segunda-feira, janeiro 08, 2018

Fogo bom dentro de casa em dia de muito frio cá fora





A cozinha é grande e ao meio há uma mesa com tampo de azulejos e cadeiras em volta. É aí que geralmente tomamos as refeições. Mas quando temos cá mais gente, o ritual tem lugar na sala contígua à cozinha, uma sala ampla que tem, num canto, a lareira e zona de estar e, noutro, um grande aparador com um espelho por cima e uma mesa grande com cadeiras de assento de palma entrançada em volta.

Hoje o almoço foi cozido à portuguesa que, para não arrefecer, foi transportado nos próprios tachos para uma mesa de apoio. E, enquanto comíamos, íamos sentido o calor aconchegante de um fogo magistral que o meu filho ateou na lareira.

Estava contente, ele, dizendo que há já algum tempo que não ateava a lareira. Esmerou-se. Trouxe o tripé lá de fora, da zona de churrasco, para criar zonas de circulação de ar entre a lenha.

Os meninos ajudaram, trouxeram pinhas e troncos do alpendre e assistiram aos preparativos. Depois encantaram-se a ver o fogo crepitante, sentindo o calor que se formou quase instantaneamente.


Depois estiveram a brincar junto à mesa baixa que está na zona de estar e o bebé primeiro dormiu mas, quando acordou, esteve de pé, encostado à mesa, a brincar com os crescidos. Eu também joguei com eles e, no jogo, eu era o macaco e tinha uma cabeça de macaco em cartão posta como se fosse uma coroa. Havia também um coelho, um cavalo, um cão,... O menino que era o cavalo é muito batoteiro, odeia perder, e desperta a fúria nos adversários. Já antes de almoço, enquanto os crescidos estavam lá fora e eu a terminar o almoço e a tomar conta deles, tinham estado a brincar no tapete da sala de baixo e tinha sido uma guerra pegada. Ora era o menino-batoteiro, ora era o bebé-desestabilizador. A menina estava passada com os rapazes que não conseguem respeitar a dignidade do jogo e eu vi-me aflita para conseguir pôr a mesa, tendo que apaziguar os temperamentos exaltados e atenuar aquelas crises.

Mas depois chegaram os trabalhadores rurais (já mostro o que andaram a fazer), uns ainda foram tomar banho, a mãe do bebé foi dar-lhe o almoço, depois a comida dos restantes veio para a mesa e os ânimos aquietaram-se. E almoçámos em paz e alegria.

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Fica aqui bem, acho eu, o novo vídeo do Cine Povero com poema de Filipa Leal

Havemos de ir ao futuro


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domingo, janeiro 07, 2018

Zuckerberg diz que o seu objectivo para 2018 é corrigir o Facebook.
Mas eu, meus Caros, o conselho que vos dou é que não se fiem e tenham mas é cuidado.




Não é novidade para quem por aqui me acompanha: nunca senti vontade de me arregimentar ou sequer curiosidade por essa coisa do Facebook. Praticamente todas as pessoas que conheço estão lá e as razões que invocam a mim parecem-me razões para não estar lá: não quero saber o que andam os outros a fazer, estou-me nas tintas para ver os pratos que comem, os sapatos que calçam, os vestidos novos, selfies com a paisagem em fundo ou fotografias de família. Se me referem, com nostalgia, a possibilidade de verem o que fazem e por onde andam amigos de infância ou colegas de liceu ou universidade, fico na mesma: estão bem onde estão, no passado, sorridentes, brincalhões, sem calvície ou barrigas, sem rugas ou papos.


Mais: vamos supor que me dava alguma coisinha má e punha uma fotografia minha (ainda que desfocada) ou que escrevia uma bacorada qualquer. Alguma vez me imagino a espiar, ansiosa, quem é que lá punha ou não punha like? É que nem pouco mais ou menos. 

Ainda há dias ouvi uma colega -- que tinha por pessoa desempoeirada -- a dizer que uma outra tinha publicado uma fotografia em que mostrava o novo corte de cabelo e que fulana, beltrana e sicrana já lá tinham ido pôr um like. Ouvi e não disse nada mas, por dentro, fiquei perplexa: então ela anda a acompanhar as fotografias que a outra põe e a ver quem é que lá vai pôr likes...? Qual o propósito ou a lógica disso? 

Ou, ainda esta semana, na copa, ouvi umas quantas a conversarem sobre a nova namorada de um outro e com quem é que essa namorada se dá ou com quem é que antes era casada -- e tudo a partir do que viram no Facebook.. 

Ou, e ate já aqui o contei, uma extraordinária discussão a que, há tempos, assisti na casa de banho do escritório onde trabalho, porque uma se tinha desamigado de uma outra e isto depois de um qualquer comentário menos agradável da outra que, por sua vez, dizia que a outra é que tinha interpretado mal. Uma verdadeira conversa de outrazinhas.


Ou seja, um clube de exibicionismo, voyeurismo, coscuvilhice e intriga a nível galático.

Talvez nem toda a gente o use por motivos mesquinhos ou inconfessáveis e esteja ali apenas porque sim, para conviver com a família que está longe, para recomendarem livros uns aos outros ou coisa do género.

Pode ser. Mas é o princípio da coisa: aquilo é um painel de publicidade. É isso que sustenta o Facebook. A imensa informação fornecida por cada pessoa (o tipo de imagens de que gosta, os assuntos pelos quais mostra interesse) é usada para definir o seu perfil. Chama-se 'profiling'. O Facebook, a partir do profiling permanentemente actualizado pelas próprias pessoas, determina os produtos pelos quais as pessoas revelam alguma apetência e vai, aberta ou subliminarmente, induzindo o interesse por parte dos incautos utilizadores da tentacular rede social. Os algortitmos que movimentam a imensa máquina do Facebook estão permanentemente a ser actualizados e, sem o saberem, os seus utilizadores são os cordeiros silenciosos que facilmente são (ou podem ser) manipulados na direcção que mais convém aos interesses do Facebook.


