Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, setembro 22, 2017

Claro que tenho que amar de paixão este homem





Não posso dizer que é um amor exclusivo. Não é. Não sou dada a isso. A um é pelo sorriso, a outro pela voz, a outro pela graça, a outro pelo físico, a outro pelo temperamento e sensibilidade, a outro pela insolência, a outro pela inteligência, a outro pela jovialidade, a outro pela patine. Claro que um ou outro quase faz o pleno e esses são merecedores de lugar no pódio.
E há um que não está em competição e que não entra cá nessas coisas de pódios e nestas conversas e que, de resto, acabou de ser avisado que eu ia escrever isto (e teve a reacção do costume: 'maluquices'). 
Mas, enfim, isto para dizer que lá por eu isto e aquilo, isso não quer dizer que o meu coração esteja fechado para os apelos que me chegam a toda a hora.

Mas também que não se pense que sou volúvel. Não, isso não. Sou toda dada a fidelidadades. Cá à minha maneira, bem entendido. Talvez deva antes dizer amores duradouros. Se gosto mesmo, gosto forever. Desculpo o resto e foco-me naquilo de que gosto. Sou muito focada, quero eu dizer.
Essa é a verdadeira explicação para me manter casada há mil anos com a mesma pessoa. Ignoro aquilo que não me agrada e embeiço-me com aquilo de que gosto. E vivo feliz. 
E deste outro que aqui hoje me trouxe também gosto desde que o conheci. Acho que pela voz. Ou por parecer um pouco esquivo. Ou por parecer que tem uma alma cheia de subtilezas. Ou por tudo, porque quando a gente gosta arranja sempre mais motivos para gostar.

Mas já cá volto para aprofundar.


Agora um apontamento sobre outra temática. Casas. Sou muito sensível a casas. Invado os espaços que habito, diz o meu marido. Sei que sim. Como um bicho que atapeta a toca, assim eu. Fiz tapetes, escolho almofadas, pinto quadros, descubro peças, milhares de livros, molduras, santos, espelhos, cadeiras e cadeirinhas, candeeiros, mesas e mesinhas, relógios e ampulhetas. Por todo o lado se vê a minha marca. Sei disso. Se vou ou vejo uma casa escura, mal arranjada, tudo sorumbático e mal jeitoso, mal pouso os olhos já eu estou a pensar que dali tirava aquilo, naquele espaço punha aquilo. E penso de acordo com o que penso ser o orçamento adequado. Tanto imagino decorações de alto coturno como na base da barateza. Tanto faz. Uma divisão grande quase vazia, paredes vazias ou com uns quadrecos quase junto ao tecto, móveis escuros ao pé de sofás escuros, portas de madeira escura, tudo escuro -- isso para mim seria mortal. Se tenho que estar em tal tumba só penso que não vejo a hora de apanhar ar fresco. Mas o contrário também me atrofia. No outro dia estivemos em casa de um casal das nossas relações e viémos de lá quase doentes. Uma moradia térrea enorme com uma cave do tamanho do piso. Cada divisão, enorme, estava cheia como um ovo. Uma coisa aterradora. Móveis bons, mas muitos, demais, mesas, camilhas, cadeiras e cadeirões, sofás e chaises longues, aparadores, escrivaninhas, estantes, vitrinas, um excesso que quase tornava o ambiente irrespirável, Na cave a zona das pistas, a zona dos relógios, a zona dos vinhos, a zona dos móveis velhos, a zona das ferramentas, a zona já nem sei de quê. Víamos aquilo e já nem pronununciávamos palavra. Nunca tínhamos visto tanta coisa, tanta, tanta, tanta. Um exagero. Assim não gosto. Gosto é de harmonia, elegância, luz, cor, tranquilidade.


Mas, agora que já fiz o supra intróito ao tema decorativo, volto ao dos homens -- mas agora postos em contexto. Um homem na sua casa. 

Por exemplo. Vamos supor que achava graça a um homem, uma graça mesmo de verdade e que um dia o via em casa. Imagine-se que era uma casa pirosa, descuidada, com pormenores de puro desmazelo ou mau gosto. Acabava logo ali. Logo.


Mas, então, portanto, ia eu dizendo.

Já não sei quando e onde foi que o vi a primeira vez. Se calhar foi no Apolo 70. Ele era o tenente francês e Meryl Streep a sua amante. E o que eram no filme trespassava para a vida real -- salvo seja. E eu, vendo-o, apaixonei-me logo ali por ele.

