terça-feira, janeiro 27, 2026

Coisas simples que melhoram a nossa vida

 

Quem por aqui me acompanha saberá que fujo a sete pés de livros ou vídeos ou influencers que vêm com conselhos da treta relativos a lifestyle, a coaching, mindfulness ou a cenas dessas que a mim me parecem tresandar a vacuidade. Não me levem a mal mas tudo isso me parece coisa de gente tonta que aconselha gente ainda mais tonta. Pode não ser mas, confesso, é o que me parece.

Tenho a minha própria sapiência. Já vivi o suficiente para formar algumas opiniões e para perceber o que me faz sentir bem e para saber dar valor aos bons momentos. Também já conheço o suficiente da vida para saber que se é importante termos conhecimentos e vivências não é menos relevante conseguirmos o distanciamento suficiente para deixarmos de lado o que nos incomoda, a espuma dos dias que consome o nosso tempo sem que nada fique em nós.

Vivi uma vida inteira ultra activa, ultra solicitada, em que fui levada a ser responsável por muita coisa quase vinte e quatro horas por dia, com poucas férias, ano após ano. Muita gente me dizia que eu não conseguiria ficar sem trabalhar depois de me reformar e eu sempre disse que estavam enganados, tudo o que eu desejava era interromper essa espiral que me envolvia permanentemente em reuniões, avaliações, definições de objectivos, planos, resolução de problemas de toda a espécie, trânsito e mais trânsito, stress e maçadas para dar e vender. Decidi que sairia antes de atingir a idade oficial da reforma. Ainda assim, por razões de amizade e de responsabilidade, acabei por aceder aos pedidos para ficar até que uma operação se concluísse, acabando por ficar por mais cerca de meio ano para além do que tinha resolvido mas, ainda assim, antes da idade oficial. Na altura diziam-me que, não ia conseguir largar a habituação de décadas e que não tardaria a procurar nova ocupação.

Calhou acontecer que isso coincidiu com o ano horribilis em que a minha mãe iniciou a sua trajectória para a noite escura sem que eu compreendesse o que estava a acontecer pois ela conseguiu baralhar médicos e enfermeiros e ocultar completamente o mal que rapidamente progredia, e que progredia ainda mais rapidamente porque não se tratou, e, sem o confessar mas certamente cheia de medo e dividida entre a fobia que tinha a medicamentos e o medo pelo efeito de não se tratar, não tomou os medicamentos que lhe eram indispensáveis. Portanto, o meu primeiro ano de 'desocupação' foram absorvidos pela ansiedade que o estado da minha mãe me causava, pelas idas ao hospital (pois, nesse período, e antes do prolongado internamento final, esteve duas vezes internada, tendo conseguir desviar a atenção dos médicos do pior dos males), pelas idas ao médico, pelos telefonemas, pelas visitas que eram sistematicamente ocupadas por queixas de saúde de toda a espécie, erráticas, descontextualizadas, mas sempre revestidas de drama, de choro, e sempre concluindo e tentando convencer-me que a causa do seu mal estar eram os medicamentos que tomava (quando eu sabia que tomava muito menos que devia). Foi um ano terrível para a minha mãe, angustiante, direi mesmo apavorante, nem quero pensar, e, para mim, que desconhecia a realidade, desgastante até ao limite. Portanto, nesse ano, não me sobrou tempo nem disposição para pensar em qualquer outra actividade.

Fez a semana passada já dois anos. O tempo passa mesmo a correr, é muito estranho. Tudo ainda tão recente, as imagens e a voz ainda tão presentes.

A seguir foi preciso resolver a questão das coisas lá de casa, coisas infinitas, infinitas, não acabavam. Foram meses, esgotantes meses. Os meus filhos poucas coisas quiseram. Eu já não tinha onde pôr tudo aquilo de que não queria desfazer-me. Período tão difícil também. Não tinha ânimo nem energia nem nada para mais nada. Só para escrever. Para tentar reequilibrar-me, escrevia compulsivamente.

Na verdade, apenas o ano passado aprendi a não fazer nada, a usar o meu tempo. 

E tem sido um tempo bom. Geralmente não tenho horários, não tenho compromissos. Posso fazer aquilo que quero. Posso ler salteado, pular de livro em livro, sentar-me a olhar as árvores, a ouvir os pássaros, posso andar a fotografar flores e frutos, posso andar a perseguir sombras, a encantar-me com o bailado das silhuetas nos muros. 

Coisas simples. 

Como o algoritmo do youtube conhece as minhas entranhas e sabe que ando zen, mostra-me que aquilo que eu procuro e em que me detenho são práticas que os japoneses seguem.

O vídeo de hoje (que pode ser legendado, com legendagem automática) repesca 8 hábitos que fazem melhorar a vida e nos quais me revejo, ou porque os pratico ou porque gostaria de praticar. Sobre alguns deles já aqui falei algumas vezes. Um prazer. Coisas simples, coisas de nada. O primeiro deles era prática muito comum na empresa: uma pequena melhoria de cada vez, uma após outra. Aconselho vivamente.

8 Tiny Japanese Habits That Will Transform Your Life

Se alguma vez se perguntou porque é que o Japão tem uma das maiores expectativas de vida, cidades mais limpas e algumas das pessoas mais calmas e focadas do planeta… não é genética nem sorte.

São pequenos hábitos diários — ações simples que parecem insignificantes, mas que se vão acumulando ao longo dos anos, gerando uma enorme transformação.

Neste vídeo, analisamos os 8 hábitos japoneses cientificamente ligados à longevidade, clareza mental, disciplina, produtividade, resiliência emocional e satisfação com a vida.

Você aprenderá:

🧠 Kaizen — o método de melhoria contínua de 1% utilizado pela Toyota para dominar o mundo

🎯 Ikigai — como encontrar o seu propósito e acordar motivado

🥗 Hara Hachi Bu — a prática alimentar de Okinawa que aumenta a longevidade

🌲 Shinrin-Yoku — banho de floresta e porque é que os médicos o recomendam

🌿 Wabi-Sabi — liberdade do perfeccionismo

💪 Gaman — resiliência mental sem queixas

🤝 Omiyari — disciplina empática que fortalece as comunidades

✨ Kintsugi — transformar a dor e o fracasso em força

Estes hábitos não são atalhos. São princípios para construir uma vida plena, uma pequena ação de cada vez. 


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Dias felizes

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Um mercado de coisas impossíveis


Quando não havia El Corte Inglês em Portugal, sempre que eu ia a Espanha tentava dar uma volta por esse 'mercado. Ou pelos Preciados. Tal como, em Paris, gostava de ir às Galerias Lafayette ou ao Printemps. Sobretudo, gostava do piso de baixo e, aí, em especial, gostava da zona dos chapéus. 

Gostava de me pôr a experimentar chapéus. Quanto mais arrojados e espectaculares melhor. Gostava deles coloridos, com véus, com plumas, com flores. Gostava de me ver com eles. Ficava sempre tentada a trazer alguns. Se ia com o meu marido, só para eu me despachar -- pois achava um absurdo eu perder tempo a experimentar chapéus, se era para não trazer algum -- dizia: 'Esse é bom, vá, traz esse.', fosse qual fosse. Mas eu não trazia pois não teria onde usá-lo. 

Houve uma altura que usei, de feltro, discretos, elegantes, mas, ainda assim, era sempre olhada com alguma curiosidade. A moda dos chapéus, nos tempos recentes, nunca pegou em Portugal.

Mesmo que pense: 'Se gosto tanto de chapéus, o que me impede de os usar?', há sempre o lado prático das coisas. Ia onde com um chapéu artístico: ao supermercado? Ao shopping? Almoçar ou jantar fora? Ao museu? Ver uma exposição? Onde...? Não faria sentido, seria a única nesses preparos, seria como se estivesse deslocada no tempo e no espaço, uma carnavalesca deslocada.

Agora, quando está frio, quando vamos fazer as nossas caminhadas, uso um de que gosto muito, um modelo muito engraçado num veludinho macio, castanho escuro. Ainda hoje o meu marido se riu a olhar para mim, disse que eu parecia 'de leste' com aquele chapéu. Mas aqui não há problema: com este tempo somos praticamente os únicos malucos a andar na rua e, além do mais, este frio justifica-o bem.

Mas este meu gosto não é só com chapéus: mesmo com as roupas, existe em mim uma certa contradição: por um lado, sou atraída por roupas divertidas, com um certo toque de exuberância e graça, mas, por outro, não gosto de me sentir a doida fugida do manicómio. Por isso, tenho uma certa pena que a moda comum, do dia a dia, não ouse, não desafie convenções, não resulte da criatividade individual em que cada um possa misturar peças irreverentes, engraçadas. 