Obviamente isto acontece com o Facebook como com o Google. Mas o modelo de utilização do Facebook parece-me o mais perigoso e perverso motor de alienação e submissão.
Claro que haverá comunidades bem informadas, que sabem defender-se e usar a rede de forma inteligente. Mas serão minorias.
E depois há ainda os mecanismos de habituação e recompensa que o Facebook usa de forma deliberada para incentivar a utilização permanente.


E a questão não é apenas essa: é também o imenso manancial de informação pessoal que reside nos sistemas informáticos do Facebook e que podem vir a ser usadas, no futuro, de forma que os próprios não desejem. As pessoas pensam: ah a minha página é privada, só os meus amigos vêem o que lá ponho. Ok. Mas é informação que reside algures, na nuvem, que pode vir a ser pirateada, usada sabe-se lá quando, por quem. Parecerão hipóteses remotas e improváveis a quem nunca pensa nisto mas é bom que saibam que tecnicamente são hipóteses absolutamente possíveis e que, num mundo desregulado como o nosso, até que algum travão consiga seja activado, muito estrago pode acontecer.

E mesmo que a informação de cada um não seja usada de forma maliciosa a título individual, há a utilização da informação anonimizada por parte de empresas que adquirem toda esse monstruoso volume de Big Data para fins potencialmente perigosos, como é o caso da Cambridge Analytics sobre a qual já aqui falei -- que é das mais interessantes e sinistras empresas da actualidade e que deveria motivar atenção redobrada às democracias. Cada Parlamento deveria ter um grupo de estudo destas novas realidades para saber como legislar de forma preventiva para que as democracias não sejam subvertidas através de mecanismos como os que são o objecto de empresas como a CA.

Leio que Zuckerberg anuncia que o seu maior objectivo para 2018 é 'corrigir' os erros do Facebook

CEO reveals this year’s ‘personal challenge’ as site faces relentless criticism over spreading of misinformation and damage to users’ mental health
Amid unceasing criticism of Facebook’s immense power and pernicious impact on society, its CEO, Mark Zuckerberg, announced Thursday that his “personal challenge” for 2018 will be “to focus on fixing these important issues”. (...)
Não acredito que seja possível pois o monstro está fora da caixa e, portanto, fora de controlo. A menos que Zuckerberg acabe com o Facebook. Como isso não é possível pois estamos a falar de uma empresa gigantesca, com milhares de postos de trabalho, movimentando uma parcela importante da economia, nada há a fazer (para além de pequenos remendos para fazer de conta).


Seja como for, nada como ouvir a opinião de quem já trabalhou para o Facebook. Os riscos de que falam, os malefícios que referem devem merecer toda a nossa atenção. Ou um vídeo que aconselha o abandono do vício do Facebook.






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sábado, janeiro 06, 2018

Fire and Fury
[O que o Trump daria para ter a minha (minha, salvo seja) motosserra nas mãos... ]





Lá fomos comprar a motosserra. Quando a minha filha me ligou, já tarde, estávamos a jantar e contei-lhe o que tínhamos estado a fazer. Lembrou-se: 'Ah, sim, o presente de Natal do pai...'. Pois, mais ou menos.

Dois betinhos da cidade armados em camponeses mas sem terem sequer a sabedoria necessária para fazerem as perguntas certas. Explico. Não é fácil escolher: muita coisa específica a ter em consideração. O rapaz, super-eficiente, ia assinalando as diferenças entre os múltiplos modelos: tamanho da espada, larguras dos troncos, potência do motor, durabilidade, representação em Portugal, etc, etc. O meu marido, atento. Eu a ver, sobretudo, o preço. Quando pareceu ter aparecido o modelo onde convergiam várias vantagens, o meu marido resolveu tomar-lhe o peso. Como qualquer homem que se preze, manteve-a ao alto (refiro-me à motosserra) sem dar parte de fraco mas depois, como quem não quer a coisa, comentou: 'Eh pá, isto pesa...'. E aí, vai o rapaz e diz: 'Não é para pegar assim, ao alto, é para cortar no chão, apoiada'. Percebemos, então, que deveríamos ter começado por aí: a ideia é cortar troncos nas árvores, ramos. Eventualmente, depois parti-los às postas, já no chão. Mas primeiro há que separá-los das árvores. Então, o rapaz disse: 'Ah, então, não são dessas, são destas!'. E passou-lhe uma outra para as mãos. 'Ah, pois, esta sim', e manejou-a quase como se espadeirasse um inimigo voador. E pronto, escolhida. Claro que, depois, mil ensinamentos: a corrente, o botão para não sei o quê, o travão de segurança, as regras para o óleo, para o combustível, para sei lá o quê. Aí já eu tinha desligado. Tenho um lado muito délicatesse, muito demoiselle. Maquinarias destas não são comigo. Népias. Não fixo nada nem tenho um módico de intuição para perceber minimamente como funcionam as coisas.


Nessa altura, aproveitei para ir à procura de suplemento alimentar para as laranjeiras e acendalhas. Trouxémos depois outras coisas mas isso logo conto (e, se mostrável, mostro). E também um aquecedor pequenino para pormos na cozinha porque a casa é grande, aquece-se uma divisão e na outra ao lado já está um gelo, a cozinha tem chaminé, vem  ar directamente de fora. Com o fresquinho que se avizinha, deve lá estar um ambiente siberiano. Temos um daqueles a gás mas para a cozinha, para estarmos lá só um bocado, será mais prático um daqueles rápidos, liga e desliga. 

Depois de uma semana do catano com reuniões e maçadas, crises e agitações que pareciam imparáveis, chegar ao fim de semana com a perspectiva de o passarmos no campo, com trabalhos rurais pela frente, tempo de inverno, calorzinho junto à lareira ou à salamandra, é para mim como ver-me a caminho do nirvana.


