quinta-feira, março 19, 2020

Sobreviver ao isolamento e ao teletrabalho.
Derrubar o estafermo do COVID.
Dar a volta por cima.




Dia, de novo, agitado e complexo. comecei com uma conference call. Muita gente, cada um em seu sítio. Não por imagem mas apenas som. Não foi fácil. Cada um reportando a situação. Casos sob suspeita, obrigando a quarentenas, a problemas. Casos dificílimos para resolver. Situações que parecem irresolúveis mas que têm forçosamente que ser resolvidas. Dei por mim, com a mão na testa, a pensar que uma coisa destas enfrenta-se uma vez na vida e que nem todos saem dela para o contar. 

Acabei arrasada, sem saber bem como dar a volta a tantos problemas tão impossíveis de resolver. Quando acabou, agarrei-me ao computador e mandei mails com propostas de mitigação para algumas das questões.

E continuou assim. Muitos problemas, muitas dúvidas.


A meio da manhã, exausta com tanto mail, mensagens e telefonemas, levantei-me, peguei num balde com água e detergente multi-usos e resolvi lavar o chão da casa. Ouvia os mails a chegar e os pings das conversas e ia espreitar mas, dado que achei que podiam esperar uns minutos, mantinha-me na lida doméstica. Lavei o chão da cozinha, depois o da sala da lareira. Quando me preparava para ir despejar e pôr água limpa para seguir para o corredor e para o quarto, quiçá ainda para as casas de banho, veio um telefonema que tive mesmo que atender. E assim me mantive até à tardia hora de almoço. Felizmente ainda tinha massa com tomate e salmão de antes de ontem. Do lado do meu marido os telefonemas e os mails também choviam. Uma estereofonia enervante.

Depois de almoço, sentei-me no sofá e pensei que me saberia bem dormir a sesta. Mas durou um minuto essa ilusão. 

Meio desanimada, resolvi fazer uma coisa: ir trabalhar para a rua. Peguei numa almofada, no computador e no telefone e fui sentar-me em cima de uma pedra. Às tantas, com o sol a dar-me, fiquei com calor e tirei a blusa de manga comprida, ficando apenas com um top de alcinhas. E ali fiquei trabalhando, mail para aqui, mail para acolá, telefonemas e, pelo meio, whatsapps a que fui levada a aderir por pressão familiar. E, também pelo meio, um mail da minha menina mais linda a perguntar que é feito de mim, e com muitos bonequinhos coloridos e em movimento. Fiquei logo toda derretida. Naquele instante abriu-se uma clareira inundada por luz e o covid evaporou-se e, com ele, todas as suas consequências.

A seguir, voltei à doideira, stress, stress, stress, falta disto, falta daquilo, pedidos disto, pedidos daquilo, problemas a caírem. Fui dizendo que em contingência há que estabelecer prioridades, que isso não, aquilo não, outra coisa tem que esperar, outra é para esquecer, outra claro que sim, outra o mais urgentemente possível. 

Às tantas, uma barulheira, uma louca correria, um gato a passar rente a mim, um cão atrás a ladrar, furioso, o gato aflito, a seguir outro cão pequenino também em perseguição. 

Durou segundos mas fiquei ali em suspenso. De onde tinha toda aquela cena aparecido? De que outro filme?

Levantei-me a perceber para onde tinham ido todos. Já não os vi. Desapareceram. Fiquei um bocado a olhar para o ar pensando no mistério de tudo isto. Toda esta vida é um mistério. Uma sucessão de acasos que umas vezes se conjugam harmoniosamente e outras em que tudo se desencaixa, ameaçando fazer ruir tudo de forma irreversível.

A seguir fui vestir outra blusa, pus um fio, brincos, penteei-me e fui instalar-me para a vídeo conferência. Quando acabou, passei para outra. Depois, aprovação de cenas e mais mails. 

Por fim, já o dia se estava esvair. A sala estava escura e eu com frio. O meu marido apareceu, também já livre de trabalhos. Disse-me para vestir um casaco pois já estava frio na rua. Fui buscar a máquina fotográfica e fomos passear. Enquanto andava, liguei à minha mãe. Continuei a pedir-lhe que não saia, que não deixe entrar ninguém em casa a não ser a senhora que lá a vai ajudar com o meu pai e que essa tenha cinquenta mil cuidados. Contou-me piadas, contou de uma vizinha que lá foi levar uns medicamentos e que apareceu de capuz na cabeça, máscara, óculos escuros e disse que era um assalto. E rimo-nos que nos fartámos. 

A seguir liguei à minha filha e estive a vê-la e aos meninos, mais lindos, grandes, tão queridos. Cada um do lado da mãe, abraçados a ela, meigos, meninos mais amorosos. Que saudades. Enquanto falava, o gatinho preto e branco estava deitado em cima de um muro. Tal como o gatinho cor de mel já não se assusta comigo, este também se deixou ficar. Fotografei-o. Mas quando me aproximei para o filmar para o mostrar, os meninos a falarem alto, que eu não estava a filmar bem, para a esquerda, para baixo -- ele fugiu. Meus meninos queridos, como eles haveriam de gostar de aqui estar. 

Ao entrar em casa já havia mais mails, mais mensagens, mais dúvidas, mais questões: e agora com o estado de emergência? e agora com tanta gente em quarentena? e agora quando precisarmos de ir?


Mas a preocupação e o cuidado são sempre estes: em casa sempre que se puder, a trabalhar sempre que tiver que ser. 

A vida continua, a vida tem que continuar. Todos com mil cuidados mas a fazer a vida continuar. Lavando-se, protegendo-se, desinfectando-se mas fazendo o que tiver que ser feito. E este é o espírito de todos. As cadeias de abastecimento e os serviços indispensáveis não se podem romper.

Não podemos deixar que o mundo seja sugado pelo medo. Temos que ser capazes de vencer isto.

E que alguém mande deitar mãos à obra.
  • As fábricas de produtos químicos que façam desinfectantes, as fábricas de pensos higiénicos e fraldas que façam máscaras, as fábricas de embalagens que façam óculos de protecção, as fábricas de confecção têxtil que façam fatos de protecção. As fábricas de medicamentos nacionais, que as há, que façam os medicamentos que têm estado a provar alguma eficácia. 
  • E as fábricas de automóveis ou de electrónica ou todas façam ventiladores ou o que fizer falta.  
  • E os investigadores ousem soluções, avancem, proponham munições, façam testes. 
  • E todos se unam para vencer esta guerra.
O país tem que converter o medo em acção. Não podemos acabar tolhidos, infelizes, esfomeados, pobres, inanimados.

Inventem-se novas formas de trabalhar, inventem-se novas formas de nos relacionarmos, inventem-se soluções para problemas que ainda mal sabemos formular.

Ouvi Marcelo. Não falou mal. Mostrou bom senso. Marcelo tem que abdicar da ânsia de protagonismo e ouvir, mais do que o apelo pela popularidade, o bom senso e o pragmatismo de António Costa. Marcelo será mais amado, e ser amado é a praia dele, se souber mostrar ser o suporte institucional do Governo. Neste momento o país precisa de sentir a união esclarecida de todos.

