Há sempre aquilo, o lugar comum dos dois gumes. Está bem que não estava bem da cabeça quando cometeu o crime... mas o pobre coitado que foi assassinado...? E não pode haver um terceiro gume: o da possibilidade de voltar a acontecer?
Estes domínios, que me atraem -- e, não por acaso, a primeira hipótese de opção profissional quando tive que escolher um curso era a psiquiatria, depois não por causa dos mortos nas aulas de anatomia, depois psicologia, mas, afinal, não porque não sabia se era reconhecido como curso superior --. têm sobre mim o fascínio de tudo se passar dentro da cabeça, de não serem visíveis a olho nu e de ainda estarmos longe de perceber o funcionamento do nosso cérebro.
Já contei que, quando ia para as minhas reuniões a norte (porque, a sul, ia eu a conduzir), tentava ir de boleia e, muitas vezes com um colega e amigo com quem tinha muita confiança. Uma das coisas que eu gostava era de ouvi-lo a falar da prima que era doida-varrida. E, por umas três ou quatro vezes, apanhei, ao vivo, aquelas delirantes conversas. Ele levava o telemóvel em alta voz e não tinha segredos em relação a mim. Cheguei também a apanhar dessas conversas no gabinete dele. Acabava por sair porque eram intermináveis, ele pura e simplesmente não conseguia pôr um fim naquilo. Tudo começava com: 'Ligaste-me?', e dizia o nome dele. Ele dizia que não. Ela insistia: 'Apareceu-me aqui o teu número. Ligaste...'. Ele voltava ao mesmo: 'Não, não te liguei.'. Por fim, pedia-lhe ele: 'Mas, vá, diz lá o que queres.'. E aí a coisa começava a ganhar graça. Lembro-me de uma vez em que ela queria que ele assinasse um documento. Ele perguntava: 'Ah, sim? Mas que documento?'. E ela dizia que o banco dizia que ele tinha que assinar um documento a dar-lhe, a ela, autorização para movimentar a conta. Ele, já não estranhando nada daquilo: 'Eu? Mas a que propósito? A conta é tua. Eu não tenho nada a ver com a tua conta.'. E ela muito admirada: 'Ah não? Julgava que já te tinhas feito titular da minha conta...'. Ele piscava-me o olho e continuava a conversa: 'Eu? Mas então uma pessoa pode fazer-se titular da conta de outra pessoa...?'. Ela ficava em silêncio. Depois dizia: 'Mas tu e a Elita não combinaram fazer-se titulares da minha conta? Ela disse-me que sim.'. Ele fazia-me sinal de que a paranoia dela começava a manifestar-se e retorquia: 'Ah foi? Ela disse-te isso? Mas como é que fazíamos isso sem a tua permissão?'. Silêncio. Ele contra-atacava: 'Mas não foi o Banco que te pediu uma assinatura minha para eu te autorizar a ti a movimentares a tua conta?'. Silêncio dela. Depois, como se já estivesse cansada: 'Eu não estou é a perceber já nada desta conversa...'. Ele concordava: 'Pois, também me parece que essa conversa não tem grande sentido, não.'. Ela ficava em silêncio, ouvia-se a respiração. Depois voltava: 'Mas então tu e a Elita não se fizeram titulares da minha conta?'. Ele começava a agastar-se: 'Olha, não vais volta ao mesmo, pois não? E era só isso? Como pelos vistos estás a fazer confusão, vai lá esclarecer melhor. Eu agora não me dá jeito, estou no carro.'. Silêncio. Depois: 'Ah, estás a conduzir... Então vê lá... Tem cuidado. Mas olha, quando chegares, depois liga-me que é para combinarmos.'. E ele já farto: 'Mas combinarmos o quê?'. E ela: 'Então, vires assinar o documento que o banco pediu.'. Ele: 'Mau... Outra vez...?'. E ela, a suspirar: 'Já estás outra vez impaciente, não se pode falar contigo. Não vês que tenho que esclarecer isto? Julgas que não percebo que já estás a despachar-me?'............
E isto poderia durar quase a viagem inteira, ele a querer desligar e ela a prendê-lo, em loop.
