Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, junho 06, 2017

Opostos




Depois de um dia algo preenchido, já tarde, chego a casa, e, a seguir a um jantar ligeiro e a alguns afazeres domésticos, aterro neste sofá que é quase o meu ninho. 

Não me apetece falar do terrorismo que sentimos que vem chegando mais perto, não se restringindo aos lugares em que mal damos por ele (indiferentes ao facto de que é gente igual a nós que vai pelos ares ou que vive em situações de terror que não suportaríamos) para vir manchar as ruas por onde já andámos ou onde por onde andam pessoas nossas conhecidas. Não me apetece. De gente maluca quero é distância e tenho para mim que de tarados destes não se deveria fazer grande propaganda.

Portanto, fecho os olhos às notícias de primeira página. Desloco-me para outras paragens.


Vi algumas notícias que despertaram o meu interesse, nomeadamente as que referem que um certo tipo de medicação combinada está a trazer bons resultados no combate contra o cancro. Gostava de ser capaz de falar sobre o tema mas não gosto de falar sobre o que não sei e, sendo este um assunto sério demais, não me arrisco a dizer disparates. Deixo os links a quem possa interessar:


Next-generation cancer drugs boost immunotherapy responses

-- Early clinical trial data suggest that combining medicines improves treatment. --

e

Prostate cancer trial stuns researchers: 'It's a once in a career feeling'

-- Study with ‘powerful results’ finds that combining two existing therapies could extend the life of men with advanced, high-risk prostate cancer by 37% --


Tomara que sim e tomara que o que se provar que é remédio santo chegue a tempo de atalhar o mal a quem ande aflito, sentindo o horror da ameaça invisível que mina, por dentro, quem tem a pouca sorte de ser vítima deste mal desgraçado. Pelo menos, do que leio, é uma esperança muito concreta.

Mas, portanto, não sendo matéria na qual eu saiba pegar com precisão, sigo em frente.


E ocorreu-me, então, falar do tal lugar especial onde fui no outro dia, um lugar transparente num bom local de Lisboa.

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Contudo, com a preguiça que me chega mal me refastelo aqui, antes de deitar as mãos ao teclado, fui de veraneio por alguns dos blogues que nunca perco. 

E eis que, num deles, me chega um daqueles textos que nos agarra quase à bruta. O lenhador que se fez ao mar atira mágoas à pá cheia, chora afectos não expressos, com as mãos fortes e rudes de quem delas faz bom uso escreve palavras ásperas, pisa flores, fotografa lonjuras, despede-se de quem um dia viu no berço.


E, lendo a sua escrita despida fico, de repente, sem vontade de prosseguir na minha escrita. Escreve ele com sentimento quando o coração lho pede, sobre o acontecimento. Dilacerado, ele usa as palavras com a firmeza de quem sabe domar as emoções, de quem sabe controlar-se e seguir em frente. Somos tão diferentes uns dos outros.  Tão diferente de mim que, quando tenho amarguras na alma, as disfarço e por aqui me entretenho falando de doces ou travessuras, rindo ou ficcionando.

E, portanto, depois de ler deste texto arrancado da carne, sinto que tudo o que eu possa escrever me parecerá frívolo, inútil, imediatamente descartável.

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Tenho estado a ouvir Philippe Jaroussky enquanto vejo pinturas de Vermeer. 

(Não sei porquê Vermeer, mas foi o que me apeteceu. Talvez por ser o oposto do que vou escrever, tal como o que vou escrever é o oposto do texto acima referido e que tanto me impressionou)

Hesito. Ou me fico por aqui, despeço-me e vou ler -- ou regresso à minha pobre coitada triste ideia e continuo a escrever.

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Com as vossas desculpas, eu escreverei e fá-lo-ei mais pelo gosto de estar a escrever do que pela nenhuma importância do que vai ser dito. Relevem, pois, por favor, a irrelevância do que vão ler.

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Como vos referi antes, tive no outro dia um compromisso numa conhecida torre de Lisboa. Conhecia-a de passar por lá perto – aliás, grande como é, vê-se bem das redondezas – mas não sabia como, a partir de uma das conhecidas artérias da cidade, se entrava para lá. Coloquei o gps e percorrendo algumas ruas, algumas bem intrincadas, por onde nunca tinha passado, e no meio de instruções algo equívocas da menina que me guia (‘aos 20 metros vire ligeiramente à esquerda’ e eu com duas ruas a virarem ligeiramente à esquerda; ou ‘agora continue em frente’ e eu com três ruas à frente, etc) lá fui dar. Coloquei o carro no parque do edifício e de lá subi ao piso para onde me devia dirigir.


Estar num local assim é, em si, uma experiência. Ia dizer uma experiência de vida mas claro que isso é estupidamente excessivo. O que sei dizer é que é uma sensação agradável estar num local como este. Tudo envidraçado, visibilidade a toda a volta, uma sensação de quase levitação. Materiais notoriamente de boa qualidade, bom gosto nas escolhas. Depois, dentro do sítio onde propriamente me dirigi, um requinte de decoração. E uma simpatia no atendimento. Mas uma simpatia afável, natural, sem aquele toque de afectação que por vezes se encontra nestes locais. Num outro onde vou com alguma frequência, a pessoa que vem receber-me e levar-me à sala de reuniões parece uma viscondessa ao pé de mim que, inevitavelmente, ao pé dela, me sinto quase uma sopeira (sem ofensa para as sopeiras). Mas neste tal sítio não. Há jovialidade e mesmo um toque de informalidade que nos faz sentir muito à vontade. 