Ouvi António Costa. Excelente. Sensibilidade e força. Inteligência e sentido prático. Visão de curto e de médio prazo. Podemos estar confiantes. António Costa vai ajudar-nos a sairmos rapidamente deste buraco negro.

Depois ligou o meu filho e o bebé levou-me a ir outra vez para a rua, à noite, para ver os lugares onde gosta de estar quando cá está. Contei dos gatinhos, da perseguição do cão. O menino do meio quis saber se o pai se portava bem quando era pequeno e eu tive que ter muito cuidado com o que respondia. A menina mais linda estava tímida e com sono. Todos lindos e tão queridos. Que vontade de poder enchê-los de beijinhos.

Os tempos não estão fáceis. Enquanto estava a escrever, estive a ouvir Fernando Maltez. Não fiquei tranquila. Porcaria do covid: tão pegajoso e traiçoeiro, o raio do bicho. Tão tinhoso, infiltrando-se pelos pulmões abaixo. Mas ele, o médico, tão sabedor, tão comedido, tão frontal. 

De manhã, ao saber-se os números, o meu filho enviou para a família uma fotografia com o gráfico. O crescimento é de susto mas menos do que a exponenciação pura daria. A minha filha respondeu logo, animada.

Sendo devota da matemática, sei que há casos em que a matemática pura e dura, não pode ser usada a seco. A matemática é linda e pura mas é quando conhecemos todos os factores e conseguimos transpô-los a todos para as equações. Não é o caso de quem se põe a prever flechas a caminho do inferno. Ignorar factores como os comportamentos que influem no contágio, como a imunidade que a comunidade vai adquirindo, como a resistência do vírus à temperatura ou outros aspectos é uma estultice. A matemática, tal como a música ou a poesia, são para ser usadas com inteligência, com respeito, com arte e com humildade.

Já vai longo este texto. A ver se esta quinta-feira consigo lavar mais um bocado de chão. Também tenho que fazer o almoço e a ver se faço a mais para dar para o jantar. Gostava também de conseguir arrumar umas tralhas que, há umas semanas, trouxe da casa da cidade. Mas já sei que não vou ter tempo para tudo. Talvez isto acalme e eu consiga usufruir um pouco mais deste meu retiro. 

Continuo esperançada. Não creio em milagres que caiam sobre nós como brindes mas creio em milagres nascidos da força dos homens e da força da natureza. 

O covid não pode ser o fim do mundo. Não vai ser o fim do mundo. É apenas o inesperado motor da transformação do mundo. E acredito que a transformação vai ser para melhor.


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E agora deixem-me ver bem Timofej Andrijashenko, quero conhecer-lhe os voos. 
Quer-me cá parecer que é um outro ser alado


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Pinturas de Baatarzorig Batjargal

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E uma vez mais não consigo responder aos comentários, que são tão bons e que seriam tão gostosos de responder. Mas teria que me alongar e já não consigo. No outro dia, num comentário, alguém me perguntava porque é que eu não ia dormir em vez de me pôr para aqui com relambórios e com pinturas e músicas. Tenho ideia que não respondi mas respondo agora: porque sim, porque me apetece. Porque gosto, à noite, de lavar a alma e alimentar o espírito. E porque gosto de partilhar. Só por isso. 

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E uma boa quinta-feira. Saúde e força. 
Bora dar a volta à besta invisível?

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quarta-feira, março 18, 2020

Tenho que aprender a viver neste regime de teletrabalho esforçado para ver se melhor resisto a estes loucos tempos do COVID





Estou quase na mesma que nos outros dias. Passa da meia-noite e estou a começar. Debato-me entre conversar com quem, generosamente, ali abaixo comentou ou responder a mails ou começar já aqui. Mas estou deveras esgotada; por isso, desculpem-me se me atiro já à página em branco. Esta quarta-feira começo o dia bem cedo com uma call (e não estou a fazer género mas apenas a reproduzir os termos que usamos) pelo que não posso repetir a proeza de ir para a cama às três da manhã.

Esta minha terça-feira foi do piorio. Comecei mal pus o pé fora da cama, só consegui comer uma banana, uma laranja e um café já a meio da manhã. Ás tantas, estava a andar de um lado para o outro ao telefone, reparei que o chão da sala precisava de ser limpo. Então fui buscar vassoura e pá e varri. À pressa. E a ouvir os mails a chegar. Levantei carpetes, mudei cadeiras de sítio, afastei a mesa grande, a mesa pequena, varri, tudo a grande velocidade. Nisto tocou o telefone. Um telefonema longo. Entretanto, fui temperar o entrecosto e pô-lo no forno. Já era quase meio-dia. 

Apareceu, então, o meu compagnon de route. Dizia que, se era para irmos ao supermercado, o melhor era irmos à hora de almoço pois o dia dele não estava a dar tréguas. Pensei que o meu também não. Fui acabar de me vestir, baixei o forno, e lá fomos.


Cenário de ficção. Ninguém em lado nenhum. Quando chegámos, um empregado à porta, de luvas, disse que só podia entrar um de nós. Entrei eu. A seguir apareceu o meu marido. Mal me viu disse: 'A ver se nos despachamos'. Respondi que ajudasse. Mas, como de costume, não descobriu nada e foi ficando furioso. Não intui o lugar das coisas nos supermercados que desconhece e a este acho que só tínhamos uma vez. Quase ninguém, um supermercado quase vazio é uma coisa estranha. E toda a gente desviando-se dos outros. Quando uma senhora deu uma tossidela toda a gente estremeceu e olhou para ela com desconfiança. Se calhar até eu.

Como aqui no campo não tinha congelados ou grande coisa e, a comermos sempre em casa a comida parece que desaparece num instante, resolvemos ir abastecer-nos para ver se, durante os próximos dias, quiçá sete ou oito ou mais dias, não saímos daqui.

Detestei. Não havia arroz, não havia gel de lavar as mãos, quase não havia peixe fresco, pouca carne. Nem algumas coisas de que precisava e que não são vitais tais como toalhitas anti-transferência para pôr na máquina de lavar roupa, para as cores de umas roupas não mancharem outras. Pelo caminho vim a ver mails e avisei que já ligava a uma que estava a ligar-me. Depois foi chegar a casa, arrumar as coisas com cuidado. A seguir, despi-me, fui tomar banho, fiz o acompanhamento (batatinhas e feijão verde cozido), desatei a receber telefonemas. O meu marido também e teve que ir fazer um mail urgente. Quando estava a vestir-me, cabelo molhado, o telemóvel deu aquele toque de lembrete. Fui ver. Vídeo-conferência em cinco minutos. Quase baqueei. Naquela figura? No way. Fui a correr pentear-me. E qué dê o pente? Apenas vestida da cintura para cima, fui à sala onde estava o meu marido sentado na escrivaninha e, aflita, perguntei-lhe se tinha visto a meu pente. Soltou uma gargalhada e disse: 'É que passou aqui a minha mulher'. Estava ao telefone, e felizmente não disse à pessoa com quem estava ao telefone porque é que isso o fazia rir e, mais felizmente ainda, não estava em videoconferência. Não descobri o pente. Fui à cozinha onde tinha deixado a bolsa pendurada nas costas de uma cadeira e revirei-a. Nenhum pente. Fui à casa de banho, procurei na gaveta onde há um pouco de tudo e descobri uma escova. Enfiei uns leggings porque, sentada em frente do computador, não se vê, penteei-me, fui pôr uma subtil sombra verde cinza na pálpebra superior e, esgalgada de fome, apresentei-me ao serviço. As cadeiras ainda estavam fora do sítio, as carpetes reviradas mas isso também não se via.

