segunda-feira, dezembro 25, 2017

Depois da véspera, segue-se agora o dia propriamente dito:
N A T A L





Quando eu era pequena apenas se festejava o Dia de Natal e conseguíamos acomodar os festejos sem ter que antecipar para a véspera ou transbordar para o dia seguinte. Nem me lembro bem como era. Se calhar estávamos com uns ao almoço e com outros ao jantar. Tenho ideia que os que não encaixavam no dia de Natal encaixavam no dia de Ano Novo. Era uma coisa tranquila e não tenho ideia de assistir a grandes trabalheiras. 

Quando me casei a coisa começou a complicar-se. A família começou a alargar-se e tanto mais quanto começou a fazer sentir-se o peso da terceira idade e alguns avós, tios e tias já não iam a lado nenhum, já éramos nós que tínhamos que ir buscá-los e, mais tarde, apenas visitá-los. Todos esses já se foram mas, ainda assim, a família tem vindo a multiplicar-se e a desdobrar-se e, de facto, os festejos e respectivos preparativos são obra.


Já há muitos contactos que são apenas por telefone. Muita gente, muito dispersa, impossível conseguir conjugar toda a gente. Primas e primos, por exemplo. Ontem foram uns, quando me ligaram estavam juntos na praia, ouvi o riso da criançada. Filhos que não acabam. Um que tem menos cinco anos que eu, casou com uma rapariga muito mais nova e ainda o ano passado tiveram mais uma menina. Outra minha prima, teve também uma menina há cinco anos, dez anos depois depois da última. Esta noite foi uma outra que, vá lá, ultimamente não tem procriado. Pelo meio, mensagem da minha mãe para não me esquecer de falar à prima com quem na véspera não tinha falado. Sabe que, no meio do reboliço culinário, me esqueço.

Grande parte da tarde foi passada na cozinha. Ouço que há quem vá para hotéis ou restaurantes e sei de quem encomende a comida feita. Isso para mim não é nada. E não que esteja a criticar quem o faça. Cada um faz como lhe apraz. Eu sou assim: de fazer tudo, tudo. Só doces é que não gosto de fazer. De resto, tudo. E gosto de o fazer em quantidades e variedades generosas. E improviso. Gosto de estar na cozinha com mil coisas para fazer. Não gosto de falar enquanto cozinho nem de ter gente por perto a perguntar-me o que estou a fazer. Não sei responder. Só sei no momento em que o faço.


Agora que cheguei da consoada (em casa alheia), já fui rechear e besuntar o gigante que amanhã, quando madrugar, o meu marido haverá de pôr a assar pois aquilo é animal para precisar de umas quatro horas, até porque gosto de ter o calor brando. Antes de ir consoar -- e enquanto fazia tiropitas de alheira e de farinheira*, massas recheadas com queijo e salmão e umas tarteletes que me saíram muito mal paridas (mas que eu já antevia que era manobra de alto risco: tarteletes de açorda de bacalhau) -- estava também a fazer o recheio com castanhas assadas, bacon, sultanas douradas, azeitonas, ameixas pretas, pão ralado, chouriço de carne, salsa. à chegada, já estava repousado e frio, enfiei parte para dentro do bicho e com o resto fiz um rolo que embrulhei em papel de alumínio.
* Ponho a massa crua devidamente tendida (compro no supermercado já pronta a usar). Ponho uma fiada bem aviada de ricota, cebolinho, fatias de maçã e numas ponho farinheira e noutras alheira. Enrolo. Besunto-as de azeite, depois ponho mel em cima e polvilho com sementes de sésamo. Levo ao forno. 

Já recebi alguns presentes e já dei alguns. Gosto, especialmente, de oferecer. De receber nem tanto pois tenho a sensação de que não preciso de nada e que tudo o que recebo aumenta o supérfluo que já tenho de sobra. 

Do meu marido não vou ter presentes-surpresa. Ontem, quando estava a abrir os sacos para acondicionar os presentes por destinatário, fui dar com um saco de que não tinha qualquer ideia. Ao contrário dos outros, este estava fechado com ar de presente. Tive que abrir para perceber para quem seria. Não reconheci. Estava estupefacta a pensar que demência tinha avançado sobre mim, não tinha qualquer ideia de ter comprado semelhante coisa, qualquer!, quando o meu marido entrou na sala e deu com aquilo. Ficou passado: 'Isso é para ti! Para que é que foste abrir?'. E eu: 'Ó caraças! Então porque é que foste pôr no meio dos outros presentes?'. E ele, fulo: 'Sabia lá eu que já ias tratar disso... Quando soubesse que ias, sacava de lá. Não disseste nada.'. Pronto. Não avisei. Quem é que ia supor que tinha ido pôr o meu presente no meio dos outros? Agora já o vi. Só não digo aqui o que é porque senão deixa de ser surpresa.

Este não deu à costa nem é o Pai Natal mas aposto que gostava de ser.
Marcelo foi ao banho na véspera de Natal: parece que é cisma que tem.
Para o ano parece que vai vestido de Santa Claus e, claro, sempre com as televisões atrás.
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Jingle Bell Rock


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E, uma vez mais, os meus votos: aos que possam, um feliz Dia de Natal. 
A todos quantos a vida não tem estado de feição, pois que as sombras pesem menos e que surjam algumas abertas em que os sorrisos espreitem.

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domingo, dezembro 24, 2017

Feliz Natal a todos





Estou a terminar uns acepipes para levar para o jantar de Natal que não é na minha casa. Como sempre, aquela velha driving force que me puxa para o lado arriscado das coisas, levou-me a fazer coisas inventadas, completamente inventadas. Sabendo-se que a culinária tem um lado de química, coisa que nunca foi o meu forte (excepto a certos níveis que não são para aqui chamados), nunca se sabe como é que alguns ingredientes reagem entre si ou quais as temperaturas a que a coisa se dá. Portanto, posso estar a fazer coisas que sejam, pura e simplesmente, incomestíveis. Mas, enfim, esperemos que a minha intuição me tenha guiado no sentido certo.

Agora não tenho tempo para contar pois ainda quero ir tomar banho, arranjar-me, acondicionar os comes e etc.

A todos quantos por aqui passarem, desejo uma noite de Natal vivida em paz e harmonia. 


A solidão ou o infortúnio em tempo de Natal






Chegamos ao Natal debaixo de um outono ensolarado. Ouvi que no propriamente dito dia vai estar de chuva mas, por enquanto, há sol e passeei debaixo de um límpido céu.

Lembrei-me hoje de um dia, mil anos atrás, em que também estava sol e frio. Lembro-me da boneca que recebi nesse Natal. Mais tarde a minha mãe haveria de lhe fazer uma saia de fazenda aos quadradinhos azuis e brancos e uma camisolinha de malha canelada branca e é assim que eu me recordo dessa boneca. Não me lembro do nome que lhe dei. Só me lembro que tinha cabelo comprido louro e tinha um rosto que não era bem de boneca embora tivesse feições delicadas. Fiquei orgulhosa por ter uma boneca tão invulgar e tão linda.

Recebia os presentes no dia de Natal, de manhã, junto ao sapatinho que deixava na véspera junto à chaminé, e era o Menino Jesus que mos dava. Depois fomos almoçar a casa dos meus avós paternos e, claro, levei a minha boneca nova.


Do outro lado da rua da casa da minha avó morava a avó de uma colega minha da escola infantil. Era uma menina chinesa. O pai tinha estado numa missão em Macau e veio de lá com essa filha. Depois casou com uma das educadoras da escola onde eu andava, uma grande amiga da minha mãe. A menina passou a ser aluna da madastra.

