Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, junho 11, 2017

In heaven, entre pequenos lobos, longe do Parque e com os primos da Princesa Margaret





Por incrível que possa parecer, este ano ainda não fui à Feira do Livro. 

Durante a semana é o que é e ao fim de semana zarpamos para o campo e a maltinha toda cá connosco. A casa cheia, uma alegria em permanência tanta a brincadeira, os jogos de futebol, as mangueiradas, todos a varrerem e a apanharem folhas secas, a mesa curta para tanta gente, nós sem sabermos bem o que comem, a estimarmos por cima, e, no fim do dia, espantados por ter sobrado tão pouco, que comem cada vez mais, senhores (e rimo-nos, satisfeitos por vê-los assim, lobinhos esfomeados e cheios de vida, a crescerem a olhos vistos). Por exemplo, o pão. O meu marido de manhã estava na dúvida sobre a quantidade de pão. Eu disse: para aí umas oito ou dez bolas. Eu não como, um miúdo sozinho não come uma bola daquelas, é um grande pão, e os crescidos pouco pão comem, acho eu. Oito ou dez é à vontade. Ele disse: Pode ser pouco. Mas é uma chatice porque se não lhes dá para comer pão, fica aí pão para um mês. Mas no mínimo doze. Afinal, por via das dúvidas, trouxe dezasseis. Achei um exagero, umas saconas enormes cheias de pão. Disse-me que dava já para domingo. Eu não como pão mas ele come. Agora que saíram todos, já jantarados, ao arrumarmos a cozinha, diz ele: Sobraram cinco bolas. Estás a ver, se tenho comprado só oito ou dez?


É verdade. Uma pessoa já tem dificuldade em avaliar. De manhã, chegámos carregados com sacos do supermercado. O frigorífico ficou cheio. Agora está quase limpo. Fico contente. Gosto de vê-los a comerem de gosto. Para o almoço trouxémos peixe, douradas grandes e, em especial para mim, carapaus (gosto muito de carapaus, em especial dos grandinhos), que o meu filho assou lá fora. Quando, antes, tinha perguntado o que queriam para o almoço, a resposta foi a habitual: 'Qualquer coisa. Nada de complicações. Peixe, batatas, salada.'. Fiz também legumes (feijão verde, brócolos, cenouras) e, em vez de apenas batatas simples, também batata doce. E salada de tomate e alface.

Mas, estava o meu filho a assar o peixe, entra o mais pequeno (mais pequeno, não incluindo o bebé, claro): Há tremoços? E eu: Não... Lá foi dizer ao pai que não. Passado um bocado, aparece de novo: O pai diz que já podes dar o chouriço para ele assar. E eu, desolada, Oh amor, não trouxe chouriço.... Lá foi. Passado um bocado, apareceu, foi ao frigorífico buscar uma mini para o pai e disse: E azeitonas, também não tens...?.  E eu, infeliz, que não. Só pãozinho com manteiga. Sempre isto, que eu não complique, que me limite ao básico e, no fim, querem sempre o que não há...

Mas o peixe estava bom, no ponto, e as batatas e os legumes e a salada e a fruta, bem boas. Ao lanche iogurtes, fruta, pão com queijo, sumo. E, para o jantar, caracóis, salada de polvo, tortilha à espanhola, salada de atum com feijão frade, queijo fresco e, lá está, também pãozinho. E fruta. 

Por enquanto, o bebé partilha o convívio apenas indirectamente, já que ainda não se senta à mesa, não joga futebol ou toca guitarra. Sempre na maior, gordinho e sorridente, de colo em colo, sempre feliz com a animação, dá aos pézinhos e aos bracinhos, ri e palra enquanto olha para irmãos e primos. Lá fora, anda de boné, lindo e fofinho. Ainda não pode apanhar sol. Fez quatro meses agorinha mesmo. Depois, dá-lhe o sono e dorme belas sestas de que acorda para mamar até deitar por fora. Os mais crescidos, volta e meia aproximam-se, dão uma vista de olhos, de vez em quando beijam-no e prosseguem a brincadeira.

A mana tinha trazido caderno e livros para fazer os trabalhos de casa e preparar-se para os testes. Temperamental que nem a avozinha quando tinha a idade dela, a coisa facilmente derrapa para a zanga. Escrevi uma história em três linhas onde se dizia que 'a Princesa Margaret tinha ido ao circo com a mãe e com os primos. O cão Quicas também tinha querido ir mas não o deixaram. Por isso, ele foi às escondidas'.  Ela leu. Depois as perguntas de interpretação. Numa delas, escrevi: Com quem é que a princesa Margaret foi ao circo? Ela escreveu: A princesa Margaret foi ao circo com a sua mãe e com o seu cão. Eu disse: A resposta está incompleta. Ela cruzou os braços à frente do peito e disse: Não está nada. Eu disse: Lê outra vez a história. Ela recusou-se. Disse-lhe: Então deixa. Vou fazer outra pergunta. Ela aceitou de bom grado. Escrevi: Os primos da princesa Margaret são invisíveis? Ela leu a pergunta e, no fim, furiosa, pousou o caderno e arrumou o lápis, dizendo: Não faz sentido! E levantou-se, agastada.

O meu filho disse: Não é assim que se consegue alguma coisa dela. Foste provocá-la dessa maneira...


Tem 6 anos, anda no 1º ano, é excelente aluna - mas uma força da natureza que não se dobra com facilidade. Tirando isso, é uma doce, meiga, coquette, uma capacidade de apreensão e uma memória estonteantes.

Mas, portanto, para dizer que, com tudo isto, não tenho tempo e, verdade seja dita, também ainda não senti verdadeira motivação para ir à Feira do Livro. Tanta tralha vendida como se fosse livro, tanta barafunda, anúncios aos microfones como uma feira de diversões. aquele número que me parece sempre meio triste de alguns autores ali ao abandono. Não sei. Devia ser capaz de lá ir um dia de semana mais à noitinha mas não sei. O excesso cansa-me um bocado, parece que fico sem muita paciência para andar a garimpar no meio daquele pechisbeque. Dantes, long, long ago, passava primeiro por lá para as primeiras oportunidades e para recolher catálogos. Depois, em casa, fazia uma selecção. Depois voltava com uma lista, pavilhão a pavilhão,  e regressava carregada de sacos. Agora já não me dá para fazer nada disso. Mas, enfim, a ver se, antes de acabar, lá dou uma saltada. Parece que, se não for, estarei a trair este meu amr aos livros.

Enfim. Entretanto, o sono está a chegar e ainda quero ir ali espreitar o Versailles na 1, antes que acabe. Portanto, para já é isto e pode ser que, daqui a nada, ainda cá volte. Não é que tenha alguma coisa de escaldante para dizer mas, enfim, parece que estou com vontade de escrever mais.

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Um feliz dia de domingo

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