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sexta-feira, setembro 01, 2017

Notícias do paraíso


Afinal a mamã gata branca não tem apenas o bebé gatinho branco. Já antes tinha visto dois gatinhos cinzentos mas deixei de ver, pensei que não tivessem resistido. Só via o branquinho que anda perto de nós, mia baixinho a chamar-nos. 




Nunca tive um gato. Não sei interagir. Não sei se é suposto chegar-me mesmo ao pé, pegar-lhe ao colo, enchê-lo de beijinhos como fazia com a minha cãzinha. Com o bebé gatinho falo, vou perto, fotografo, mas não sinto intimidade para lhe chegar a mão. Apesar de bebé, tenho medo que se assanhe ou que apareça a mamã gata e me salte para cima. Quando o meu filho namorava, volta e meia estava sentado na sala com a namorada e saltava-lhe o gato dela em cima, um gato endemoninhado que parecia querer dar cabo dele. Só de imaginar isso, ficava aterrada, nem queria que ele me contasse.

Agora sempre que sobra peixe ou batatas ou coisa assim vou pôr lá numa curva do caminho. Os meus filhos acham isso uma coisa infra-urbana, a bem dizer, uma porcaria. Não quero saber. O meu filho diz que tenha eu cuidado não vá tornar-me como uma velha lá da rua dele que anda a dar de comer aos gatos. E eu lembro-me daquela castiça que anda pelo Ginjal a atafulhá-los de esparguete e comida enlatada, quase se zangando com os pobres bichos quando não acorrem à chamada dela. Não quero esse futuro para mim mas a verdade é que fico a pensar no que terão aqueles pobres bichinhos para comer nestes dias de calor e secura. Se comessem figos secos estavam garantidos, que, por baixo das figueiras, está tudo cheio de figos secos. Mas duvido que os gatos comam figos. E não faço ideia de onde arranjam água. No outro dia, quando cá estiveram todos, comprei duas embalagens de ovos de codorniz para servir cozidos, temperados, e agora uso as embalagens para pôr água mas com o vento aquilo nunca se aguenta direito. Não quero pôr um recipiente mais alto não vá o gatinho desequilibrar-se e ainda dar um mergulho. Tenho que ver se arranjo outra coisa. A ver se descubro para aí o prato de um vaso.


Mas, então, dizia eu que afinal há outro bebé. É branco com manchas pretas, parece uma vaquinha. Só o vi uma vez e pareceu-me mais forte que o branquinho. Não tinha a máquina, não pude fotografá-lo. Não sei onde se mete para nunca o ver. Nem a ele nem à mãe gata. O meu marido diz que hoje, muito cedo, viu a gata com o gatinho branco. 

Mas o que se passa aqui na quinta é um mistério. E digo isto porque o vizinho lá da ponta da rua, aquele que tem cavalos, agora tem também um burro adulto e um burro bebé. E lá para baixo tem o que ele chama a fazenda, onde tem vacas e um rebanho. E ele contou ao meu marido que a burra (afinal é uma burra, não um burro) lhe é muito útil a ajudar a guardar as ovelhas pois afasta os outros bichos, que, por exemplo, não deixa as raposas chegar perto. E eu pasmei. Raposas? Mas há raposas por aqui? Nunca tal me passaria pela cabeça.

Só surpresas. Na volta, um dia vou a fazer a minha caminhada e salta-me um javali ao caminho. 

A verdade é que a maior parte do tempo não vejo nem a gata nem os gatinhos; dir-se-ia que, por aqui, não há gatos. Portanto, se há gatos e coelhos e eu quase não os vejo, porque não raposas, javalis, homens-aranhas, fadas do bosque...?

Mais prosaicamente. Tenho sempre a ideia de ter aqui cabrinhas. Gosto das cabrinhas selvagens. Se calhar davam-nos conta do mato. Mas o meu marido diz que se calhar comiam o mato e tudo o resto. E tenho medo que adoeçam ou que fiquem idosas. Que faríamos nós com cabrinhas débeis ou infelizes? Mas de cabrinhas eu gostava. Mas também não sei se deixariam que eu lhes fizesse festinhas. Mas, claro, mesmo que não pudesse fazer-lhes festinhas talvez pudesse falar com elas. Acho as cabras bichos inteligentes, com verdadeira filosofia de vida.