A seguir, já era hora do lanche, fomos almoçar a correr.


Os assuntos foram-se complicando ao longo da tarde. E eu cheia de pressentimento. Telefonemas, mails. Ao fim da tarde mais uma videoconferência. E a seguir foi non stop até quase às nove. Quando íamos jantar ligou o meu filho e estivemos a conversar com os meninos. O do meio está desdentado. Menino mais querido. O bebé quis ver onde é que eu estava e, como sempre, quis falar com o avô. Ela, menina mais fofa e linda, mostrou ginásticas. Uma dor de alma não os ter entre os meus braços. Quando me sentei para jantar, o telefone. Era a minha filha e os meninos. O mais crescido, muito crescido, menino querido. O que, em tempos, foi o bebé e depois, o ex-bebé, está grande, divertido, faz caras, ri-se. Mais fofo. Tal como o meu filho também a minha filha está em teletrabalho. Achei-os com ar cansado.

Jantei às dez e tal. Mas a seguir outro telefonema. Más notícias, tudo a complicar-se. O tal pressentimento que vinha sentido desde a tarde. sustos e mais sustos. E mais mails. 

Não vi as conferências de imprensa, nada. Só que, no meio destas cenas de mails, telefonemas, preparar-me para jantar e etc, passei pela salinha da televisão, esta em que agora estou, e estava a dar uma coisa qualquer. Como a saleta estava às moscas não tive a quem perguntar o que era aquilo. Percebi, depois, que era um programa da Alexandra Borges a introduzir um debate em que a maioria dos debatedeiros estava em casa e que ia continuar na tvi 24. E, para meu espanto, lá estava o matemático pop, quiçá alternativo, misto de sub-hipster, misto de profeta da desgraça, candidato a nostradamus de trazer por casa. Atrás dele, uma estante com uns bibelotes (bibelotes e não bibelots, ao que me foi dado perceber), um dos quais quase me parecia a Nossa Senhora de Fátima mas que não devia ser. Ao dizer ele uma coisa qualquer, ela concluíu que 5% da população portuguesa ia precisar de ventiladores. Fiquei beige. Da população portuguesa...? Bolas, bolas, bolas. Devia ter dito 5% dos infectados mas para gente empolada o que é preciso é dizer coisas tchanã, que assustem a populaça. Saberá ela quanto é 5% da população portuguesa? Não deve saber. Instantes antes, a dita Alexandra, para dizer mal do Governo, que deveria ter feito e não fez, devia ter encomendado e não encomendou, tinha louvado o grupo Mello por ter encomendado cinquenta ventiladores para oferecer. E eu, que não sou de falar sozinha, não consegui evitar: 'Mulher mais estúpida'. O meu marido foi espreitar: 'Quem?'. Apontei. Ele fez uma cara de enjoo e perguntou: 'Mas tu estás a ver isso?' Expliquei que não, que ia a passar. E acrescentei que não é preciso ser muito esperto para antever que, estando para abrir o hospital CUF Tejo, o que deve ter acontecido é que os 50 ventiladores já estariam disponíveis, à seca, à espera da inauguração e, portanto, foi só pegar neles e emprestar. Mas estas moderadoras (acho que não se lhes pode chamar jornalistas) gostam é de baderna, infectados e sangue a escorrer pelos olhos. Pensar não é com elas.


Quando ao Covid o que tenho a dizer é o seguinte -- e prestem atenção que vou dizer apenas uma vez (pois não me conseguirei acordada para dizer uma segunda vez): 

  • Há muito mais infectados do que os oficiais. E isto não é que os oficiais estejam mal. Não. Só que os oficiais são os que se podem contar, os declarados, os que testaram positivo. Ora, como se sabe, há doentes que não têm sintomas, estão infectados sem o saberem. Outros estão infectados e só têm sintomas dias depois. Portanto, num dado momento, quando a curva está a subir, na realidade há muitos mais novos casos do que os que se consegue declarar.
  • A taxa de mortalidade do Covid é, forçosamente, bem inferior à 'oficial'. E isto deve-se a que ao número oficial de infectados há que adicionar os que não têm sintomas ou que são tão leves que a coisa passa por uma constipação de nada. 
Dito isto, é indispensável levar muito a sério os riscos. Sei de casos que, pelo local em que trabalham, tornam as consequências para o país muito severas e preocupantes. E isto já para não falar naqueles cuja saúde é débil e a quem a aventura covidiana não corre muito bem. Por isso, é bom que toda a gente tenha mil cuidados, lave bem as mãos, não tussa para as mãos ou para o ar, mantenha-se em isolamento social. Depois de haver isolamento social à séria ainda vão continuar a manifestar-se os casos que estavam e incubação. Mas, havendo isolamento, quebrar-se-ão as cadeias de transmissão. E isso, agora, é o que é indispensável. A última coisa que deveremos querer é que o Buescu tenha razão e que a meio de Abril já houvesse mais portugueses infectados do que portugueses cadastrados. 


E, para rematar, se não querem ir por mim (e acho bem que não vão, que eu é mais bolos), um conselho: se querem aprender com quem sabe da coisa, vão até onde se fala de Concentração urbana, biodiversidade, sistema imunitário ... e a vida no sec. XXI não esquecendo a resposta ao meu comentário.

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Imagens com o gato dela descobertas no Panda Cansado porque quando estou aqui a trabalhar vejo dois gatos lindos a passearem lá fora, um branquinho e preto e outro cor de mel e branco. Vêm ao som de Omar Sosa & Paolo Fresu a interpretarem A Moment
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Uma boa quarta-feira e caraças, força nisso, para achatar a curva como deve ser

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terça-feira, março 17, 2020

De um lado, Fátima Campos Ferreira e os ventiladores, Jorge Buescu e as previsões e Marcelo e a self-quarentena.
Do outro, Pedro Simas e a inteligência (e o garbo), Patrícia Gaspar e a lucidez, Marta Temido e Graça Freitas e a sabedoria e firmeza, António Costa e a liderança e Rodrigo Guedes de Carvalho e o jornalismo como serviço público.
Tudo isto em tempos de COVID-19, essa besta invisível de mil patas.





Nem consigo descrever o meu dia de teletrabalho. Não sei em que mundo é que eu vivia quando imaginei que estando em teletrabalho in heaven, ia conseguir ter tempo para limpar a casa, para dar umas voltas pelo arvoredo, quiçá estar ao computador enquanto, estendida na espreguiçadeira, apanhava uns retemperadores banhos de sol. Não sei mesmo. 

