sexta-feira, setembro 07, 2012

Lídia, a mulher triste que sonhou que estava triste com um seio triste à vista e um cão branco e muito triste ao colo


Mãe Maria


Maria Bethânia

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Lídia saía do emprego cansada e já enervada. Aliás, também era assim que se levantava todos os dias, cansada e enervada.

Neste dia, tal como nos outros dias, sem saber se havia de ir depressa se, pelo contrário, arranjar um pretexto para se atrasar, descia o caminho que a levaria à paragem de autocarro.

Até ao autocarro chegar, ensaiava desculpas sem saber a quem as havia de apresentar.

Depois, já no autocarro, hesitava em parar junto ao supermercado ou ir logo para casa. Pensava, o pão dá até amanhã, de manhã já só havia duas maçãs e já estavam um bocado murchas. E há as fraldas e os resguardos que se não comprar hoje, tenho que comprar amanhã. Suspirando, desceu para ir ao supermercado.

Enquanto se aproximava, pensava no que iria fazer para o jantar. Ainda lá tinha um resto de canja, talvez uns ovos ou um queijo fresco. E lembrou-se outra vez que no dia seguinte tinha que passar pelo Centro para ir buscar a receita. Outra vez. Ou era para marcar consulta, ou para ir buscar prescrições para análises ou receitas, ou era ir mostrar as análises, sempre isto, sempre, horas nisto e sempre enervada, o tempo que tudo aquilo demorava.

No supermercado reparou numa mulher elegante, umas calças justas, uma blusa justa sem mangas, cabelo comprido, ágil toda ela.

Comparou-se com ela e achou-se pesada, cabelo baço, raízes brancas à vista, uma blusa larga sem graça e os olhos, sabia, conhecia tão bem os seus olhos, tristes, sempre tão tristes.



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Para se consolar, pensou que a outra devia ser bem mais nova. No entanto, passado um bocado, um miúdo de uns sete ou oito anos apareceu com um livro gritando pela avó, se podia levar aquele livro. Lídia desanimou, já avó? querem ver que afinal é mais velha que eu? 

Cabeça baixa, comprou o que tinha a comprar e lá foi, rua fora, um saco pesado de cada lado. Pensamento positivo, auto estima, toda a gente lhe diz isto, bons conselhos, pensa Lídia. Mas como? E para quê?

Ainda não tinha chegado junto à porta do prédio e já o coração estava a disparar. Como estarão as coisas hoje? Sempre aquele pavor. Pousou os sacos, viu o correio. Nada. Nunca havia uma carta, nunca. Só facturas, folhetos, coisas sem interesse. Uma carta de uma amiga, um postal de uma prima, um bilhetinho de um admirador desconhecido, nunca.

Subiu o elevador. O coração acelerado, uma aflição, sempre aquela angústia. Um dia chegaria e teria um susto, descobriria o que em sonhos tantas vezes lhe aparecia. Um corpo caído. Encostou o ouvido à porta. Nada, nem um som.

Abriu devagar, sempre tanto medo, tanto. Meu Deus, fazei que esteja viva, fazei.

Não valia a apena chamar, não ouviria. Pousou os sacos. Foi à sala. Lá estava a mãe de olhos quase fechados, sentada onde a tinha deixado de manhã, o prato, o copo, o pacote de sumo ao lado. A D. Fátima tinha lá ido à hora de almoço tratar da higiene, dar-lhe o almoço, os comprimidos e, depois, a meio da tarde, outra vez para lhe dar o lanche.

Então mãe? Bem à frente dela, bem alto.



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A mãe acordou da sua letargia, Estiveram aí uns poucos. Traziam uns sacos, remexeram tudo, levaram os teus anéis. Estou farta de dizer que devias esconder tudo. Agora vieram cá, levaram tudo. Entraram por aí, por essa porta, e eu em me mexi. E apontava para uma estante.

Lídia não se alterou, era sempre a mesma conversa e agora confundia a estante com uma porta. Perguntou-lhe Então e esteve bem? A D. Fátima levou-a a dar uma voltinha pela sala, levou-a até à janela? 

A mãe, com ar aborrecido, fez que não ouviu. Lídia repetiu mais alto. A mãe respondeu Ela hoje não veio cá, estou aqui sozinha desde ontem. Tens que a mandar embora, só cá vem para roubar tudo, já levou os lençóis todos.

Lídia encolheu os ombros. Depois, cansada, Mãe, veja se não dorme agora; porque não presta atenção à televisão? Estava mais distraída. Assim já sabe que de noite não tem sono, não dorme e não me deixa dormir, mãe, e era quase uma súplica, precisava tanto de dormir uma noite descansada.

A mãe encolheu os ombros, Não ouço nada e Lídia não percebeu se a mãe dizia que não a tinha ouvido a ela ou se estava a justificar-se de não ver televisão.

Cansada, Lídia foi mudar de roupa, passou pelo espelho e viu uma mulher a envelhecer, desviou o olhar, foi para a cozinha. Ligou a televisão da cozinha. Só tretas, só doenças, mortes, roubos, aumentos de impostos, roubos e mais roubos, a televisão só dá disto, pensou.

Aqueceu a sopa, fez um cerelac, arranjou um tabuleiro e levou à mãe.

Não quero, ainda não tenho fome, e o tom é quase agressivo. Vá lá mãe, já é tarde, a ver se não vai para a cama de barriga cheia, tem que comer. Mas a mãe insiste, não quero, ainda há bocado acabei de lanchar. Até há algum tempo atrás Lídia confrontá-la-ia então, mas não disse que a D. Fátima não veio? mas agora já não diz nada. Põe-lhe um pano no colo, ajeita-a, põe-lhe a colher na mão. Mas, como a mãe não se mexe, começa a dar-lhe a comida à boca. A mãe não quer, afasta a colher com gestos de criança, fecha a boca, depois diz a minha mãe esteve aí há bocado e disse que eu estou bem assim, que não preciso de comer muito. Lídia não se admira, Está bem, mãe, mas agora coma lá, vá lá, mãe, mas o cansaço na voz de Lídia é pesado, apetece-lhe desistir, apetece-lhe descansar.

Resolve esperar. Vai ela jantar. Senta-se sozinha na mesa da cozinha, olhando a televisão. Adriano Moreira numa entrevista a Fátima Campos Ferreira, uma grande entrevista, percebe, mas não consegue concentrar-se. De repente, sem motivo aparente, começa a chorar. A vida é uma coisa boa, pensamento positivo, pois, é bom de dizer, o pior é o resto... Chora com pena de si própria, sem solução, enredada neste destino a que não pode nem quer fugir. Se pudesse falar com alguém, ao menos isso. Se alguém aparecesse para a abraçar e para tomar conta dela e da mãe.