Há tempo, partilhei um vídeo no qual uma actriz britânica que admiro bastante lia um poema. Essa actriz é bastante heterodoxa, audaciosa, usa vestidos com decotes ousados e rendas à vista, casacos de veludo com golas de pele e enfeites insólitos, chapéus nunca vistos, toda ela quase vitoriana. E achei graça à reacção de uma amiga minha: 'É parecida contigo, muito o teu género, não é?'. Fiquei surpreendida, não me tinha ocorrido tal. Olho para mim como sendo muito mais convencional. Mas nunca nos vemos como os outros nos veem. 

Ao ver o vídeo abaixo, todo ele feito de pessoas e coisas realmente inexistentes, não posso deixar de pensar que ali, naquele mercado, eu estaria em casa. Tudo ali me agrada: as maquilhagens, os penteados, as toilettes, as bijuterias, os excessos e as graciosidades, os chapéus, as batatas e cebolas e frutas à mistura com coelhos e galinhas e todos os objectos que se vendem naquele mercado, as pessoas e os bichos que o frequentem, a graciosidade, a alegria, o toque festivo da pequena loucura.

A Inteligência Artificial tem este lado agradável: permite imaginar mundos alegres, bem humorados, leves, felizes. E a canção, composta também com recurso a IA, é também dançante, ou melhor, flutuante (e uma ameaça para os compositores, para os músicos...).

A propósito do Market Of Impossible Things, a palavra à autora,  © 2026 Kelly Boesch:

Com todas as cenas horríveis que vemos nas redes sociais, quero tentar dar às pessoas alguns minutos para se afastarem desses pensamentos e sentimentos, para que possam imaginar um lugar cheio de bondade e alegria... e um pouco de estranheza. Escrevo sobre isso sempre, mas acho que é importante manter a esperança, sermos fortes e mantermo-nos unidos. Esta obra chama-se "Mercado de Coisas Impossíveis". Mais um conto de fadas para adultos :-)

Faço muitos vídeos sobre mercados. Adoro explorar feiras de rua, observar as pessoas e imaginar histórias sobre as suas vidas. Criei estas imagens usando um bonito código de referência ao estilo #Midjourney. A animação foi feita com #VEO3 e #Pika. O VEO não anima as crianças, por isso usei o Pika para estas imagens. O novo lançamento deles é ótimo. Letra escrita por mim, Kelly Boesch. Música criada sob a minha direção criativa com a ajuda de Suno.


Votos de uma boa semana.

Dias felizes

domingo, janeiro 25, 2026

Dá-lhe um nome. E isso viverá para sempre

 

Começo a perceber que se calhar a matriz da minha natureza se ajusta bem à cultura japonesa. 

O meu avô paterno tinha ares orientais e, à medida que foi envelhecendo, mais oriental foi parecendo. E era uma pessoa admiravelmente serena. Nunca o vi alterado. A minha avó era o oposto dele, uma pessoa geralmente ansiosa, preocupava-se com tudo, aborrecia-se facilmente, implicava com alguma frequência com ele. Ele encarava a maneira de ser dela com uma absoluta tranquilidade. 

Embora trabalhasse numa empresa, os seus momentos livres eram passados ou na sua horta ou à pesca. A minha avó aborrecia-se com ele porque trazia terra nos sapatos ou porque trazia muito peixe para ela amanhar. Ele não se importava. Acho que até sorria. Se estava em casa, sentava-se a ler. Sempre calmo. Eu adorava-o. Quando estava em casa desses meus avós, era atrás dele que eu gostava de andar. E ele gostava da minha curiosidade, das minhas perguntas. Chamava-me a atenção para as florezinhas dos morangueiros, depois para o olhinho vermelho que despontava, depois o frutinho já formado. E, quando estava madurinho, apanhava-os, passava-os por água e dava-mo. Ao longo de dias eu observava o devir da natureza.

O meu tio, irmão do meu pai, herdou esses traços orientais. O meu pai sempre foi mais parecido com a mãe. E eu, segundo dizem, fisicamente, tenho muito do meu pai. Portanto, enquanto a minha prima também tem alguns traços orientais, eu nada. Mas, se calhar, na minha apetência para a contemplação das nuances da beleza que se podem encontrar na natureza haja um pouco dessa veia.

Ainda ontem, a meio da tarde, parecia que havia uma aberta, fomos caminhar para uma zona de arvoredo que há não muito longe daqui. O meu marido foi contrariado, olhava o céu carregado e sentia o vento a acelerar e dizia que não estava tempo para nos metermos no meio do arvoredo. Mas eu queria ver as poças de água, gosto de ver as árvores reflectidas na água, e gosto de ver a água tingida pelas cores ocre da terra. Lá fomos. Afinal havia mais que poças, havia quase um lago. Lindo. Umas cores transcendentalmente lindas, variadas, uns reflexos maravilhosos. Tentei fotografar, filmar. Só que desatou a chover com uma força enorme e o vento e a chuva faziam um rugido um bocado assustador. Claro que nos viemos logo embora, até porque havia muitos bocados de árvores caídas e porque o nosso cão estava um pinto, assustado com o trovejar. 

Mas vim maravilhada, uma daquelas sensações em que nos sentimos transportados para espaços de beleza, em que nos sentimos imersos num mundo limpo, despoluído, absolutamente natural, benéfico, puro, imaculado.

Se digo estas coisas, o meu marido diz: 'És maluca. Debaixo de um temporal e, em vez de te despachares, ainda queres parar para tirar fotografias.'. Reconheço o ponto de vista dele mas não consigo de deixar de pensar que todos os dias as coisas são diferentes, os verdes nunca são os mesmos, os reflexos nunca são iguais, e que quero testemunhar isso, quero captar isso.

Mais de 16 milhões de cores, aprendi hoje. Imagine-se. Na prática, uma infinidade. 

O vídeo que aqui partilho (legendado) é mais um daqueles que me encantam do princípio ao fim. O nome dos momentos, o nome das cores, a forma como mudam de umas para outras, o efeito que tem um tecido transparente arejando sobre outra superfície. Tudo isso me parece transcendente de tão simples e perfeito e efémero que é.

Mesmo que pensem que 'não são destas coisas' -- e que o vosso pensamento esteja mais virado para as preocupações da actualidade, como as fantochadas do Ventura ou como a situação cada vez mais complexa nos Estados Unidos, a violência a alastrar nas ruas, a revolta e o desespero de muitos que os leva a enfrentar as perigosas milícias do ICE, ou com os receios de que comece a desenhar-se uma nova crise financeira com a retaliação de alguns países face à estupidez e à prepotência desbragada de Trump que está a traduzir-se na venda de títulos de dívida americana ou de fundos ou, até, a quererem a devolução do ouro --, mesmo assim sugiro que tentem ver o vídeo. Acho-o não apenas muito belo como nos mostra como o mundo pode ser tão mais rico se estivermos despertos e disponíveis para aprofundar e diversificar a visão das coisas. 

A filosofia japonesa da cor e da imperfeição

Em português, o céu ao amanhecer pode ser simplesmente chamado de "azul" que se transforma em "laranja". No Japão, esta transição fugaz tem inúmeros nomes.

Porque é que o Japão deu mais de mil nomes às cores do silêncio? Neste vídeo, exploramos a profunda filosofia por detrás das cores tradicionais japonesas. Da estética proibida do período Edo ao antigo "algoritmo" de sobreposição de seda, descubra como o Japão não criou apenas cores — captou momentos antes de desaparecerem.

Aprofundamos em:

As Coordenadas da Memória: Porque é que nomes como "Moegi" (Amarelo Broto) funcionam como cápsulas do tempo.

48 Sombras de Castanho e 100 Sombras de Grey: A história da rebelião contra as proibições de luxo no século XVII.

Kasane (Sobreposição): O sistema ótico de mistura de luz, muito antes do design digital.

A Beleza do Desbotamento: Porque é que o Índigo (Azul Japão) se torna mais valioso com o tempo.

"Dá-lhe um nome. E ele viverá para sempre."


Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, janeiro 24, 2026

Será este o momento em que o mundo finalmente deixa de correr atrás dos bombeiros, ou será que Trump já está a acender o próximo fósforo?

 

As conversas entre Joanna Coles e Michael Wolff são sempre gostosas, divertidas, com deliciosos apartes. 

Por exemplo, Joanna Coles conta que, quando foi entrevistar Valentino, o costureiro recentemente falecido, os assessores lhe pediram para não lhe falar na guerra do Iraque. Ela pensou que talvez algum familiar lhe tivesse morrido. Contudo, ficou curiosa e quis saber qual a razão. Responderam: 'É que ele não sabe da guerra.'. Isto 3 anos depois da guerra ter começado. Explicaram que ele vivia num ambiente de beleza. Notícias más só iriam perturbá-lo.