Bem. E com isto, cheguei tarde a casa e na caixa de correio mails amigos para todos os gostos: piadas, coisas bonitas, o vídeo do clone do Marcelo que pode ser visto no post abaixo, um poema do Leitor LS que me fez lembrar de quando eu era miúda e... o Fire and Fury, de Michael Wolff. Já estive a folheá-lo, trezentas e tal páginas de Trump na White House, o livro de todas as polémicas, a loucura descrita com pormenor. Transcrevo um petit peu apenas para aguçar o apetite (e grazie mille ao E., pela inexcedível simpatia):
(...) Donald Trump’s marriage was perplexing to almost everybody around him—or it was, anyway, or those without private jets and many homes. He and Melania spent relatively little time together. They could go days at a time without contact, even when they were both in Trump Tower. Often she did not know where he was, or take much notice of that fact. Her husband moved between residences as he would move between rooms. Along with knowing little about his whereabouts, she knew little about his business, and took at best modest interest in it. An absentee father for his first four children, Trump was even more absent for his fifth, Barron, his son with Melania. Now on his third marriage, he told friends he thought he had finally perfected the art: live and let live—“Do your own thing.” He was a notorious womanizer, and during the campaign became possibly the world’s most famous masher. 
While nobody would ever say Trump was sensitive when it came to women, he had many views about how to get along with them, including a theory he discussed with friends about how the more years between an older man and a younger woman, the less the younger woman took an older man’s cheating personally. Still, the notion that this was a marriage in name only was far from true. He spoke of Melania frequently when she wasn’t there. He admired her looks —often, awkwardly for her, in the presence of others. She was, he told people proudly and without irony, a “trophy wife.” And while he may not have quite shared his life with her, he gladly shared the spoils of it. “A happy wife is a happy life,” he said, echoing a popular rich-man truism. (...)
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Para quem não esteja bem ao corrente:

Na quinta-feira, Donald Trump tentou parar a publicação do livro através dos seus advogados. A editora, Henry Holt & Co., respondeu antecipando a publicação para esta sexta-feira, quatro dias antes do planeado.
by Jeremy Nguyen
O livro está neste momento em primeiro lugar na lista de livros mais vendidos na Amazon e esgotou em muitas da livrarias que o puseram à venda esta manhã. (...)
Michael Wolff teve acesso privilegiado aos bastidores do primeiro ano de Donald Trump como presidente dos EUA e faz uma série de revelações, incluindo que o republicano nunca acreditou que iria ganhar a corrida e que a sua equipa não acredita que ele seja capaz de desempenhar o cargo. 
O livro também abriu um conflito entre Trump e o seu ex-conselheiro, Steven Bannon, devido a acusações que Bannon faz no livro. Entre outras criticas, Bannon descreve uma reunião entre o filho do presidente, Donald Trump Junior, responsáveis da campanha eleitoral do e "um grupo de advogados russos", realizado na Trump Tower em junho de 2016, como "um ato de traição" e "antipatriótica". (...)

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O curioso casal Melania e Donald Trump



Colbert fala do sumarento livro: POTUS cries (about) Wolff



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As fotografias dos cristais de gelo sobre paisagens enregeladas são da autoria de Cass Blair. 
Lá em cima os 2cellos & Lang Lang interpretam Live And Let Die


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E agora, se ainda não viram, vão por mim: o gémeo separado à nascença do nosso Rei dos Afectos está já aqui abaixo.

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O omnipresente, o ubíquo... o presidente Marcelo!
[...ou será o seu duplo, Tony Garcia, o polícia de trânsito...?]


Do Paulo, a quem muito agradeço, recebo saboroso mail do qual me permito extrair o que abaixo transcrevo:
Boa noite,
Tenho lido os posts em que refere a hiperactividade mediática do presidente. Concordo em absoluto.
Hoje, num momento de descontracção com uns amigos, alguém descobriu esta pérola da música pimba. Não sei se é sintoma de overdose de Prof Marcelo (que se manifesta nesta omnipresença, mesmo onde não seria expectável), se é a prova de que esta omnipresença e ubiquidade é fruto das centenas de duplos que para ele trabalham (teoria que desenvolvemos no nosso grupo de amigos) ou se realmente o senhor também tinha uma reforma parca em recursos financeiros, como o antigo casal que ocupava a casa, e tem uma carreira musical obscura, para ganhar uns trocos.
Mas... inclusive com este fardamento... fico realmente na dúvida se não será o omnipresente, o ubíquo... o presidente:


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sexta-feira, janeiro 05, 2018

O debate entre Santana Lopes e Rui Rio e a cara de Vítor Gonçalves depois de ter entrevistado a Carla Bruni.

[E os dilemas intransponíveis que se levantam quando penso em tornar-me escritora]

-- E William Burroughs, John Irving, George Steiner e António Lobo Antunes --





Nem sabia que havia o debate. Quando percebi que estava a haver, o meu marido não quis ver. 'Era o que faltava.'. Insisti. Apetecia-me ver se, olhando para aqueles dois marretas durante uns instantes, conseguia perceber qual deles será eleito. O meu marido aborreceu-se: 'Tencionas votar neles?'. Percebi que não valia a pena explicar que se tratava apenas de uma questão conceptual. Disse apenas: 'Põe na 1 e cala-te'. Ripostou arreliado: 'És parva' e, para me ser simpático, lá mudou mas, lamentavelmente, o debate estava a acabar. Apenas vi o Rio a enterrar o Santana Lopes com base na vez em que Santana se enterrou a ele mesmo. Logo de seguida, o Vítor Gonçalves acabou o debate com um sorriso preso ao rosto. O meu marido disse: 'Aquele gajo, desde que entevistou a Bruni, ficou assim'. Olhei e achei que ele tinha razão. Quando vimos a dita entrevista, fartámo-nos os dois de rir com o baile que ela deu ao pobre coitado.

Pronto. A seguir ao debate, vieram os comentários mas, como é bom de ver, fugimos deles. Se eu fosse sipatizante do PSD andaria à nora: entre a fome a vontade de comer, escolher o quê? Velhos e relhos -- e nem tem a ver com a idade biológica dos dois. Comida da véspera. Roupa velha. Já os conhecemos, já os papámos noutras eras. Outra vez não. Não é possível que as hostes laranjas nestes anos todos não tenham parido ninguém que se afirme e que tenha sangue novo. Nada... nada...?

Felizmente não tenho nada a ver com aquela tristeza. Quem fez a cama que se deite nela.