Lembra-se da mãe, a querida mãe Maria, a mãe quando era nova, enérgica, a pôr a mesa, estendendo a toalha, passando com a mão para alisar, toda ela vivacidade, ou a fazer a cama e os lençóis faziam um ventinho bom quando ela os sacudia, e à noite sentava-se a organizar o álbum de fotografias e era bonita, arranjava-se e, depois, Lídia lembra-se também de si própria, menina cheia de vida, cheia de alegria, a vida pela frente, pensando que ia ter um namorado, um marido, filhos. E agora estava ali sentada a uma mesa de cozinha, sozinha, lágrimas escorrendo, pensando que piores dias ainda estavam por vir e que teria que os enfrentar sozinha.

Depois viu as horas. Tarde. Voltou para a sala, a mãe dormia. Vá lá mãe, acorde, tem que comer, vá lá que tem os comprimidos para tomar e não os pode tomar de barriga vazia, tem que comer qualquer coisa, mãe, vá lá. A mãe abre os olhos, ar agressivo, deixa-me, sempre a chateares-me, estúpida, vai chamar a minha filha, quero ir-me embora daqui, quero ir para casa. Vais ver o que te vai acontecer quando souberem o que me fazes.

Lídia não diz nada. Tenta dar-lhe a sopa mas a mãe afasta-a com violência e a colher vai parar ao chão, isto já está frio, não quero nada disto, que porcaria, só me dão porcarias, vais ver o que te acontece, vais ver.

Lídia vai buscar papel e limpa o chão. Depois diz, vá, mãe, vamos lá então para a cama, agarre-se a mim, faço outra papa e dou-lha na cama. E pensa, agora vai ser um drama para lhe mudar a fralda. Chora em silêncio, cansada, mas não diz nada para não enervar a mãe.

Mais de uma hora depois, depois de ter deitado a mãe, fralda limpa, medicamentos tomados, meia dúzia de colheres de cerelac, Lídia dá-lhe as gotas para dormir. Por um momento pensa que devia aumentar a dose mas tem medo, não o faz. Lembra-se que uma colega, anos atrás: deu gotas a mais à mãe, também já não conseguia passar mais noites mal dormidas e no dia seguinte a mãe não acordava e ela apanhou um susto de morte.

Depois, finalmente, quando estava despachada, ficou sem saber o que fazer. Sentou-se na sala, pegou numa boneca de pano que comprou muito tempo atrás numa feira de artesanato, sentou-a ao colo, sempre era uma companhia. Abriu o computador, leu umas coisas. Sempre era uma companhia, também o computador.

Depois encostou-se no sofá, braços cruzados no peito, era como se estivesse abraçada a si própria, a única companhia que tinha. A solidão pesava-lhe tanto, estava tão triste.

Acordou algum tempo depois, angustiada, assustada. Tinha tido um sonho estranho, e, assustada, logo pensou em ir espreitar a mãe, será que lhe tinha dado as gotas na dose certa? e o sonho não lhe saía da cabeça, era mais nova, e estava sozinha, triste, os olhos tão tristes e vazios, tão perdida, sempre tão triste ela, e tinha um seio branco e inútil de fora do roupão. E ao seu colo dormia um inquietante cão branco, também muito triste.




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As pinturas são de Lucian Freud (1922-2011), pintor inglês, nascido alemão, neto de Sigmund Freud.


[Caso pretendam ler esta história de seguida (do último post para o primeiro), queiram, por favor, pesquisar aí do lado direito, mais para baixo, a etiqueta 'Lídia - a mulher muito triste'].

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Hoje deu-me para tristezas. Peço desculpa se vos contagiei. 
Pode não parecer mas desejo-vos um dia alegre. Aproveitem a vida, meus Caros Leitores!

quinta-feira, setembro 06, 2012

As mulheres em órgãos de liderança segundo Bruxelas; as mulheres que morrem às mãos de companheiros ou ex-companheiros; o papel das mulheres na sociedade; as mulheres (algumas) descritas por elas próprias - breves apontamentos, breves lamentos. E tudo na companhia de algumas mulheres de Paula Rego


Ave Mundi (In Memoriam)


 Rodrigo Leão


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A notícia não é de hoje mas evito falar de temas mórbidos pelo que, na altura, não quis falar nela. Contudo uma outra notícia, aparentemente não relacionada, fez-me ontem ter vontade de pegar no assunto. Mas ontem, ao escrever, tinha chegado de um passeio deleitoso e não estava com disposição para coisas tristes. Mas aqui estou agora, portanto.

Este ano já foram assassinadas 26 mulheres por companheiros e ex-companheiros.

Creio que a última foi a professora de Lagos que as televisões mostraram caída num jardim. Houve o pudor de não mostrar o rosto e o tronco. Apenas vi o que parecia serem umas calças largas de algodão fininho em azul escuro e branco, uns pés ainda com as sandálias de verão, as unhas pintadas, uma mulher descontraída num dia de verão. Diz quem os viu que conversavam num banco de jardim e que parecia ser uma conversa normal. A professora foi ao encontro do homem que lhe ia tirar a vida e, se calhar, para bem dela, nem se apercebeu que era isso que estava prestes a acontecer-lhe. Depois de estarem a conversar como um qualquer casal, o professor reformado, um homem ainda relativamente novo, cerca de 60 anos, ter-se-á levantado e, dizem que friamente, atirou a matar.



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Mas o que quer dizer friamente? Não estar aos gritos? Mas e o estado em que estava o seu coração? Talvez estivesse descompassado. E a sua cabeça? Talvez estivesse desvairada. Não sabemos.

Foi apenas mais um caso. Matou-se a ele próprio depois, mas isso apenas prova a perturbação que vai na cabeça de quem comete um acto limite destes.

Li na comunicação social que, neste caso, se teriam separado e que ele nunca teria aceitado a separação. É referida depressão, algum desleixo pessoal, desinteresse pela vida. Morrer de amor, mourir d’aimer, diz-se em casos assim. Mas isto não é amor: é perturbação, loucura, mal de vivre; ou seja, é qualquer coisa que requer tratamento clínico e não tratamento literário.



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Imagino o medo, a permanente inquietação das mulheres que vivem atormentadas por companheiros (sejam eles maridos, namorados, amantes, o que for) quando este tipo de ameaças paira no ar. Assim, latejante, permanente, o medo, o medo da violência, o medo de represálias, de sustos, de vexames, o medo calado, a inquietação surda, latente. 

Sabe-se que estes casos são geralmente acompanhados por ciúmes doentios, desconfianças, obsessões, uma insegurança limite.

E nem falo de outros fenómenos que costumam acompanhar esta sintomatologia tais como alcoolismo ou qualquer outro tipo de dependência e que contribuem para a desgraça do próprio e de quem sofre na carne a violência das suas manifestações.



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Viver com uma pessoa assim deve ser um tormento. Ouvi no outro dia um psicólogo dizer que, num quadro destes, geralmente o risco aumenta com a separação. Aí, o homem tende a sentir-se rejeitado, envergonhado na via pública, e, a tudo o que antes sentia, junta-se o despeito, a vontade de vingança, se não és para mim, então não serás para ninguém. E a vida começa a girar em volta dessa ideia nefasta.

