domingo, janeiro 04, 2026

Isto não está a começar bem...
E não sei se o que me incomoda mais é o crime de Trump se é a cobardia dos Europeus

 

Não simpatizo com Maduro, nada mesmo. Tenho sempre muita pena dos povos que não vivem em democracia, que não têm o privilégio de viver em plena liberdade, que não têm a sorte, que toda a gente deveria ter, de viver num país desenvolvido, humanista, inclusivo, moderno. Teria ficado muito mais animada se, em eleições livres, os venezuelanos escolhessem um verdadeiro democrata.

Contudo, nem de longe nem de perto, apoio ou percebo ou justifico a criminosa acção militar dos Estados Unidos de atacar alguns alvos e raptar Maduro e a mulher, indo buscá-los à cama e depois, algemando-o, vendando-o, transportando-o para os Estados Unidos, humilhando-o de forma vil, expondo-o ao mundo nessa condição de preso, vendado e humilhado.

Pelo contrário, revolta-me as entranhas saber que alguém pode fazer isto, que um país resolva promover uma acção destas para, de forma prepotente e desrespeitadora, pegar no presidente de um país e levá-lo à força para ser julgado num país estrangeiro.

Revolta-me o que, antes, Trump e o gang de anormais que o rodeia andaram a fazer, disparando mísseis contra barquinhos, matando as pessoas que lá iam. Não sei se transportavam droga se não. Mas, se suspeitavam que os barquinhos transportavam droga para os Estados Unidos, então que apreendessem os barcos e prendessem os seus tripulantes para que se averiguasse se era isso mesmo. Nunca, por nunca, que, sem mais, matassem as pessoas. Isso são crimes que a comunidade internacional deveria ter condenado veementemente.

Revolta-me a desfaçatez de Trump e da corja que o apoia que declaram às escâncaras que a partir de agora vão mandar na Venezuela. Revolta-me isso até mais não. Revolta-me que, sem se dar ao trabalho de disfarçar (por exemplo nem se deram ao trabalho de dizer que vão restaurar a democracia), confesse que vai explorar o petróleo venezuelano, que vai ficar com o que calhar à conta de uma qualquer compensação. É abjecto. Uma ladroagem à descarada.

Revolta-me, ou melhor, enoja-me, a descrição que Trump fez, dizendo que a operação parecia uma série de televisão e que foi uma acção espectacular, rápida e violenta, e reforçando a palavra violenta como se ser violento fosse uma boa coisa, e dizendo que não se via uma coisa assim desde a II Guerra Mundial, e incomoda-me que tenha feito acompanhar o vídeo do ataque de uma música, absurda e despropositada naquele contexto -- tudo ridículo, abastardado, sem noção. Revolta-me a palhaçada que é tudo o que Trump faz e diz. 

Mas revolta-me também muito, muito, muito, a reacção hipócrita e cobarde dos países europeus (do que ouvi, talvez com excepção para Espanha). 

Que cara, que voz, que coerência podem os europeus mostrar na defesa da Ucrânia contra o invasor Putin quando, perante Trump, se calam? E escrevo calam quando o que me apetece é dizer que abrem as pernas. Mas não digo. O que digo é que, perante um demente, um aldrabão compulsivo, um narcisista maligno, o que se tem visto aos europeus é fecharem os olhos, apaparicarem, passarem-lhe a mão pelo pelo. bajularem. Será uma atitude estratégica. Sei que sim. Mas sei também que a cobardia tem perna curta e, pior que isso, a cobardia é sinónimo de se pôr a jeito. 

Foi certamente com o engodo da Venezuela que Putin deu a volta a Trump com a Ucrânia, tal como é com a ganância e a sem-vergonhice, e, logo, com a conivência de Putin e Trump que Xi Jinping conta para um dia ficar com Taiwan. Parece que, de repente, constatamos que o fim da lei e da ordem é um facto, é o novo mundo, parece que este é o tempo dos chacais. E nós todos presas fáceis, insignificantes poeiras.

Raios os partam. 

Esquecem-se é de uma coisa, é que não há mal que sempre dure.

3 comentários:

Anónimo disse...

Foi a caça ao Gungunhana. De joelhos perante o homem branco.

ccastanho disse...

O que ontem aconteceu, foi a subversão de todas as regras civilizacionais entre países. Nada x nada me liga a Salazar ou Marcelo Caetano, e, de todo, não gostava que um Trump da vida lhes fizesse o mesmo que fez a Maduro, é deplorável o que foi feito. Para mal do mundo ocidental esta atitude de supremacia americana revela o declínio do império americano , a China esfrega as mãos. Depois de ontem, tudo é possível nas nossas vidas dos nossos filhos e netos.

Anónimo disse...

A vergonha só não é maior porque destas lideranças europeias, com exepção do primeiro-ministro espanhol, nada há a esperar.
São uns cobardolas, não querem afrontar o grande líder, deixam-no em roda livre, na esperança que não os belisque e mesmo quando ele os insulta ou minimiza, fingem que não ouvem.
São uma vergonha, que não valem o que ganham nem merecem o estatuto que têm, gente sem ética, sem moral, sem vergonha.
Lamentável é que essa pandemia se estenda a outros quadrantes. Nem a ONU foi clara e inequívoca na condenação da intervenção americana, o mesmo para SS, o Papa.
J. Carvalho