Com isto e andando sem motivação para falar de nulidades, pus-me, como sempre, a cirandar pela net. Como já o contei, parece que apenas me sinto atraída por coisas bizarras. Volta e meia vejo links para outros blogues nos blogues que acompanho. Fico espantadíssima porque eu nunca descubro nada do que as outras pessoas descobrem. Em contrapartida, entretenho-me com coisas inenarráveis. É como quando os meus colegas ou amigos falam dos livros que andam a ler e todos os conhecem menos eu. Em contrapartida, se quiser limpar a face e não passar por completa iletrada, não apenas geralmente não me lembro do que ando a ler como, caso me lembre, ninguém nunca ouviu falar nos escritores que refiro.

Enfim.

Por exemplo, estive aqui a ver um vídeo que mostra a casa de William Burroughs e mais não sei o quê.

E estava a ver o vídeo e a pensar no que, na véspera, me tinha ocupado a mente na viagem à noite para casa depois de ter feito os meus telefonemas do costume. Conto. Vim a pensar que, um dia que tenha tempo, gostava mesmo de escrever. E, como sempre acontece, de imediato a minha mente mostrou como é fútil. Em vez de pensar no género que iria abraçar, nos temas que me cativariam, na disciplina que teria que ter, etc, não senhores: pus-me a pensar onde é que me iria instalar. E, como sempre, vou elencando possibilidades: na secretária do escritório? Não. Teria que limpar a secretária que está cheia de tralha (até um monitor dos antigos ainda lá jaz), teria que arranjar outra cadeira (a cadeira que lá está é muito clássica, de pele, pouco ergonómica), teria que arranjar um melhor candeeiro (o que lá está é lindo demais, tem um abat-jour em tecido plissado e um elegante pé de vidro mas é desapropriado para iluminar uma escritora). Depois pensei que me sentiria ali sozinha. Não gosto de me sentir sozinha. Talvez preferisse trabalhar na mesa redonda que está junto à janela aqui nesta sala mas, lá está, teria também que arranjar outra cadeira já que as cadeiras desta mesa são cadeiras seculares, que já vieram de casa dos meus avós. Mas não sei se aqui nesta sala teria concentração. Para já também que teria que tirar de cima da mesa todos os livros que ali se foram alojar. Aliás, estou a precisar de uma estante adicional. Mas não sei onde metê-la. Pensei então que o melhor mesmo seria se conseguíssemos comprar o andar ao lado do nosso, depois abrir passagem de uma casa para a outra e usar a outra como local de trabalho. Nessa altura, já estava a pensar onde haveria de abrir essa passagem e nenhum ponto me parecia adequado. 


Como se os dilemas não fossem poucos, dei comigo a pensar numa outra questão: se ficar em casa a escrever, será que depois tenho motivação para me levantar, escolher toilette, arranjar-me? Ou ficava com roupa caseira, confortável, cabelo apanhado, sem uma sombrazinha nos olhos? Esta hipótese, que me parece a mais provável, incomodou-me. Então toda a minha roupinha ficará, forever, inútil, arrumada no roupeiro e sem qualquer préstimo? Nem uns brinquinhos, nem uma pulseirinha a fazer pendant? E eu toda mal amanhada, fechada em casa, apenas transitando do quarto para a sala, da sala para a cozinha? Não...

E, conduzida por estes racicínios, pareceu-me que escrever, afinal, seria uma actividade desinteressante para mim.

E, ao chegar a esta conclusão, desiludi-me comigo. Mulherzinha fútil e burra. Então é com estas pepineiras que uma candidata a escritora se preocupa...?

Então, para tentar arranjar uma tábua de salvação, derivei. Devia era viver numa casa maravilhosa, no campo, onde tivesse uma espécie de um estúdio para onde pudesse ir como se fosse para o trabalho e onde pudesse abrir a janela e ouvir os pásaros. Mas, aí, pensei: mas, espera lá, já tenho uma casa no campo e até lá há um estúdio assim. Mas ia para um estúdio onde ficasse sozinha? Nem pensar. Mais: aposto que, em vez de ir escrever, ia mas era varrer, limpar as teias de aranha, dar cera de abelha nos móveis, lavar e estender roupa. Ou, então, tinha que ir inspeccionar o que o meu marido andaria a fazer. Às tantas andava de roçadora a cortar mato, levando alfazema, alecrim e orégãos tudo à frente. Nem pensar em ficar fechada num estúdio com ele à solta, a fazer estragos por todo o lado!


Portanto, já à chegada ao meu destino sem ter conseguido chegar a uma conclusão construtiva, vinha incomodada. Querem lá ver que não conseguirei ser escritora só porque não consigo escolher o lugar onde escrever...? E concluí: 'Não me parece normal. Coisa mais patética'.

E juro que isto se passou assim, tal e qual. Parece-vos normal? Acham que com esta cabecinha oca alguma vez daqui pode vir a sair escrita que se veja...? A mim não.


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John Giorno mostra o bunker de William Burroughs
[Step inside ‘The Bunker’ in New York, the windowless former apartment of the legendary writer William S. Burroughs, and let yourself be guided around – from Burroughs’ typewriter to his shooting target – by its current resident, the iconic poet John Giorno. (...)]


E John Irving em casa


E acabei por ir dar a Steiner. E se gosto de ler o que ele escreve, não é menos bom ver os seus olhos cintilantes e o seu rosto com um sorriso gaiato e ouvir as suas palavras sempre certeiras. O vídeo está legendado.

Aqui Steiner conversa com António Lobo Antunes


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As fotografias,  tão lindas que quase parecem abstractas, são da autoria do fotógrafo e arquitecto Tugo Cheng e mostram um método tradiconal de pesca no sudeste da China.

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quinta-feira, janeiro 04, 2018

Nem Marcelo, nem social-Marcelo.
Este post não tem nada a ver com o candidato presidencial do inventivo Santana Lopes.

Este post tem apenas a ver com Jack, o cisne, e Anna, a bailarina.





Ele é o omnipresente, o ubíquo, o da grande capacidade de processamento e de armazenamento... ele é o verdadeiro homem do tempo da cloud... ele é o inefável, o inenarrável, o incontornável... Marcelo.

Seja qual o tema, ele está lá.