Michael Wolff não quis ficar atrás e contou que, numa das vezes em que foi entrevistar Trump para o primeiro livro biográfico sobre ele, o Fire and Fury, estando-se a poucos dias do Brexit, puxou o assunto. Trump ficou admirado: 'Ahnnn?'. Não sabia. Quando Wolff lhe explicou, apenas disse que lhe parecia bem que o Reino Unido saísse da UE. E mudou de assunto. Segundo Wolff, Trump não sabe nada de política internacional. Mesmo do que se passa nos EUA pouco sabe. Não lê um livro, não folheia um dossier, não se informa, não estuda. Aliás, conta que Epstein dizia que Trump tem medo de Putin porque Putin tem em sua posse os seus registos académicos, que parece que são péssimos. 

Outro apontamento com piada teve a ver com a nova gravidez de Usha Vance. Ao enviar-lhe os parabéns, Joanna confessou que gostava de ter tido mais filhos (tem dois)... mas apressou-se a advertir: 'Mas não com o J.D. Vance...'. Claro. Puxa. 

Contudo, claro que o tema principal não são estes pequenos fait divers. E ouvi-los a falar do que se tem passado (Davos, Gronelândia, o absurdo Conselho da Paz que mais parece uma extensão do clube privado de Mar-a-Lago, etc) ajuda a ver os grandes temas sob a perspectiva da petite histoire. Por exemplo, comentam que Trump gosta de ter todas as atenções centradas em si. Ateia o fogo não tanto pelo fogo em si mas, sobretudo, para ver os carros dos bombeiros, as sirenes, as luzes, toda aquela emoção. Quando acaba, antes que se avaliem os danos, já não quer mais saber do assunto, já está focado no próximo fogo que vai pegar.

Mas ouçam-nos que tem piada. 

O verdadeiro motivo pelo qual Trump recuou da Groenlândia: Wolff | Dentro da cabeça de Trump

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para analisar porque é que as últimas manobras teatrais globais de Trump — desde a ameaça de anexação da Gronelândia até ao "conselho de paz" bilionário — nunca deveriam ter acontecido. Recorrendo a Davos, a sondagens desastrosas, à reação negativa a Minneapolis e ao talento infinito de Trump para distrair, Wolff explica como a fanfarronice sem consequências é a essência do Trumpismo: atear fogo, aproveitar-se dos alarmes e depois ir embora antes que as consequências cheguem. A questão que se mantém após o fim da questão da Gronelândia é: será este o momento em que o mundo finalmente deixa de correr atrás dos bombeiros, ou será que Trump já está a acender o próximo fósforo?

E queiram continuar a descer porque, já a seguir, Colbert faz a festa.

Colbert. Stephen Colbert.

 

Ai, liberdade, liberdade... Os Estados Unidos eram o grande país da democracia e da liberdade, uma nação salvaguardada de delírios e derivas totalitaristas através daquele mecanismo dos checks and balances.

Eram. Passado.

Afinal o edifício era demasiado frágil. Em poucos meses, um louco encartado, um narcisista maligno a quem a demência arruinou os filtros e que agora se exibe ao mundo com todos os tiques de um ditador malcriado, estúpido, ignorante e pérfido, destruiu grande parte das salvaguardas.

Quem ousa chamar a atenção para o disparate em curso é intimidado, perseguido, processado, tentativamente aniquilado.

Mas tem tido pela frente nomes grandes da comunicação social que não se têm deixado intimidar.

Stephen Colbert é uma dessas figuras. Com uma graça, um sentido de humor e uma coragem notáveis, noite após noite (até ser afastado, o que acontecerá dentro de um par de meses, como já foi avisado) ele diverte-se à brava. E eu divirto-me com ele.

Repressão na Late Night TV: FCC avança contra Kimmel e Colbert por entrevistas a candidatos políticos

Stephen Colbert está novamente em fuga da polícia, uma vez que Brendan Carr, da FCC, anunciou uma iniciativa para reforçar regras que suprimiriam a visibilidade dos candidatos políticos nos talk shows das grandes estações.

sexta-feira, janeiro 23, 2026

A análise do que se passa em Davos por alguém que frequentou Davos durante muitos anos

 

Como é Davos, a terrinha em si? Como é o ambiente e os bastidores do encontro de Davos? Como é que a alta finança, o mundo dos grandes negócios e a política se misturam em Davos (à mistura com 'acompanhantes' russas e de outros países de Leste)? 

E porque é que todos olham para o peito uns dos outros? E não, não é pela mesma razão porque ninguém olha para a Dolly Parton mas para uma zona do corpo um pouco mais abaixo, é para lerem o badge uns dos outros para verem se é alguém que mereça uma aproximação. 

Sobre tudo isto e muito mais Joanna Coles e David Rothkopf conversam. E riem-se. A cumplicidade e o sentido de humor de ambos são permanentes e dão vontade de presenciar.

E, com olhos de ver, conversam também sobre o que se passou com o discurso e as 'negociações' (reais ou ficcionadas) de Trump, sobre as suas ofensas à Europa, sobre a forma como a Europa respondeu, sobre o Canadá e sobre o estado do mundo.

Convido-vos a verem o vídeo que aqui partilho. É longo mas vê-se de gosto. E uma visão 'por dentro' é sempre uma perspectiva que enriquece a nossa visão dos acontecimentos. 

Se é certo que todos nós sabemos que Trrump é um idiota, é interessante ver reforçada essa opinião a partir do que vozes informadas falam bem alto.

Why World Leaders Think Trump's an Idiot: Rothkopf | The Daily Beast Podcast

David Rothkopf, colunista imperdível do The Daily Beast, junta-se a Joanna Coles para analisar o desastroso regresso de Donald Trump a Davos e porque é que este pode marcar uma verdadeira rutura na ordem mundial. O que antes era um encontro movido pelo prestígio e pela hipocrisia transforma-se, este ano, numa cimeira impulsionada pelo medo — do comportamento agressivo de Trump, da sua ignorância, das suas ameaças ao comércio, à NATO, à Gronelândia e aos aliados que antes confiavam nos Estados Unidos. Rothkopf explica porque é que os líderes europeus se retiraram, porque é que os mercados reagiram negativamente, porque é que a UE congelou as negociações comerciais e porque é que figuras como Mark Carney alertam agora abertamente que não se trata de uma transição, mas de uma rutura.

quinta-feira, janeiro 22, 2026

Gavin Newsom em Davos
Outra intervenção que deve ser escutada com atenção -- e que seja isto um exemplo

 

É preciso alguma coragem para dizer que o rei vai nu quando o rei domina o país mais poderoso do mundo, manipula todos os órgãos de poder do seu grande país, chefia as forças armadas mais poderosas do mundo e tem o código nuclear. O rei vai nu. Ou: o gigante tem pés de barro e miolo fraco. 

Felizmente há quem tenha coragem. 

“Carney Got in Trump’s Head,” Newsom Hails Carney’s Historic WEF Speech on Global Leadership | AQ1B

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, reage ao discurso ousado do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, no Fórum Económico Mundial, elogiando a sua coragem em denunciar o declínio da liderança global dos EUA. Newsom destaca a mudança permanente na dinâmica do poder internacional, critica as políticas da era Trump e enfatiza a necessidade de autoridade moral e responsabilidade na política americana. 

O notável discurso de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá, em Davos

 

Presumo que já toda a gente tenha lido e/ou ouvido o discurso, escrito pelo próprio Mark Carney e que espantou toda a gente -- uma lufada de ar fresco, uma janela aberta para um mundo que pode ser melhor, um murro na mesa (ou na cara de Trump), um pensamento escorreito e uma escrita limpa -- mas, até para memória futura, faço questão de o ter aqui. 

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É um prazer — e um dever — estar convosco neste momento crucial para o Canadá e para o mundo. Hoje, vou falar sobre a rutura na ordem mundial, o fim de uma bela história e o início de uma realidade brutal, na qual as relações entre grandes potências se fazem sem quaisquer limites à sua atuação.

Mas também quero dizer-vos que os outros países, em particular as chamadas potências médias, como o Canadá, não são impotentes. Têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore os nossos valores, como o respeito pelos direitos humanos, pelo desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos Estados. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade.

Todos os dias alguma coisa nos lembra de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências, que ordem mundial sustentada por regras está a desvanecer-se e que os fortes fazem o que querem, e os fracos sofrem o que têm de sofrer.

Este aforismo de Tucídides é apresentado como inevitável, apenas a lógica natural das relações internacionais a reassumir-se. E, perante esta lógica, há uma forte tendência para os países se acomodarem, de forma a evitarem problemas. Esperam que essa aceitação lhes traga segurança.

Mas não trará. Então, quais são as nossas opções?

Em 1978, o dissidente checo Václav Havel escreveu um ensaio chamado “O Poder dos Impotentes”. Nele, faz uma pergunta simples: como é que o sistema comunista se sustentava?