É, então, nesse caso, a mulher um ser indefeso? E é mais indefesa por ser mulher?

Talvez seja, não sei. Mas, se pensar um pouco no assunto, admito que sim. E não porque a sua condição feminina a torne física ou psicologicamente mais vulnerável mas porque a mulher se sente ainda, aos olhos da sociedade, um alvo mais fácil. Alvo de censura, alvo de rejeição, alvo de chacota, alvo de vergonha. A sociedade, pelo menos a população mais rural, menos aberta, nos meios mais pequenos, ainda tende, em primeiro lugar, a culpar a mulher ou a fazê-la sentir-se culpada. 



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Talvez a uma mulher, num meio fechado, seja mais difícil dizer: aquele homem é insuportável, estou farta de o aturar, quero partir para outra, tenho direito a viver a minha vida sem ter que carregar um fardo como aquele, tenho direito a recomeçar a vida sozinha ou com quem me apetecer. E ponto final que não tenho que dar mais satisfações

Talvez seja mais difícil chegar ao posto local da GNR e apresentar queixa porque talvez tenha medo de retaliações por parte do acusado ou de censura por parte dos vizinhos. 

Ou seja, para uma mulher que vive uma situação de risco, há ainda um caminho a percorrer mas penso que, seja qual for esse caminho, ele passa sempre, numa primeira fase, por pedir ajuda - ou ligar para um número de ajuda pedindo orientações, ou ir a um posto local da PSP ou GNR ou ao tribunal. Não sei exactamente como deve ser mas há, certamente, quem esteja preparado para ajudar.



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Mas o que as mulheres que atravessam problemas deste género não devem fazer é esconder a sua situação.

A vida é uma apenas e deve ser vivida com dignidade e com qualidade. Esconder o medo e encobrir o agressor ou o doente que lhes faz a vida num tormento é que não.

Apenas falando e pedindo ajuda se poderá avançar.


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Claro que a luta pela igualdade deve ser uma luta permanente (embora eu a ache uma luta absurda e ridícula). Devia ser uma coisa natural e não uma coisa pela qual lutar. 

Li que: “A Comissão Europeia quer obrigar as maiores empresas da União Europeia (UE) a ter pelo menos 40% de mulheres entre os membros não executivos dos seus conselhos de administração.

A medida consta de uma proposta de directiva que o executivo comunitário está a discutir internamente e que abrange as empresas cotadas em bolsa, que deverão atingir aquela percentagem em 2020”



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E foi esta notícia que também me pôs fora de mim e me leva a estar hoje a escrever sobre isto. Repare-se no absurdo: estamos a falar em cargos não executivos ou seja cargos ocupados por  gente que, de facto, não manda nem exerce funções operacionais, gente que geralmente apenas reúne quando o rei faz anos e que está lá, nas empresas, para ser informada ou, quanto muito, opinar. E estamos a falar numa meta de 40% para 2020. Podia ser 50% das mulheres em cargos executivos de gestão no prazo de 3 anos. Mas não, trata-se de 40% em 2020 e em cargos não-executivos.  Ou seja, parece até uma brincadeira, é um absurdo.

Mas ainda mais brincadeira e absurdo é que isto seja apresentado como uma grande coisa. E ainda muito mais brincadeira e mais absurdo quando, se calhar, se não for assim, nem estas ridículas metas serão atingidas.

O estranho em tudo isto é que a população é maioritariamente feminina, e que, além disso, está mais que provado que, na gestão, as mulheres geralmente apresentam melhores índices de desempenho pois pelas características do cérebro feminino, as mulheres são mais multi-task, estabelecem melhores redes, estabelecem consensos com maior facilidade, são mais pragmáticas nos processos de decisão.

Então a que se deve este papel tão secundário para o qual as mulheres ainda estão relegadas?



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Penso que a vários motivos. Os historiadores, antropólogo, sociólogos saberão disto mil vezes melhor que eu, mas arrisco. Julgo que se deverá, em primeiro lugar, a motivos ancestrais. As mulheres pela sua condição de dar à luz, amamentar, etc, tendem a, naturalmente, ficar mais tempo em casa com os filhos e isto é um facto e é natural e defensável que assim seja. Depois haverá os preceitos das igrejas, feitos por homens, que inculcam nas mulheres a função maternal acima de qualquer outra, desta forma protegendo os direitos deles próprios, homens. Depois, tudo isto em conjunto, ao longo dos tempos terá ido formando uma base de aculturação que amarra as mulheres a estes preconceitos, formatando-as para a culpa e para o sentimento de vergonha sempre que o seu comportamento se afasta destes cânones. Depois, uma coisa arrasta a outra: se a mulher fica em casa, não tem rendimentos próprios e, se os não tem, fica dependente; e, se fica dependente, fica submissa. 

E anos e anos e anos disto terá acabado por se transformar em ortodoxias, coisas que se aceitam sem se questionarem. E, mesmo quando aos poucos algumas coisas vão mudando, a base ainda lá está. 

E talvez por tudo isto, se assista, depois, a que são as próprias mulheres a contribuir bastante para este estado. Repare-se como, tantas vezes, mesmo algumas mulheres tidas por mais evoluídas, quando se manifestam publicamente, parece que se comprazem em manter-se no registo de mulherzinhas, criticando como uma ladainha os homens que são maus, infiéis, pouco sinceros, pouco atenciosos, ou falando da sua própria condiçãozinha de criaturas que gostam acima de tudo de sapatos, ou de coitadinhas que padecem de calores, afobações e outras abulias. Colocam-se frequentemente no papel de criaturas que pouco mais além olham do que o próprio umbigo ou a ponta dos pés, gostando de relatar a sua infelicidade e fraqueza, procurando a companhia de outras que padecem dos mesmos males. Autênticas comunidades de mulheres que fazem gala em auto-proclamar-se como abandonadas, preteridas, virgens ofendidas, indefesas e fúteis criaturas que se acham moderninhas trocando gracinhas sobre sapatinhos.

Ora, com uma atitude tão confessadamente condicionada por humores, por ressentimentos, por manias, por propaladas fraquezas, como podem depois querer ser levadas a sério e olhadas como seres responsáveis, competentes e com capacidade para exercer cargos de coordenação ou liderança?

E isto é válido para as empresas, para a vida em sociedade e para a política.

Onde andam as mulheres na política? Uma infeliz minoria.

E que falta fariam - mas mulheres de pleno direito, inteiras, fortes, orgulhosas, determinadas.

Mas onde estão as mulheres que falam de peito feito sobre a sociedade, que falam sem recear a crítica social, que falam e lutam pelas suas opiniões com orgulho e cabeça erguida, ou que falam dos seus amantes em vez de se queixarem das amantes dos maridos? São raras. As mulheres, elas próprias, frequentemente relegam-se para o plano de vítimas, de coitadas. 






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O trabalho de afirmação começa, pois, na cabeça das próprias mulheres.


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Todas as imagens são pinturas de Paula Rego uma mulher livre que muito admiro e que tem no Um Jeito Manso lugar cativo.