Outra coisa. Não sei se já contei que há aqui uma gruta pequena e que acho que é aí que vivem os gatos. Há uma outra que acho que é a casa principal dos coelhos. Mas há também uma gruta grande. Mesmo grande. Não sei quão grande. Nunca a explorámos. Nunca deixei que os meus filhos lá se enfiassem. E felizmente cresceu-lhe vegetação à frente pelo que os pimentinhas nem dão por ela. E já lhes meti medo, digo que aquilo ali é uma coisa escura e cheia de bichos. Que nunca lhes passe sequer pela cabeça espreitar. tenho medo de derrocadas. Ou de monstros. Sei lá. Não faço ideia onde irá dar. Em tempos um senhor da terra disse que era comprida, que passava por baixo da estrada. Uma vez contei a um colega que tinha uma gruta. Ele disse-me que me deixasse ficar mas é calada não fosse ainda alguém descobrir para lá algumas gravuras rupestres ou tesouros e ficarmos tramados, expropriarem-nos isto, uma coisa na base da expulsão do paraíso. Portanto, estou caladinha com a gruta. Não sei se aquilo está vazio, se cheio de bicharada, se vai dar ao lado de lá do mundo, se quê. Na volta ainda por lá vivem dinossauros. Ou imagine-se que, toda afoita, me aventuro e, no meio da escuridão, aponto a lanterna e dou com um coelho com cara de pedro passos. Horror...

Tirando isso, o que tenho a reportar é que o algoritmo do youtube continua a surpreender-me. Hoje trazia-me vários vídeos de coming out. Raparigas, rapazes, gémeos. De tudo. Alguns são verdadeiros tutoriais. Na volta o Youtube acha que está na hora de eu sair do armário. Já viram isto? Ou, então, quer que eu divulgue esses vídeos pois podem ser úteis a alguém. Mas não vou divulgar. Não é por nada mas é que acho que são chatos. Quem quiser que pesquise. Basta escrever 'coming out'.

Depois uns quantos da série primeiro beijo. A estes acho sempre graça. Parece uma coisa despropositada esta de uma pessoa se pôr em frente a um desconhecido com a incumbência de o beijar. Mas a verdade é que, do que se vê, parece que corre sempre bem. Mas eu sou niquenta. Se me aparecesse uma mulher não dava. Só se fosse mesmo na base do selinho. Beijo de língua nem pensar. Mas se me aparecesse um sujeito com ar de vampiro...? Ui. Medo. Ou um mal cheiroso. Ou um sujeito com ar de picuinhas, esquisitinho, apertadinho. Ná... Mas isto não é só coisa de um, para beijar, tal como no tango, tem que haver dois. Eu também não dava grande coisa por este aqui abaixo e afinal parece que até leva um certo jeito. São napolitanos, é certo, e isso é relevante. Mas a verdade, por isto ou por aquilo, é que não se armaram em esquisitos e dar uma hipótese, muitas vezes, é meio caminho andado.. 


Também me aparecem vídeos que não acaba de Arvo Pärt. Entrevistas, músicas, ele a tocar. Maravilhoso. Mas não vou pôr agora aqui. Este post está muito ruidoso e Arvo Pärt requer silêncio.

E Tom Waits mas, para isso, não é preciso grande inteligência. Gosto confessamente dele. Gosto sempre. Está lá em cima a acompanhar-me com a sua voz de bad boy.

E bailado. Muitos vídeos de ópera ou bailado. Hoje trazia-me várias Carmens. Um vídeo tinha um best of para poder comparar diversas interpretações.

Mas, no meio, apareceu-me um que me pareceu uma bizarria. Céline Dion. Pensei. Pleeease... completamente ao lado... daahhhh.... Mas, por via das dúvidas, espreitei para perceber qual era a do algoritmo para, no meio daqueles vídeos operáticos ou de bailado, me pespegar ali a Céline Dion. Pensei: no melhor pano cai a nódoa. Uma gaffe. Paciência. Mas deixa cá ver. 

E, depois de ver, percebi: é inesperado. Esta não é a Céline Dion que eu tinha em mente. Tem graça, sim senhor. Por isso, aqui está.


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E ao anoitecer tirei umas fotografias malucas à lua (que já está para além de meia-lua). Mas agora estou com preguiça de as ir buscar e, por isso, despeço-me com a lua de há dois dias.


Um dia muito bom a si que aí está a aturar a minha pancada.

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