Seja de dia, seja de noite, seja dia útil, feriado ou fim-de-semana, ele é o primeiro a chegar, é dele o abraço mais apertado, são dele as primeiras condolências, dele os primeiros parabéns, dele as primeiras palavras de circunstância. Dele. Dele. Dele.

Sempre lá. Sempre o primeiro. The only and only Marcelo.

E até aqui, no meu cantinho, neste meu lugar de recato e boadicência, até daqui ele não sai. Seja porque sim, seja porque não, cá está ele. 
Marcelo, Marcelo, Marcelo. Dá cá um beijinho, e a seguir mais outro, dá cá um beijinho que só dois é pouco. Celinho, Celinho, dá cá um selinho. E uma selfinha, uma selfinha com a Jeitinho, vá lá, Celinho.

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N Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã Ã O O O O O O... !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Stop nos beijinhos. Não quero aqui o Marcelo a toda a hora, a infiltrar-se em todos os meus posts...

Pleeaaase....

No more Marcelo! No more Marcelo! No more Marcelo!

Nem mais um Marcelo para as colónias. Nem Marcelo, nem social-Marcelo.

Xô.

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É que este post não tem nada a ver com o Marcelo. Este post é sobre a amizade entre uma mulher e um cisne. Não se chamava Leda mas Anna Pavlova (1881 - 1931) e era bailarina. A sua interpretação da morte do cisne era qualquer coisa.


Dançou para o Imperial Russian Ballet e para os Ballets Russes de Sergei Diaghilev até que formou a sua própria companhia, correndo mundo como primeira bailarina.


Um dia resolveu levar cisnes para um lago que tinha no seu jardim. Com um deles, a que tinha dado o nome de Jack, estabeleceu-se uma amizade difícil de explicar. Os cisnes não são bichos especialmente sociáveis... e o curioso é que nem Anna o era. E, no entanto, a ligação entre ambos era evidente.


As fotografias atestam-no e há carinho e elegância na forma como se entrelaçam. Vendo os bailados e vendo o longo pescoço de Jack em perfeita simbiose com o corpo de Anna e vendo e a beleza do esvoaçar dos braços de Anna enquanto dançava parecendo um cisne, percebemos como há seres que se completam de uma forma inexplicável.



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PS: Ontem foi por um triz que não comi uma Pavlova.

(Mas não me escapa. Guardado está o bocado para quem o há-de comer.)

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E caso queiram mais um post que não é sobre Marcelo mas sobre o Padre Tó para quem ele (ele, Marcelo) escreveu um prefácio e que agora é o principal e único suspeito de roubo de coisas da paróquia do Santo Condestável (refiro-me, claro, ao padre Tó), então, façam o favor de descer até ao post que se segue.

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Marcelo não estava nada à espera disto... o Padre António Teixeira... ? Não...!
Prefaciou-lhe o livro e tudo... e agora uma vergonha destas...? Está em choque, assegura o DN.
O Padre Tó o principal e único suspeito do roubo de arte sacra da paróquia do Santo Condestável...? Não...!


Também eu estou em choque. Nem consigo fechar bem a boca. Palavra. Não é só o ubíquo Prof. Marcelo... Também eu... Também eu...


Não conheço o senhor padre e, diria eu, se o visse em pessoa era logo capaz de lhe tirar a pinta mas, que é lá isso, quem vê caras não vê corações e o Padre pode ter cara de bon vivant que não leva à letra aquela coisa dos mandamentos mas, dentro do peito, bater-lhe um pio coração. Tal como pedia generosidade nas homilias e que não pusessem botões no saquinho das esmolas, provavelmente todo ele é caridade e amor. Todo, todo.


Mas agora isto vem deixar as hóstias confundidas... (hóstias ou hostes?). Paramentos, toalhas, castiçais, uma taça com pedras preciosas, imagens do sec XVIII...? Não se faz. Se não se pode acreditar num padre, vamos acreditar em quem? Leio que Marcelo (que, claro, já se pronunciou!) se mostrou chocado. Então não? É que não é para menos. Uma pessoa ouve uma coisa destas e até se benze.

Mas lembremos aquilo do livro para percebermos melhor a reacção de Marcelo. O nosso amigo (refiro-me a Marcelo, claro), ainda antes de ser o nosso Rei dos Afectos, já andava a distribuir amor. Em 2015, o agora mediático Padre António Teixeira da Paróquia de Carcavelos lançou o seu terceiro livro, um livro que era um best of com mensagens suas na sua página de facebook: “Igreja: um Sonho, uma Paixão” e lá teve a apresentar a sua (certamente louvável) obra, obra que imagino repleta de profundos momentos introspectivos,  aquele que lhe prefaciou a obra: Marcelo, ele-mesmo. E não se poupou nos elogios, o nosso Marcelo. Na sua boca, o Padre Tó era um Papa Francisco avant la lettre. Transcrevo:
Marcelo Rebelo de Sousa afirmou acerca do Padre António Teixeira que “muito antes do Papa Francisco defender que era preciso fazer chegar a mensagem cristã aos que estão mais distantes, mais carenciados, mais explorados e aos mais jovens (…) já o Prior de Carcavelos utilizava as tecnologias mais avançadas para comunicar essa mesma mensagem.” 
Portanto, com tanta devoção pelo senhor Prior, imagine-se a dor de Marcelo ao saber agora que a santa criatura, o inspirador do Papa Francisco, afinal é suspeito de roubar arte sacra da paróquia do Santo Contestável, em Campo de Ourique, e que já está a ser investigado pela Polícia Judiciária sendo o principal e único suspeito...  Não se faz...

Um mundo maluco, um mundo de pernas para o ar, é o que é... Olhem, desculpem mas vou mas é fazer o pino a ver se me alinho com o resto do mundo. Com vossa licença.


