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quinta-feira, abril 18, 2019

Read my lips


À vinda, as estradas estavam vazias e eu, que vinha ao telefone com a minha mãe, estava intrigada com tão poucos carros, se seria que já estava toda a gente de férias ou se teriam ficado com os depósitos vazios. Hoje já ouvi uma que dizia que não podia ir trabalhar porque não tinha como ir sem ser de carro e que o combustível já estava por um fio e, ao comentar isso, disseram-me que estava a acontecer por todo o lado. 

Ontem estive muito tempo em fila porque uma das faixas estava parada para ir para a estação de serviço mas quando, ao fim de quase uma hora, passei por lá reparei que só uma bomba estava a abastecer. Se calhar, gasolina. Hoje, ao passar por lá, estava tudo inactivo.

Como pode tão pouca gente tão facilmente paralisar um país e como pode isto acontecer assim quase de súbito....?

Presumo que a esta hora os Serviços Secretos estejam numa azáfama porque o que se anda a passar de há uns tempos a esta parte tem muito que se lhe diga. Desde enfermeiros desencabrestados que não se importam de provocar mortes ou causar sofrimento e que se financiam de uma forma que tem tanto de eficaz quanto de suspeita até a este sindicato dos motoristas que nem meio ano tem de existência e que já está a causar um abalo que, a não ser a greve interrompida, só tende a piorar -- tudo isto fede. 

Não posso afirmar de atestado passado se há gente da extrema-extrema direita metida nisto, se há financiamento de russos se quê mas ou muito me engano ou alguma coisa há.

Não sou paranóica, detesto teorias de conspiração, não sou de especulações à toa mas uma coisa vos digo: Portugal é um exemplo bom demais, uma democracia bem sucedida demais para não incomodar quem tudo faz para enfraquecer a União Europeia e os regimes verdadeiramente democráticos. Quem anda a fazer isto, fá-lo inteligentemente, usando armas que conotamos com direitos e liberdades e que, por hábito e cultura, não queremos atacar. Mais: estas acções assentam em descontentamentos legítimos (repito: legítimos). E que os sindicados antigos usam metodologias acabadas é também um facto, pelo que fugir deles é também mais do que legítino. O aproveitamento das razões legítimas é  que, na forma, pode ser ilegítimo. Demolidor. Virando a população contra incertos, contra o Governo (mesmo que o Governo não tenha nada a ver com o assunto), contra os 'políticos' em geral.

E são estas as armas que quem quer que anda a conjecturar para minar os pilares da democracia está a usar.

Presumo que os Serviços Secretos portugueses estejam a trabalhar em articulação com os Serviços Secretos de outros países democráticos europeus porque quem assim actua fá-lo de forma planeada, inteligente e global. Coletes amarelos aqui, greves selvagens acolá. A porta cada vez mais aberta ao populismo que destrói a democracia.

E não, não estou a viajar na maionese. Read my lips. 

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Mudando de assunto, aligeirando o tema -- não para nos distrairmos mas para conseguirmos manter a serenidade e o discernimento mesmo no meio da baderna: Charlie Chaplin é perseguido por um polícia.


11 comentários:

Paulo Batista disse...


Olá UJM,

Discordo das suas críticas às "greves selvagens". Não nego que correram actos, em greves recentes, que carecem de reflexão (como as questões sobre o financiamento da greve que se levantaram com a greve dos enfermeiros). Também podemos discutir as estratégias crescentemente agressivas de greve (mas note-se que já ninguém... governo, entidades patronais, sociedade no geral, dá credibilidade aos "dias de luta" usualmente utilizados pelos sindicatos tradicionais da CGTP precisamente porque é um acto quase só simbólico, sem consequências efetivas).

As consequências negativas que se fazem sentir têm estado relacionadas com a falta de um sentido de "coletivo" / "bem comum" (a corrida desenfreada a postos de combustível... malta a armazenar combustível adicional etc etc...) bem como a ausência de mecanismos de fiscalização de legislação laboral e acordos coletivos de trabalho (pois parece que as empresas de transporte de combustível... que parece que atuam num mercado quase oligopolista... boicotaram alguns acordos laborais...).
Existem mecanismos legais para garantir que as funções chave não sejam afetadas e o estado / governo tem atuado corretamente.
A situação, para os cidadãos, resolver-se-á em breve com certeza.