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E, por hoje, nada mais... e já não é pouco (e perdoem-me se encontrarem gralhas mas é que, dado o adiantado da hora, já não consigo voltar atrás e reler do princípio).

Desejo-vos, Caros Leitores, um dia muito feliz!

quarta-feira, setembro 05, 2012

Duas mulheres e dois meninos passeiam em Lisboa num fim de tarde à beira do Tejo, em Belém, junto ao Padrão dos Descobrimentos - até que um boi encarnado começa a voar sobre o rio e mostra aos meninos que não há impossíveis


Há um rio que corre dentro de mim


Lindsey Stirling no violino interpreta River flows in you

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Andava por lá um menino que corria, corria, encantado com o rio que corria também. E as duas mulheres que acompanhavam esse menino e ainda um outro mais pequenino não tinham descanso. Cuidado, olha que cais ao rio. Cuidado, cuidado, olha que não há protecção, não te aproximes, cuidado. Mas qual quê...?

O menino ria, travesso, e corria, corria e era quase como se voasse, livre, feliz.

Lá em baixo, sobre o rio que corria também, corriam também barquinhos cheios de outros meninos, mais crescidos, que remavam, apressados. Tinham muito rio para percorrer, não tinham tempo para olhar os meninos que os olhavam da margem, remavam, corriam, corriam nas águas do rio.



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Atrás das árvores escondia-se um outro barco, este com altas velas brancas. Mas nós adivinhávamos que ele estava ali, silencioso, esquivo. E depois, quando não o esperávamos, mostrava-se, vaidoso de ser tão grande e tão branco.

E havia, também, meninas grandes que passavam cheirosas, muito bonitas, com vestidos muito bonitos e iam elegantes, vaidosas também por serem tão bonitas e por deixarem um rasto tão perfumado.



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E o sol soltava uns últimos raios de luz dourada só para as iluminar, para que brilhassem como estrelas que o céu tivesse cedido à beira do rio, para que brilhassem ao passar mesmo antes de ser noite.

Mas nem todas as viram, passando, assim, esguias, perfumadas, confiantes.



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Algumas pessoas preferem olhar o rio, e olham-no com tempo e esperam que a terra se afunde no espaço escondendo o sol, e olham o belo veleiro que se quer perder na lonjura, que, lentamente, se dirige à esfumada linha de horizonte. E os meninos do barquinho continuam a correr para o grande mar, correm, correm, no seu barquinho a remos.

Num fim de dia assim junto ao rio tudo é belo e absoluto; as pequenas coisas relativas não têm lugar.

Onde é que pára a troika e os pequenos homens que lhe prestam vassalagem? Onde param os que ganham a vida jogando com pequenas palavras, com pequenas e inúteis habilidades? Onde param todos aqueles que têm pequenas cabeças, pequenas e vazias, nas quais se ensarilham duas ou três ideias infundamentadas e estúpidas? Onde param as caricatas criaturas que queimam a terra à sua volta, que expulsam as crianças do reino, que anulam a vontade de criar novas vidas? 

Não os vejo por aqui. Não costumam procurar lugares assim, lugares de paz, de grande quietude, de sonho e largueza.


E, então, os meninos olham para cima e, intrigados, vêem muitos seres subindo, incentivando, rezando, dando força a uma figura que, na proa, desafia os limites e olha para lá onde a vista ainda não alcança. 


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Os meninos olham, olham, e reparam que são figuras gravadas na pedra, cravadas na pedra, figuras que ali estarão para sempre. E são mais bravos e vêem mais longe estes seres de pedra do que os pequenos homens de pequenas ideias que frequentam largas salas com vistas pequenas, aqueles seres inúteis que dizem palavras gastas, sem qualquer relevância as palavras e eles que as proferem, seres vazios e pequenos. 

Os meninos olham, tentam perceber que seres de pedra são estes que olham mais além. E nós duas que ali estamos com eles calamo-nos para que cresçam a pensar que todos podem ser assim, solidários, generosos, visionários, corajosos, vendo para além do que está à vista. Não lhes dizemos que estes seres de pedra vêem mais, mas muito, muito mais do que o que se mete pelos olhos dentro dos homens pequeninos de mentes apertadas e pequenas que os meninos e nós todos costumamos ver na televisão. Não queremos estragar o momento nem causar-lhes uma primeira grande desilusão. Calamo-nos e deixamo-los encantados, olhando as figuras de pedra que nos lembram que há mundos para além dos mundos.



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E depois chegámos ao pé de dois bois encarnados que placidamente olham o rio. 

Os meninos ficam admirados. Bois encarnados?

Claro, bois encarnados olhando um rio azul, perdidos num espaço suave e cheio de luz. Que tem isso de estranho? 



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E, então, os meninos querem, os dois, ir para cima dos bois. Eu não consigo pegar o mais crescido ao colo, é muito pesado e ainda tenho algumas limitações. A mãe coloca o mais pequenino e, então, passa um casal desconhecido, sorridentes os dois, com aquela simpatia espontânea que nasce no rosto das pessoas boas que passeiam ao fim do dia respirando o ar gentil e perfumado de maresia, e conta-nos que tem um filho com 44 anos e que muitas vezes, há quarenta anos, colocou o filho em cima daquele boi. E o senhor então pega este menino ao colo, coloca-o em cima do boi, e ali fica a conversar connosco, a senhora sorri, simpática, os dois muito afáveis, e é bom viver assim, os afectos a nascerem desinteressadamente na beira do rio e depois, quando vai, enquanto anda, ainda se volta para trás e pergunta o nome do menino e conta-nos o nome do seu neto e faz-nos adeus. E a sua simpatia e generosidade ficam aqui registadas, é o meu agradecimento.

E o menino mais crescido sente-se grande em cima do boi encarnado que olha o rio azul e brinca com o irmão mais pequenino que se senta no outro boi e riem os dois, assim, de súbito importantes, mais altos que nós, vendo mais longe que nós, e riem, felizes. 

Quando nos queremos ir embora porque a noite já se faz anunciar, ele não quer, gosta de estar ali.



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Então, eu digo-lhe que é melhor descer porque daí a nada o boi vai desatar a correr e ele irá lá em cima e o menino ri e diz que não, que não é verdade porque o boi não é de verdade. E eu digo-lhe que é porque, quando começa a cair a noite, faço magias e uma das magias que faço é dizer umas palavras mágicas ao ouvido do boi encarnado. O menino olha-me curioso, e é o quê? E eu digo que não lhe posso dizer porque são palavras secretas. Mas vejo que fica decepcionado e, então, condescendo, pronto, vá lá, digo só o princípio. E logo os olhos brilham de curiosidade, Qual é? É assim, abracadabra, abracadabra, vai boi, corre, salta e voa como uma cabra. O menino ri-se. Continuo, nessa altura, quando o boi encarnado ouve as minhas palavras mágicas, logo lhe nascem grandes asas e ele começa a correr, a correr e depois começa a levantar voo e voa, voa, e vai a voar sobre o rio. E conto-lhe que as pessoas que vão a passear vêem, então, um grande boi encarnado com umas grandes asas também encarnadas, voando entre os veleiros transparentes, em direcção a uma lua azul num céu que anoitece.

