Desde sempre ouvi dizer que é preciso lutar ou que, se a cabeça quer, o corpo obedece, ou que é preciso ter calma. Mas, leiga que sou, sei lá se há fundamentação científica paa o que mais parecem lugares comuns.
O vídeo que abaixo partilho impressionou-me bastante, pela honestidade e pela vulnerabilidade do testemunho. Talvez também pela humildade. A vida é frágil. E essa é a nossa condição.
Qualquer um de nós estremece perante a possibilidade de uma doença, em especial se vier com veredicto associado, e o veredicto for assustador. Mas, creio eu, para um médico ainda talvez seja pior. Lembro-me de uma grande amiga que, quando jovem, com duas crianças muito pequenas, se viu perante um problema gigante. O marido, médico, hiperactivo, divertidíssimo, sempre cheio de ideias e de genica, um dia, do nada, caiu para o lado. Um aneurisma. Não morreu logo mas ficou sem se mexer, e foi uma coisa mesmo dramática, impensável. E muito triste. Ainda viveu algum tempo, tempos muito difíceis. A minha amiga dizia: Não vale a pena tentarmos animá-lo porque ele sabe o que tem, sabe o que o espera. Fecha os olhos, não quer ouvir, não quer que tentemos consolá-lo. Ele sabe que não vai viver muito mais.
Um neurocientista que tem um cancro raro e agressivo e uma curta expectativa de vida sofre como qualquer pessoa, ou talvez mais porque tem a objectividade da ciência a formatar-lhe as ideias. Mas David Linden diz que a sua atitude sempre foi a de um nerd, a de querer perceber tudo, querer entender a biologia daquelas células que, dentro dele, cresciam descontroladamente.
Primeiro veio a revolta, depois a gratidão pelo que já tinha vivido e pelo apoio que sentia. Mas, sempre, a vontade de estudar, de compreender.
E uma coisa de que ele fala é como, de facto, cientificamente provado, a mente pode influenciar a sobrevida, e a qualidade da sobrevida. Não morreu ao fim dos seis a oito meses. Já passaram cerca de cinco anos e, pelo que diz e pelo que parece, está bem, o cancro ainda está lá, mas aparentemente controlado. E atribui sobretudo ao amor da mulher por ele e ao apoio dos filhos e dos amigos o prolongamento da sua vida.
Mas não o diz como homem de fé. Não tem fé, diz. Fala numa perspectiva científica. Estudos humanos e ensaios em animais demonstram como o exercício, a tranquilidade, um bom enquadramento social, haver uma rede de afecto, influenciam a sobrevida dos doentes cardiológicos ou com cancro.
Ainda estão a estudar quais as reacções biológicas que se operam para que tal aconteça. E dessa compreensão estão a nascer novos tratamentos que complementam os existentes.
O vídeo é longo e, por vezes, a terminologia é técnica. Mas é muito interessante. Não é só o lado humano, é também a esperança que estes novos caminhos da mente --- a mente como um centro não apenas reactivo mas de elaboração de previsões e de activação de recursos para lidar com essas previsões -- traz a quem enfrenta situações de susto e sofrimento.
[Relembro que dá para activar as legendas automáticas em português (do Brasil ou de Portugal)]
Os fenómenos bizarros que a medicina se esforça por explicar | David Linden: Entrevista completa
O neurocientista David Linden esclarece a biologia por detrás de fenómenos que a medicina há muito luta por explicar, desde as mortes associadas ao vudu e a síndrome do coração partido até ao efeito placebo, e porque é que o luto aparece nos resultados das autópsias.
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