Solteira, sem irmãos, sem pais, apenas com dois primos. Professora do ensino secundário, a maior parte do tempo de baixa, com vários surtos psicóticos, os vizinhos a chamarem a polícia com o barulho que ela fazia supostamente a matar bichos que a queriam atacar. Com duas casas muito bem situadas, requintadamente mobiladas, com obras de arte valiosas, tudo herança dos pais, supostamente com uma conta bancária recheada. Segundo o meu amigo, para entrar em casa dela só de luvas e máscaras. Não limpava as casas nem queria lá ninguém, sempre a achar que todos a queriam roubar. De facto, ele e a prima Elita já tinham falado com ela algumas vezes que era melhor ela ter acompanhamento médico, ter alguém em casa a ajudá-la, que seria mais seguro que alguém mais pudesse também ter acesso à conta, talvez um advogado para ela não desconfiar que eles, os primos, queriam roubá-la. Nunca quis nada. Por duas ou três vezes a polícia levou-a para o hospital e ela deu o contacto dos primos. Lá chegados, encontraram-na a simular uma lucidez que não lhe conheciam. Dizia-me ele: 'Os malucos parecíamos nós, eu e a minha prima Elita'. Dizia também que dela queriam era distância pois estava sempre a insinuar que eles a queriam roubar, tinha chegado a dizer que já tinha apresentado queixa deles.
Mas, dizia-me ele: 'Se a vir, não diz. Vê-se que não anda muito bem arranjada, mas parece assim uma senhora fina, uma aristocrata um pouco alternativa, e consegue manter uma conversa completamente normal, disfarça completamente'.
E tive uma que trabalhava numa das minhas equipas, e cheguei a falar aqui dela, que nunca foi boa da cabeça, mas que chegou a um ponto que começou a ser ameaçadora, os meus colegas já temiam pela minha segurança, já me diziam para eu ter cuidado com ela. Sempre que podia, punha-se virada para mim, a olhar-me fixamente, com ar ameaçador. Chegou a entrar-me no gabinete uma vez que fiquei sozinha naquele piso, a trabalhar até tarde. Quando lhe perguntei o que estava ali a fazer, fez um sorrisinho maligno: 'Não tenha medo, não vou fazer-lhe mal.' E ficou ali a olhar para mim. Mas, ao mesmo tempo, com as pessoas com quem não tinha interacção directa, fazia-se de muito querida, fazia bolos e bolachinhas para oferecer aos colegas, desfazia-se em mesuras com toda a gente. E, no entanto, a nível pessoal a sua vida era uma complicação. Por exemplo, empreendeu que o irmão queria roubar os pais, empreendeu que o irmão tinha feito com que os pais a prejudicassem a ela, apresentou queixa na esquadra contra o irmão, o que levou o pai a cortar relações com ela, engendrava coisas surreais para virar a mãe, já meio demente, contra o irmão. E, a nível profissional, cometeu erros gravíssimos pelos quais responsabilizou outras pessoas, promoveu campanhas de vitimização e, ao mesmo tempo, de culpabilização dos colegas. Nem sei. Conseguiu que todos os colegas directos se incompatibilizassem com ela e que em alguns locais proibissem a sua entrada. Para eu me ver livre dela foi o cabo dos trabalhos. Finalmente, por acharmos que era um caso social, conseguimos mantê-la mas em funções inócuas, em que, na prática, não tinha que interagir com ninguém (pois já toda a gente queria distância e alguns já tinham medo dela), nem havia risco de causar danos com os seus erros. Já eu não estava lá quando soube que a mãe tinha morrido e que, no dia seguinte, apareceu lá, cabelo pintado de uma cor arrojada, vestida de um colorido exuberante e que ria e contava piadas por todo o lado, sem ninguém saber como reagir perante tão insólita reacção.
Isto para dizer que muitas vezes se subestima o risco que pessoas assim podem representar para os outros. Num momento de paranoia, num surto psicótico, podem atacar alguém. Muitos dos que acabam a cometer crimes já antes tinham dado sinal de que a sua estabilidade mental e emocional não existia.
O episódio que aqui partilho é disso exemplo.
O homem que perdeu a liberdade antes de ir para prisão | Do Outro Lado
O psiquiatra Sérgio Saraiva lembra o momento em que um doente percebeu que tinha cometido um crime violento. O caso mostrou-lhe, na prática, como a doença mental grave pode anular a vontade própria.
Sem comentários:
Enviar um comentário