O menino ouve admirado. Não acredita mas, por via das dúvidas, resolve que é melhor sair de cima do boi.

E rimo-nos todos porque sabemos que as magias são mais de verdade do que as coisas verdadeiras.

Dirigimo-nos então a casa, andando pela beira do rio. Escureceu muito rapidamente e está uma aragem morna. E as noites assim, todos o sabemos, costumam vir carregadas de magia.

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Tenham, Caros leitores, um dia muito bom. E que a magia nunca vos abandone.

terça-feira, setembro 04, 2012

O dia em que Cristiano Ronaldo, nick CR7, se declarou sozinho e triste; o dia em que os da Troika informaram os Parceiros Sociais que o Programa de Ajustamento é da responsabilidade do Governo; o dia em que regressei ao trabalho; o dia em que regressei à Fnac; o dia em que regressei ao Ginjal - ou seja, um dia muito importante


Intróito a despropósito


Num dia marcante voltei ao trabalho. 



CR7, um rapaz de afectos, aqui com o famoso clã Aveiro

Marcante porque foi o dia em que o filho da Srª D. Dolores Aveiro e irmão das manas Aveiro, Elma e Cátia de seu nome, desabafou que se sente sozinho no balneário (ah, estas cenas masculinas nos balneários...), que os colegas o fazem sentir assim e que, por isso e por outras razões que não queria adiantar, se sente triste. E mais: assim não quer continuar no Real Madrid, talvez porque há-de haver, noutro lugar, quem lhe faça mais miminhos.



CR7, um rapaz de afectos, aqui entre Rita Pereira e Irina Shayk


E com a tristeza do CR7 toda a imprensa espanhola se entusiasmou e esqueceu a crise.

Fazem-se apostas: quer mais dinheiro? recebeu melhor oferta?

Ou seja, ninguém coloca a hipótese que o jovem se sinta mesmo carente de gestos de carinho por parte dos colegas no balneário. As pessoas são mesmo maldosas.


Mas marcante também foi a 'cena' da troika com os parceiros sociais: ao que estes vieram de lá a relatar, os senhores da troika disseram que o programa de ajustamento é da responsabilidade do Governo e não deles.

Pumba: tiraram o tapete ao Passos Coelho.

A esta hora deve estar reunido o núcleo duro (o inteligente Passos da Manta toda Rota, o engenheiro civil promovido a fiscalista e guardião do programa da troika Moedas, o calinas Gaspar que ainda não acertou uma, quiçá até o grande ideólogo que dá pelo nome de Vai estudar ó Relvas, e talvez até o Leal a toda a prova Portas) a tentar engendrar uma saída airosa para esta. É que já não lhes bastava os remoques do Cavaco, as crónicas assassinas da Manuela Ferreira Leite, as facadinhas do Professor Marcelo, o ódio visceral do Pacheco Pereira, os abanões do Capucho e por aí vai, agora até os da troika não querem ter nada a ver com o rapaz de Massamá e companheiros.


E, por falar nos da Troika, gostava que alguém me esclarecesse sobre uma dúvida que me assalta sempre que vejo as imagens de televisão. Sempre que se refere a vinda dos homens da troika, mostram o grupo acompanhado por uma morena alta com uma rosa vermelha ao peito, uma rosa grande e farfalhuda como uma alface (que aqui, nesta fotografia, não aparece) e um senhor pequenino, sorridente, com ar muito diligente. 




As imagens mostram-no ao lado do senhor desprovido de cabelo, que é altíssimo. E o senhor pequenino, metade do outro, ali vai sorrindo, quase saltitão de tão feliz. Quem é? Alguém me sabe dizer? Não é por nada, é mesmo só uma fútil curiosidade.

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Texto propriamente dito

Música, por favor



Mário Laginha Trio*- Prelúdio n.20 op.28 de Chopin
Piano-Mário Laginha; Contra-Baixo-Bernardo Moreira; Bateria-Alexandre Frazao



Mas adiante. Dizia eu que tinha regressado ao trabalho e agora vou falar de coisas que me interessam mais.

Não estou ainda completamente recuperada e, segundo o médico, o processo ainda durará mais algum tempo, mas já me sinto suficientemente à vontade para conduzir, para superar um dia normal de trabalho e, sobretudo, já não suportava mais estar longe da minha actividade e das minhas rotinas.

E uma das minhas rotinas passa por frequentar livrarias à hora de almoço. A Fnac estava diferente, mais espaçosa, mas não gostei, pareceu-me um bocado vazia e gosto de ver as livrarias cheias, muito cheias de livros, e se eles até parecerem um bocado amontoados, melhor, e se cheirarem muito a livros ainda melhor, e se até cheirar um bocadinho a pó em cima dos livros, melhor. 

Claro que a Fnac não é bem uma livraria tamanho é o comércio desbragado que por ali se passa mas eu, que as comecei a frequentar antes de cá chegarem, especialmente em Les Halles, Paris, e ficava pasmada com tanta gente, tanto livro - e as pessoas até lá podiam entrar com cães, e tudo aquilo me parecia tão civilizado - fiquei com esta fidelidadezinha de que me custa abdicar.

Também fiquei um bocado decepcionada com a oferta a nível de poesia pois é rara a vez que não descubro algum livrinho que me parece muito razoável e hoje nenhum me despertou atenção. Fiquei na dúvida relativamente ao do Fernando Pinto do Amaral mas folheei e tudo me pareceu demasiado banal. Nada de poesia hoje, portanto.

Fiquei-me por um cartão para a máquina fotográfica, pelo livro do Paul Auster, o Diário de Inverno, e, seguindo uma muito oportuna sugestão aqui deixada há dois dias num comentário, também o Contos Completos de Lydia Davis, em tempos mulher de Paul Auster, conforme se refere nesse comentário.

Andei também à procura de Um Deus passeando pela brisa da tarde de Mário de Carvalho, seguindo uma sugestão de um outro comentário mas não encontrei. Espreitarei na Bertrand ou tentarei outra Fnac. Não encomendo já porque gosto de os escolher à mão, um pouco como quando se vai ao mercado escolher peixe. Um livro com aquele título tem que ser um livro muito especial e quero ser eu a pegar nele antes de o fazer meu.

Depois de tanto tempo sem comprar livros não foi famosa a colheita mas, enfim, pode ser que, tal como acontece com o vinho, quando é pouca a abundância, melhor é a qualidade.

E, para que a rotina ficasse ainda mais completa, ao fim da tarde aventurei-me pelos meus caminhos naturais, pela beira do rio. Para lá ainda fui bem, enquanto lá andei ainda menos mal. O pior foi o regresso, já com alguma dificuldade. E agora aqui estou, a sofrer com os meus excessos, com as pernas elevadas a ver se as coisas vão ao sítio. Mas perdoa o mal que faz o bem que sabe, não é assim que se costuma dizer?

