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quarta-feira, setembro 07, 2016

Lamento de uma ninfa







Um silêncio abafado. Um corpo dormente.

Se as palavras se diluem e o ar se rarefaz, onde a força? Se o calor desfaz a carne e a água desaparece e pouco mais resta do que cores sem nome, onde o ânimo?

Nem mar nem rios nem sangue. Apenas o vazio, a espessa secura, a vida ausente. 

Onde a luz, onde o fluir, onde os contornos que contêm as formas? Onde a música que oculta o olhar para melhor tocar a alma?

Um pássaro diz: nuvem, névoa, neblina
Ninguém o ouve.

O pássaro murmura: sombra, segredo, penumbra
Ninguém o ouve.

Passa, em silêncio, a memória de alguém. Depois pára, espera que uma mão a colha. Ninguém a colhe, ninguém a sente.

Cobre-se de lágrimas mas não sente que um frescor a cubra. 

O pássaro diz: lamento, carícia, sonho.
Ninguém o ouve.

Esperar perante o imenso vazio? Nada mais querer senão a loucura branca do intangível infinito?

O pássaro diz: luz, vulto, sublime.
Ninguém.

O silêncio persiste. O calor. A dormência.

O pássaro diz: o vazio vai começar a rasgar-se.

E voa.

Depois uma tremura. 

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Pinturas de Fernando Zóbel

A soprano Núria Rial e o grupo "L'Arpeggiata", interpretam o "Lamento della Ninfa" de Monteverdi

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