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Mad World


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As fantásticas obras renascentistas que aqui partilho convosco são esculturas que felizmente não estavam na paróquia do Padre Tó e são da autoria do espanhol Gerard Mas

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quarta-feira, janeiro 03, 2018

O pré-anunciado veto de Marcelo ao financiamento dos partidos não tem graça nenhuma.
Mil vezes o Biggus Dickus


Marcelo vetou aquilo do financiamento dos partidos mas para a malta o umbilical veto já não causou estrilho algum. A coisa já tinha vazado para a comunicação social ainda ele estava a espalhar amor no Curry Cabral. Naquela de ser mais rápido que a própria sombra, Marcelo deve ter-se dedurado a si próprio. Enquanto esperava que a tripa cagueira se operacionalizasse, deve ter ido montando o cenário de pré crise, fazendo saber que uma fonte de Belém lhe tinha transmitido que a bola ia sair preta. Enfim, o presidencial intestino funcionou, já pôde ir obrar para casa, de lá emitiu o majestático discurso de abertura de ano a que, acto contínuo, se seguiu o veto que, qual broche no peito de Madame Cristas, terá para ela sabor a medalha de glória já que foi ela a primeira a pedi-lo ao Senhor Presidente (atenção: quando digo que ela foi a primeira a pedi-lo, refiro-me ao veto, não ao broche).

Portanto, saíu a bola preta e, estando já todo o mundo careca de sabê-lo, ninguém ligou muito ao dito veto.

Nestes ainda não reinventados Portugais, os pessoais preferem dormir sobre assuntos tão banais. Dêem-nos bacanais, arrozais, festivais, jograis, fiolhais, carnavais, honoríficos pardais e outros programas que tais a ver se a malta, mesmo sem se reinventar, não se empolga toda.

Eu, pelo menos, com o hernial veto não me empolguei. Notícias das bandas do Marcelo só voltarão a convocar a minha atenção, por exemplo, quando numa visita a um convento de carmelitas -- e sem que ninguém antes o suspeite -- morda a bochecha da madre superiora. Isso, sim. Agora beijinhos normais, afectos polvilhados com selfies, recados, vaticínios ou vetos já não estão com nada. Tudo muito déjà-vu, tudo muito 2017.

Portanto, vagueando pelas notícias, na esperança de pescar alguma new que me empolgasse, a única que me interessou não foi uma notícia: foi antes um conjunto de 9 truques para ficar sempre bem nas fotografias. De imediato, mergulhei no tema. Esticar o queixo mas não muito, olhar para cima, oferecer o lado esquerdo, treinar antes poses ao espelho, exibir um sorriso desde que não forçado, procurar o melhor ângulo de luz, fazer não sei quê aos olhos para não ficar com eles todos vampirados, etc. Desisti. Pensei que ia encontrar uma receita mágica e, afinal, o que encontrei foi uma enorme trabalheira. Como se eu, que não faço selfies nem ensaio coisa alguma, na hora de alguém me tirar a fotografia, tivesse cabeça para pensar em tanta recomendação. Paciência. Não tenho vocação para star, assumo de vez.

Ou seja, resumindo, continuo na mesma: sem assunto. Ou melhor, se quiser ser honesta: a fazer-me cara, não querendo pegar de caras no assunto que anda aqui a fervilhar-me nas mãos. 

Portanto, e lamentando não poder servir prato que se apresente, volto a trazer aqui apenas uma coisa que o Youtube me sugeriu e com a qual já me fartei de rir. Cabecinha fraca - lá está. Com mil ralações e tanto assunto pendente, ponho tudo para trás das costas e, sem me fazer rogada, toda eu me derreto com a primeira coisa que o algortitmo me mostra.
Agora até estava aqui tentada a fazer um trocadilho mas, enfim, vou conter-me que este é um blog de família e eu sou menina fina. Adiante e let´s look at the trailer.

Enolmus Pilus (aka Biggus Dickus)

[Os meus amigos Monty Python em A Vida de Brian]


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E queiram continuar a descer que abaixo há mais do mesmo. Com a diferença que há também a história da prima pasteleira e o irresistível efeito Axa.

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A prima pasteleira -- e o efeito AXE




Para não estar com rodeios: à falta de assunto, fui à arca do costume. Não que não tenha assuntos. Tenho. Só que não me apetece. Para escrever sobre um tema tem que haver uma convergência astral entre a natureza do tema e o meu estado de espírito. Ora acontece que aquilo sobre o qual talvez pudesse escrever requereria uma outra concentração e dedicação que neste preciso instante não está presente. Ainda no outro dia. li, dito por escritor encartado, que, antes de escrever, o que mais faz é procrastinar. Não me comparo com essa pessoa, claro está, para percebo o conceito. Em contrapartida, há temas da actualidade sobre os quais poderia depositar a minha pena.


Mas não tenho pachorra. Tudo me parece banal, desinteressante. Claro que isto é coisa minha pois temas bizarros é o que não falta. Por exemplo, poderia falar dessa grande descoberta sexual, a sologamia. E se isso teria que se lhe dissesse. Mas para comentar uma filosofia de vida que assenta num conjunto de bacoradas teria que ter uma ligeireza de espírito que hoje também não me assiste. Pelo menos, por enquanto. Talvez lá mais para as quinhentas esteja no ponto. Por enquanto, ainda não.


Portanto, lá fui, como quando era pequena e ia visitar uma prima da minha avó que, sem filhos e, logo, sem netos, e sem outra ocupação que não a de ser uma simpática dona de casa, tinha enveredado pelo entretenimento de fazer bolos. Tinha verdadeira arte. Começou por tentar fazer pastéis de nata, depois doces de ovos moles e foi por aí fora, de experiência em experiência. Senhora de gostos refinados, muito elegante e muito simpática, para surpresa geral acabou por fazer disso um negócio. As principais pastelarias da cidade tornaram-se suas clientes. A família e a vizinhança ficou pasmada: não passava pela cabeça de ninguém que uma pessoa como ela, casada com um senhor tão importante e sem quaisquer necessidades materiais, fizesse bolos para vender. Mas ela nunca quis saber disso. 

Então, quando eu vinha da escola para ficar em casa da minha avó até ser hora de os meus pais me irem buscar, volta e meia ia lá bater à porta dessa prima que morava uma rua abaixo da da minha avó. Ela gostava muito de me receber ou pelo menos assim eu o percebia. Morava numa moradia bonita, muito bem decorada. Cheirava sempre a doces delicados, a forno suave. E, então, ela conduzia-me à cozinha e oferecia-me alguns bolinhos.


