia de ir depressa se, pelo contrário, arranjar um pretexto para se atrasar, descia o caminho que a levaria à paragem de autocarro.
Neste dia, tal como nos outros dias, sem saber se havia de ir depressa se, pelo contrário, arranjar um pretexto para se atrasar, descia o caminho que a levaria à paragem de autocarro.
Até ao autocarro chegar, ensaiava desculpas sem saber a quem as havia de apresentar.
Depois, já no autocarro, hesitava em parar junto ao supermercado ou ir logo para casa. Pensava, o pão dá até amanhã, de manhã já só havia duas maçãs e já estavam um bocado murchas. E há as fraldas e os resguardos que se não comprar hoje, tenho que comprar amanhã. Suspirando, desceu para ir ao supermercado.
Enquanto se aproximava, pensava no que iria fazer para o jantar. Ainda lá tinha um resto de canja, talvez uns ovos ou um queijo fresco. E lembrou-se outra vez que no dia seguinte tinha que passar pelo Centro para ir buscar a receita. Outra vez. Ou era para marcar consulta, ou para ir buscar prescrições para análises ou receitas, ou era ir mostrar as análises, sempre isto, sempre, horas nisto e sempre enervada, o tempo que tudo aquilo demorava.
No supermercado reparou numa mulher elegante, umas calças justas, uma blusa justa sem mangas, cabelo comprido, ágil toda ela.
Comparou-se com ela e achou-se pesada, cabelo baço, raízes brancas à vista, uma blusa larga sem graça e os olhos, sabia, conhecia tão bem os seus olhos, tristes, sempre tão tristes.
Para se consolar, pensou que a outra devia ser bem mais nova. No entanto, passado um bocado, um miúdo de uns sete ou oito anos apareceu com um livro gritando pela avó, se podia levar aquele livro. Lídia desanimou, já avó? querem ver que afinal é mais velha que eu?
Comparou-se com ela e achou-se pesada, cabelo baço, raízes brancas à vista, uma blusa larga sem graça e os olhos, sabia, conhecia tão bem os seus olhos, tristes, sempre tão tristes.
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Para se consolar, pensou que a outra devia ser bem mais nova. No entanto, passado um bocado, um miúdo de uns sete ou oito anos apareceu com um livro gritando pela avó, se podia levar aquele livro. Lídia desanimou, já avó? querem ver que afinal é mais velha que eu?
Cabeça baixa, comprou o que tinha a comprar e lá foi, rua fora, um saco pesado de cada lado. Pensamento positivo, auto estima, toda a gente lhe diz isto, bons conselhos, pensa Lídia. Mas como? E para quê?
Ainda não tinha chegado junto à porta do prédio e já o coração estava a disparar. Como estarão as coisas hoje? Sempre aquele pavor. Pousou os sacos, viu o correio. Nada. Nunca havia uma carta, nunca. Só facturas, folhetos, coisas sem interesse. Uma carta de uma amiga, um postal de uma prima, um bilhetinho de um admirador desconhecido, nunca.
Subiu o elevador. O coração acelerado, uma aflição, sempre aquela angústia. Um dia chegaria e teria um susto, descobriria o que em sonhos tantas vezes lhe aparecia. Um corpo caído. Encostou o ouvido à porta. Nada, nem um som.
Abriu devagar, sempre tanto medo, tanto. Meu Deus, fazei que esteja viva, fazei.
Não valia a apena chamar, não ouviria. Pousou os sacos. Foi à sala. Lá estava a mãe de olhos quase fechados, sentada onde a tinha deixado de manhã, o prato, o copo, o pacote de sumo ao lado. A D. Fátima tinha lá ido à hora de almoço tratar da higiene, dar-lhe o almoço, os comprimidos e, depois, a meio da tarde, outra vez para lhe dar o lanche.
Então mãe? Bem à frente dela, bem alto.
A mãe acordou da sua letargia, Estiveram aí uns poucos. Traziam uns sacos, remexeram tudo, levaram os teus anéis. Estou farta de dizer que devias esconder tudo. Agora vieram cá, levaram tudo. Entraram por aí, por essa porta, e eu em me mexi. E apontava para uma estante.