E, portanto, num fim de tarde envolto em fumo, o rio e Lisboa quase invisíveis, um cheiro a queimado, aparentemente devido a incêndios nas zonas de Mafra e Torres Vedras (será? chegava até tão cá abaixo?), lá voltei ao local de todas as magias. E se as magias hoje estavam no ar, deus meu...



.      Parece uma subtil, quase invisível, renda ao fundo mas é a Ponte 25 de Abril envolta em fumo, nesta tarde extraordinária       .


Cheguei e fiquei logo rendida, esmagada. Em dias assim, em que a beleza é quase demais, tenho que parar, tenho que ali ficar quase como se estivesse recolhida em oração. Só depois posso avançar.

O céu estava assim, em fogo, o sol espreitando, impúdico, exagerado. E percorrendo os céus, livre, livre, livre, esta gaivota. Descia e passava rente ao rio, depois subia, afastava-se, parecia ir até à ponte mas logo regressava, sobrevoava os telhados e voltava, assim. E eu olhava esta gaivota como se ela fosse coisa inventada, saída da minha louca imaginação.

Mais à frente, num pontão, um casal de namorados. Envoltos no fumo como se estivessem envoltos em tule, ali estavam, ternos, disponíveis um para o outro, e abraçavam-se, beijavam-se e brincavam. Eram uma silhueta que se recortava num fundo de grande beleza, o rio brilhante, Lisboa encoberta, o céu desvairado.



E, no maior silêncio, no meio de um cenário imobilizado, um barquinho passava rebocando um outro barco


E eu passava, fotografando, ah que saudades eu tinha de passear por aqui ao fim do dia, junto a estas casas que o tempo embeleza, junto ao rio que corre nas minhas veias, sob este céu que é imenso e tão leve.

Hoje não se sentia a maresia, apenas fumo. E o rio estava também quase vermelho, quase como se fosse um rio de sangue dourado.

Pudesse eu entrar nele, nua, e ali ficar na suave corrente.



Que bom ter-se 20 anos e a vida cheia de sonhos por desvendar; que bom é ter-se muito mais que 20 anos e ter ainda tantos sonhos para realizar, que bom é ter-se a idade que se tiver e ter tantos sítios de sonho para atravessar


Mais à frente, um jovem sentou-se e a rapariga que o acompanhava continuou e entrou por outro pontão. Ele ficou a vê-la, parado a vê-la, sem se mexer. E ela andava, ágil, uma garça, uma graça. E ele observava-a. A seguir fotografou-a. Não se via a cara dela mas aposto que se estaria a rir e aposto que ele estaria em êxtase olhando a sua amada num cenário tão incrivelmente belo. Gostava que eles vissem esta fotografia em que eles para sempre serão jovens, jovens flutuando num tempo imenso, mágico.


Depois regressei, passei pelas paragens de autocarro. A esta hora tardia as pessoas saem apressadas dos barcos, as mulheres trazem sacos de plástico nas mãos, talvez sejam compras, comida para o jantar, os homens trazem pequenas malas, talvez com mudas de roupa. Depois sentam-se com ar exausto nos bancos, outros ficam de pé, encostados. Gente humilde. Olha-se e imagina-se o esforço que fazem para subsistir. São oito e tal, daqui a pouco a esta hora será noite, e estão a regressar a casa, depois de terem usado vários transportes. É esta gente que suporta aumentos gravosos no preço dos transportes, no IVA, no IRS, nas taxas moderadoras, que perde abonos de família, que receberá uma miséria se perder também o emprego. É sempre nestas pessoas que penso quando vejo a arrogância do Borges clamando pela necessidade de baixar os ordenados ou quando vejo a palermice do Passos Coelho a dizer que as pessoas querem é regabofe. Gentinha imoral esta que nos governa.



Paragem de autocarro num dia de cores ardentes


Mas, com as cores vibrantes de hoje, as paragens de autocarro estavam feéricas e as pessoas eram silhuetas abstractas, figurantes luminosos, e eu gostava também que eles se vissem assim, dignos, belos, eternos, percorrendo o espaço, chegando até vós como se tivessem voado.


*

E por hoje é isto. Mas quero ainda desejar-vos, Caros Leitores, uma terça feira cheia de beleza.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Ainda não é desta que me atiro a este Governo, a este Passos Coelho que parece que ainda não percebeu que os sacrifícios que nos anda a infligir não servem para nada, só pioram tudo, a este Vítor Gaspar que continua sem acertar uma e que vai levar o défice para uns expectáveis 6,9%, a este Paulo Portas que dá uma no cravo e outra na ferradura e se esvai em puros tacticismos e nada mais... enfim, a esta gentinha toda. Ainda não é hoje. Falta-me a vontade para falar desta gente que tanto mal anda a fazer a Portugal.


Como música de fundo para o não-tema de hoje, 'A Quinta dos Animais' em versão Quim Barreiros

 isto é: Os bichos da fazenda

*

Devo andar ainda anestesiada. Acho que as gotas que o anestesista, há quase 2 meses, colocou no soro para eu ficar zen ainda  continuam a fazer efeito.

Assisto, 'passada':



O número um e o número dois do Governo, gente fina,
 gente 'altamente preparada do ponto de vista académico e profissional'
para as funções que desempenha

. ao descalabro absoluto das políticas deste Governo - que são o oposto das promessas eleitorais; que são as medidas da troika revistas e aumentadas em tudo o que tem a ver com austeridade (e esquecendo tudo o que tinha a ver com medidas de reforma do aparelho de estado, 'gorduras intermédias', rendas, ppp's, fundações, etc); que são pouco claras; que são mal fundamentadas; que têm conduzido o País a uma espiral recessiva; etc, etc,


*

Passos Coelho: esta cara nunca me enganou, cara de quem não percebe nada


. aos disparates sem nexo de Passos Coelho - que, talvez devido à sua estonteante impreparação a todos os níveis, continua sem perceber que as suas ideias não têm sustentabilidade teórica nem prática, que continua sem perceber que está a conduzir o País para a miséria e a desfazer-se, a preço de saldo e sem critério, das empresas mais estratégicas e/ou mais rentáveis, que não coordena os ministros, que não sabe a quantas anda, etc, etc,


*

Vítor Gaspar: cara de quem anda perdido, não pertence a este filme,
aqui está num papel errado, ainda não percebeu o que se espera dele,
falha todas as deixas, não acerta uma


. ao fracasso permanente de Vítor Gaspar - que vê 'chumbada' as suas medidas em toda a linha, que falha  uma a uma todas as metas, todos os objectivos, todas as previsões, que desde que aqui chegou ainda não acertou uma, etc, etc,


*

Miguel Relvas: o emplastro do Governo, a vergonha que rapidamente
ultrapassou fronteiras, a anedota nacional, a caricatura do que é este Governo