PS: Voltando a puxar a brasa à minha sardinha, deixo-lhe um pequeno exemplo que ilustra bem como a progressiva agressividade nos protestos é, muitas vezes, alimentada pelas próprias entidades patronais, tantas vezes em "concluo" com os próprios governantes: https://www.facebook.com/abic.online/videos/2365344587018493/

Anónimo disse...

Estamos a falar de trabalhadores que ganham cerca de 620 euros de ordenado de base, mais subsídio de risco diário de €7,5, por transportarem mercadorias altamente perigosas. Quando ganham mais, os patrões não querem declarar os salários na totalidade por causa das contribuições e quem se lixa são os trabalhadores quando vão para o desemprego, a receber um subsídio calculado apenas com base nos rendimentos declarados. Estão a protestar por causa dos russos?? Da extrema-direita?? A Patinter é agora a maior transportadora ibérica... Como não, a sugar os trabalhadores como tem feito ao longo dos anos? Só assim pode conseguir colocar-se à frente de transportadoras espanholas, com uma base de mercado de partida muito maior. E concordo com o Paulo quanto às causas do estado de quase caos que se viveu (e que, felizmente, já passou - por enquanto). O Governo deveria ter limitado muito antes do que fez a quantidade de litros que cada pessoa podia encher. Como sempre, este Governo pouco ativo: primeiro, não tem nada a ver com nada, assobiozinho para o lado, guerra entre privados, e depois toca de esfregar as mãos de contente, orgulhoso, que conseguiu um acordo entre patronato e grevistas. Acordo que apenas suspende o problema, agendando reunião para o fim do mês se debater o assunto. Com sorte, todos os problemas do país serão suspensos até depois das eleições.
Abraço
JV

Abraham Chevrolet disse...

Todos estes postos esgotados porque tinham talvez 10% da capacidsde de combustível em stock... É o eterno problema da falta de dinheiro para investir no negócio próprio. A mãozinha de vaca está em todo o lado e só gera coices e marradas. Com misérias nao vamos a lado nenhum: ficamos logo secos !

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Muito bem, UJM!

Eu também tenho um certo receio de minicorporações, sei que posso ser eu, ignorante na matéria, a dramatizar, mas parece que a opnião do Daniel Oliveira também vai neste sentido.

Uma rica noite.

Um Jeito Manso disse...

Olá Paulo e JV,

Reparem no que eu escrevi -- e até lá fui reforçar --: o descontentamento é legítimo.

E os actuais sindicatos da CGTP e da UGT mantêm práticas que já eram.

Por isso a minha questão não é essa. Também já escrevi que as disparidades salariais são cada vez mais obscenas, gerando situações não apenas injustas como potencialmente incendiárias.

Tudo isto é um dado -- e é dele que parto.

O que está em causa é a forma, as motivações, o que subjaz ao que está a passar-se. Pode não ser muito evidente mas há que não desvalorizar a gravidade do que está a ganhar forma.

E não estou apenas a falar da desproporcionalidade da forma que assumiu esta greve. Se eu estiver arreliada -- e justamente arreliada -- com o modo como o meu chefe me trata não posso rasgar os pneus do carro dele, os pneus do carro da mulher, não posso dar-lhe um tiro em cada pé, raptar-lhe os filhos, partir os dentes à mulher e pregar rasteiras à mãe e ao pai de cada vez que saírem à rua. Primeiro porque será estupidamente desproporcional e depois porque estarei a penalizar muitos outros para além dele quando é dele, e só dele, que tenho razões de queixa.

(Foi o que também se passou com a selvática greve dos enfermeiros em que os penalizados foram os doentes e, pior, os doentes de mais fracos recursos)

Quando escrevi este post não sabia que, menos de 24 horas depois, algumas coisas suspeitas sobre este sindicato começariam a vir a lume. Mas vieram.