Trabalhei de manhã à noite, quase sem tempo para pôr o almoço ao lume, quase sem tempo para confraternizar com o meu roommate. E limpar a casa, claro, nem pó. Estes dias têm estado a ser muito difíceis. As empresas não estavam preparadas para isto e de uma semana para a outra pô-las a funcionar com cada um em sua casa e, na frente de batalha, as baixas a começarem a acontecer, dia após dia, e a gente a querer que as tropas se mantenham no terreno, não é fácil. E, pelo meio, articular tudo, assegurar a comunicação entre todos. E a toda a hora a receber mails de outras empresas a informar que vão deixar de prestar os serviços, e as coisas que estavam encomendadas a nunca mais chegarem e a gente a pensar que, um dia que as coisas cheguem, pode não estar ninguém nos locais para as receber. 

E todo o dia, de manhã cedo à noite, mails, telefonemas, videoconferências.


E os meus filhos em casa com os miúdos e a preocupação que tenho por eles e eu aqui longe deles, que pena, que saudades. E os meus pais, que tripla preocupação. E a minha mãe que não era capaz de me encaminhar uma receita e toda ela, enervada, a suspirar, com vontade de não tentar mais com medo de a apagar. E eu aqui com medo de lá ir não vá contagiá-los, eu que até sexta-feira andei em elevadores, em salas de reunião sem janelas e com alcatifas, em restaurantes, em toda a espécie de locais públicos frequentados por gente das mais variadas proveniências. 

Mal vi televisão mas vi a excelente entrevista de António Costa: firme, transparente, lúcido, directo, consciente. Portugal deve confiar na sua mão forte na condução desta tragédia.

E o Rodrigo Guedes de Carvalho: perfeito.

E vi os Prós e Contras. Uns nervos. Aquela Fátima Campos Ferreira esteve do princípio ao fim obcecada com os ventiladores. Qualquer coisa que qualquer dos convidados dissesse ela rematava com uma pergunta ou uma observação sobre os ventiladores. Que isso é um nó górdio é. Mas antes de nos preocuparmos que não há ventiladores para todos os que precisam, temos é que nos preocupar em que não haja muita gente a precisar. Para programas destes, sobre matérias complexas, tem que haver moderadores que percebam o que os outros dizem.


Outro que parece que levou uma paulada na tola é o tal de Buescu. Não sei para que números é que ele está a olhar que o levam a extrapolar que a meio de Abril já iremos com 12 milhões de infectados em Portugal. Juro: não percebo. A ser assim, em Itália, a esta hora, uma vez que já levam um bom avanço temporal em relação a nós, já iriam com setenta e tal milhões de infectados -- e vão com vinte e oito mil. É muito infectado, claro, mas, caraças, nada que se compare com as maluqueira do Buescu. Portanto, please, percebam que em todas as profissões há profissionais que etc. e tal e este é um desses. Não é por se ser matemático que se pode levar a sério. Isto do covid é uma desgraça que se abateu sobre o mundo mas, no que se refere a nós, não é nada da catástrofe que aquele senhor para aí anda a espalhar. Começou por desvalorixar para agora andar a empolar. Não é para levar a sério.


Bem, bem esteve Pedro Simas. Por tudo o que disse e por outra coisa: é um giraço. Não sei se ainda se diz mas eu digo: um pão. Um borracho. Façam o favor de o levar à televisão mais vezes e de avisar antes para eu não o perder. Um consolo. Gente inteligente e bem apessoada daquela boa maneira são um suplemento de alma para a gente resistir ao covid.

Outra que esteve muito bem foi a Patrícia Gaspar. Serena, forte, confiante, sabedora. A forma como acabou o programa deu-me vontade de a abraçar, de lhe oferecer flores, de lhe agradecer. Grande mulher.


Saindo do Prós e Contras, outro que também já mostrou que não se pode levar a sério é o Marcelo. Depois de andar a desobedecer a todas as recomendações da DGS e, publicamente, a incentivar ao desacato, parece que caíu na real. Mas não apenas caíu na real como parece ter ficado acagaçado perante a perspectiva de poder ter infectado meio Portugal, parece ter caído num estado de estupor catatónico. Isolou-se. Mas isolou-se mais do que a conta pois parece que desertou. Não estava doente, não tinha indicações para deixar de exercer a sua função. Apareceu a falar aos portugueses como se não atinasse com o computador, quase às cabeçadas ao monitor. Um som e uma imagem inexplicáveis. Parecia que estava a falar do meio da selva, sem condições. Caraças. Alguma coisa impede que alguém contacte com ele e lhe coloque uma câmara e um microfone à frente? Passou dos banhos de multidão com beijinhos e selfies para o isolamento monástico, esquecendo-se que é Presidente da República, esquecendo-se do momento assustador que atravessamos. Parece que sem a muleta dos beijinhos e o andarilho das selfies ficou com medo de andar.


A quem eu tiro o chapéu é a Marta Temido e a Graça Freitas. Mulheres trabalhadoras, inteligentes, bem preparadas, dedicadas, fortes. Temos que lhes agradecer por todo o esforço, por toda a entrega, por toda a lucidez, por toda a angústia e stress a que certamente estão sujeitas ao longo de tantos dias consecutivos. Não sei como aguentam, devem andar arrasadas, mal dormidas, sujeitas a todo o tipo de pressões. Confio nelas e agradeço-lhes. Nelas e na Patrícia Gaspar. E no António Costa.

Vamos sair desta. Vamos mesmo. Temos é que nos aguentar. Com muita disciplina, com isolamento, com sensatez, sem pânico. Mantendo-nos em funções se o pudermos (mesmo que remotamente), garantindo que o mundo volte ao normal logo que possível. E pode ser que surja rapidamente o tratamento e que nos reinventemos em melhor. Acredito nisto. Acredito mesmo. Ainda que agora esteja muito preocupada pois não consigo avaliar a dimensão do que nos espera.


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Não tento explicar o que me ocorre pelo que não sei porque é que me apeteceu ter aqui pinturas de Lucien Freud ao som do Cálice pela Maria Bethania.

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Desejo-vos uma boa terça-feira e, vá lá, descubram lá uma receita de coisa para sairmos desta: 
seja vacina, seja tratamento, seja bolo, seja mezinha, seja reza, seja o que for. 
Ou uma mistura disso tudo.

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segunda-feira, março 16, 2020

Entrando em teletrabalho na era do sacana do COVID





Passa da uma da manhã e só agora tenho sossego mental para escrever qualquer coisa. Foi um dia assaz agitado, por razões conexas com este coronado ataque. De tarde, depois de trocas de mails e telefonemas múltiplos, decidimos ambos que entraríamos em teletrabalho. Organizámos, cada um na sua empresa, tudo o que havia a organizar, falámos com quem tivemos que falar, mandámos para casa todos os que podíamos mandar. Não apenas estamos convictos que esta é a atitude certa como os nossos filhos, ambos também já em teletrabalho, nos pressionaram bastante para isso.