Essa minha educadora era muito simpática e divertida mas, por algum motivo que ninguém compreendia (e em que a minha mãe, quando eu lhe contava, se recusava a acreditar) passava-se com a enteada e não apenas se zangava para além da conta como, frequentemente, lhe batia. Eu ficava consternada. Não compreendia o que desencadeava aquela violência sobre a minha amiga, sempre tão bem comportada e tão doce. Claro que ela tinha uma certa falta de vocabulário mas eu achava isso mais do que compreensível e não percebia como é que a minha educadora, sempre tão simpática, conseguia ser tão agressiva com uma menina tão querida.

Talvez por isso, a minha amiga era silenciosa e, por vezes, triste.


Penso que hoje ninguém consideraria admissível que uma educadora desse bofetadas numa criança em plena sala de aulas mas, nessa altura, ninguém dizia nada.

Nesse dia de Natal, pedi aos meus pais para ir visitar a minha amiga que eu sabia que estava a passar o Natal com o pai e a madastra na casa da avó emprestada.

Lembro-me bem. Estava sentada na cama do quarto onde ficava quando lá pernoitava. Tinha apenas um livro. Como ainda não sabia ler, estava a folhear, a ver os bonecos. Tinha um ar muito triste. Nunca falava da mãe excepto quando eu lhe perguntava. Dizia que não sabia dela, que, se calhar, tinha morrido. Vendo-a assim, ali sentada sozinha e apenas com um livro como presente, fiquei triste por ela. Pensava que, tivesse ela uma mãe de verdade, e haveria de ser mais feliz. Ia para lhe mostrar a minha boneca mas passei-a logo para os seus braços. Só vim de lá quando a minha mãe me chamou. Voltei cabisbaixa, com muita pena da minha amiga. 


Anos mais tarde, essa amiga da minha mãe conseguiu finalmente ter filhos. Soube depois que chegou a pensar que não conseguiria. Talvez por isso sublimasse a sua frustração, sendo agressiva para com a filha do marido. Quando conseguiu ser mãe, adoçou em relação à enteada. Os miúdos gostavam muito daquela irmã mais velha, de rosto redondo, olhos rasgados e cabelo preto escorrido e ela era do mais carinhoso que há para com os seus irmãozinhos.

Quando vem o Natal, lembro-me muitas vezes daqueles para quem o Natal, por algum motivo, não é tempo de alegria.

Dantes eu não tinha máquina de café expresso em casa e, por isso, tomava-o na rua. Como nas vésperas de Natal me deito sempre tarde (como em todos os dias, mesmo sem ser Natal...) -- e no dia havia a 'cena' dos miúdos a verem os presentes, e depois era pôr o almoço ao lume -- só depois, geralmente já depois do meia-dia, é que conseguia ir ao café. Era um café muito grande que servia também refeições simples, como sopa, bitoque ou coisas do género. E fazia-me uma impressão terrível quando via algumas pessoas sozinhas a almoçarem ali, no dia de Natal. Reparava como as pessoas comiam de olhos baixos, talvez para não encararem os olhares das outras pessoas, quase como se estivessem envergonhados por estarem a almoçar sozinhos, no café, no dia de Natal. Aquilo era para mim muito triste. E, no entanto, não sei se era. Mas, para mim, sempre rodeada de amigos e família, era como se aquelas pessoas estivessem abandonadas e o meu coração sentia-se condoído por elas.


Em tempos, havia um rapaz com bom ar que eu via aqui na rua frequentemente alcoolizado. Fazia-me também muita impressão. Tão novo e naquilo, tão novo e sem que a família conseguisse impedir aquilo que parecia desenhar-se como um crescente vício. Uma vez, para minha surpresa, vi-o a fazer o papel de arrumador. Quando estacionei, ele veio pedir-me dinheiro e, como sempre, estava embriagado. Disse-lhe que não lhe dava dinheiro porque achava que ele não precisava de dinheiro mas de procurar tratamento. O rapaz ficou a olhar para mim meio atarantado e fez um gesto respeitoso com o boné. E eu fiquei a sentir-me estúpida por ter ousado pensar que sabia aquilo de que o rapaz precisava. O tempo foi passando e ele por aqui. Aos tombos, pedindo dinheiro a quem estacionava. A mim nunca mais me pediu dinheiro. Pelas companhias em que passou a andar percebi que se tinha tornado um sem-abrigo. Depois começou a andar com uma mulher mais velha, esquelética, com ar de alcoólica ou drogada, não sei. Deixou de ser um rapaz. De garrafa na mão, sempre. De vez em quando, passam-se grandes temporadas sem que o veja. Penso que estará a tratar-se ou penso que caíu de vez. Hoje, por entre aquele frenesim de entra e sai, promoções e luzes e cânticos de natal, quando ia a entrar no supermercado, reparei num homem já com a calvície a despontar e com o boné na mão, a pedir. Era ele. Fiquei cheia de pena. Não lhe dei esmola. Não sei porquê mas acho que iria ferir o seu orgulho (se é que lhe resta algum orgulho). Mas custa-me muito pensar no que aquele rapaz fez da vida dele. Tinha um ar saudável, andava bem vestido e agora está transformado num pedinte. Não sei que memória guardará ele destes seus anos de decadência. Talvez não guarde memórias. Penso: tomara que a família não o veja assim, o boné na mão estendida, nas ante-vésperas de Natal.

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Depois de andar a falar em presentes e compras e coisas do género, pode até parecer disparatado eu estar aqui hoje a falar de assuntos que não têm um smile estampado na testa, quando deveria talvez era estar a falar em preparativos para a festa. 

Mas se o Natal tem algum significado -- e para mim é, sobretudo, um período de convívio familiar -- é nos que se sentem mais sozinhos e tristes que eu hoje penso. Ontem, o Um Jeito Manso teve quase 3.000 visitas. Talvez alguns desses meus Leitores também se sintam também sozinhos e tristes. Aliás, sei que sim. Alguns. E é para eles, em especial, que vão os meus sentimentos. Gostava que, de alguma maneira, as minhas palavras fossem o abraço que gostariam de ter. Não estão sozinhos.




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E um piano mágico para animar o espírito.



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As fotografias foram feitas este sábado

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sábado, dezembro 23, 2017

Lola Noir faz a árvore de Natal


A Lola é mais prendada que eu: eu é mais na base do prêt-a-porter. A ver se faço umas fotos às minhas. Petites e graciosas. Antes tínhamos grandonas mas era um stress com as crianças, sempre com receio de derrube com as consequentes bolas fracturadas. Agora é um descanso. Mas aqui a menina Lola, toda tradicionalista, enfeita a chistmas tree a propósito. Ponhamos todos os olhinhos nela. 


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Há uma Universidade para Pais-Natais.
Pena é ser um bocadinho longe.
Mas, nestas coisas, onde uns vêem um problema, pode ser que outros vejam um desafio


Chamam-lhe The Harvard of Santa Schools e a mim parece-me uma ecelente ocupação para putativos Pais-Natais. 
Tem confraternização, exercício físico, boa disposição e um bom propósito.