Se calhar não foi no Apolo 70, tenho agora ideia que deve ter sido no S. Jorge. A voz dele a invadir a sala e a vir alojar-se no meu coração.
(Tenho muitos recantos no meu coração, como já perceberam. À minha mãe é que ouvi dizer: 'no coração de uma mulher cabe sempre mais um'. Penso que o original deve ser 'de uma mãe' e referir-se a filhos. Mas a minha mãe, e bem, generalizou)

Depois, de vez em quando, via-o. Sempre aquela voz profunda, o corpo esguio e vibrante, aqueles olhos mal dormidos, aquela vontade de amar.

Revisitar o passado em Brideshead. A saudade, a melancolia, o afecto. A estética. Charles e Sebastien. Veneza.


Em Damage. Relações Proibidas. O amante da namorada do filho. Ela, Juliette Binoche. Um filme que retrata o desejo extremo, interdito até ao limite. E sempre aquele corpo que é um mero suporte para uma alma e para uma voz que se movem nas profundezas que existem logo abaixo da textura da pele.


Apenas três exemplos. Lembro-me de vários outros mas não quero maçar-vos com os meus gostos que, nestas coisas, gostos não se discutem.

Pois bem. Deste homem de que tanto gosto soube agora mais uma coisa. A cereja que faltava em cima do bolo.

Conto: parece que Jeremy Irons andava a sentir uma crise de criatividade. Viu um castelo abandonado no meio da água e teve vontade de o restaurar e dele fazer a sua casa. Foi uma obra de uma vida. 

How Jeremy Irons Rescued and Restored a 15th-Century Irish Castle.

In the midst of a creative crisis, the British actor impulsively purchased Kilcoe Castle, a long-abandoned fortress near the water. David Kamp learns how a magical retreat came to be.


[From left, the castle before Irons began restoration, 1997; renovations in progress, 2001; a roof over his head, 1999.]

Pois, pois, é para quem pode -- dirão os cépticos. Pois, pois, direi eu, que há quem, com dinheiro, se enfie num apartamento forrado a ouro enquanto o Jeremy fez um milagre. E eu, que não aprecio os feitos das santas milagreiras, toda me derreto com as graças dos pecadores dads a milagres como este que aqui vos mostro.


Podem ler um artigo interessante sobre o tema na Vanity Fair mas, para os mais apressados, deixo aqui um excerto. 
Irons, I learned after two days at his side, is a man serenely comfortable in his own skin. He speaks without inhibition and does whatever he feels like doing, whether it’s sailing his yawl, the Willing Lass, heedlessly through the stiff gales of Roaringwater Bay, driving the local roads in his pony trap (his preferred, Anglo-Irish term for a horse-drawn carriage), or interrupting his houseguests’ sleep with theatrical wake-up announcements delivered through the intercom system that he rigged up to reach all the rooms in the castle. At the time of my visit, he had two friends staying over, both women. “Good morning, ladies!,” he intoned through the intercom, his plummy Jeremy Irons voice echoing throughout the ancient building. “It’s a lovely day. The sky is dry; the wind is low. Please come down to the smell of burning toast.”
After we had finished eating, Irons asked his guests to gather around in the conversation pit, where Gavin played a couple of songs and told a few groaners. Irons jumped in to tell a few of his own. Collins stood up, pre-emptively apologized for his singing voice, and delivered a heartfelt a cappella version of “The Banks of My Own Lovely Lee,” Cork’s de facto county anthem. Even the slight, shy Whooley performed a set piece, a from-memory recitation of “The Priest’s Leap,” a 74-line Irish-nationalist poem held dear in Cork, about a defiant cleric who, on horseback, miraculously evades a pursuing battalion of nefarious English soldiers. Irons, in his flowing robe, took it all in mirthfully, having evidently banished forever the cold, passionless Anglo-Saxon part of himself.
Outside, it was a stormy night, with lashing rain and flattening winds. But you wouldn’t have known this inside Kilcoe, where the fire crackled, the hum of conversation drowned out the gusts, and the towers didn’t even sway. “There’s something about the castle that generates the most extraordinary energy,” Irons said to me. “Everybody stays up ‘til three, four in the morning—talking, listening to music, drinking. You just want to go on, go on. It takes a bit of getting used to, this place. Because it does somehow produce an energy. Have you felt it?”

Leio o artigo e vejo as fotografias e penso que com este homem e a sua casa eu construiria um romance. E talvez do romance fizesse um filme. E nesse filme bastaria ele e a sua casa, e a sua voz, e o silêncio, o ladrar alegre do cão ou o rumor das águas.




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E uma sexta-feira feliz a todos quantos por aqui me acompanham.

E obrigada pela vossa presença aí desse lado.

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