A resposta começa com um vendedor de hortaliças. Todas as manhãs, este merceeiro coloca um cartaz na sua montra: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Ele não acredita naquilo. Ninguém acredita. Mas coloca o cartaz na mesma, para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se acomodar. E, porque todos os lojistas em todas as ruas fazem o mesmo, o sistema persiste.

Não apenas através da violência, mas através da participação de pessoas comuns em rituais que sabem, no seu íntimo, serem falsos.

Havel chamou a isto “viver dentro da mentira”. O poder do sistema não vem da sua verdade, mas da disposição de todos a representá-lo como se fosse verdade. E a sua fragilidade vem da mesma fonte: quando uma pessoa, uma pessoa que seja, deixa de representar, quando o vendedor de hortaliças retira o seu cartaz, a ilusão começa a quebrar-se.

Está na altura de empresas, países, retirarem os seus cartazes.

Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos implantar políticas externas sob a proteção destas regras.

Sabíamos que a história desta ordem internacional era parcialmente falsa. Que os mais fortes se eximiriam quando lhes fosse conveniente. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variado, dependendo da identidade do acusado ou da vítima.

Esta ficção foi útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou-nos a ter acesso a rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva, e apoiou organismos que se ocupariam da resolução de conflitos. E foi por isso que colocámos o cartaz na montra. Participámos nos rituais. E evitámos, em boa parte, apontar as lacunas entre retórica e realidade.

Este acordo já não funciona. Deixem-me ser direto: estamos a meio de uma rutura, não de uma transição. Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas finanças, saúde, energia e geopolítica revelou os riscos da integração global.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a usar a integração económica como arma: tarifas como vantagem negocial, a infraestrutura financeira como coerção, as cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a serem exploradas.

Não se pode “viver dentro da mentira” de benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da vossa subordinação.

As instituições multilaterais de que os poderes médios dependiam — a OMC [Organização Mundial do Comércio], a ONU, a COP [Conferência das Partes] — e a arquitetura de resolução coletiva de problemas estão muito diminuídas.

Como resultado, muitos países estão a tirar as mesmas conclusões, que devem desenvolver maior autonomia estratégica: em energia, alimentação, minerais críticos, nas finanças e cadeias de abastecimento. Este impulso é compreensível. Um país que não pode alimentar-se, abastecer-se ou defender-se a si mesmo tem poucas opções. Quando as regras já não vos protegem, é preciso que se protejam a vocês mesmos.

Mas sejamos realistas sobre o lugar onde isto nos leva: a um mundo de fortalezas, mais pobre, mais frágil e menos sustentável.

E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a aparência de regras e valores pela busca desimpedida do seu poder e dos seus interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornam-se mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem retirar lucros eternos das suas relações, e os aliados vão diversificar para se protegerem contra a incerteza: contrair seguros, multiplicar opções. E tudo isto traz de volta a soberania, só que é uma soberania que antes estava ancorada em regras, mas que estará, a partir de agora, cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão de risco clássica tem um preço, mas esse custo de autonomia estratégica, de soberania, também pode ser partilhado. Investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada a conta de cada um construir a sua própria fortaleza individualmente. Padrões partilhados reduzem a fragmentação, as complementaridades são de soma positiva.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se devemos adaptar-nos a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos, ou se podemos fazer algo mais ambicioso. O Canadá esteve entre os primeiros a ouvir o alerta, o que nos levou a modificar fundamentalmente a nossa postura estratégica.

Os canadianos sabem que a antiga e confortável suposição de que a nossa geografia e o nosso sistema de alianças conferiam automaticamente prosperidade e segurança já não é válida.

A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb [Presidente da Finlândia] chamou “realismo baseado em valores”, ou, por outras palavras, termos princípios e, ao mesmo tempo, sermos pragmáticos.

Devemos manter o princípio do nosso compromisso com valores fundamentais: soberania e integridade territorial, a proibição do uso da força exceto quando consistente com a Carta da ONU, respeito pelos direitos humanos. E devemos ser pragmáticos ao reconhecermos que o progresso é frequentemente incremental, que os interesses divergem, que nem todos os parceiros partilham os nossos valores. Podemos envolver-nos amplamente, estrategicamente, mas com os olhos abertos. Devemos participar ativamente no mundo com ele é, e não esperar por um mundo como desejamos que seja.

O Canadá está a calibrar as suas relações para que a profundidade das mesmas reflita os seus valores. Estamos a dar mais importância a um envolvimento amplo para maximizar a nossa influência, dada a fluidez da ordem mundial, os riscos que isto representa e o que está em jogo para o que vem a seguir.

Já não estamos dependentes apenas da força dos nossos valores, mas também do valor da nossa força. Estamos a construir essa força em casa.

Desde que o meu Governo tomou posse, cortámos impostos sobre rendimentos, mais-valias e investimento empresarial, removemos todas as barreiras federais ao comércio interprovincial e estamos a acelerar mil milhões de dólares de investimento em energia, inteligência artificial, minerais críticos, novos corredores comerciais e muito mais. Até 2023, vamos duplicar as nossas despesas na Defesa e estamos a fazê-lo de forma a desenvolver as nossas indústrias nacionais.

Estamos também a diversificar no estrangeiro, e recentemente acordámos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão ao SAFE [Ação de Segurança para a Europa], os acordos europeus de aquisição e adjudicação de material de Defesa.

Assinámos outros doze acordos comerciais e de segurança em quatro continentes nos últimos seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com a China e o Catar. Estamos a negociar pactos de comércio livre com a Índia, a ASEAN, a Tailândia, as Filipinas e o Mercosul.

Para ajudar a resolver problemas globais, estamos a prosseguir geometria variável: diferentes coligações para diferentes questões, baseadas em valores e interesses.

Na Ucrânia, somos um membro central da Coligação de Vontades e um dos maiores contribuintes per capita para a defesa e segurança do país.

Sobre a soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Gronelândia e da Dinamarca e demos pleno apoio ao seu direito de determinar o futuro da Gronelândia. O nosso compromisso com o Artigo 5º é inabalável.

Estamos a trabalhar com os nossos aliados da NATO (incluindo os Nórdicos-Bálticos) para robustecer ainda mais os flancos norte e oeste da aliança, incluindo através dos investimentos sem precedentes em radares de longo alcance, submarinos, aeronaves e tropas no terreno. O Canadá opõe-se fortemente a impostos alfandegários sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas em alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade para o Ártico.

No comércio plurilateral, estamos a liderar esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um novo bloco comercial de 1500 milhões de pessoas.

Nos minerais essenciais, estamos a formar grupos de compradores, ancorados no G7, para que o mundo possa diversificar-se da oferta concentrada.

Na inteligência artificial, estamos a cooperar com democracias para garantir que não seremos forçados a escolher entre empresas hegemónicos e hiperescaladores [fornecedor gere grandes redes de centros de dados, projetados para suportar computação, redes e armazenamento].

Isto não é multilateralismo ingénuo, nem é depender de instituições diminuídas, é construir as coligações que funcionam, questão por questão, com parceiros que partilham terreno comum suficiente para agirem em conjunto. Nalguns casos, será a grande maioria das nações. E é criar um teia densa de ligações através do comércio, investimento, cultura, nas quais nos podemos apoiar para futuros desafios e oportunidades.

As potências médias devem agir em conjunto, porque se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm mercado, capacidade militar, alavancagem para ditar termos. As potências médias não. Mas quando apenas negociamos bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos uns com os outros para sermos os que mais acomodam as suas exigências.

Isto não é soberania. É a representação de soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países no meio têm uma escolha: competir uns com os outros para cair “nas graças” ou unirem-se para criar um terceiro caminho, com impacto.

Não devemos permitir que a ascensão do poder nos cegue para o facto de que o poder da legitimidade, integridade e regras permanecerá forte se escolhermos exercê-lo em conjunto.

O que me traz de volta a Havel.

O que significaria para as potências médias “viver na verdade”?

Significa dizer as coisas como são na realidade. Parem de invocar a “ordem internacional baseada em regras” como se ainda funcionasse conforme anunciado. Chamem ao sistema o que ele é: um período de intensificação de rivalidade entre grandes potências, onde os mais poderosos prosseguem os seus interesses usando a integração económica como arma de coerção.

Significa agir consistentemente. Aplicar os mesmos padrões a aliados e rivais. Quando os poderes médios criticam a intimidação económica quando vem de um lado mas ficam em silêncio quando vem de outro, estamos a manter o cartaz na montra.

Significa construir aquilo em que alegamos acreditar. Em vez de esperar que a velha ordem seja restaurada, criar instituições e acordos que funcionem conforme o que fica escrito.