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O estranho caso do encantador de pinheiros





Não sabendo de nada, fui agora espreitar as news. Nada que puxe por mim. Talvez disparidades como as de colisões de massas astrais ou de neutrões ou minudências relativas a neutrinos. Ou células auto-imunes ou vislumbres relativos ao Alzheimer. Tudo temas que requerem leitura atenta. Ora, a cada cinco minutos de atenção caio para o lado. Presumo que seja a isto que se chame défice de atenção. Ou uma perigosa mistura entre cansaço e desmotivação. Mas a identificação das causas de pouco interessa para o caso. Adiante, pois. Também me interessa ler a opinião desacertada das pessoas que votaram a favor do brexit e que agora mordem as mãos sem saber como reverter a história. Mas a leitura em inglês de mais do que cinco linhas também me faz cair para o lado. Restam-me os bonecos. Entretenho-me, pois, a ver as fotografias em que o Príncipe Harry aparece a fazer de terceira roda, que é como quem diz, de pau de cabeleira, junto do brother ou da sua simpática cunhadinha. Ou as fotografias new age, em registo vogue, em que aparece com a sua noiva Meghan com um não unânime vestido que muitos acham que é demasiado red carpet. Leio com a cabeça em modo neutro, oncapaz de formar opinião. Ou, então, aquilo da prima de Kent, conhecida pro nazi, ter aparecido no almoço com a futura princesa mestiça com um broche racista ao peito. Penso: uma estúpida qualquer. Tantas vezes, quanto mais aristocratas, mais pataratas. Também me entretenho a ver sugestões de presentes de última hora: para solteiros, para casadas, para intelectuais, para maníacos de moda, para quem precisa de tratar do cabelo com muito cuidado, para as taradas por sapatos, para os amantes de arrumações. Ou uma estante feita em casa que é toda pintarolas. Portanto, já se vê que o meu estado físico e mental não evoluíu muito desde ontem. Uma lástima. Durante o dia ainda vá que não vá, agora, à noite, nada a fazer: sem pilhas.


Muita cena de Natal deixa-me assim. Muitos votos, muitos beijinhos. Faço acenos de longe, já não aguento tanto beijinho, tanto 'bom natal'. Almoço, lanche, jantar. Tanto festejo, tanta confratrenização. Não sinto falta antes, não sinto nostalgia depois. Hoje um convite para um jantar de natal a meio de janeiro. Só me apeteceu dizer: ora, porra. É que, a sério, já não há pachorra. Logo de seguida pasmei com os mails de alguns dos convidados todos a dizerem que sim, que bom, que bom. Não sei se isto é tudo gente carente ou se sou eu que estou cada vez mais bicho do mato. 

Também reuniões que não acabam e eu incapaz de achar que há necessidade em fazer reuniões por cagadinhas que não interessam nem ao menino jesus. Outras vezes nem é isso, é apenas que para mim não é oportuno, não estou nem aí. Hoje ligava-me mais um a querer marcar reunião para a semana que vem e eu que não, que quero ter uma semana sossegada e que estou a ver que não consigo e que queria ter um ou dois dias de férias e que parece que nem isso vai ser possível. Nem sei se não bufei de enfastiamento. Diz-me ele do lado de lá: Mas, se preferir, podíamos antes almoçar.... Só me apeteceu dizer-lhe que era mesmo o que me faltava era ter que aturá-lo à hora de almoço. Mas não disse, ele é um querido. Disse só que me desse tréguas e que atirássemos o encontro para lá de meados de janeiro.  No regresso, noite, noite, vinha no carro e os sacanas dos mails a continuarem a pingar. Num semáforo espreitei. Um tinha uma convocatória para a tarde inteira da próxima sexta-feira. E eu com vontade de me baldar. Disse alto e bom som: O caraças é que vou! mas ninguém me ouviu. Um protesto inócuo. Devia era ter rejeitado o convite e editar a resposta para chegar assim: Vá pentear macacos! Depois pensei que se me saísse o euromilhões era isso que fazia. Tornava-me inconveniente, dava respostas nesta base: E se em vez de andar a chatear os outros fosse, antes, dar banho ao cão?


Mas pronto. Para dizer a verdade esta sexta-feira até não foi tão dramática como os outros dias destas duas últimas semanas. Consegui dar um salto à Gulbenkian à hora de almoço. Estava com receio que o trânsito estivesse ensarilhado com a malta que vai para o Corte Inglês mas até nem por isso. Ou seja, foi bom. Almoçámos na esplanada. Eu comi o Brás de Pato com courgette que nunca perco quando lá vou. Depois, bolo de chocolate.
Ao Lanche de Natal, já de regresso ao contexto profissional, comi bolo-rei e dois pequenos suspiros. Ao jantar, tarte de gila. Portanto, ainda não foi o natal propriamente dito e já vou com quilos de açúcar de avanço. 

Mas, dizia eu, Gulbenkian. Almoço na esplanada. Um sol bom. Tão bom. Eu disse: Sinto-me de férias. E é verdade. Cada pequena escapadinha me sabe a turismo e, se estiver sol e estiver em contacto com a natureza, é como se o city break fosse em pleno paraíso. (Exageros meus, claro, mas é assim que sou).  Depois os livros. Feira do Livro na livraria da Gulbenkian é perdição e da boa. Preços de big saldo. Um gigante sobre azulejaria no sec. XVIII, outros com a Gulbenkian em factos e números desde 1956 até 2000. E mais dois. E alguns Colóquios de Letras antigos mas sempre actuais.
A alegria ilógica e boa de trazer livros. E o sentimento derrotado de saber que é impossível conseguir lê-los todos. Ouço: Mais livros para se juntarem a todos os outros que estão por ler? Penso que é verdade mas respondo: Mesmo que apenas me limite a folhear, já me chega, já é bom.  
Penso mas não digo: Com dois pontos, traça-se uma recta, com três um plano. Com quatro notas uma sonata. Com duas palavras, uma frase, com três uma história.

À chegada fui, de novo, ao supermercado. Em termos de abastecimento, acho que já praticamente está feito. O meu filho vai ao talho e trata do resto.

Jantámos na praia. Depois quis caminhar no paredão rente ao mar mas o meu marido disse que estava gelado, que não fazia sentido àquela hora e com aquele frio andarmos ali. Não concordei mas ele perguntou: 'Vês mais algum maluco a andar por aqui?'. Não quis saber porque me apetecia mesmo largar a pele, deixar o peso dos últimos dias ali à beira-mar. Mas, pronto, demos meia volta, retrocedemos pela vila que sempre estava menos frio.

O chão da sala continua com os envelopes de fotografias, as molduras, agora mais os livros de hoje. Não consegui fazer nada ao chegar a casa. Tenho tanta coisa para fazer nestes dias que já combinei que amanhã vou ficar a dormir até mais não poder. O meu marido, que se habituou a levantar-se por volta das seis e picos, diz: 'Bela decisão, metade do dia logo à vida'. Tento explicar-lhe que lá por ele ser diurno e eu noctívaga isso não quer dizer que ele esteja certo e eu errada. Mas sei que sim. A nutricionista também veio com a conversa do ritmo circadiano e mais umas hormonas que precisam de descansar e da limpeza metabólica que rebéubéu pardais ao ninho que é feita durante o sono e que o sono para ser do bom deve ser de noite e não de dia. Paciência. Nasci assim, muito distante da normalidade, com vontade de trilhar caminhos imperfeitos.


E isto já para não falar que ando com esta aqui a trabalhar dentro de mim: 'o tratador de pinheiros'. Com isto, que não me sai da cabeça, eu construía uma história. Ando com sono, com mil coisas e mil maçadas mais os mil afazeres de natal e, agora também, com um homem misterioso que teima em vir ter comigo. Diz que é tratador de pinheiros. Fico a pensar: tratador ou cuidador? Tenho vontade de sorrir e de lhe perguntar: não será, antes, um encantador de pinheiros? Mas não lhe pergunto porque ele não existe.