Claro que eu não me denunciava em casa. Mas se ela encontrava a minha avó ou a minha mãe, com naturalidade dizia que eu lá tinha estado em casa. A minha mãe e a minha avó passavam-se: que parecia mal, que jeito tinha eu ir lá, estando mais do que na cara que ia para ela me dar bolos, que era uma vergonha essa pedinchice. Não me lembro como reagia mas lembro-me que interiormente pensava que era o que faltava deixar de dar o prazer das minhas visitas à prima. Ainda me lembro bem daqueles bolinhos tão bons, frequentemente ainda mornos. Não tenho ideia de alguma vez lá ter ido e que não houvesse bolinhos.
Tinha olhos claros e apanhava o cabelo atrás, no que se chamava 'banana', e um nome que a mim me soava como extraordinário. O marido era simpático, silencioso, sempre sorridente. Apoiava-a naquela sua ocupação e quando se reformou, transformou-se no ajudante dela, já que as encomendas não paravam de crescer. A vizinhança olhava com estranheza aquele casal: ele, de quadro dirigente duma importante empresa, tinha passado a ajudante de pasteleiro. Nada que os incomodasse, pelo menos do que me lembro de ouvir dizer em casa. E era ele que a conduzia quando ela ia levar os doces às pastelarias. Ela não tinha carta de condução, o que de resto era relativamente frequente, naquele tempo, entre mulheres. Mais tarde, ele teve aquilo a que sempre ouvi referir como 'trombose'. Ficou inválido. E ela, sem conduzir e sem o seu 'motorista', teve que deixar os seus bolinhos para vender. A minha mãe contava-me que ela tinha envelhecido muito. Até que foi um e, pouco depois, o outro. Ficou, para mim, apenas esta memória.
Mas adiante. Isto apenas veio a propósito. Assim, agora, quando vou bater à porta do youtube: nunca venho de lá de mãos a abanar.

Hoje, tinha este anúncio. Como todos os anúncios da AXE, este aqui abaixo é também obra. 



E esta fantástica compilação aqui em baixo. Até a nossa bela Sara Sampaio aqui aparece. 
Que publicidade bem engendrada, senhores...!


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As fotografias meio abstractas que usei a enfeitar o textúnculo, as que têm uma etérea esfera, mostram imagens de gelo e neve e, convenhamos, são tão bonitas que aqui até são mal empregadas.

Lá em cima, as bailarinhas fazem de pequenos cisnes do Lago dos Cisnes.

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terça-feira, janeiro 02, 2018

Na Era dos Algoritmos
mais um anúncio desenterrado para desviar a minha atenção do discurso presidencial


Ah, os algortitmozinhos... E se tanto eu gosto deles. 
E, podendo parecer que estou a ironizar, aviso já que não. Sou toda dada a modelos, a calculatórias, a algoritmos bem esgalhados. Não que agora pratique. Não. Coisa já algo distante, amor sobretudo já a atirar para o platónico. Mas, believe me, receio a inteligência artificial porque sei, sei mesmo, como se pode pôr a máquina a perceber a reação humana, a antecipar comportamentos, a tomar decisões. Riscos, riscos, riscos sobretudo neste mundo desregulado em que parlamentos em peso se perdem em estéreis discussões e passam ao lado do que verdadeiramente é relevante.
Mas adiante que, acabada de sair de um ano que, para perplexidade geral, não acabou em Junho, hoje não estou para temáticas puxadas, quanto mais repuxadas. Neste nosso país de muitos Portugais e em que, não desfazendo, tantos burros gostam de se armar em cavais, eu prefiro avançar por caminhos mais maneiritos, mais à medida do meu intelecto que é dos pequenitos.

Portanto, vim com esta dos algoritmos apenas porque acabei de constatar, uma vez mais, que tudo o que tem motor de busca regista as nossas pesquisas, as nossas preferências e tendências para depois, mesmo sem pedirmos nada, nos aparecer com coisas que, surpreendemente, vão mesmo com a nossa cara.

Se não estou com grande paciência para erudições, vou ao Youtube e aí está ele a propôr-me anúncios divertidos, compilações de partidas ou trambolhões. Outras vezes, se estou com a alma mais sensível, aparece-me com poemas, músicas que santificam à primeira audição; se estou para a maluqueira desbundada aparece-me com coisas que me obrigam a vê-las apenas pelo canto do olho, e isto depois de o vendar.

Hoje, por exemplo, sabendo-me com débeis capacidades de processamento, só me aparece com coisas como a do post abaixo ou como isto que agora, aqui abaixo, partilho convosco. Eu a ver se desarrinco uma dose extra de resiliência para me ir pôr ao corrente do discurso de Sua Umbilicalíssima Majestade e ele só a desencaminhar-me (ele, o perspicaz algoritmo).

O que já aqui me ri com coisas disparatadas...

Gostava de começar o ano com cenas inteligentes e profundas, dar uma de mulherzinha atilada, e está quieto. Só disto. O vídeo que vos mostro de seguida é coisa com uns dez anos e foi ele (ele, o algortimo) desencantá-lo só para me distrair dos meus nobres intentos.

Mas pronto, rendo-me. De resto, quem sabe?, capaz de valer mesmo mais a pena que o discurso de Santo Ubíquo do Intestino Recauchutado. Não desfazendo, claro.




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E queiram continuar a descer que há mais nesta base. Para além da minha postevisão sobre o não visto discurso de Ano Novo, inclui até um poema que Leitor me enviou a propósito do funcionamento do restaurado intestino presidencial.

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O discurso de Ano Novo de Marcelo.
[E nada de juízos precipitados...!]


A verdade é que depois de terem saído, já noite, fomos fazer uma breve caminhada. Desde que me tinha levantado até que chegaram, estive na cozinha, numa azáfama. À minha volta o meu marido ia-me ajudando, lavando a louça que eu ia sujando e invectivando-me por eu me meter a fazer sempre tantas coisas, algumas que, por serem feitas em várias etapas, dão muito trabalho. Mas a mim isso não incomoda: fazer muitas coisas ao mesmo tempo é, para mim, um prazer. No entanto, isso somado à agitação de muita gente, muito reboliço, muita atenção... resulta no de sempre: depois de termos chegado e depois de ir pôr a máquina a lavar roupa, mal me sentei no sofá adormeci. Mas adormeci profundamente. 