E significa reduzir a alavancagem que abre espaço à coerção. Construir uma economia doméstica forte deve ser sempre a prioridade de cada governo. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é a fundação material para uma política externa honesta. Os países ganham o direito a posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá tem o que o mundo quer. Somos uma superpotência energética, temos vastas reservas de minerais, temos a população mais instruída do mundo. Os nossos fundos de pensões estão entre os maiores e mais sofisticados investidores do mundo. Temos capital, talento e um Governo com imensa capacidade fiscal para agir decisivamente. E temos os valores aos quais muitos outros aspiram.

O Canadá é uma sociedade plural que funciona, a nossa praça pública é barulhenta, diversa e livre. Os canadianos mantêm-se comprometidos com a sustentabilidade.

Somos um parceiro estável e fiável, num mundo que é tudo menos isso, um parceiro que constrói e valoriza relações a longo prazo.

O Canadá tem algo mais: reconhecemos o que está a acontecer e estamos determinados a agir em conformidade.

Compreendemos que esta rutura exige mais do que adaptação, exige honestidade sobre o mundo como ele é.

Estamos a retirar o cartaz da montra.

A velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é uma estratégia. Mas a partir da fratura, podemos construir algo melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa dos poderes médios, que têm mais a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com um mundo de cooperação genuína.

Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo, a capacidade de parar de fingir, de dizer as coisas como são, de construir a nossa força em nossa casa e de agir em conjunto.

Esse é o caminho do Canadá. Escolhemo-lo aberta e confiantemente.

E é um caminho amplamente aberto a qualquer país disposto a trilhá-lo connosco.

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Abaixo o vídeo. Não é exactamente o discurso integral pois falta a introdução, em francês, mas, enfim, está aqui mesmo quase tudo.

In full: Canadian Prime Minister Mark Carney's speech at the World Economic Forum in Davos

quarta-feira, janeiro 21, 2026

Anne Applebaum dixit

 

Gosto imenso de a ouvir e ler. É uma voz ponderada que fala de forma desajectivada, com uma racionalidade que se percebe vir do estudo e da compreensão exaustiva dos factos.

Para quem não a conhece, transcrevo a sua biografia do site da Bertrand: 

Anne Applebaum é historiadora e jornalista. Escreve sobre a Europa Oriental e a Rússia desde 1989, quando cobriu o colapso do comunismo na Polónia para a revista The Economist. Foi colunista do The Washington Post e editora-adjunta da revista The Spectator. É redatora da revista The Atlantic e senior fellow no Agora Institute da Universidade Johns Hopkins.

É autora de vários livros publicados pela Bertrand Editora, incluindo Gulag: Uma História, que ganhou o Prémio Pulitzer de não-ficção em 2004; A Cortina de Ferro, sobre a sovietização da Europa Oriental após a Segunda Guerra Mundial, distinguido com o Prémio Cundhill de Literatura Histórica de 2013; e Fome Vermelha, sobre a fome ucraniana de 1932-33, que fornece o pano de fundo para o conflito russo-ucraniano. Em 2020, publicou O Crepúsculo da Democracia, que analisava o carácter apelativo da autocracia para os intelectuais e políticos ocidentais.

Nestes dias em que a demência narcísica, compulsiva e descarada de Trump está ao rubro, é interessante ouvir o que ela pensa do que ela pensa ser a sua ausência de estratégia, o seu comportamento infantil, a sua eventual doença do foro mental.

Resta a questão: como se lida com isto? As forças militares mais poderosas do mundo e os códigos nucleares estão nas mãos de um doido varrido -- e ninguém parece saber como actuar.

A Ucrânia está debaixo de fogo russo, as pessoas congelando em casas sem aquecimento, e Trump, em vez de condenar Putin, convida-o para o absurdo e fantasmagórico Conselho da Paz onde ele (ele, Trump) será o presidente vitalício. Ninguém ousaria inventar um roteiro mais tresloucado para um filme tragicómico.

Vivemos tempos extraordinários, estamos a assistir a um momento crítico, subversivo, perigoso e surreal da história do mundo.

Trump Has ‘No Strategy’ On Greenland | Anne Applebaum

“Já ultrapassámos a fase da estratégia, e agora temos de falar da obsessão de um homem, talvez até da loucura.”

As ameaças de Donald Trump à Gronelândia reflectem “a obsessão de um homem” em vez de uma estratégia coerente de política externa, e correm o risco de desviar as atenções da intensificação da guerra da Rússia na Ucrânia, afirma a jornalista e historiadora norte-americana Anne Applebaum, vencedora do Prémio Pulitzer.

Anne Applebaum falou com John Pienaar no programa Times Radio Drive.

terça-feira, janeiro 20, 2026

Eleições
-- A palavra ao meu marido --

 

Depois da derrota humilhante deste domingo, Montenegro, demonstrando que é um democrata de pacotilha, não aconselhou o voto em Seguro na segunda volta. 

Dirão que, depois do erro que cometeu ao apoiar Marques Mendes -- que ampliou ao envolver tudo o que era ministro menos mal visto na campanha -- e da percentagem que o Marques Mendes obteve, não tinha saídas airosas. 

Eu repito o que já aqui escrevi. A democracia do Montenegro e de alguns dos atuais dirigentes do PSD, dos quais o Hugo Soares é o expoente máximo e a eminência parda (ou talvez pior que isso), não é assente em valores humanistas e de ética democrática. Não existem para eles linhas vermelhas relativamente ao populismo, à demagogia e à mentira. Confirma-se que  Montenegro escolheu o seu caminho, e esse caminho, ao que parece, passará pelas ideias e pela agenda do Ventura. 

Depois de apoucar e responsabilizar o PS, muitas vezes sem qualquer razão, por todos os males do mundo, a posição que tomou relativamente à segunda volta vai reforçar objetivamente o Ventura, porque, depois da lavagem ao cérebro que levaram, muitos militantes do PSD vão votar no Ventura apenas para não votarem em alguém do PS. 

Assim, o Montenegro vai trilhando, passo a passo, o seu caminho. E esse caminho tem um fim pré-anunciado. 

Nestas eleições percebeu-se claramente quem defende os valores da democracia ou quem se está marimbando para estes valores e tem com objetivo único caçar votos. 

Vamos ver como corre a segunda volta.

O Deus em que acredito

 

Em boa hora, em comentário abaixo que muito agradeço, uma mão generosa deixou-me o link para o vídeo que aqui partilho. Adorei. Revejo-me em cada palavra dita.

Transcrevo o texto que acompanha o vídeo, e, a seguir, porque cada palavra tem um significado que muito prezo, transcrevo a fala integral de Deus.

O Deus de Espinoza

Sempre que perguntavam a Einstein se ele acreditava em Deus, o grande físico respondia: "sim, no Deus de Espinoza".

Saiba o que diz o Deus do filósofo Baruch de Espinoza, pela voz de Javier Jiménez Lopez, um reconhecido músico barranquilero e grande intelectual. 

Baruch Spinoza, ou Espinoza ou Espinosa, nasceu no ano de 1632, em Amsterdan, foi um dos grandes racionalistas e filósofos do século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com René Descartes e Gottfried Leibniz. De família judia portuguesa (daí a confusão de formas na escrita do sobrenome),  o grande filósofo holandes faleceu em 1677, em Haia.


Fala de Deus:
Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é
que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida.
Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que
Eu fiz para ti.

Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo
construíste e que acreditas ser a minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas
praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há
algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade
fosse algo mau.

O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu
amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo
o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver
comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem,
no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me
encontrarás em nenhum livro!

Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem
me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te
enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos,
de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te
culpar se respondes a algo que eu pus em ti?

Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês
que eu poderia criar um lugar para queimar
a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da
eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são
artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em
ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única
coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de
alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho,
nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso.
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.
Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há
pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar.
Ninguém leva um registro.

Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um
conselho. Vive como se não o houvesse.
Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de
existir. Assim, se não há nada,
terás aproveitado da oportunidade que te dei.

E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste
comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste,
se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero
que acredites em mim. Quero que me sintas em ti.
Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas
tua filhinha, quando acaricias
teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu
seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam.
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas
relações, do mundo.
Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o
jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te
ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui,
que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que
precisas de mais milagres?
Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que
estou, batendo em ti.

segunda-feira, janeiro 19, 2026

No rescaldo da 1ª volta

 

Votei no Almirante, mas a preocupação que me levou a votar nele não foi partilhada pela maioria dos votantes pelo que, com pena minha, os portugueses não o levaram à 2ª volta.

E, em coerência com o que sempre disse, passando o Seguro e o Ventura, não hesito nem por um segundo: o meu voto vai, incondicionalmente, para o Seguro. 