Como não sei que título dar a este post, acho que vou usar isto.

E o mais estranho é que sei como ele é, e sei como é a sua voz. E sei como ele anda. Um dia que tenha tempo e que me lembre conto-vos. O estranho caso do encantador de pinheiros. Existe apenas na minha cabeça mas é real como alguém de verdade.

Não sei se coisas assim também acontecem convosco. É uma coisa tão misteriosa e, ao mesmo tempo, tão boa...


E, com isto, me vou.  Bye bye.

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As esculturas etéreas são de Pauline Ohrel. 
As fotografias são de Baki. 
Lá em cima é, de novo, Alma Deutscher.

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Um belo fim de semana a todos.

Obrigada pela vossa companhia.

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sexta-feira, dezembro 22, 2017

Conversa vadia em noite pré-natalícia





Depois de jantar e depois de ter cosido uma meia do meu marido, atirei-me à empreitada das fotografias. Não se imagina. Um susto. Tantas, tantas. Um disparate (não digo em voz alta, digo apenas baixinho, aqui que ninguém nos ouve). Para agravar, o meu marido, deitado no sofá, a observar. Eu sentada no chão a fazer montinhos. Antes, quando eu me preparava para me queixar, já me tinha lido a cartilha : 'Tu faz-me um favor: não digas nada sobre as fotografias' (tendo-lhe eu afiançado que, para o ano, é tarefa dele e ele ter dito que sim, em menos de meia hora escolhe e que, não duvidasse eu, não vão passar de uma dúzia). Contudo, às tantas começou a pedir que eu lhe mostrasse algumas. Não quis para não perder tempo. Aí fez-se de vítima: que quando é para eu lhe pedir qualquer coisa não me faço rogada, quando é ele que pede, está quieto. Então mostrei-lhe uma em que o bebé está ao colo dele a rir. Gostou. Depois mostrei-lhe uma da menina mais linda e pediu para continuar a mostrar. Felizmente, aquilo funcionou como um sedativo, coisa na base do 'boa noite, cinderela', e, portanto, a partir daí voltei a distribuir as fotos mais a abrir. Horas, ainda assim.

Acontece que, no fim, sobraram algumas e fiquei sem saber em quais dos montes é que elas faltaram. Não sei se vou ter que ver todos os montes ou se esqueça e fique com elas para mim.

Depois, já devia estar com a cabeça confundida de tanta fotografia me passar pelas mãos, meti o envelope com o nome da minha filha no saco da minha mãe e agora estou na dúvida se troquei os envelopes ou simplesmente o coloquei ali indevidamente. Como são mais ou menos o mesmo número também não chego lá pelo volume. Vou ter que inspeccionar o imenso conteúdo dos dois envelopes para me certificar qual é de qual delas.

Também já emoldurei umas quantas, também para oferecer. Falta agora colocá-las dentro das respectivas embalagens e colocar nos saquinhos. Fica para amanhã que hoje já não dá.


Era para ter ido à fisioterapia. São duas dias por semana, quando posso. Antes fazia umas ondas, laser e stents, mais mobilização e, no fim, gelo. Como contei, no último dia, em vez de gelo, calor. Acho que fiquei melhor. Hoje, toda lampeira, ia pedir mais quentinhos na nuca e ombros. Mas isto a gente nunca deve antecipar prazeres. Não arranjei lugar para estacionar. Dei três voltas ao quarteirão e isto com um trânsito absurdo em cada volta. Já perto da hora em que era suposto estar a terminar, percebi que não valia a pena continuar a tentar e liguei à fisioterapeuta. Contei-lhe que não conseguia largar a porcaria do carro em lado nenhum e que, pronto, bom natal. E dei-lhe a notícia do calor parecer ser melhor que o gelo ao que ela respondeu que era pena que estivesse a faltar ao tratamento de hoje mas que, paciência, boa natal.

Aproveitei para ir ao supermercado mas não comprei ainda tudo. O meu marido diz que depois vai ficar um caos ou que pode não haver o que é necessário. Por vontade dele, até tinha trazido já as cenouras e a couve para o bacalhau do dia de natal. Recusei-me. Era o que faltava ir fazer couves velhas. 

Queria ir buscar a minha mãe para almoçar connosco no dia de natal e pedíamos à senhora que trata do meu pai que ficasse lá com ele durante esse bocado mas a minha mãe recusa-se a deixar o meu pai. Sugeri então a consoada, que a essa hora já ele está a dormir. Ainda mais se recusa. Pronto. Percebo. Custa-me mas percebo. Vamos lá todos num dos dias seguintes, menos mal, sempre festejamos o pós-natal todos juntos mas custa-me que viva como uma prisioneira. Diz que não insista. Foi ao almoço com a turma da ginástica porque é rápido e a senhora pôde lá ficar com o meu pai. E diz que está bem assim.


No meio disto, durante o dia, com reuniões e telefonemas e tretas, só me apetece dizer que me deslarguem que não estou com cabeça para maçadas, que já só tenho cabeça para organizar as cenas natalícias. Mas pronto, mantenho-me no meu papel de responsável à prova de bala.

Ando meia esquerda com uma pessoa que queria fazer uma reunião comigo e com outros e eu disse que não estou disponível para fazer reuniões com os outros porque acho que não vale a pena já que considero que eles deveriam era ir borda fora (diz-se 'borda fora' ou 'porta fora'? agora estou baralhada) e, com esta minha posição irredutível, acho que criei um problema a essa pessoa. Não quero saber. Também já lhe fiz saber que também posso saltar eu da equação. Fretes é que não faço. 

E estou a escrever isto e a pensar que há não sei quanto tempo que dá para perceber, a partir daquilo que escrevo, que ando sem ver televisão, ouvir notícias (mesmo no carro, tenho consumido o tempo em telefonemas de trabalho ou outros) e praticamente não tenho tido tempo para trocar uns leros com quem quer que seja. Por isso, não consigo falar nem da actualidade nem de temas que possam interessar a alguém. Ando, basicamente, a milhas.

Os mails dos meus Leitores acumulam-se. Revejo nomes antigos, Leitores de há anos e sorrio de alegria e saudades. Mas, se me ponho a responder não consigo escrever nada no blog. Por isso, a ver se no fim de semana tenho tempo para agradecer e enviar um abraço a cada um. Não gosto de enviar respostas de circunstância só para despachar. Gosto de estar com cada um o tempo que me apetece.


Sei que foram as eleições na Catalunha e pelo que espreitei nos blogs da galeria lateral, os resultados são desafiantes. Mas é tema que não me mobiliza. O Rajoy pode ser um pamonha armado em carapau de corrida e estar mesmo a pedir festa mas o outro totó do cabelinho à palerma não me desperta o mínimo interesse. Parece-me um saco de vento. A deriva independentista a mim não me diz nada. Portanto, tudo o que se passa na Catalunha parece-me um carnaval sem ponta por onde se pegue. Ou seja, é tema no qual obviamente hoje não vou pegar tanto mais que estou perdida de sono. 

Gostava de poder dormir até ao meio-dia. Gostava de poder ficar em casa a tirar os presentes dos sacos, separá-los pelos destinatários, levar tudo para o pé da lareira da sala, organizar minimamente as coisas, arrumar esta sala onde agora estou. Gostava de ter tempo. Gostava de conseguir tempo para ir à janela durante o dia, olhar o rio. Mas qual quê. Parece eu que quero o impossível. Credo. Vida mais parva esta, nestes dias de azáfama e trabalheiras.