E se, cada um na respectiva empresa, já estava muito envolvido nos planos de contingência e nas medidas que eles implicam, a verdade é que ainda estávamos na dúvida em ficarmos, nós, em casa. Para quem passa uma vida inteira a coordenar equipas e a ser o primeiro a enfrentar as dificuldades e o último a apagar a luz, não é fácil saber que alguns têm forçosamente que ficar enquanto nós nos resguardamos. Fica-nos um travo a cobardia.
Quem não está muito por dentro destas realidades pode pensar que -- ao mesmo tempo que parece que o nosso querido mundo está a querer bater em retirada -- fazer de tudo para que as empresas continuem a laborar é uma futilidade ou uma manifestação de um descabido liberalismo mas a verdade é que não apenas podem estar em causa bens essenciais à sociedade como ninguém quer que, quando isto passar -- e há-de passar --, o país tenha virado uma cratera da qual a vida se evadiu.
Decidimos, pois, ficar em teletrabalho e, em consciência, achamos que é isto que todas as empresas, organismos e estabelecimentos onde se vendam bens não essenciais à vida, deveriam fazer. E nos locais que não podem resguardar-se todos, pois que se resguardem o que puderem. Tem que haver um day after.


Uma pandemia trava-se quebrando as cadeias de propagação. Com a higiene tão amplamente divulgada, com hábitos de decência respiratória e com distanciamento social que durem no mínimo quinze dias e, idealmente, um mês, a propagação viral múltipla será interrompida. E, com sorte, vamos parar a uma altura de tempo quente já com poucos casos e, ainda com mais sorte, já com tratamento para o bicho.

Penso que o Governo irá estabelecer regras mais apertadas. Convém que as explique pois penso que nem toda a gente percebe a razão de algumas das que já foram tomadas: por exemplo, porque fechar bares após as 21? Antes disso o bicho raivoso não se propaga? 
Respondo eu: claro que sim mas muito menos pois o que se passa é que a partir dessa hora, mais coisa menos coisa, a malta começa a conviver, a animar-se, a abraçar-se, a partilhar garrafas, a partilhar charros, a esquecer os dramas do mundo pois tudo parece muito peace end love e a malta quer é ser feliz. Portanto, enquanto a fera microscópica andar à solta, que fechem os bares, que vigiem locais de muito contacto e muito amor, que seja proibido beber na rua -- e quem conheça a animação nos passeios junto aos bares sabe bem a festa que é. Identicamente, dada a escassez de clientes e do risco de contágio, mais vale que encerrem centros comerciais e outros estabelecimentos mais frequentados por estrangeiros. Quanto mais radical for o isolamento social, mais curto ele precisa de ser. 
Vai ser muito difícil, vai ser um tempo de inquietação, vamos pôr-nos diariamente à prova. Mas se, dessa forma, travarmos a ascensão em flecha da curva, valerá a pena.

Entretanto, a nível nacional (e europeu -- e mundial) haverá que injectar liquidez circulante na economia e pensar em como aguentar, no 'ventilador', empresas e trabalhadores individuais e todos os que sofram com esta paragem de actividade. Não é tempo para limpar armas. É tempo é de evitar perdas, perdas de vida em primeiro lugar e, a seguir, a perda de rendimentos. Espero que, mal esta borrasca passe, haja planos para tentar recuperar tudo o que vacilou durante os tempos da peste.
Mas, para já, a prioridade é quebrar as cadeias de contágio -- mesmo que seja à bruta.

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Portanto, tendo decidido entrar em teletrabalho, achámos que em vez de nos fecharmos numa torre, na cidade, ficaríamos bem era aqui, in heaven. E, assim, fomos buscar roupa e mantimentos e viemos. Quando aqui estou, venho o mais casual possível. Eu e ele. E ou trago comida para um ou dois dias ou vamos ao supermercado. Como resolvemos entrar o mais possível em isolamento e no mínimo ficaremos uma semana, desejavelmente duas, resolvemos trazer comida quanto baste. E eu, que participo em inúmeras video-conferências, nunca participei em nenhuma a partir de casa. Ora, em contexto profissional, não me vou apresentar toda informal e mal arranjada. Portanto, vim com várias mudas de roupa, brinquinhos, etc. Uma vez mais, saí de casa, na cidade, com roupas, livros e comida, sem saber por quanto tempo. Uma tristeza. Parece que uma pessoa está a ir para o exílio. Uma pena deixar a casa para trás nestas condições. 

Depois, aqui, foi preciso tirar as coisas do carro, arrumar, etc. E mais um monte de mensagens e artigos enviados pelos meus filhos. 


A seguir decidi que tinha que escolher o décor de onde vou entrar em vídeo-conferência já que vou ter várias reuniões. Esta é uma casa de campo, não há escritório.  Nem vou aparecer à escrivaninha com o cavalete das pinturas atrás. Nem na mesa dos azulejos com os brinquedos dos miúdos à vista. Não vou aparecer no sofá onde habitualmente pouso, como é o caso presente. Estarei a trabalhar e não refastelada, em férias. Também não vou estar num local de onde fique à vista a mobília e os bibelots senão distrai a atenção de quem estiver a ver-me. Se estivesse bom tempo, punha uma mesa debaixo de uma árvore e pronto, aparecia no maior bucolismo, passarinhos a fazerem o acompanhamento musical. Mas vai estar frio, acho. Ora, com isto, com o computador de um lado para o outro a ver o que se via, gastei um ror de tempo.
Pode parecer futilidade, e não digo que não seja, mas eu sou assim, dada a maluqueiras e vaidosices. Poderia dizer que isto é coisa de mulher mas, cá para mim, com o que tenho visto com os colegas que, nos últimos dias, têm entrado em reunião a partir de casa, isto deve acontecer com todos. No entanto, a ver se eles assumem isto...? É o assumem.
Portanto, agora estou aqui que não posso, já dei por mim a cabecear nem sei quantas vezes. Para lá de bagdad. Daqui a nada são três da manhã. E esta segunda-feira, em vez de poder ficar a dormir até vir a mulher da fava rica, vou pôr o despertador para me levantar cedo e cedo começar a trabalhar. Uma coisa que nem parece justa pois in heaven está-se bem é na rêverie ou a podar árvores ou a cortar mato, não a trabalhar a sério.

A ver como vai correr. Pelo menos a ver se, à hora de almoço ou no final da jornada, tenho tempo para um banho de sol.


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Uma boa semana, meus Caros e minhas Caras.
Sem medo mas com preocupação. Com solidariedade mas com distanciamento. Com exercício e com comida saudável. Com boas leituras e com melhores músicas. Com atenção e com bué de smiles.
E etc. 

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domingo, março 15, 2020

O Covid, as previsões do Buescu, o que se vai sabendo sobre o que se deve e não deve fazer e sobre o que pode vir a resultar no tratamento
-- e, ainda, o tele-afecto





De novo, vejo referência à análise de Jorge Buescu e, uma vez mais, vou atrás. E, de novo, sinto cepticismo em relação ao que leio. Aquelas previsões, uma vez mais, não me convencem.