Tenho muitas dúvidas na firmeza, na criatividade, no punch de Seguro como Presidente da República: não sei se é pessoa para fazer frente a Montenegro quando isso for preciso e tenho muitas dúvidas de que tenha capacidade, energia e autoridade para se impor como deve ser caso um dia venhamos a ter a infelicidade de Ventura chegar a 1º ministro. Mas as coisas são o que são. Step by step. O cenário agora é Seguro contra Ventura para Presidente da República. Portanto, sem hesitar, o meu voto só pode ser um: em Seguro.

Há uma linha vermelha muito clara: de um lado está a democracia, de outro está a anti-democracia, o populismo. Estarei sempre do lado da democracia, e estarei sempre com absoluta firmeza e convicção.

Portanto, tentando abstrair-me de que vejo o Tó Zé Seguro como o Menino da Lágrima com pose de Rainha de Inglaterra, vou concentrar-me nos seus aspectos positivos: é democrata, é humanista, é civilizado, supostamente é um homem sério -- e isso, para já, é o mais relevante. 

Na reacção aos resultados, Ventura, eufórico, ufano, já mostrou ao que vem: vem para a lama. Tentará enlamear Seguro e o que o rodeia. Voltaram as mentiras, os insultos, o apelo ao medo, voltou ao 'nós' contra 'eles', voltou ao 'nós, os puros, os portugueses de primeira', contra ' eles, os socialistas, os corruptos'. O discurso xenófobo, racista, divisionista, radical, não inclusivo, trumpista esteve ali bem presente. 

E eu só espero que quem votou no Almirante, no Marques Mendes ou em Cotrim rejeite isso e saiba posicionar-se a favor do País, da seriedade, da honestidade intelectual, do civismo, da democracia, da bondade e, mesmo que o seu coração penda mais para a direita e para o conservadorismo, dê primazia à decência e aos verdadeiros valores democráticos.

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Sobre Cotrim Figueiredo não tenho muito a dizer, a não ser que fiquei com a ideia de que ficou com vontade de fazer qualquer coisa com os votos que recebeu. Não sei o quê pois tenho para mim que os últimos dias o queimaram. Tendo uma conversa genericamente arejada, espalhou-se ao comprido ao dar a entender que poderia votar em Ventura (contra Seguro) e ao mostrar não ter estaleca para aguentar embates. Depois da notícia sobre o assédio e de ter visto o pasmo de muita gente com a sua não rejeição do voto em Ventura, foi-se completamente abaixo, mostrou-se arrasado, atirou em todos os sentidos de uma forma pouco estruturada. Com isso, mostrou não ter fibra para o cargo para que estava a candidatar-se.

Tirando este aspecto, há que registar o falhanço brutal da candidatura de Marques Mendes e do posicionamento de Montenegro, um falhanço em toda a linha. Com as suas opções e o seu apoio muito activo à candidatura fraquíssima de Marques Mendes, Montenegro derrapou à força toda, e derrapou para debaixo da pata de Ventura. Com isto, Ventura, o grande oportunista, o demagogo que funciona just-in-time, já veio apresentar-se como o líder da direita. Tempos agitados, estes próximos. Com um governo minoritário, com falhanços sucessivos e muito graves em áreas críticas como as da Saúde, da Habitação e da Segurança, Montenegro vai passar a caminhar no fio da navalha, sobre brasas. 

Outra candidatura cujo falhanço é também de registar é a de António Filipe, ou seja, do PCP. Claro que também a votação de Catarina Martins foi um desastre e, por acaso, tenho pena pois fez uma bela campanha. Mas o Bloco é um desastre pelo que desastre por desastre pouco adianta. A de Jorge Pinto, que, nos debates, mostrou estar muito bem preparado, foi outro disparate. Ao baralhar-se todo com o apoio ao Seguro, esvaziou completamente o seu eleitorado. Agora António Filipe, político experiente, esteve a fazer o quê? Qual a lógica do PCP? Mostrar à evidência que já não vale nada? Sendo um partido com um historial que merece respeito, qual a lógica de andarem a exibir uns desgraçados 1,6%? Não percebo. E, no discurso da noite eleitoral, aparecem com a mesma estafada conversa de que os portugueses podem continuar a contar com eles... Mas contar com eles para quê? Não percebem que já não riscam para coisa nenhuma? Não percebem que poucos mais votos tiveram que o Manuel João Vieira...? Caraças. Que pena que me dão. 

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Desejo-vos uma boa semana

domingo, janeiro 18, 2026

Komorebi

 

Acabei de ter uma grande alegria. Aprendi uma coisa e percebi que, na volta, não sou maluca de todo.

Vou contar-vos. 

Tenho um hábito, coisa muito minha, que me leva a ficar a olhar para os muros, para as paredes, para o chão, e que me deixa encantada. É como se o mundo dito real, palpável, se desdobrasse em vários outros, ao mesmo tempo efémeros e imarcescíveis. 

Se tenho comigo o telemóvel, fotografo. Senão, muitas vezes vou a correr buscá-lo. Dantes usava a máquina fotográfica, mas tantas se estragaram que desisti. O telemóvel serve bem. Então fotografo o que me encanta. 

Mesmo à noite, quando vamos passear com o cão, deixo-me ficar para trás para fotografar. Fotografo a sombra que a luz dos candeeiros projecta nos muros, fotografo as árvores contra o céu escuro, quase a sombra que as árvores nocturnas espelham no céu. 

Esta fotografei há pouco, achei-a linda

O meu marido apressa-me, não lhe parece bem que, à noite, as ruas vazias, e isto já para não falar no frio ou na chuva, eu atrase a marcha, me demore, me deixe ficar sozinha. Dantes perguntava o que é que eu estava a fotografar. Agora já se deixou disso. Quando perguntava, muitas vezes eu respondia: 'Nada'. E não era para ser antipática, era mesmo porque achava que ele não ia achar muito lógico se eu dissesse  que estava a fotografar sombras. 

Tenho incontáveis fotografias disso: a sombra que as coisas fazem. A sombra fugaz. Daí a instantes, a posição relativa das coisas face ao sol (ou ao foco de luz) estará diferente, as sombras estarão diferentes ou inexistentes. Ou se o vento agitar as coisas, a sombra perderá a sua nitidez. Adquirirá então movimento, tornar-se-á fluida, ainda mais lábil.

Não comentava com ninguém, ou até escondia, este meu encantamento. Achava que, se falasse nisso, as pessoas achariam que eu não era boa da cabeça e eu teria dificuldade em rebater, se calhar é mesmo pancada. Se me dissessem que eu estava a enaltecer uma coisa banal, uma coisa a que qualquer pessoa normal não atribuiria qualquer relevância, iria pôr-me a falar da beleza poética do que é imaterial, do que não deixa rasto? Estaria a enterrar-me ainda mais, não é?

Mas eis que agora me aparece um vídeo em que se dá um nome a isto. Komorebi. A luz do sol filtrando-se através das árvores. Ou seja, não apenas não é maluquice minha como até tem um nome. Adorei o vídeo: fala-se sobre o assunto, fala-se da beleza das sombras etéreas, intangíveis, móveis, belas, fala-se do que se pode contemplar em silêncio, do que se pode sentir dentro de nós. 

A beleza do Komorebi: como os japoneses veem a luz filtrada

Komorebi é uma palavra japonesa que descreve a luz solar a filtrar-se pelas árvores.

Neste vídeo, exploramos a beleza do komorebi e como os japoneses veem a luz filtrada não apenas como algo que vemos, mas como uma experiência serena de tempo, natureza e presença.

Das florestas e ruas da cidade à arquitetura, jardins de chá e vida quotidiana, o komorebi revela uma forma delicada de perceção do mundo. Ele lembra-nos que a beleza não exige atenção. Ela espera por ela.

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E bora lá votar.

E um belo dia de domingo

sábado, janeiro 17, 2026

Que polícias são estas? São piores que a maioria dos bandidos.
-- A palavra ao meu marido --

 

Não há muito tempo ficámos chocados e enojados com o comportamento inqualificável que vários GNR e um PSP tinham com imigrantes no Alentejo. Uma verdadeira máfia. 

Esta semana foram noticiados, com pormenor, os horrores que dois anormais que foram recrutados para a PSP faziam aos mais frágeis e desprotegidos. Como é costume, este tipo de anormais só consegue ser forte com os mais fracos. Não existe diferença entre o que estes dois energúmenos faziam e o que os PIDES faziam. Os PIDES prendiam e torturavam ao serviço do regime, estes dois merdas prendiam e torturavam provavelmente por prazer, seguramente ao "serviço" das redes sociais e com certeza "suportados" pelo discurso de ódio de uma extrema direita cada vez mais violenta.

Pior ainda! Hoje veio a público que as imagens eram partilhados com cerca de setenta outros agentes da PSP.  Que PSP é esta? Que tipo de gente é recrutada para as polícias? 