Lídia não se alterou, era sempre a mesma conversa e agora confundia a estante com uma porta. Perguntou-lhe Então e esteve bem? A D. Fátima levou-a a dar uma voltinha pela sala, levou-a até à janela?
A mãe, com ar aborrecido, fez que não ouviu. Lídia repetiu mais alto. A mãe respondeu Ela hoje não veio cá, estou aqui sozinha desde ontem. Tens que a mandar embora, só cá vem para roubar tudo, já levou os lençóis todos.
Lídia encolheu os ombros. Depois, cansada, Mãe, veja se não dorme agora; porque não presta atenção à televisão? Estava mais distraída. Assim já sabe que de noite não tem sono, não dorme e não me deixa dormir, mãe, e era quase uma súplica, precisava tanto de dormir uma noite descansada.
Lídia encolheu os ombros. Depois, cansada, Mãe, veja se não dorme agora; porque não presta atenção à televisão? Estava mais distraída. Assim já sabe que de noite não tem sono, não dorme e não me deixa dormir, mãe, e era quase uma súplica, precisava tanto de dormir uma noite descansada.
A mãe encolheu os ombros, Não ouço nada e Lídia não percebeu se a mãe dizia que não a tinha ouvido a ela ou se estava a justificar-se de não ver televisão.
Cansada, Lídia foi mudar de roupa, passou pelo espelho e viu uma mulher a envelhecer, desviou o olhar, foi para a cozinha. Ligou a televisão da cozinha. Só tretas, só doenças, mortes, roubos, aumentos de impostos, roubos e mais roubos, a televisão só dá disto, pensou.
Aqueceu a sopa, fez um cerelac, arranjou um tabuleiro e levou à mãe.
Não quero, ainda não tenho fome, e o tom é quase agressivo. Vá lá mãe, já é tarde, a ver se não vai para a cama de barriga cheia, tem que comer. Mas a mãe insiste, não quero, ainda há bocado acabei de lanchar. Até há algum tempo atrás Lídia confrontá-la-ia então, mas não disse que a D. Fátima não veio? mas agora já não diz nada. Põe-lhe um pano no colo, ajeita-a, põe-lhe a colher na mão. Mas, como a mãe não se mexe, começa a dar-lhe a comida à boca. A mãe não quer, afasta a colher com gestos de criança, fecha a boca, depois diz a minha mãe esteve aí há bocado e disse que eu estou bem assim, que não preciso de comer muito. Lídia não se admira, Está bem, mãe, mas agora coma lá, vá lá, mãe, mas o cansaço na voz de Lídia é pesado, apetece-lhe desistir, apetece-lhe descansar.
Cansada, Lídia foi mudar de roupa, passou pelo espelho e viu uma mulher a envelhecer, desviou o olhar, foi para a cozinha. Ligou a televisão da cozinha. Só tretas, só doenças, mortes, roubos, aumentos de impostos, roubos e mais roubos, a televisão só dá disto, pensou.
Aqueceu a sopa, fez um cerelac, arranjou um tabuleiro e levou à mãe.
Não quero, ainda não tenho fome, e o tom é quase agressivo. Vá lá mãe, já é tarde, a ver se não vai para a cama de barriga cheia, tem que comer. Mas a mãe insiste, não quero, ainda há bocado acabei de lanchar. Até há algum tempo atrás Lídia confrontá-la-ia então, mas não disse que a D. Fátima não veio? mas agora já não diz nada. Põe-lhe um pano no colo, ajeita-a, põe-lhe a colher na mão. Mas, como a mãe não se mexe, começa a dar-lhe a comida à boca. A mãe não quer, afasta a colher com gestos de criança, fecha a boca, depois diz a minha mãe esteve aí há bocado e disse que eu estou bem assim, que não preciso de comer muito. Lídia não se admira, Está bem, mãe, mas agora coma lá, vá lá, mãe, mas o cansaço na voz de Lídia é pesado, apetece-lhe desistir, apetece-lhe descansar.