Custa-me um bocado isto, de chegar a esta hora sem cabeça para mais do que esta conversa mole. Penso que devo maçar quem aqui vem. Fui agora espreitar. É uma e tal da manhã e neste espaço de tempo (ou seja, desde as doze badaladas) já 132 pessoas me visitaram. E sinto até vergonha. É como a gente receber visitas e não ter a casa em condições nem nada para oferecer.

A ver se volto a entrar num regime mais tranquilo para tentar escrever coisa que se veja; mas isto até ao natal não deve abrandar.

E pronto. Uma vez mais a escrever quase de olhos fechados e incapaz de reler o que para aqui tenho estado a balbuciar. Relevem, pois, por caridade, as calinadas e os despenteamentos da pontuação.

E agora, finalmente, calo-me já para não continuar por aqui como chuva que cai e não molha que é como quem diz a fazer o mesmo que aqueles que não dançam nem saem na pista. E mais analogias não arranjo.


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Fotografias da autoria de Sasha Gusov que mostram imagens relativas ao Bolshoi Ballet em London

De Ennio Morricone, The Ecstasy of Gold para teremim e voz

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quinta-feira, dezembro 21, 2017

É hoje





Meus Caros. Isto hoje está impossível. Cheguei aqui ao computador depois da meia-noite. Vi os mails e ainda consegui responder a um. O Leitor dizia-me que descansasse e tirasse férias do blog por uns dias que os Leitores compreenderiam. Pela forma carinhosa como estava escrita e pelo cuidado, comovi-me e agradeci. A seguida ia escrever um post sobre isto de se terem privatizados os CTT e de a coisa estar como está mas, meus amigos, caí num sono profundo. Acordei agora. E não há volta a dar: não consigo. É hoje que não vou conseguir dar uma para a caixa. Não que não tenham existido mil outras situações idênticas. Mas penso que nunca tão nulas como me palpita que hoje será.

Já tenho comigo as mais de mil fotografias. Fomos buscá-las esta noite. Já fizemos umas compras que ainda faltavam (e tomara que não me lembre de mais nada). Tinha ideia de chegar a horas de ainda as separar por destinatários e começar a separar e embalar presentes. Nada. À vinda, vários acidentes, um trânsito sem explicação. Horas para tudo. Um desespero. Passo pelos acidentes e nem me ocorre pensar naquelas pobres pessoas ali no meio da estrada com os carros amachucados, apenas maldigo o tempo que me fazem perder.

Cansada. É que, com estas coisas e com o trabalho, só consigo começar com estas faenas natalícias depois das oito da noite. Amanhã mas um dia de reuniões e múltiplos afazeres. Conciliar uma agenda a rebentar pelas costuras com a preenchida vida familiar é um equilíbrio que, pelos vistos, deixa marcas. O estado de soneira profunda em que estou só pode ser disto. À hora de almoço, IKEA com a minha filha e com os miúdos. Compras a gosto dela e, de caminho, estar com pimentinhas que já estão sem aulas e que, se puderem ter umas saídas da escola, melhor se sentirão. Uma alegria, claro. O que gosto de estar com eles vale por mil cansaços. Mas a hora de almoço no ikea não é uma hora pequenina porque está repleto, porque o restaurante transborda, porque os miúdos brincam e é preciso estar de olhos neles no meio daquela confusão. Portanto, ao fim do dia, a saída do trabalho teve que ser mais tarde. E é sempre isto e, por uma razão ou por outra, nunca consigo sair cedo, vir cedo para casa.


Ainda não comprei o que o meu marido disse que queria de presente: uma serra a gasolina para cortar troncos grossos. Temos uma serra mas não é grande coisa etem que estar ligada à electricidade, não dá para andar pelo campo. Cada vez há ramos maiores que lhe dão muito trabalho a serrote. Éramos para ir ao Leroy. Gostamos de lá ir. Descobrimos ferramentas que percebemos que são úteis. Cada vez mais temos este apelo do campo, da terra. Mas ainda não conseguimos. Claro que dizer que é presente de Natal é uma forma de expressão mas, enfim, apesar de tudo, ainda temos estas coisas de crianças, da troca de presentes, mesmo que, na realidade, não sejam presentes-presentes. 

Enfim.

Hoje não deu e não está a dar para escrever sobre o que quer que seja.

Não estou a queixar-me, longe disso. Estou apenas a deixar um registo. Talvez isto seja mesmo uma espécie de diário.


No outro dia (ou ontem de manhã?) ouvi o Luís Miguel Cintra a dizer poemas e estava com ideia de tentar descobrir esse poema. Mas não consigo. Coloco apenas dois outros e este apenas não é coisa menor. É maior. Apenas que não foram estes que ouvi. Mas também não faz mal.

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E tenho que ficar por aqui. Não tarda tenho que estar a pé e não consigo escrever mais. Tomara que não encontrem gralhas assustadoras. Não vou conseguir reler.

As fotografias foram feitas durante o fim de semana in heaven

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Um dia feliz a todos quantos têm a paciência de acompanhar esta minha adormecida peregrinação através das palavras. Saibam que vos agradeço. 

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quarta-feira, dezembro 20, 2017

Não, não é uma história de Natal





Não é só que estes meus dias estejam complicados. É capaz de ser também a falta de descanso. Frequentemente sinto que a impaciência me toma. Esforço-me por chegar ao fim do dia sem que se perceba que estou em esforço. E a cidade está com mais trânsito do que habitualmente, o que também não ajuda nada. Está tudo cheio. Tento encaixar tudo dentro de tudo mas não é fácil. Ao fim do dia ainda quis ir à fisioterapia. Um trânsito danado. Cheguei tarde. Intrigada por a fisioterapia não estar a resultar como esperado, a terapeuta resolveu trocar a componente do frio pelo quente. Calor nas cervicais até aos ombros. Maravilha. Pelo menos, enquanto ali estive com o calor soube-me mesmo bem. Depois mais trânsito. E mais coisas que fazer cá em casa. Passa da meia-noite e só agora consegui aqui chegar.

Esta quarta-feira espera-me um dia também cheio de cenas e vai ser até à noite. Não está fácil.

Gostava de ter tempo para responder aos mails e às sms que começam a chegar. Mas não tenho conseguido. Alguns são mails profissionais mas há outros que são de leitores. Tenho-os lido a todos mas ainda não é hoje que vou conseguir responder. Não levem a mal, por favor.


Por tudo, sinto que ando sem capacidade para acomodar mais contratempos ou situações emocionalmente mais puxadas. No entanto, não se pode controlar o que nos é exterior.

Hoje, por exemplo, uma situação que me deixou numa inquietação. Ainda estou. Até pensei: hoje não vou escrever nada no blog, não quero falar no que se passou e não consigo falar de outra coisa.

Mas, tendo ligado o computador, resolvi escrever.

Conto. Quando estamos a admitir alguém para alguma das minhas áreas nem sempre intervenho directamente. Consoante a função ou a responsabilidade, assim delego total ou parcialmente. No caso presente, como quero perceber se encontro alguém dentro de uma determinada via para, caso não encontre, enveredar por outra e porque quero despachar isto rapidamente, resolvi participar, estando também a minha colaboradora que vai chefiar a nova pessoa e o colega responsável pelas admissões. Tinha recebido antes um dossier com inúmeros candidatos. Dali, seguindo o método rápido que geralmente sigo, pus de parte a maior parte deixando cerca de meia dúzia. Meia dúzia com um grande esforço porque tive vontade de desistir de imediato. Nenhum me pareceu ter o cv adequado ao que se precisa. Mas resolvi dar uma hipótese. Pedi ao meu colaborador que fizesse o mesmo: uma pré-selecção. Depois, desconsolados, comparámos e reduzimos os pré-seleccionados a três. Com muitas, muitas reticências...