E, como sabemos, estes casos não são únicos. Já foram noticiadas outros casos semelhantes de violência sobre cidadãos indefesos, de desrespeito pela liberdades individuais, pelos direitos humanos e pela lei! 

O governo tem que responder rápida e claramente a várias perguntas. Como são recrutados os polícias? A que formação são sujeitos? Como são avaliados? A que controlo estão sujeitos? Qualquer anormal tipo besta pode ser incorporado nos quadros da PSP, da GNR, dos guardas prisionais ou do SEF? 

E outra questão, também pertinente, o que andam as chefias a fazer? São coniventes? Fecham os olhos? Ou andam distraídos? Não controlam os subordinados? 

Tudo isto é gravíssimo e contribui para cada vez para um maior desconforto e completa descrença dos portugueses nas instituições. Se tivéssemos no governo e nos postos de comando gente com alguma ética, a ministra e o comandante da PSP já se tinham demitido. Mas, se o Montenegro mantém a ministra da saúde no governo depois de tudo o que já aconteceu, é pouco provável que agora tomem uma atitude que revele um mínimo de decência. Virem dizer que estes polícias não representam a generalidade dos polícias é pouco, é irrelevante, e mostra mais uma vez que não respeitam os portugueses e que não sabem honrar os cargos que ocupam. 

Há muito que se diz que as polícias estão infiltradas pela extrema direita. Tenho para mim que esta gente, se por acaso vota, vota no Ventura. O discurso do Ventura alavanca este tipo de comportamentos. 

Porque a democracia é diferente da barbárie, estes dois anormais devem ter um julgamento justo e, se provados os factos, devem ser sujeitos a penas exemplares, sem qualquer dó nem piedade! 

Como é possível que um número tão grande de polícias tenha ou aprove estes comportamentos? As polícias estão mesmo doentes e precisam de uma terapia de choque!

sexta-feira, janeiro 16, 2026

Ai... se o ridículo matasse...

 

Só agora vou almoçar. Liguei a televisão enquanto o meu marido não chega aqui. 

E vi o impensável: o Marques Mendes, o facilitador que toda a vida andou colado ao PSD e que agora se enfiou no bolso do Montenegro, anda na campanha eleitoral a apregoar que, se Seguro for eleito, não vai fazer frente ao Governo... 

Tem razão, eu digo o mesmo. O nome do meio do Tozé é Perna-Aberta. Aliás, se o Tozé for a PR (oh ironia... oh desgraça...), não tenho dúvidas que o Tozé, qual Rainha de Inglatera, vai manter a pose com que já está de ser uma figura decorativa, simpática, com cara de menino da lágrima se a coisa não lhe agradar lá muito, ou com cara de amigo de reformados e desvalidos se o momento for de ternura. 

Mas ser o Marques Mendes a vir dizer isto é que é de ir às lágrimas... 

Claro que o Tozé dar um murro na mesa, mandar o Montenegro ou o Ventura irem dar banho ao cão, chamar a atenção a sério, mostrar cartão amarelo -- ou encarnado, se necessário for --, isso claro que o Tozé inSeguro jamais fará. Jamais. Por isso mesmo vou votar no Almirante. Ou alguém acredita que, se um dia Ventura for a primeiro-ministro, o Tozé é menino para se impor...? Está bem, está... Jamais. Mas, claro que nem ele nem o Marques Mendes.

Mas Marques Mendes não se ficou por aí. Com aquele complexozinho de inferioridade que o caracteriza, em que até compara a sua altura com o António Vitorino e, imagine-se, até com a Maria de Belém😅😆😅, agora, para não se ficar atrás do Cotrim, anda a dizer que quem sofreu um golpe de assassinato de carácter foi ele, o maior de todos, um golpe de todo o tamanho, golpe maior nunca ninguém viu. Vamos ver se até ao fim do dia não vai apregoar que a pilinha dele é maior que a dos outros.

Ai, que coisinha mais caricata que para aí anda pelas ruas a querer ser presidente... 

Um mundo de doidos...
Porque é que o fato de treino usado por Nicolás Maduro fez disparar as vendas da Nike?

 

De repente, parece que há cada vez mais coisas que não fazem sentido. 

Bem, se calhar não foi de repente, se calhar tudo isto era fácil de antever. Vamos fechando os olhos a isto, depois àquilo, depois fartamo-nos de ser tão cépticos e vamos dando o benefício da dúvida, vamos olhando para o lado, fazendo de conta que não vemos, temos mais que fazer... até que um dia damos por nós e estamos metidos num molho de brócolos, o mundo que conhecíamos de pantanas.

No outro dia ouvi uma pessoa dizer que Trump está a destruir em meia dúzia de meses o que a civilização levou para cima de um século a conseguir.

Li o artigo cujo título está lá em cima, a encabeçar este post. Revejo-me nele. Por isso, permito-me transcrever a maior parte dele. 

Nicolás Maduro com calças de fato de treino da Nike no porta-aviões USS Iwo Jima, após a sua captura. Fotografia publicada a 3 de janeiro pelo presidente Donald Trump nas redes sociais. @realDonaldTrump


A foto de Maduro em fato de treino, publicada por Donald Trump e relativa à sua detenção, tornou-se viral, e a peça em questão tornou-se muito desejada. Hilariante? Chocante? Apavorante?

Não sei quanto a vocês, mas nos últimos meses tenho-me sentido como se estivesse a viver num mundo irreal, numa série distópica da Netflix ou num programa de burlesco a solo. O mundo tornou-se confuso, insano; as redes sociais inundam-nos com imagens de um presidente americano a dançar ao som de YMCA, a fazer caretas e a dobrar sketches que provocam tanto risos como consternação. O líder do país mais poderoso do mundo aparece diariamente nos nossos ecrãs através de imagens que são reais ou geradas por inteligência artificial — é difícil de distinguir. Até onde vai este show do Trump?

Um fato de treino cinzento que se tornou viral

Esta surpreendente extravagância invadiu recentemente o mundo da moda. A última alucinação? Ou melhor, o maior espanto? A história de um simples fato de treino cinzento que, através de um "Trumpismo", esgotou após uma fotografia partilhada pelo próprio Donald Trump na sua rede social Truth Social para ilustrar a detenção do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Um breve resumo para aqueles que possam ter adormecido e ainda estejam meio adormecidos desde 3 de janeiro. Nesse dia, o presidente norte-americano publicou uma fotografia de Maduro, algemado, vendado e de auscultadores a bordo do navio de guerra USS Iwo Jima. O homem que seria julgado nos Estados Unidos por conspiração narcoterrorista vestia um fato de treino cinzento da Nike, composto por um casaco e calças da linha Nike Tech Fleece.

Alguns especialistas em canais de televisão protestaram de imediato, condenando a humilhação máxima: certamente que as autoridades americanas poderiam pelo menos ter deixado o ex-presidente venezuelano vestir-se e não se expor ao mundo com um velho fato de treino cinzento fechado. Claramente, não compreenderam o mundo moderno. Porque apenas algumas horas depois da exibição, este momento altamente geopolítico já tinha migrado para outra arena: o mundo da moda. A 4 de janeiro, a imagem espalhou-se como fogo em plataformas para adultos como o TikTok e o Instagram, gerando uma infinidade de memes, fotomontagens e paródias irónicas. Maduro de fato de treino, a nova estrela do TikTok?

Frenesi Comercial

A história podia ter terminado aí. Mas da histeria mediática ao digital e, depois, ao comercial, tudo aconteceu em termos de cliques. Após a explosão de pesquisas no Google por "Nike Tech" e "Nike Tech Fleece", como evidenciado pelos dados do Google Trends, o casaco e as calças desportivas Nike de Maduro esgotaram-se como água em poucos minutos. Vários tamanhos, especialmente os maiores, desapareceram quase instantaneamente do stock online. O preço das ações da Nike também acompanhou este frenesim. As suas ações na Bolsa de Nova Iorque saltaram de 63,33 dólares no fecho do dia 2 de janeiro para quase 65 dólares por volta das 17h00 do dia 5 de janeiro. Será que Trump se vai gabar em breve de ter provocado, graças à sua espetacular intervenção na Venezuela, uma escassez global de ações da Nike? É fácil imaginá-lo a dar alguns passos de dança em frente à câmara enquanto canta "Just Do It" (o famoso slogan da Nike).

(...)

Mas será que não conseguimos encontrar algo mais inspirador para o nosso guarda-roupa atual do que um fato de treino cinzento e sem graça usado por um ditador bigodudo e fotografado por um presidente caricato?