A pessoa com quem eu ia encontrar-me veio esperar-me, uma simpatia. Tudo decorreu muito bem, tudo muito terra a terra mas com naturalidade, com risos frequentes.


Quando saí, no elevador, encontrei uma conhecida actriz de telenovela, elegante, vistosa, loura, bronzeada, e toda ela se sorriu, simpaticamente dando-me os bons dias. Noutro piso entrou uma mulher muito alta, muito loura, muito bonita, com um vestido muito curto de crochet branco, toda ela transparência, com umas botinhas de pele clara. Parecia a Bo Dereck nos seus tempos áureos. Simpática também. Reparei que tinha o lábio superior levemente tumefacto e que sorria com algum comedimento. Provavelmente teria um botox recente. E eu, no elevador, nada bronzeada, vestida banalmente, entre aquelas duas beldades -- que pareciam saídas de Hollywood e a caminho de um spa ou de uma vernissage, nem sei, tanta a frescura e leveza que lhes senti – tentei não me sentir deslavada, apesar de saber que não poderia negar que trazia colada à pele a imagem de uma monotonia confrangedora, tendo que ir trabalhar para um escritório, levando uma vida banal, desprovida de glamour. 

Não sei se por isso, se por já ter alguma fome ou o quê, não sei que sinal de trânsito é que é que não vi que, tentando sair das ruas envolventes do edifício, me vi em sentido proibido sem espaço para inversão e com carros que não paravam de vir em sentido contrário. Depois de a muito custo me conseguir realinhar com o sentido do trânsito, não conseguia perceber como sair dali para voltar a entrar na avenida. Enfim, depois de algumas voltas, lá consegui lá chegar mas no sentido oposto àquele para onde queria ir e sem possibilidade de inversão. Tive que andar uns quilómetros para chegar a uma rotunda onde consegui finalmente pôr-me no sentido pretendido. 


Quando já reinstalada no meu poiso, pouco depois já estava a receber por mail um relatório relativo ao tema que lá me tinha levado e um pouco depois já estava a receber uma chamada de outra pessoa para combinarmos um próximo encontro. Uma eficiência elegante, compaginável com a distinção e modernidade do local onde tinha estado.

Já lá voltei. Desta vez consegui lá chegar com alguma facilidade. Enquanto esperava pelo elevador, no parque subterrâneo, chegou uma outra mulher. Olhei-a e foi uma daquelas situações em que uma pessoa quer ver mas sem ser apanhada a olhar. Corpinho delgado, sem uma gordura que se percebesse. Anca estreita, seios pequenos. Um vestido de renda em azul alfazema. Renda forrada dos seios até á orla da saia, ligeiramente acima do joelho. Vestido justo de manga curta, um cinto fino na cintura. Saltos altos, uma carteira linda. Toda ela uma elegância aterradora. Um cabelo impecavelmente penteado, o rosto maquilhado mas com suavidade. Parecia uma boneca, linda, elegantíssima. Uma vez mais me interroguei: mas para onde vão e de onde vêm estas mulheres tão bonitas, tão bem arranjadas? Quando íamos no elevador, ela sem me ver e eu a desejar-me invisível, sentindo-me em estado quase selvagem, imprópria para frequentar lugares daqueles.


Depois, o meu compromisso: outra vez um momento agradável, como se estivesse a experimentar um bocado de tempo numa civilização mais à frente.

Não é que o país não esteja todo ele mais moderno, mais elegante e simpático. Está. Não é apenas Lisboa que está uma formosura, é todo o país. Quando dou os meus passeios pelo país o que vejo são terras bem arranjadas, gente simpática, tudo acolhedor. 

Mas, ainda assim, há locais que se distinguem. Relativamente habituada a frequentar locais com alguma sofisticação devo dizer que, das duas vezes, saí deste de que estou a falar com a sensação de ter estado algures numa outra galáxia, onde tudo se aproxima da perfeição – até as pessoas que o frequentam, com excepção desta vossa humilda serva.


Como daqui por algum tempo lá vou voltar, a tentação é fazer uma reportagem para vos mostrar -- mas não sei se será inconveniente tirar fotografias. O melhor é não fazer isso senão ainda sai da parede algum segurança para me levar para alguma masmorra (transparente, requintada, intergaláctica) onde, para meu castigo, me põem a ver desfilar as mulheres belas e irreais que sabem comportar-se em lugares daqueles, para eu perceber que, enquanto não lhes passar dos calcanhares, não poderei lá voltar a pôr os pés.

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E agora é que já chega. 
Saíu um post em que nada tem a ver com nada. E nada a fazer.

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Dias felizes a todos quantos por aqui passam.

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