. ao espalhanço público de Miguel Relvas - que tamanhos são os despautérios em que se vê envolvido que já envergonha todos os que lhe são próximos ou, melhor, já envergonha o País e que, por isso, anda escondido... e nem me alongo mais tantas as embrulhadas em que se está metido,


*

Álvaro, o fofinho que gosta de se armar em duro, o dos pastéis de nata
e de outras ideias peregrinas,
um erro de casting desde que aterrou no Governo

. ao desaparecimento do Álvaro  - que já nem se lembra que era ministro da Economia, do Emprego e de mais não sei o quê, e logo numa altura destas em que seria vital ter um ministro inteligente, experiente,


*

Nuno Crato, uma decepção, segundo toda a gente diz um troca-tintas,
um diz que diz que e que nada faz do que diz que faz, só se ri


. à hipocrisia gratuita de Nuno Crato, à miopia política, à falta de pensamento estruturado sobre o que é a educação - e que sorri com ar de quem tem mamar doce mas que só espalha confusão no seio dos meios ligados ao ensino,


*

António Borges, ao que se diz, o homem dos grandes interesses, a sombra pardacenta.
Para quem é que anda verdadeiramente a trabalhar?


. ao papel dúbio, estranho, desagradável do que parece ministro António Borges - que espalha incerteza, suspeição, desconforto por onde passa,


*

Paulo Portas: levou demasiado à letra a ideia de que é um verdadeiro artista,
e, no entusiasmo das performances, perdeu a identidade 


. ao tacticismo, típico de um macaco de rabo pelado, de Paulo Portas - que dá o dito por não dito e suporta gente de quem aparentemente sempre quis distância; e tudo a troco de quê, de um cargo de ministro num governo desqualificado e que há-de envergonhar quem dele fez parte?


*

Paula Teixeira da Cruz: parece que é conforme os dias


. ao funcionamento ad hoc de todos, cada um apontando para seu lado, cada um dizendo cada coisa, descoordenados, baralhados, agindo como free lancers - como ontem a ministra Paula Teixeira da Cruz que se atirava contra o endeusamento da iniciativa privada (ao invés do pensamento oficial deste governo) mas a gente fica com a sensação de que disse isto como poderia ter dito o contrário porque já lhe ouvimos de tudo,

... etc, etc, etc.

... e, apesar de assistir passada, não me apetece falar de nada disto.

Custa-me viver num país governado por gente tão impreparada, tão incompetente, tão incapaz, claro que me custa. Esta gente está a destruir o País e a destruí-lo a grande velocidade, numa vertigem.

E o que me preocupa mais é que isto é bem capaz de ser tudo apenas estupidez. É que se fosse por qualquer ideia estruturada, ainda havia a esperança de caírem neles, de arrepiarem caminho. Agora, se isto é apenas estupidez e sendo a estupidez uma coisa genética, que esperança podemos ter?

Cá para mim, a esperança reside em que façam tantas e tão boas que o Governo impluda, que desatem todos à estalada uns aos outros, ou que Cavaco os despeça liminarmente, xô!, xô daqui para fora que me andam a sujar a casa!, ou que aconteça um qualquer número gago desse género, uma cena de gargalhada porque este Governo é tão mau, mas tão mau que se não fosse dramático o que andam a fazer, era de a gente se agarrar à barriga de tanto rir.

Repito-me: isto é tudo tão triste, tão triste, tão mau, tão medíocre, tão fraquinho, tão inenarrável que fico passada com esta gente e com o que dizem e fazem ... mas e vontade para me debruçar com mais profundidade sobre tão fraco material...?

Não consigo, não consigo, não me apetece, é que isto é mesmo mau demais, tenho até medo que isto me faça mal só de falar neles, sei lá.

Por isso, lamento, mas ainda não é hoje... 


*

E tenham, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.
E vamos esperar que isto já esteja por pouco tempo porque, afinal, merecemos melhor, não acham?

domingo, setembro 02, 2012

Eu, a minha frágil condição humana, as casas em que eu vivo e os grandes anjos que sinto em volta dos meus passos - a propósito da entrevista a Paul Auster no Expresso deste sabado



Para nos acompanhar, uma valsa especial, por favor


Mário Laginha sobre Chopin, Valsa nº 2 Op. 34
Interpretação do próprio Mário Laginha, Bernardo Moreira e Alexandre Frazão.
 Fotografias de Zeev Parush

*


Eu não penso que seja uma pessoa interessante ou que tenha tido uma vida notável. Quando penso em mim, penso no que significa ser humano, e não na minha história. Penso em como é viver dentro de uma mente, de um corpo, as coisas que acontecem a uma pessoa no decorrer da sua vida, as mudanças de sorte, os altos e baixos, o sofrimento físico e mental, o prazer físico e mental. Tudo está profundamente integrado.

As neurociências e a psiquiatria concluíram que a memória e a imaginação têm funções praticamente idênticas no cérebro. Há uma sobreposição. De facto, recordar é uma forma de imaginar. É um exercício confuso, inexacto, cheio de sombras.

O enquadramento é extremamente importante. E os espaços, todo o tipo de espaços, interessam-me muito. Em especial os domésticos, a forma como nos ajustamos a eles, como vivemos num pequeno quarto ou numa grande casa. A vida em cada um é necessariamente diferente.


Estes excertos fazem parte da interessante entrevista que Luciana Leiderfarb fez a Paul Auster e publicada no Actual do Expresso, na sequência da publicação do livro autobiográfico Diário de Inverno.

Transcrevo-os porque se referem a temas que me interessam.

Sobre esta questão da identidade (que, na verdade, nós próprios desconhecemos), do que a condiciona, do que a influencia muito tenho, ultimamente, reflectido. Bem, reflectido não será bem o termo porque não sou especialmente dada a grandes reflexões. Mas é um assunto que aflora ao meu pensamento.

Quando há quase dois meses fui internada para me submeter a uma intervenção cirúrgica, ao ser levada na cama do hospital, corredor fora, despojada da minha condição habitual de cidadã pedestre, amiga de dar caminhadas junto à água, e subitamente transformada numa indefesa paciente, percebi como é tão frágil a nossa condição, tão indecentemente frágil.

Felizmente o mal que me afectava, apesar de ultimamente me vir provocando incapacidade a nível da mobilidade, não era grave, embora fosse suficientemente incomodativo para levar à decisão da intervenção. E o que eu julgava ser resultante de uma queda dada muitos anos atrás veio, afinal, a revelar ter uma outra causa, causa essa ainda por desvendar e que tem vindo a ser objecto de análise. Tudo se passa dentro do meu corpo, de forma silenciosa, e eu não o controlo nem sequer conheço. Ou seja, há uma parte de mim, que me condiciona, que actua com vontade própria, sem lealdade, e sem capacidade de comunicação comigo própria. Se quero saber que realidade é a que existem dentro de mim, tenho que fazer com que outros, mais conhecedores do que eu, me vejam através de máquinas ou analisem o meu sangue ou o que entendam por bem analisar. Eu, que sou eu, desconheço-me.