Claro está que não vi o discurso de Ano Novo do Marcelo. Podia depois ter rebobinado. Mas não sinto pena de ter perdido nem curiosidade em saber o que disse. Cansei-me da pessoa. Deve ter dito coisas acertadas mas irrelevantes à mistura com manifestações do mais puro populismo. E provavelmente muita coisa que não é certa nem errada, muita previsão vaga, muito aviso avulso, muitas afirmações que caem bem junto de ouvidos pouco exigentes mas que de concreto e pertinente têm muito pouco. E, tudo espremido, quase aposto que é pouco mais que nada. Tenho pena. O senhor está convalescente e acredito que seja genuinamente simpático e não é gentil da minha pare não usar da condescendência talvez por ele merecida... mas, fazer o quê?, cansei. Depois do período em que Marcelo andou, e bem, a fumigar o ambiente para o libertar de cavaquices, laparices e outros maus astrais que empestavam o ar que respirávamos, como que Marcelo perdeu relevância. Podia ser mais ponderado, reservar-se para coisas importantes, aparecer apenas quando a sua palavra fizesse a diferença.
Agora assim, a dar conferências de imprensa mal consegue fazer cocó*, a fazer selfies com qualquer um, a dar beijinhos a eito, a pronunciar-se sobre tudo e sobre nada, Marcelo começa a parecer aos olhos dos telespectadores o Emplastro Nº 2. 
Ainda me pareceu ver, depois de ter acordado, uma data de comentadores a opinarem sobre o acontecido mas o meu marido está que nem eu: sem paciência para o senhor e, menos ainda, para as réplicas, nomeadamente para os zinhos que logo aparecem a comentar tudo o que acontece. E, portanto, zapping. Passou para resumos desportivos e eu pus-me a ver os vídeos divertidos que o YouTube seleccionou para mim. 

Partilho convosco um a que achei graça e que, este sim, tem substrato -- nem tudo o que parece é e, portanto, nada de formar opiniões sem conhecer o contraditório.


E os livros com capas falsas...? Um déjà-vu mas, ainda assim, love it.


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* Do Leitor LS recebi novo poema, desta vez inspirado pelo mediático instestino do Senhor Presidente. Com vossa licença:


Mesmo que o humor se degrade rapidamente
Talvez tenha graça o "presente",
Por isso sigo em frente
Com este poema decadente.

É bom que o sentido de Estado não se ausente
Agora que está doente
Sua Excelência, O Presidente.

Muitos com ar pungente
Rogam ao Deus Omnipotente
Que lhe traga as melhoras num repente.

Assim, felizmente,
Estamos apenas suspensos de um pendente:
Que o intestino não se aguente
E para descanso de toda a gente,
Nos mostrem a poia ainda quente
De Sua Excelência, O Presidente.

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segunda-feira, janeiro 01, 2018

2 0 1 8





E já cá estamos. Eu aqui e você, Caro Leitor ou Cara Leitora, aí desse lado. Juntos. Em 2018, um ano que começa e que eu desejo que comece e continue e termine em beleza. 

O tempo vai, o tempo vem. 

No outro dia escrevi isso num comentário a um texto que muito me impressionou e o João L. lembrou-me que, para alguns, por vezes é tarde demais para recomeçar. Talvez. Aliás, sei que sim. Mas neste infinito devir, a vida acontece mesmo quando alguns não conseguem acompanhar o tempo que passa. Outros o farão. Alguém agarrará o testemunho e seguirá em frente. E isso é bom na mesma. 

Já o contei. Há aquilo de que verdadeira sabedoria é plantar uma árvore sabendo que jamais nos sentaremos à sua sombra. Todas as árvores que plantei, plantei supondo isso. Hoje estão frondosas, imensas, cheias de pássaros, plenas de vida. 

Deixar o legado. Pode ser uma árvore, pode ser apenas a sua sombra. Ou apenas a sua memória.

E continuarmos, seguirmos em frente, sempre. E haja alegria na jogada. E haja esperança. E despojamento: se não for para nós, que outros o aproveitem. Generosidade. 


Recebi o Ano Novo em festa. Música, brindes, beijos, fogo de artifício. Estas fotografias foram feitas há pouco. Quero sempre recebê-lo assim para que ele se dê bem comigo e com os que me são queridos.
Desta vez tomei uma resolução: até este ano, quando soavam as 12 badaladas que precediam a meia-noite, todos nos atirávamos aos bagos de uva. E era sempre um problema: sendo enormes os bagos, não conseguíamos degluti-los ao ritmo de 1 bago por segundo. Chegava a meia-noite e estava tudo de boca cheia num esforço para não nos babarmos. Este ano foi diferente: em vez de bagos frescos, usámos passas. Uvas velhas para nos despedirmos do ano velho. Foi limpinho. Doze passas, depois o brinde à meia-noite, desejos, beijinhos, etc. A seguir, para brindar ao ano novo, comemos então tranquilamente os doze bagos de uva fresca. Assim sim. 
Penso que o ano tem tudo para ser um bom ano. Estejamos nós disponíveis para detectar oportunidades, para acolhermos os imprevistos que tantas vezes encobrem boas surpresas, saibamos dar sempre o melhor de nós, saibamos aceitar as diferenças, saibamos descobrir o que de melhor nós e os outros temos para dar. Saibamos ouvir e respeitar o nosso corpo. Tratemo-lo bem. E tratemos bem quem nos quer bem.


E tudo, tudo de bom. Que 2018 seja para vocês, queridos Leitores, queridas Leitoras, um ano muito bom. E para mim e para os meus também. Saúde e felicidade para todos.

Enquanto eu puder estarei aqui. E muito feliz me sentiria se pudesse contar convosco também aí desse lado. Juntos. Por todos os motivos, seria um bom sinal. Juntos. Inteiros. Felizes da vida.

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E agora deixem que comece o ano com poesia portuguesa dita por quem a sabe dizer com a sobriedade que é devida às belas palavras

Luís Miguel Cintra diz poesia portuguesa


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Um bom 2018 para todos!

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