O perigo de actuações como foi a deste insigne advogado sindicatista motorista é que, ao fazer com que os motoristas em greve desrespeitassem os serviços mínimos e lançassem tamanha confusão no país, às tantas já meio mundo falava mal era do governo. E daí até aplaudirem um André Ventura vai um pequeno passo.

Os fascistas sempre foram bem vindos quando chegaram. Aparecem como salvadores. Usam conversa populista. E cavalgam sempre o descontentamento popular.

E pode ainda não ser muito óbvio mas, read my lips, há movimentações subterrâneas para minar o equilíbrio democrático na Europa.

Quem o faz estuda bem os terrenos em que se move, escolhe cuidadosamente os agentes, escolhe os momentos, planifica.

(Contudo, ou muito me engano, ou desta vez até não escolheram lá muito bem o agente. Mas o tempo o dirá.)

A forma de lutar contra a precaridade, as injustiças e tudo isso não passa por aqui. Nem pensar.

Por isso, meus muito caros Paulo e JV, vejam para além do óbvio. Lutem por um mundo melhor mas, please, lutem com os olhos wide open.

Abraço!

Um Jeito Manso disse...

Olha o Chevy! Bons olhos o vejam, menino!

E veio em grande forma, cheio de mãos de vaca e metáforas. Já tinha saudades, sabe?

Não quer desenvolver melhor a sua teoria desta vez com pezinhos de coentrada ou rabo de boi ou outra qualquer iguaria à mistura?

Vá lá, não esteja tanto tempo sem aparecer quando tem tanta graça no que diz.

Dias felizes para si, Chevy.

Um Jeito Manso disse...

Olá Francisco,

Mini-corporações concebidas à pressão num recém-aberto escritório de um advogado que também tem muito que se lhe diga...

Sim, o artigo do Daniel Oliveira foca alguns dos aspectos perversos e perigosos desta mini-corporação e do que pode estar na calha. Receio bem que daqui até ter acabado todo o período eleitoral vá ser uma tourada. E receio o resultado das eleições se, de facto, acontecerem mais destas.

Vivem-se tempos complexos, cheios de subterrâneos e de alçapões.

Uma boa sexta-feira, Francisco. Santa ou não, conforme lhe saiba melhor. :)

Paulo Batista disse...

UJM,

Sim, tem razão. Mas a desconfiança no sindicalismo no geral logo à partida pode ser perigosa.
Estes casos são muito problemáticos e o governo tem urgentemente de reabilitar as concertacoes sociais bem como dexar-se de estratégias de dividir para reinar. Os sucessivos governos fizeram-no de forma agressiva (o caso dos professores é paradigmático e tem origem na aprovação da carreira à uns 15 anos atrás!).

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Não tenha dúvida que vai ser o regabofe até às eleições.
A direita sem ideias vai fazer como de costume, minar a opinião pública com as suas tropas de choque, aproveitando boas causas como sempre.
O estudo da fundação do supermerceeiro também não é inocente, para muita gente isto é como se fosse mais uma decisão dos malandros (lê-se "malhandros") dos políticos para lixar o bom povo.

Sexta-feira Santa, sim! Logo à noite vou virar José de Arimateia por um par de horas.

Um rico dia.

Paulo Batista disse...

Franciso,

Sim senhor, não conhecia o José de Arimateia. Não resisti a pesquisar a sua referência. Participou em algumas daquelas encenações típicas das Páscoa?
Sou agnóstico, mas nascido e criado nessas tradições religiosas católicas e, no passado, fiz muitas representações dessas, em vários papéis. Nunca o de José de Arimateia! :D

Actualmente, das celebrações de páscoa com uma leve conotação religiosa... só mesmo a queima do judas organizada pela ACERT em Tondela: https://acert.pt/judas/!

Boa Páscoa!

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Olá Paulo,

Já há uns anos que participo nas procissões/encenações em São Martinho do Porto. Ontem foi o Auto de Descida da Cruz e Procissão do Enterro e desde que participo, tirando há dois anos, faço de José de Arimateia.

Ao contrário, em miúdo raramente participei, pois nas Caldas da Rainha não havia muito essa dinâmica.

A Queima do Judas deve ser bem fixe! Lembro-me de já ter visto qualquer coisa acerca.

Boa Páscoa!!