[Transcrição quase integral de Pourquoi le jogging porté par Nicolás Maduro a-t-il fait exploser les ventes de Nike ?, de Marion Dupuis, no Madame le Figaro]

quinta-feira, janeiro 15, 2026

Coisas que os ricos nunca compram e a que os pobres não resistem

 

Há um canal no youtube intitulado Warren Advices que se apresenta com a imagem de Warren Buffett e, supostamente, com a sua voz. Contudo a voz é gerada por inteligência artificial e o que é dito, na realidade, não foi dito, pelo menos com aquele fraseado, por ele. Há um disclaimer em que isso é explicitado. Os autores dizem que os vídeos têm intuitos educativos e, aparentemente, coligem um conjunto de afirmações ou conselhos que Buffett ao longo da sua vida tem divulgado.

Estive a ouvir o vídeo que aqui abaixo partilho e, de facto, são conselhos sensatos e o que aqui é dito faz genericamente sentido. E, se eu não me incluo no grupo dos ricos, a verdade é que, como já aqui referi algumas vezes, conheço algumas pessoas muito ricas e posso testemunhar que praticam muito do que aqui se diz. 

Esta distinção entre ricos e pobres pode parecer classista, redutora e, até, absurda. Mas, pondo de lado esse aspecto, a verdade é que os há, os ricos e os pobres. E também há mil explicações para cada afirmação que se faça. Mas também me vou abstrair disso pois o objectivo deste post é apresentar as ideias que um dos homens mais ricos do mundo supostamente professa. Se ouvirem o vídeo, saberão que há uma ideia base: os pobres pensam sobretudo no aqui e agora, querem uma coisa e fazem de tudo para obtê-la, custe o que custar, sem pensar muito no médio/longo prazo. Gostam de ostentar e acham que a ostentação vale o preço que for. Os ricos (os muito ricos) não gostam de ostentar e, antes de gastarem dinheiro, pensam no que podem poupar se não comprarem o que se lhes apresenta.

Vários exemplos insignificantes se poderiam apontar. Uma pessoa pode tomar o pequeno almoço na rua, acha que não é por isso que vai ficar mais pobre. Como tomo sempre o meu em casa, nem faço ideia de quanto pode custar tomar o pequeno almoço fora. Vamos admitir que 3 euros. O que são 3 euros? Nada, pensará quem tem esse hábito. Mas um rico pensa de outra maneira. Vou falar no meu caso concreto: ao pequeno almoço, como uma laranja e a seguir kefir, natural, sem açúcar, de marca branca, com algumas sementes e canela. A seguir bebo um café. Se calhar, no conjunto, custa-me 1 euro. Façamos as contas. Poupo 2 euros por dia face a um pequeno almoço fora. Dois euros não é nada. Mas 2 euros vezes 30 dias por mês, são 60 euros por mês. 60 euros vezes 12 meses são 720 euros por ano. Ao fim de 10 anos, dá 7.200 euros. Com os juros anuais, em especial se capitalizarem, dará mais qualquer coisa. 

Ou os almoços fora. Claro que, quando se trabalha, muitas vezes é impossível não almoçar fora. Mas, admitindo que há alternativa, pensemos num exemplo. Uma pessoa, podendo almoçar comida feita em casa, opta por ir ao restaurante. Admitamos que é um restaurante económico e gasta, digamos, 15 euros. Um bom preço, não é? E se for só duas vezes por semana, também não é nada de mais. Contudo, um rico se calhar pensa de outra maneira. Se comesse em casa, provavelmente gastaria o mesmo por 5 euros. Ou seja, pouparia 10 euros de cada vez que não comesse no restaurante. 10 euros duas vezes por semana, seriam 20 euros poupados por semana. Vezes 4 semanas por mês, já a poupança iria em 80 euros por mês. 960 euros por ano. Ao fim de 10 anos, 9.600 euros, fora os juros.

E só nestas duas insignificâncias, já estaríamos a falar de 7.200 + 9.600 = 16.800 euros, fora os juros.

Não é muito...? Não. Mas poupando um pouco aqui, mais um pouco ali, e, se calhar, se quiser comprar uma televisão nova ou um carro ou qualquer coisa dessas, em vez de comprar a crédito por não ter qualquer poupança, pode comprar a pronto e evitar a enormidade que são os juros das compras a crédito de curto prazo que arruínam muita gente pobre.

Abro aqui um parêntesis para contar uma história verídica: uma vez, entrou-me no gabinete um funcionário da empresa, dizendo que queria sair da empresa e negociar a saída, ou seja, receber uma indemnização por saída antecipada. Espantei-me. Era novo de mais para se reformar e velho de mais para arranjar outro trabalho. Quis saber a razão. Desatou a chorar. Tinha arranjado uma namorada, tinha querido impressioná-la, foram passear e as viagens foram a crédito, tinha comprado uma televisão grande, a crédito, iam jantar fora muitas vezes e isso saía caro e tinha pedido um crédito pessoal, e depois não tinha conseguido pagar o empréstimo e tinha pedido outro... e depois mais outro... e já não sabia o que fazer, já andava a viver de dinheiro que pedia emprestado aos pais octogenários que viviam de reformas baixas. E chorava. Tentei que não fosse adiante com essa ideia pois iria usar o dinheiro da indemnização para pagar os empréstimos e, no fim, ia ficar 'liso' e sem trabalho. Disse que ia viver do subsídio de desemprego e que ia para a província tentar arranjar trabalho onde calhasse. Implorou-me que autorizasse. Tivemos uma reunião com a Direcção de Recursos Humanos. Muitas, muitas dúvidas. Mas acabámos por aceder. 

E não foi caso único. Foi talvez o mais dramático pois o total das dívidas já era brutal. Mas era frequente eu receber pedidos de autorização para se pagar antecipadamente os subsídios de férias ou natal a este ou àquele, ou para receberem antecipadamente parte do ordenado e, muitas vezes, quando eu falava com as pessoas para perceber o que se passava e para saber se precisavam de ajuda, concluía que se metiam em despesas absurdas sem acautelarem o que se passaria a seguir. E via como continuavam a gastar um dinheirão em tabaco, que é caríssimo (isto, sem falar, no malefício para a saúde), ou noutras despesas que facilmente poderiam ser suprimidas.

Mas, se estive a falar de 'trocos', a verdade é que, depois, há as grandes despesas como, por exemplo, comprar um carro novo. Uma pessoa rica (refiro-me aos ricos a sério, que fazem contas) nunca compra um carro novo. Compra um carro com poucos anos e poucos quilómetros. Comprar um carro 0 kms a crédito é um erro, um absurdo, um sugadouro.

Enfim. 

Quando fiz voluntariado numa escola situada numa das zonas mais carenciadas do país, um dos tópicos que abordava com os miúdos, que já eram crescidos, relacionava-se com isto: com a necessidade de fazer contas, de planear o futuro, de não pensar apenas no curto prazo, de não gastar dinheiro inútil que poderia vir a ser útil numa situação futura.

Calo-me já e passo ao vídeo. 

Os ricos NUNCA compram estas 5 coisas (mas os pobres compram diariamente)

Automóveis zero quilómetros: O ativo que mais deprecia, perdendo valor exorbitante assim que sai do concessionário.

Casas que não pode pagar: Endividar-se até ao limite não deixa nada para investir e prende-o a décadas de prestações.

Artigos de luxo para impressionar os outros: Marcas de luxo, relógios caros e símbolos de status que destroem património em nome das aparências.

Coisas a crédito que perdem valor: Pagar 20% de juros sobre ativos que depreciam é suicídio financeiro.

Opiniões alheias: Tomar decisões de despesa com base no que os outros pensam, em vez de pensar no que constrói património. 


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Abaixo há um vídeo, também de Inteligência Artificial mas num outro registo.

E um dia feliz

Belo... apesar de tudo

 

As redes sociais transbordam de imagens e vídeos feitos com recurso a inteligência artificial, umas vezes para parodiar a realidade, outras para distorcer os factos, outras para nos transportar para outas dimensões. 

Gosto de espreitar o que vai estando disponível mas, quando me aventuro, sai-me tudo aborrecidamente amador, abonecado, piroso, tudo muito ao contrário do meu próprio gosto. Não tenho paciência para aprender técnicas ou processos que estão em permanente evolução, uso ferramentas básicas e sai o que sair. 

Mas há quem domine as técnicas e consiga imagens tão perfeitas que não apenas parecem reais como, de facto, mais perfeitas que as reais. E quando conseguem que o movimento que as anima seja elegante, subtil, com um pendor estético que emula um bailado, então há que reconhecer o lado virtuoso destas coisas.

Partilho o vídeo abaixo não porque seja mais encantador do que muitos outros que me aparecem mas, apenas, porque foi o último. É bonito, tem um lado poético.

Because It Was Beautiful | AI Animated Video Art | Mamta B. Herland

Ao longo de um limiar frágil entre o cuidado e a posse, persiste a memória de uma liberdade outrora intocada. O que é aproximado pelo amor também é alterado pelo ato de desejar — revelando como a beleza, quando conquistada, pode carregar uma ternura entrelaçada com uma dor silenciosa.