Todo o dia resisti a procurar os números -- a evolução, dia a dia -- para ver o que dali extraía. Considero que não há dados suficientes e, sobretudo, acho que eles são influenciados por comportamentos que mudam em função da consciência que se vai adquirindo e, ainda mais, pelas medidas que o Governo for impondo. E, portanto, acho que nem a série é suficientemente longa e elucidativa para poder ter grandes certezas nas extrapolações nem temos ainda tipificados comportamentos que possamos correlacionar com os números.

Concordo que, em roda livre, sem consciência da perigosidade, a evolução do Covid em Portugal seria um descalabro. Contudo, o isolamento social começa a entrar na rotina de cada vez mais gente e as cadeias de propagação talvez se consigam quebrar ou, pelo menos, perder força.


Mas, apesar de não querer aplicar modelos a uma realidade que não é bacteriologicamente pura (no puns intended) e cujos dados estão muito no início, face aos números do Buescu, resolvi  eu experimentar a ver o que dava. E o que me deu é, mais coisa menos coisa, aquilo que me parecia a olho nu. Que os números vão crescer, claro que vão. Que vão assustar, claro que vão. Mas pode acontecer que não disparem tão em flecha e que não estejamos em presença de um descalabro. Os 19.000 doentes até ao final do mês que o Buescu prevê configurariam um cenário de horror pois, desses, para aí uns 2.000 ou mais poderiam precisar de ventiladores em simultâneo e isso, claro, iria traduzir-se em mortalidade a doer. Segundo ele, se o Governo decretasse quarentena total e absoluta, o descalabro não seria dessa ordem mas os infectados, ainda assim, ultrapassariam os 4.000 (o que, de qualquer modo, seria calamitoso). Ora, a mim não me parece que se chegue lá até ao fim deste mês. Apetece-me dizer que, mesmo sem quarentena absoluta, não se atingirão os 4.000 que ele pensa apenas possíveis com o país enjaulado.

Este vírus é terrível, lá isso é, até porque: 
  • pode durar muitas horas activo em superfícies (horas que podem ir até quase três dias, por exemplo em superfícies de plástico -- razão pela qual as superfícies devem ser sempre bem lavadas), 
  • pode estar activo em espaços fechados durante bastante tempo, 
  • pode ser propagado por pessoas sem sintomas ou sintomas tão leves que não levantem suspeitas, 
  • pode chegar-nos por um emissor que esteja até dois metros (caso espirre ou tussa) ou a um metro (apenas por respirar). 
Por isso, concordo, estamos, de facto, perante um risco diabólico. Uma coisa inimaginável.



Mas, porque penso que as pessoas já estão a cair na real e o medo é uma poderosa arma de defesa e porque penso que os números conhecidos não parecem apontar para um disparo tão descontrolado, tenho esperança que consigamos passar por esta seríissima ameaça sem ficarmos despedaçados a sangue frio e de alto a baixo.

Entretanto, a experiência nos outros países vai trazendo conhecimento que nos pode ser útil. Por exemplo, as autoridades de saúde francesas estão a avisar que o uso de anti-inflamatórios parece agravar o efeito do Covid (e, na volta, isso explicará, em parte, a tragédia italiana). Segundo eles, nada de Brufen ou afins ou cortisonas mas, antes, paracetamol ou aspirina. E, portanto, com o que se vai sabendo, melhor nos poderemos ir precavendo.

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De qualquer forma, este dia voltou a ser um dia triste para mim. O meu corpo e a minha alma não vivem sem a companhia daqueles que amo. Claro que tenho sido abençoada pela sorte que me tem permitido que esse meu gosto se tenha materializado. Tantas mães que também gostam da proximidade e que, pela força das circunstâncias, não têm tido outro remédio senão habituarem-se à distância. Mas a vida tem-me tratado bem e eu sinto-me sempre infinitamente grata por isso. Gosto de ter a casa cheia, gosto de abraçar e beijar os meus meninos, gosto de os ter à mesa, gosto que estejamos todos juntos, gosto de ver que gostam uns dos outros -- e, felizmente, essa tem sido uma realidade. Mas, face à infelicidade que se abateu sobre a humanidade, resolvemos todos levar a sério o que se está a passar e estamos todos a cumprir, o mais a sério possível, o isolamento social. Portanto, este sábado, pela primeira vez contactei com eles por via remota. As três casas separadas mas nós todos a conversar uns com os outros. Mas senti-me muito triste. Não posso abraçá-los ou enchê-los de beijinhos e não sei quanto tempo durará isto. 

Claro que também não fui a casa dos meus pais. Estão abastecidos, vai lá a senhora que ajuda a minha mãe e põe luvas, usa máscara, desinfecta-se. Não quero ser veículo de transmissão de coisas más. Converso com ela por telefone, duas vezes por dia. Sobretudo, tento convencê-la a não sair de casa. Que vá ao jardim, que faça ginástica, que regue as flores, que apanhe ar puro -- mas não vá às compras, não receba visitas.


E há outra coisa que me preocupa pois, a bem da verdade, não percebo o comportamento das epidemias. Para mim, na ignorância de uma leiga, enquanto houver um infectado e uma grande maioria de não imunizados é como quando apareceu o primeiro: uma fonte de contágio que se irá propagando. Mas se calhar não. Aliás, tomara que não. Senão, quando é que deixa de ser necessário o isolamento social?

Li que há cientistas que acreditam que o soro do sangue dos que já se curaram, se injectado nos infectados, pode ajudá-los a debelar a infecção. Tomara. Por cada teste positivo, um shot de soro e pronto,, desampare, à sua vida, vá para casa esperar que passe -- era bom que fosse assim.

Também li que aparentemente medicamentos usados nas doenças auto-imunes como a artrite reumatóide estão a dar resultados animadores.

Ou seja, assim ou de outra maneira, tenho esperança que alguma solução apareça e que apareça depressa. Não gosto de não poder abraçar e beijar e olhar de perto aqueles que mais amo.

E até lá vamos mantendo, à risca, as medidas recomendadas pela DGS e vamos reinventando novas formas de convivência, de solidariedade, de bondade e... de expressar o afecto e o agradecimento.


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As fotografias foram feitas in heaven
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E a todos desejo um belo domingo. 
Saúde, bom comportamento e boa disposição -- é o que, para já, é preciso.

sábado, março 14, 2020

E se, de repente, um dia, acordássemos com uma boa notícia e, a seguir, uma outra e, daqui por algum tempo, estivessemos fora de sustos e, surpresa das surpresas, pessoas mais inteligentes ...?





Hoje vivi um dos dias mais difíceis da minha longa vida profissional. Dia de juízo. Aos magotes, gente ia sendo mandada pela casa. Gente que tinha convivido de perto com Covidis, gente que tinha convivido de perto com quem tinha convivido. Começámos o dia a equacionar identificar quem deveríamos mandar para casa ao fim do dia para, pouco depois, acabarmos a mandar toda a gente excepto os que, de todo, não pudessem ir. E, para esses, os que terão que ficar, a vermos como constituir equipas de reserva, mantendo-as em isolamento social.