Resolve esperar. Vai ela jantar. Senta-se sozinha na mesa da cozinha, olhando a televisão. Adriano Moreira numa entrevista a Fátima Campos Ferreira, uma grande entrevista, percebe, mas não consegue concentrar-se. De repente, sem motivo aparente, começa a chorar. A vida é uma coisa boa, pensamento positivo, pois, é bom de dizer, o pior é o resto... Chora com pena de si própria, sem solução, enredada neste destino a que não pode nem quer fugir. Se pudesse falar com alguém, ao menos isso. Se alguém aparecesse para a abraçar e para tomar conta dela e da mãe.
Lembra-se da mãe, a querida mãe Maria, a mãe quando era nova, enérgica, a pôr a mesa, estendendo a toalha, passando com a mão para alisar, toda ela vivacidade, ou a fazer a cama e os lençóis faziam um ventinho bom quando ela os sacudia, e à noite sentava-se a organizar o álbum de fotografias e era bonita, arranjava-se e, depois, Lídia lembra-se também de si própria, menina cheia de vida, cheia de alegria, a vida pela frente, pensando que ia ter um namorado, um marido, filhos. E agora estava ali sentada a uma mesa de cozinha, sozinha, lágrimas escorrendo, pensando que piores dias ainda estavam por vir e que teria que os enfrentar sozinha.
Depois viu as horas. Tarde. Voltou para a sala, a mãe dormia. Vá lá mãe, acorde, tem que comer, vá lá que tem os comprimidos para tomar e não os pode tomar de barriga vazia, tem que comer qualquer coisa, mãe, vá lá. A mãe abre os olhos, ar agressivo, deixa-me, sempre a chateares-me, estúpida, vai chamar a minha filha, quero ir-me embora daqui, quero ir para casa. Vais ver o que te vai acontecer quando souberem o que me fazes.
Lídia não diz nada. Tenta dar-lhe a sopa mas a mãe afasta-a com violência e a colher vai parar ao chão, isto já está frio, não quero nada disto, que porcaria, só me dão porcarias, vais ver o que te acontece, vais ver.
Lídia vai buscar papel e limpa o chão. Depois diz, vá, mãe, vamos lá então para a cama, agarre-se a mim, faço outra papa e dou-lha na cama. E pensa, agora vai ser um drama para lhe mudar a fralda. Chora em silêncio, cansada, mas não diz nada para não enervar a mãe.
Mais de uma hora depois, depois de ter deitado a mãe, fralda limpa, medicamentos tomados, meia dúzia de colheres de cerelac, Lídia dá-lhe as gotas para dormir. Por um momento pensa que devia aumentar a dose mas tem medo, não o faz. Lembra-se que uma colega, anos atrás: deu gotas a mais à mãe, também já não conseguia passar mais noites mal dormidas e no dia seguinte a mãe não acordava e ela apanhou um susto de morte.
Depois, finalmente, quando estava despachada, ficou sem saber o que fazer. Sentou-se na sala, pegou numa boneca de pano que comprou muito tempo atrás numa feira de artesanato, sentou-a ao colo, sempre era uma companhia. Abriu o computador, leu umas coisas. Sempre era uma companhia, também o computador.
Acordou algum tempo depois, angustiada, assustada. Tinha tido um sonho estranho, e, assustada, logo pensou em ir espreitar a mãe, será que lhe tinha dado as gotas na dose certa? e o sonho não lhe saía da cabeça, era mais nova, e estava sozinha, triste, os olhos tão tristes e vazios, tão perdida, sempre tão triste ela, e tinha um seio branco e inútil de fora do roupão. E ao seu colo dormia um inquietante cão branco, também muito triste.
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As pinturas são de Lucian Freud (1922-2011), pintor inglês, nascido alemão, neto de Sigmund Freud.
[Caso pretendam ler esta história de seguida (do último post para o primeiro), queiram, por favor, pesquisar aí do lado direito, mais para baixo, a etiqueta 'Lídia - a mulher muito triste'].
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Hoje deu-me para tristezas. Peço desculpa se vos contagiei.
Pode não parecer mas desejo-vos um dia alegre. Aproveitem a vida, meus Caros Leitores!
