Tenho que confessar que cada vez mais me custa assistir a situações que antevejo complicadas e relativamente às quais penso que as pessoas envolvidas precisam de uma mão mas em que me sinto impotente para fazer o que quer que seja. Não trabalhasse eu para um empresa mas sim para uma instituição de apoio social, proporcionar-lhes-ia o suporte que sinto que precisam. Mas trabalho numa empresa e não faz sentido necessitar de uma pessoa para uma função e admitir uma pessoa notoriamente incapaz.

Hoje duas pessoas. Como disse, pelos CVs antevi que não seriam bons candidatos. De facto, nada bons. Mas, por vezes, os CVs são fracos e, nas entrevistas, temos surpresas. Apareceram ambos a cheirar imenso a tabaco. Ambos desempregados há bastante tempo. Devem consumir as horas livres a fumar. E só isso me encheu de pena, imaginando-os desanimados, sem nada que fazer senão fumar. Mas, enfim, pormenor isso do intenso cheiro a tabaco.  Não quero entrar em pormenores mas tudo neles os atira para os braços do infortúnio. Não quero que me interpretem mal. Se há coisa que me custa tolerar são os betinhos, auto-convencidos, cheios de frases feitas, todos sapientes e focados. E estes eram o oposto. Mas coitados. E acreditem que o digo com uma pena imensa: coitados. Um deles, então, deixou-me de coração partido. Profissionalmente um nulidade mas de uma tal humildade, de uma tal sinceridade, de uma tal fragilidade... Mesmo fisicamente todo ele insegurança, vulnerabilidade, todo ele disponível para tudo e qualquer coisa. Com 40 anos. E eu ouvindo-o e com vontade de abreviar a conversa porque nada nele deixava antever qualquer mínima probabilidade de vir um dia a estar capacitado para as funções em causa... mas incapaz de atalhar, como se não quisesse logo matar-lhe a esperança. Deixei prolongar a conversa, quase aflita, sem saber se estava a fazer bem. Não procuro gente com muita experiência pois a experiência adquire-se. Mas, se não tiver experiência, tem que ter bases ou, se não tiver nem grande experiência nem umas bases extraordinárias, tem que ter umas luzes mas umas luzes que se vejam e que a gente perceba que vai lá. Não era o caso destes dois, em especial deste que, coitado, notoriamente não encontrou ainda o seu lugar no mundo nem tem sabido adequar as suas expectativas às suas reais capacidades. Não pode aparecer a dizer que determinada área sempre foi a sua paixão e a gente, ao fim de um minuto, peceber que ele não tem sequer a noção do que é essa área, limitando-se apenas a ter algum conhecimentos de uma ínfima parcela dessa área. Mas tudo de uma forma inocente, ingénua, humilde. Talvez daqui por uns tempos eu relate a conversa para que possam perceber. 

Acabou a conversa, agradeci, despedimo-nos. E os três concluímos que nem pensar mas os três estávamos um pouco comovidos e eu disse que tinha era pena de não poder encaminhá-lo para algum lugar onde ele pudesse ser ajudado. Deveria fazer testes vocacionais ou coisa do género, deveria receber formação consentânea, depois deveria ser encaminhado para um trabalho onde fosse acolhido apesar de já não ser especialmente novo face ao grau de experiência que teria nessa altura. Assim, por aí vai continuar a enviar CVs a eito, nem sabendo já qual a empresa que o chamou, tantos os CVs que tem enviado.


Desde que me despedi dele que tenho estado com este sentimento de amargura. Custa-me deixá-lo ao deus dará mas não tenho mesmo qualquer hipótese de admiti-lo. Só que o seu corpo frágil, o seu rosto infeliz, a sua voz humilde, as suas mãos finas, brancas e magras não me saem da cabeça.

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Fotografias feitas no sábado

O vídeo mostra um sem abrigo vive numa cadeira de rodas que, em Leeds, na véspera de Ano Novo do ano passado, se aproximou de um músico de rua e lhe pediu para cantar e o resultado é a maravilha que puderam ouvir.

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terça-feira, dezembro 19, 2017

Um presente de um Leitor. Um presente físico, material.




Por vezes penso que isto de a gente escrever sem saber quem nos lê e apenas tendo notícia através de estatísticas é uma coisa meio limitada. Contudo, depois, vêm os mails e a gente vê que há gente de verdade aí desse lado -- e sei das suas vidas, das suas hesitações ou ansiedades. Mas, ainda assim, é virtual, ou seja, o contacto é virtual.

A uma, no entanto, por afinidades ou não sei bem porquê, tive vontade de ir mesmo conhecer. E, de certa forma, não tive qualquer problema em que ela me conhecesse. As palavras que atravessam o espaço deixam perceber, por vezes, que há como que invisíveis laços que, de uma maneira incompreensível, parecem unir-nos. Gostei de conhecê-la.


E há outro caso. Um caso que me encanta. Um Leitor, por esta altura, tem a delicadeza e generosidade de se deslocar até um local secreto e lá deixar o livro que anualmente publica com poemas seus.

Ontem à noite, quando vi o correio, lá tinha mail seu a dizer-me que tinha deixado o livro no lugar do costume. Àquela hora já era impossível lá ir e hoje o meu dia estava por demais complicado. E eu com medo que alguém descobrisse o esconderijo e ficasse com o meu presente. Mas vivo rodeada de cavalheiros gentis e logo aquele que vive comigo conseguiu arranjar maneira de lá ir. Depois enviou-me uma sms a dizer que oo resgate tinha sido bem sucedido. Alegria.

Agora à noite já o tirei do invólucro plástico e já aqui o tenho comigo, tendo estado até agora a lê-lo. É um livro com uma bela capa, boa paginação, muito agradável à vista e ao toque. Não é virtual: é um presente de verdade e eu estou muito agradecida. E contém as suas palavras que se juntam de forma harmoniosa, como que atraídas para aquela toada incompreeensível que dá forma aos poemas.

Procuraste as palavras com esmero,
escolheste-as a preceito
com o teu requintado bom gosto
como se fosse u móvel
para pôr na entrada.
Palavras cuidadas, sonantes, originais,
por vezes mesmo solenes,
para que o texto te saísse
limpo, perfeito,
gramaticalmente imaculado
conseguiste mesmo 
um certo toque literário.
Não escreveste um poema, uma crónica,
uma notícia, um romance, um conto,
nem sequer um relatório
ou um artigo de jornal.
Escreveste-te.


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Transcrito, o poema O texto de Joaquim Castilho in 'Outros Poemas'
Lembrei-me do que me dizia, Joaquim, que eu era mozartiana e, por isso, para si: Hiro Kurosaki no violino e Linda Nicholson no pianoforte interpretam a Sonata para Violino em E Minor K304 - Mov. 2/2

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Muito obrigada, Joaquim. Saiba que fico muito feliz por receber esta sua prova de afecto.
E saúde e felicidade para si e para a sua família, nomeadamente para a sua querida Rita a quem o livro é dedicado

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segunda-feira, dezembro 18, 2017

Marcelo, atenção à síndrome da Viúva Porcina...