Depois o medo: sabermos que alguém ao nosso lado está constipado e, pior, com febre, ou outro que chegou do estrangeiro e que, tendo-se sentido mal no dia em que chegou, no dia seguinte foi trabalhar. E a desconfiança de que aquele lá, com tosse e febre, também poderá estar. O medo. O medo por vezes silencioso e envergonhado, outras disfarçado de brincadeira.

E, medos à parte, todo o santo dia a reajustar planos de contingência, a tomar medidas, a arranjar recursos, a redefinir processos, a ultrapassar regras e políticas internas, a perceber como conseguir manter as empresas a funcionar num cenário que, de vez em quando, mais parecia de loucos. E houve que gerir gente enervada, gente impaciente, gente zangada, uns a acharem que os outros estavam a precipitar-se, outros furiosos porque achavam que tomaram a medida certa face ao que se sabia e que, se necessário, voltarão a repetir. Não é fácil. Várias vezes se ouviu: estamos em cenário de guerra. Temos que apoiar os que estão nas trincheiras, temos que dar suporte a quem tem que dar o peito às balas. Temos que ter calma. Temos que aprender a lidar com isto -- ia-se ouvindo. Lugares comuns, talvez. Mas, para quem está lá no meio, é o que se sente.


Mas quando digo que foi dos dias mais difíceis nem foi por isto. Em situações de stress costumo reagir com uma estranha presença de espírito, parece que o meu corpo e a minha mente se sentem positivamente estimulados. O pior foi outra coisa. O pior foi ver as pessoas a saírem com os computadores, em especial pessoal administrativo que habitualmente não leva computadores para casa, e a olharem uns para os outros sem saberem se se estavam a despedir por dias, por semanas ou por meses. O silêncio e a tristeza. E as pessoas que tiveram problemas oncológicos ou de coração ou diabéticos, algumas cujos problemas eu desconhecia, de computador às costas, com preocupação, sem saberem o que dizer, talvez com medo de não voltarem. As salas a ficarem vazias e eu sem saber se algum dia voltaremos a enchê-las. Um silêncio pesado que me entristeceu muito. Quando cheguei ao carro senti não apenas uma grande apreensão mas, também, uma grande tristeza.

Pelo caminho falei com a minha mãe, assustada, assustada, com o meu filho, preocupado com o facto da mãe e do pai ainda andarem em circulação, depois, já em casa, falei com a minha filha, muito preocupada com as notícias, com informações que vai recebendo e com o pai que não quer que lhe falemos no que ele acha que seria 'abandonar o barco'.

E há pouco li um comentário que me gelou. Fiquei quase sem reacção. Como é possível? Haverá necessidade que justifique que se propague um vírus tão contagioso e tão gravoso? Não sei. Não gosto de fazer juízos de valor mas confesso que gelei.


Entretanto. estive a ler e a ouvir mais algumas notícias. E, de repente, quando tudo aponta para que vem aí o pior -- a curva a acelerar, os casos a agravarem-se, os números a aterrorizarem, os equipamentos a escassearem e os técnicos de saúde a chegarem a ponto de exaustão --, por motivos que desconheço, senti como que razões para nos tranquilizarmos.

Pode ser daquelas bizarrias minhas que não tento nem explicar mas a verdade é que parece que pressinto que, contra todas as probabilidades, a coisa vai abrandar e controlar-se. Não sei se vamos ter antivirais eficazes a curto prazo, não sei se o isolamento social vai resultar, não sei se o calor, ao aproximar-se, vai refrear o bicho, não sei se vamos receber apoio externo. Não sei. Mas sinto que, se soubermos levar muito a sério as instruções de higiene, distanciamento social e protocolo respiratório e formos conseguindo aguentar o barco até que cheguem as boas notícias, talvez a coisa não seja muito grave. Talvez a gente consiga sair desta sem danos demasiado sérios.

Estava eu a fazer uma pós-graduação a seguir ao 11 de Setembro quando um dos professores disse: vai haver um antes e um depois 11 de Setembro. Na altura fiquei na dúvida. Pareceu-me que ele estava a querer protagonismo, enfatizando e dramatizando o momento histórico. Mais tarde acabei por pensar que talvez ele estivesse certo. Mas agora acho que o mundo verdadeiramente vai mudar é com o Covid. Vai mudar. Muitas coisas vão mudar. E talvez mudem para melhor.



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As flores foram fotografadas por Ashique Ridwan e aparecem aqui ao som de Then I Heard A Bachelor's Cry segundo Benjamin Clementine.
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Saúde. E sol (para nos aquecer a alma e para matar o bicho).

E vai daqui um abraço para quem não se importar de se sentir abraçado.

sexta-feira, março 13, 2020

Os tempos da peste.
[Inclui o poderoso testemunho de uma enfermeira]





Por todo o lado por onde ando, sinto um certo atordoamento como se estivessemos sem saber bem o que fazer perante o que parece ser o início do fim dos tempos.

Lá pelas minhas bandas, a cada momento nos chegam novas informações que nos levam a rever os planos, a cada momento ficamos sem saber como agarrar as pontas que se soltam por todos os lados.

Tudo muda a toda a hora e toda a gente precisa de saber agora como vai ser e uma pessoa já nem sabe bem como decidir num sentido e depois noutro contrário, ficando sempre com a sensação que o ideal era parar este filme. Hoje várias vezes tive vontade de dizer pára tudo, vai toda a gente para casa. Mas não dá. Não pode haver debandada. Tem que se coordenar quem vai, quem fica, como se organizam os que ficam, como se articulam os que ficam com os que vão.

Hoje já fiz várias reuniões por via remota mas uma delas foi uma confusão. Éramos muitos e estávamos distribuídos por sete locais distintos. Uma canseira. Não estamos bem treinados. E depois fiz uma presencial e teve que ser presencial pois os olhos nos olhos são fundamentais em determinados assuntos. Mas e as outras que tencionava fazer durante toda a semana que vem? Desumanizo-as? Suspendo-as? Tenho assuntos em marcha, não posso suspender tudo. 

A economia vai a pique e antevejo um desastre para muita gente. Por muitos apoios que o Governo injecte, e em boa hora anunciou que vai mesmo injectar, há actividades que não vão aguentar, há muita gente que vai patinar ou afogar-se à força toda. E a seguir -- e não sei quando será este 'a seguir' -- as coisas não voltarão a ser como antes. Os hábitos vão mudar. Pode ser que mudem até para melhor mas o período de readaptação poderá ser doloroso.

Ou seja, claro que haveremos de nos reajustar, surgirá uma outra forma de viver -- será, pois, uma oportunidade para quem tenha olho para o negócio. Mas à custa de muitas falências, muito desemprego, muita desprotecção. E, claro, de muitos sustos, de muito medo... e provavelmente de algumas vidas.

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Claro que as medidas ditadas pelo Governo são mais do que acertadas e tomara que toda a gente as perceba e leve a sério. 