Nesse dia, ali na antecâmara do bloco operatório, o médico que me ia aplicar a anestesia perguntou-me se eu estava tranquila e eu disse-lhe que me fazia impressão ir levar uma injecção na coluna. Então, ele sorriu, disse que não ia custar nada mas que me ia dar uma coisinha para eu ficar zen. Acto contínuo adormeci. Quando acordei estava já na sala de recobro, com o cirurgião assistente ao meu lado. Relatava aquilo que, segundo ele o cirurgião já me tinha explicado (e de que eu não tinha qualquer ideia), o que tinham feito, o que tinham visto, e fartou-se de rir por eu ter dormido tanto (supostamente aquela anestesia tira a sensibilidade mas não a consciência). Entretanto, eu não sentia as pernas e assim ainda fiquei por um bom bocado mais. A enfermeira dizia para eu mexer as pernas ou os pés mas eu nem fazia ideia onde eles estavam. 

Durante as duas horas que durou a intervenção os médicos espreitaram para dentro do meu corpo, cortaram, repararam, fizeram o que quiseram e eu não dei por nada. Eu, que sou tão voluntariosa, ali estive, inerte, absolutamente passiva e com o meu corpo à disposição do que quisessem fazer dele (e falo do meu corpo como se o meu corpo não fosse eu, como se houvesse um outro 'eu' acima do meu corpo; e, na verdade, com uma injecção ou umas gotas, nem sei, esse meu 'eu', isto é, a minha vontade, foi tão facilmente anulada).

E depois, aos poucos, recomecei a sentir as pernas mas tudo era estranho. De repente, eu tinha voltado a mim mas na condição de acamada, dependente, a soro. As enfermeiras apareciam e viam a temperatura, davam-me comprimidos, uma infecção na barriga, viam os drenos, depois veio o médico e eu ali, deitada, submissa, muito longe do que era antes (do que era ou do que julgava ser). No dia seguinte, de manhã, as enfermeiras, eficientes, apareceram para me lavar. Fiquei muito admirada, não estava nada à espera daquilo, mas elas disseram que eu não me podia levantar sem o médico autorizar e, num ápice, viravam-me, passavam-me com uma esponja, limpavam-me, viravam-me. Reconheci-me, então, eu própria, como um objecto desconhecido, um objecto que gente desconhecida podia facilmente manusear.

Umas horas depois o cirugião apareceu de novo e, com a ajuda das enfermeiras, levantaram-me e mandaram-me andar. E, quase incompreensivelmente, o meu corpo, ainda que a medo, deu uns passos. E passadas umas horas fui para casa, pé ante pé, muito devagar, totalmente apoiada, mas fui.

Por isso, achei interessante a expressão de Paul Auster sobre viver dentro de uma mente ou de um corpo.

E por isso e por tudo o mais, vou seguindo a minha vida, agradecida, abençoando o dom de estar viva e de poder ir pensando nestas e noutras coisas, assistindo ao milagre da renovação da vida, testemunhando a maravilha que é a natureza apesar de todas as incógnitas e mistérios.

Poderia dizer que vou seguindo o meu caminho das pedras.



.                                                                                                                                                                    .


Passo, assim, para a outra afirmação de Paul Auster ao referir a influência do espaço que habitamos na nossa própria vida.

Por estas alturas, in heaven, o terreno que piso é assim, pedras, pedras e mais pedras, terra seca, vegetação natural muito seca. 

Para tentar ter sombras e as árvores que tanto amo, inventei canteiros altos para lhes poder meter dentro muita terra. E inventei canteiros que são bancos e mesas e que cobri com imagens de outras mulheres e onde mandei escrever poemas de que gosto.



.                                                                                                                                                                                                                  .


Quando agora me sento aqui já tenho sombra. Junto à figueira, e sob a sombra dos grandes cedros que crescem no canteiro, senta-se comigo Jeanne Hébuterne tal como Modigliani a pintou, senta-se Sophia, senta-se Herberto Hélder, senta-se Eugénio de Andrade. 

As coisas não têm que ser apenas o que são, não temos que encarar com fatalismo as circunstâncias que nos envolvem; nós podemos moldar, ou, pelo menos, tentar moldar as circunstâncias.

Este calor antecipa o Outono e as folhas caem, secas, os figos caem, deixando no ar um aroma doce, orgânico.

Mas o espaço que habito não é apenas aquele que os meus pés pisam. O meu espaço é também aquele que a minha vista alcança. E, quando olho ao longe, para lá da minha casa, vejo a grande serra, maternal, azulada.



.                                                                                                                                                                                                                   .


E eu sou o meu corpo mas sou também o que os meus olhos vêem, o que a minha mente pensa, o que o meu coração sente e sou o que foi feito assim mas também o que eu e o espaço e os outros me fazem. 

E, é verdade, eu acho que não seria eu tal como sou sem os espaços que habito, sem a largueza que a minha vista alcança, mas esta largueza fui eu que a procurei, e procuro todos os dias ao olhá-la pois podia estar lá e eu não olhar para ela e, então, seria como se não existisse.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Mandei serigrafar este poema de Sophia nuns azulejos que cobrem um pequeno recanto de onde se avista a serra serena. Estas palavras vivem dentro de mim, tal como os anjos que me acompanham, tal como um desconhecido deus que talvez se compadeça de mim e da minha frágil condição, tal como os ventos que fazem rodopiar as folhas que caem para que outras nasçam, tal como os imensos espaços que habito e que são cheios de céu e de lonjura.

*

E tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo neste quente início de Setembro.

sábado, setembro 01, 2012

I love Chanel, A dreamy touch e The ever changing face of beauty - a arte de Solve Sundsbo (ou, ainda: La beauté sera convulsive ou ne sera pas)




Mais uma maravilha com a marca Chanel (J'aime Chanel, j'aime - e isto sou eu a dizer) e desta vez com a direcção de Solve Sundsbo, brilhante como sempre. Ou não fosse verdade que les beaux esprits se rencontrent.


E, agora, para a Vogue Italiana, de novo a sua marca.




E, finalmente, como se pode ler numa das apresentações: um filme caleidoscópico sobre transformação, fascínio e allure.





Transcrevo da apresentação deste trabalho tal como consta do Youtube, carregado por PsychoPHParis: 

'La beauté sera convulsive ou ne sera pas'. Nadja/André Breton

Exquisite corpse, also known as exquisite cadaver (from the original French term cadavre exquis) or rotating corpse, is a method by which a collection of words or images is collectively assembled.

It is this methodology which has been the starting point for a multi- screen film installation, conceived by Jerry Stafford and directed by reknown photographer and director Sølve Sundsbø. The film, commissioned by W Magazine and P&G Prestige, and produced by Psycho explores the idea of BEAUTY as a constantly shifting, constantly changing force. An idea of transformation and metamorphosis within a single body.


*

E tenham, meus Caros, um bom Setembro, a começar já por este fim de semana!