Havia a viúva Porcina. Era um excesso. Na maquilhagem, nas vestimentas, na linguagem, nos sentimentos. Irreflectida, de rastilho curto, sempre com o dedo no gatilho, sedutora, implacável, imoderada, dada a traições (mas traições sobretudo for the fun of it), verbo fácil, reacção a quente, aparentemente espontânea mas, na verdade, uma calculista.  Regina Duarte que nos deu tantos personagens extraordinários (e agora, assim de repente, estou a lembrar-me de Malu mulher), frequentemente contidos, aparece em Porcina como uma extraordinária caricatura de tudo o que é gente extrovertida e deslumbrada.

Muitos outros personagens igualmente espalhafatosos as novelas e o cinema nos têm dado e nem estou certa de que a viúva Porcina seja a melhor escolhida para aqui figurar.

Mas eu, nisto, prefiro o imediatismo pois as minhas imagens podem nem fazer grande sentido ou podem ser boas para um psicanalista dissecar (e, nos testes de personalidade, é frequente mostrarem-nos umas manchas e pedirem-nos, que, sem grandes pensamentos, digamos o que estamos a er ali) mas, na verdade, o facto é que não tenho grande paciência (e tempo!) para me pôr para aqui a puxar pela cabeça até encontrar o 'boneco' perfeito.

Portanto, seja a viúva Porcina. Não vem ao caso a história do Roque Santeiro e toda a tragicomédia que se vivia em Asa Branca. A única coisa em que penso, neste momento é mesmo nos excessos da histriónica Porcina.


E evoco Porcina ao pensar em Marcelo. Se eu fosse uma crente bem comportada, acrescentaria, Deus me perdoe: Deus me perdoe mas é, justamente, na excessiva viúva que penso quando vejo o quadro de Natal com o Marcelo como pastor, quando o ouço a opinar sobre tudo e sobre nada, quando o ouço com remoques despropositados a propósito do que Antonio Costa disse noutro contexto ou inventando frescuras a propósito da eleição de Centeno para presidente do Eurogrupo, quando o ouço a desvalorizar o trabalho e os sucessos do Governo, quando o ouço a sugerir que se reconstrua tudo o que ardeu num abrir e fechar de olhos como se não houvesse projectos a fazer e a aprovar, orçamentos a fazer e a aprovar, prazos de entrega de materiais e de mobilização de gente da construção civil, como se tudo se resumisse a beijinhos, selfies e fazer casinhas com pecinhas Lego. Marcelo está a ser vítima da sua hiperactividade (ou défice de atenção ou síndroma de burnout ou narcisismo ou deslumbramento por ter conseguido chegar onde sempre desejou estar -- ou qualquer outra coisa do género). Normal é que não é. Porta-se como um vulgar frequentador das redes sociais em que, mal ouve qualquer coisa, e pode ser uma frase fora de contexto ou qualquer banalidade do dia a dia, e aí está ele a exigir que se mate e se esfole, criticando sem cuidar de ponderar se foi bem aquilo que se passou ou se é benéfico para a vida política do país ter-se um presidente que parece um boneco com uma mola. Ao mínimo estímulo, aí está ele a saltar. Sempre com microfones e câmaras atrás, ampliando o que, já de si, é excessivo, Marcelo está a correr sérios riscos de perder a quota de popularidade que almejou no início do mandato.

Num primeiro momento, os mais carentes, os solitários, os que perderam alguém ou a casa ou o emprego, os que se sentem relegados para plano secundário seja do que for e toda o tipo de pessoa que precisa de um qualquer estímulo suplementar para se sentirem compensados, poderá sentir o conforto de um abraço ou de receber a visita e uma palavra amiga de alguém importante, alguém que bem conhecem da televisão e que se faz acompanhar de batedores, polícias, repórteres.. Pode essa pessoa, na prática, pouco mais fazer do que isso mas quem não gostará de ter para relatar a amigos, vizinhos e familiares distantes que o Presidente Marcelo lá esteve em casa, destapou a panela que estaa ao lume, perguntou pela acina, deu conselhos sobre o melhor chá e, com sorte, terá tudo isso sido filmado.


Mas num segundo, terceiro ou quarto momento logo perceberao que o Marcelo hoje é incêndios, amanhã é a água na barragem, depois a vacina, depois uma boca ao Governo, a seguir a Raríssimas, depois os sem-abrigos, depois o Infarmed, se necessário for recebe o sindicato dos enfermeiros, dos professores, dos médicos. E que, portanto, aquela causa não é a causa, é apenas uma de mil 'causas'. E perceberão também que enquanto ele anda a fazer quilómetros de carro ou a bater perna por aí, o Governo, não embadeirando em arco, vai, qual formiga, fazendo o seu trabalho, percorrendo o caminho das pedras, arranjando estradas, construindo casas, obtendo subsídios, trabalhando para relançar a economia.


Marcelo, a continuar neste absurdo frenesim em que, a todo o momento, deixa transparecer que tem medo de perder palco sendo cada vez mais deveras injusto e inconveniente no que diz, vai perceber que está a um passo de ser ridicularizado, de passar a ser visto como uma caricatura daquilo que tanto ambicionou.

E daí até aparecer alguém a sugerir que ajudemos o Marcelo a acbar o mandato com dignidade vai um pequeno passo.


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E queiram descer um pouco caso queiram saber qual a minha recomendação de leitura sobre 2017, o ano esquizóide 

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PS: Numa tentativa de forçar a minha natureza mudei, outra vez, o aspecto do blog a ver se se lê melhor nos tablets e telemóveis. Mas, bolas, não consigo deixá-lo todo branquelas e vá de juntar cores. Agora, quando vi o aspecto, pareceu-me uma autência Porcina em forma de blog. E muda-me o tamanho e as cores de alguns parágrafos, num despropósito total. Mas, a esta hora, já não dá para me pôr com mais experimentalismos. Sorry, outra vez.

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2017, ANO ESQUIZÓIDE -- diz o Henrique Manuel Bento Fialho


Posso nem sempre concordar com o que o hmbf escreve e, neste caso, um ou outro aspecto merecer-me-iam alguma reticência. Contudo, concordo muitas vezes e, neste texto, em particular, mais do que concordar bastante, o que aprecio é a inteligência, a abrangência da análise e a capacidade de síntese que ali são evidenciadas.

Vem-lhe esta capacidade, talvez, da mão de poeta, habituada a destilar ideias e sentimentos, reduzindo o tudo às palavras essenciais.

Li o texto enquanto caminhava entre pinheiros, cedros, alecrim e madressilva, ouvindo o canto dos passarinhos, respirando o ar frio da manhã e o que me ia ocorrendo é que ali estava uma bela escrita em vol d'oiseau

Como sou péssima a fazer listas, resenhas ou recapitulativos de qualquer espécie não faço a mínima ideia se está ali tudo o que devia estar ou se há falhas imperdoáveis. Não faço mesmo ideia. Só sei que li e gostei de ler.  Reconheço o 2017 que o Henrique redesenhou com as suas palavras.

Permito-me, pois, recomendar aos meus Leitores a sua leitura: 2017, ANO ESQUIZÓIDE

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domingo, dezembro 17, 2017

Um pesadelo auto-infligido
que, se não fosse quase infinito, seria um imenso prazer




É fim de semana e estou na mesma. Parece que invento. Sempre com coisas para fazer, sempre sem tempo livre. Chego aqui com necessidade de descansar e não consigo.

Passando por cima de algumas minudências, conto o que foi grande parte deste sábado.

Por esta altura, adio até ao limite uma tarefa à qual ninguém me obriga e que é, para mim, um pesadelo. O meu marido repreende-me: 'Fazes porque queres. És maluca.' Talvez. De tanto o ouvir, um dia destes ainda me convenço disso. E, no entanto, não sou masoquista -- e maluca, pelo menos do tipo maluco-maluco, acho que também não sou.