Vejo os jovens que trabalham nas empresas por onde circulo todos divertidos, em alegres animações, como se nada disto os assustasse e prontos para irem para a farra.

Mas é com novos e com velhos. Hoje tive uma insistente e demorada conversa com a minha mãe pois contou-me que ainda hoje recebeu a visita de uma amiga e que amanhã tencionava ir à cabeleireira. Perguntei-lhe que parte do que tem andado a ouvir é que ainda não percebeu. Ambos com oitentas e muitos, ela que teve um problema oncológico há não muito, o meu pai com dependências severas e múltiplas, estão no topo dos grupos de risco. Como é que ela ainda acha que não vai dizer à amiga ou à vizinha que agora não há visitas para não as melindrar ou que não vai deixar de arranjar o cabelo para a cabeleireira não ficar ofendida? Fico exausta com isto. Digo-lhe e redigo-lhe: Mãe, são tempos de distanciamento social. Perceba que tem que se proteger a si e proteger o pai. Bolas. Tem que ter cuidado. E ouço-a a suspirar como se eu estivesse a dar-lhe uma ganda seca.

O João, que bebe do fino e sabe do que fala, enviou este gráfico que mostra o efeito benéfico e quase instantâneo do distanciamento social na propagação do COVID-19. Thanks, João.

A queda e o abrandamento das curvas falam por si

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Hoje chegou até mim o desabafo de uma enfermeira. Não consegui obter a sua autorização mas quem me fez chegar disse-me que achava que este texto tinha sido escrito justamente para ser partilhado. Portanto, aqui o deixo. Mas, se chegar ao conhecimento da sua autora e não o quiser ter aqui, bastará que me informe que eu, de imediato, o retirarei.
1) Lavem as mãos. Não me interessa se as lavam com sabonete de leite de burra importada das estepes dos Himalaias. LAVEM-NAS! Como se a vossa vida dependesse disso. De facto ela depende!  
2) Respeitem a etiqueta respiratória. Pelo amor de Deus parem de limpar o nariz e a cara às mãos que depois vão esfregar em todo o lado. Sim, isto é baseado em factos reais acontecidos hoje. 
3) Resguardem-se! Parem de ir para a porcaria da praia de Carcavelos quando deviam estar em casa. Estudem, leiam, durmam, vejam netflix (matava para ser igual a vocês e poder fazê-lo nesta altura). 
4) Honestamente não li nada sobre isto, mas tomem banho quando chegarem a casa e mudem de roupa, principalmente se não vão voltar a sair. 
5) Mantenham a casa limpa. Em vez de andarem por aí histéricos a tentar fabricar os vossos próprios geis desinfectantes para queimarem os dedos e acabarem a entupir urgências, peguem na esfregona, no pano e nos produtos de limpeza e mantenham a vossa casa limpa. 
6) Afastem-se. Mantenham a distância das pessoas de quem gostam e que podem estar mais vulneráveis. É tremendamente perigoso para as avós, tias e amigos vulneráveis o contacto com pessoas de risco.. Que como já percebemos, neste momento, somos todos nós. 
7) Tenham vergonha. Quando andam por aí nos hospitais a roubar as nossas máscaras, luvas, material desinfectante que já é tão pouco e nos vai ser tão necessário, fiquem a saber que se estão a roubar a vocês próprios. Ao exporem-nos desta forma estão a contribuir para que sejamos um risco para vós no momento em que precisarem. Se eu estiver desprotegida num contacto de risco, contrair isto e continuar a trabalhar adivinhem o que é que posso fazer à vossa mãe, irmão, avó... 
8) Por falar em vergonha... Eu tenho dias em que trabalho das 8 da manhã às 11 da noite, há médicos que trabalham 24h e por aí adiante. Não temos muito tempo para participar na vossa histeria colectiva a rapinar papel higiénico e latas de atum. O corona não ataca prateleiras de supermercado, ataca pessoas. Parem com essa merda. Sirvam-se criteriosa e ordeiramente. Ainda ninguém veio dizer que se está a racionar comida.. Mas continuem a portar-se assim que.. Oh well. 
9) Por falar em comida.. Deixem os chineses em paz! Anteontem de manhã só tive vontade de chorar quando vi a Katy, que é a dona da frutaria da minha rua, de máscara, luvas e um aviso na porta a dizer que os está a usar porque não quer que as pessoas pensem que pode contaminar alguém. Partiu-me o coração. Nesta palhaçada temo que se contamine a ela e aos outros. E numa perspectiva egoísta eu preciso dos morangos da Katy para sobreviver a isto. Se ainda houver morangos depois de vocês comprarem caixas de 5kg para apodrecerem lá em casa.
10) Respeitem-nos. Sejam atentos, honestos, contem - nos exactamente o que estão a sentir e o que está a acontecer convosco. Não omitam informação que possa ser importante. Não venham ter connosco ao hospital a menos que seja absolutamente necessário. Não chamem médicos a casa, não apareçam na urgência, não façam fitas ridículas. Quem fica de quarentena para ir para o Amoreiras também tem dedinhos para ligar 808 24 24 24. Se não atenderem procurem outros meios, mas que a decisão de ir a um serviço de saúde seja tomada em sã consciência, com a noção de que se não precisarem realmente se podem estar a expor desnecessariamente. A linha está a ser reforçada e vamos esperar que seja possível chegar a todos. Se a situação em casa vos soar a perigo de vida liguem para o INEM. Entendam que perigo de vida não é 37.3 de temperatura depois de se terem andado a esfregar nas areias de Carcavelos. 
11) Suck it up. Estamos todos assustados com isto. Eu não tenho medo por mim, embora tenha noção que não estou isenta de poder adoecer e morrer disto (é o mesmo barco para todos nós). Não nos agridam, não nos cuspam, não nos tussam para cima (boa parte destas coisas já aconteceram com colegas meus nos últimos dias). Ao fazê - lo estão a fazê-lo sobre vocês próprios. Se formos para casa não haverá ninguém. 
Casa. O sítio onde quero regressar no fim disto. O sítio onde espero e vou abraçar o António intacto e incólume no fim disto. É por ele que tenho mais medo. Pelas minhas irmãs. Pelas minhas amigas. Pela nossa família. Cada vez que um de nós sai de casa em direção ao trabalho estamos a assinar um cheque em branco para tratar de vocês. Respeitem isso. Honrem isso. Ajudem-nos a ultrapassar isto. Colaborem. Cumpram. Sejam sensatos. Isto é algo como nunca vimos.
Precisamos muito de ser profundamente solidários e civilizados neste tempo. 
Porque eu já perdi qualquer esperança de ser apenas enfermeira dos meus doentes no meu mundo encantado. Isso acabou. Somos todos por um.
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COVID-19 vs Flu


Professor Robert Booy from the University of Sydney, Head of Clinical Research at the National Centre for Immunisation Research and Surveillance, answers the following questions about COVID-19: 
What are the symptoms of COVID-19? How long does it usually last? Who is most at risk? What are the chances of recovery? Can the flu injection prevent COVID-19? 


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Saúde, coragem e calma, minha gente.