Só para que percebam. Estive para aí desde as quatro da tarde até bem depois da meia-noite -- apenas com uma breve interrupção para fazer um jantar rápido e depois para comê-lo -- de roda da mais estúpida e árdua tarefa que se pode imaginar.

Explico.


Gosto de oferecer foografias pelo Natal. Aos meus filhos, à minha mãe (dantes, quando o meu pai ainda via e estava mais ou menos bem, era para os dois; agora, já me habituei à ideia de que, vivendo uma vida de verdade, lá em casa já é só ela) e a mais um conjunto alargado de familiares. Penso que uma fotografia em papel é o registo do tempo que passa e dos bons momentos que vivemos juntos. Acontece que, para as escolher, vejo-me obrigada a ver muitos milhares de fotografias. Se faço inúmeras fotografias às paredes, aos graffitis das paredes, ao campo, às montanhas, às nuvens, ao mar, aos barcos, ao horizonte, às sombras, às flores e aos frutos, e a tudo o que mexe ou está em sossego, imaginem vocês o que não será aos meus lindos pimentinhas, aos meus filhos ou a toda a gente com quem estou em festas, encontros, pic-nics, passeios, etc. Milhares. Milhares.

Diz o meu marido: todos os meses, devias fazer essa selecção para não estares no fim do ano nessa empreitada. Talvez. Mas lembro-me lá eu disso. 

Portanto, o resultado desta monda de horas e horasfoi uma pré-selecção de quase seiscentas fotografias. 


Agora segue-se outra tarefa igualmente espinhosa: ver cada uma destas e anotar a quem a darei para saber quantas de cada uma tenho que fazer.

Seguidamente, novo pesadelo: predispôr-me a longas filas de espera e ir à FNAC, a uma daquelas máquinas, e registar o pedido, ou seja, uma a uma das quase seiscentas fotografias, escrever a quantidade.

Quando estiver pronta a encomenda, novo pesadelo: ir levantá-la e vir com sacadas de fotografias,  as quais depois, uma a uma, terão que ser separaradas por destinatário.

Ora, atendendo que já estamos na semana antes de Natal e que continuo a trabalhar como se não houvesse amanhã, imagine-se a saia justa em que já estou. Bem sei que já podia ter feito isto antes. Mas onde tenho eu o tempo para coisas destas? Tenho este fim de semana porque, com muita pena minha, virámos costas a encontros e almoços e lanches e viemos os dois dias a tempo inteiro para o campo: eu para estar nisto e o meu marido para travar o seu insano combate contra o matagal.


Claro que a quantidade infinita de fotografias quase anula o prazer de passar em revista os último doze meses da minha vida. Mas, apesar disso, é um deleite e uma felicidade.

Ao princípio, ainda eram apenas quatro pimentinhas à vista e o quinto enchendo a barriga da sua mãe. Depois, quando o meu filho esteve nos States, nós com os que cá ficaram -- ou em nossa casa ou, ao fim de semana, a passearmos no parque -- e as saudades que tínhamos dele apesar de nos falarmos todos os dias. E um elemento da família que estava a fazer quimioterapia, sem cabelo, com cabeleira postiça e que agora, felizmente, já bem e com o seu cabelo renascido. Depois já o bebé nos braços de todos. Vejo pelas fotografias como a minha filha e o pimentinha mais velho gostam de andar com ele. E aqueles instantes de ternura, a mamar, ao colo da mãe. E todos a brincarem, todos a crescerem, o mais crescido já com os novos dentes, os dois seguintes todos destendados, o seguinte ainda com os dentes de leite e o bebé agora com os seus dentinhos em que está sempre um a despontar. Ela sempre linda, linda, das meninas mais lindas que já vi (e não é por ser a minha fofa mais linda) e, desde sempre, consciente da sua fotogenia. Muitas fotografias dela, impossível não registar tamanha beleza. O seu mano do meio, o artista da família, canta, dança, representa. Aparece de óculos escuros, a tocar guitarra, a cantar desenfreadamente ou de olhos fechados tangendo um fado. O bebé, de colo em colo, sempre sorridente, uma carinha linda. Muitas vezes está ao colo do meu marido. Gosta imenso dele. Se o meu marido se esquece da sua existência, ele grita, chama, olha-o fixamente e não se cala enquanto o avô não o cumprimenta. Aí fica todo contente. O mais velho, um menino já crescido, já com ar de menino que um dia destes vai deixar a infância, aperece em algumas fotografias a fazer os trabalhos de casa, com ar contrariado enquanto a mãe, compenetrada, o obriga a estudar antes de brincar (lembro-me bem de um desses dias, aqui in heaven, ele a querer ir brincar com o irmão e a minha filha a querer que ele fizesse fichas preparatórias pois ia ter testes); o seu irmão sempre espirituoso, posudo, um rapaz de grande porte, de quem o avô desde sempre disse que vai ser comando ou da juve leo tal o tamanho e corporalidade. Muitas vezes aparecem os três rapazes crescidos a jogarem à bola. Ou então com o tio e com o avô ou com outros primos. Em algumas fotografias estão equipados a preceito e vejo-os a rematar à baliza ou a fazerem grandes defesas. E uma noite em que fiquei sozinha com os cinco e que ia dando em maluca. Havia velório e os meus filhos não quiseram deixar de estar presentes e o meu marido, claro, também. Então fiquei eu de serviço: dar-lhes de jantar, tomar conta deles, adormecê-los... foi uma odisseia sem paralelo que, nem sei como, ainda consegui registar numa dúzia de fotografias. E há as festas de anos, todos sorriem, muita brincadeira e muita alegria, até porque há sempre muita criançada (e quase todos da família mais próxima). E continuam a nascer que é uma festa. 


Tenho esta sensação, talvez resultante de uma nostalgia escusada, de que o que fica para a história serão as fotografias em papel já que as que ficam em cartões ou no computador acabarão por se perder nas mudanças tecnológicas ou no meio da miríade de ficheiros que acabamos por não rever. Assim, em papel, podendo pegar nelas, colocá-las em álbuns, tenho a sensação que sou dona das minhas memórias. Bem sei que tudo é efémero e, quando colocado em perspectiva, também irrelevante. Mas, ainda assim, permito-me alimentar a ilusão de que faço bem em dar-me a este trabalho de loucos. E porque eu gosto de as ter em papel, gosto de partilhar este gosto com aqueles de quem gosto. Só espero que eles também gostem e não digam: 'lá vem ela carregada com aquela treta das fotografias, que pincel...!'

Seja como for, a ver é se consigo ter tempo para tratar de tudo de modo a tê-las a tempo e horas.


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As fotografias que aqui coloquei foram feitas este sábado in heaven (antes de me embrenhar na empreitada).

Lá em cima: Yo-Yo Ma, Alison Krauss interpretam The Wexford Carol

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E que me desculpem aqueles a quem devo mails há não sei quanto tempo. Juro que não estão esquecidos, é mesmo esta minha vida que não me tem deixado tempo. E hoje, como se o que tinha em mãos não me bastasse, ainda me deu para mudar o look do blog. Um Leitor disse-me que estava escuro e eu resolvi fazer-lhe a vontade mas, à última hora, a opção que ganhou terreno é a que vêem... Bem sei que devia ter antes fundo claro mas parece que as cores neutras não ligam bem comigo, só consigo escolher cores intensas, é mais forte do que eu. Sorry.

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E um bom dia de domingo a todos quantos me acampanham

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