Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, janeiro 02, 2015

A questão de saber se os tomatinhos ficaram ou não bem lavados e outras peripécias e alegrias nesta minha entrada em 2015.


O mais crescido estava a tomar banho mas dizia que a água estava fria, não queria lavar o corpo todo. Achando que era desculpa, fui lá e chuveirei-o e ensaboei-o todo mas, às tantas, achei que a água estava mesmo fria demais. Então fui ver o que se passava, enquanto a minha filha, apressadamente, acabava o banho e o punha no quarto ao lado para ele se secar e vestir, indo de seguida para a casa de banho para despachar um banho apressado ao mais novo.

Nisto, estando eu na cozinha, reparo que ela já tinha feito umas espetadinhas de tomate cherry com mozzarela fresca e de lá, alto, perguntei-lhe: 'Olha lá! Lavaste bem os tomatinhos?'

Responde-me o mais crescido, do quarto: 'Claro!'

E ela, toda censora, da casa de banho: 'Oh mãe... por favor!'

Escuso de dizer que desatei a rir de tal forma que não conseguia falar, queria dizer que me referia aos tomatinhos cherry mas qual quê...?
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À noite, na passagem de ano, quando nos aperaltámos para ir para a rua, tudo de gorros, casacões, vestidos como se fossemos para o pólo norte, resolvemos que o momento deveria ficar registado. No meio da confusão que é sempre tirar uma fotografia de grupo, eu que estava encostada às costas do sofá que está a meio da sala em frente à lareira, abraçada a um e a puxar por outro que se queria escapulir, nem dei por que o sofá estava a deslizar e por pouco não fui parar ao meio do chão com as crianças por cima. O meu marido registou o momento, eu numa diagonal acentuada, perigosa, encasacada e de chapéu, com as crianças meio caídas em cima, cheias de casacos e cachecóis, e, como de costume, perdida de riso.

A minha filha disse: 'O pai, em vez de ir agarrar a mãe, deixa-se estar tranquilamente a registar o momento...' o que foi um facto mas a verdade é que, se o não tivesse feito, eu agora não podia continuar a rir a ver as fotografias daquele momento de confusão.

Gostava de vos poder mostrar a macacada que ali esteve armada mas, paciência, fica para outro dia.

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De resto, o almoço de Ano Novo correu bem, mas as crianças, talvez ainda na ressaca da agitação da véspera, às tantas, irrequietas, já só queriam era levantar-se da mesa para irem brincar, e o bebé está constipado e estava meio rabugento, sem querer banquetear-se (e logo ele que, usualmente, come como um pequeno alarve). Mas foi bom  na mesma, um belo almoço em família.

A seguir, deslocámo-nos todos para a zona da sala onde o sol bate generosamente e o calorzinho é bom.




Estiveram a brincar, o mais crescido a querer jogar xadrez com o tio mas os outros não paravam sossegados, só a derrubarem as peças - até que eles desistiram. Depois os três rapazes estiveram a brincar com as suas coisas e a bonequinha mais linda entreteve-se a fazer desenhos e a escrever, coisa que gosta muito de fazer.




A seguir, antes que o sol batesse em retirada, fomos para a rua e todos brincaram, correram, saltaram, treparam a uma árvore enorme, jogaram às escondidas. Ao bebé parece que lhe passou a má disposição e voltou à sua forma habitual: brincou, fez cenas, fez-se ao boneco.

O pândego do costume. Um solzinho ameno, um céu limpo, todos felizes, em harmonia.

Há bocado recebi uma mensagem de uma das minhas primas, uma que vive em Coimbra e que, tendo uma menina pré-adolescente, mudou de companheiro, arranjou um outro que já tinha três filhos e que vivem com ele(s) e, para a festa ser a preceito, aos quarenta e tal, engravidou e tem agora uma nova menina que é praticamente da idade deste nosso bebé. Para além disso, têm três gatos e agora também um cão. Ou seja, um permanente arraial. Vivem numa moradia que tem um jardim que, assume ela, é uma autêntica selva, mas que isso não é coisa que lhes tire o sono já que, pura e simplesmente, não têm tempo para cuidar dele. 
Desejava-me ela e passo a transcrever: 'Um óptimo 2015 cheio de saúde, optimismo, tranquilidade e muita paciência para superar as coisas menos boas.' Gostei de ler isto até porque ela perdeu os pais no espaço de pouco tempo (os meus queridos tios de quem já aqui falei cheia de tristeza e saudade) e, apesar de tantas contrariedades, vai levando a sua vida sempre com uma alegria e tranquilidade surpreendentes. Há uma harmonia dentro dela que explica a capacidade que tem de se manter sempre optimista.
Mas, voltando aos meus fofos pimentinhas a brincarem ao sol.










Uma senhora que estava perto de nós a ler um livro ao sol, acabou por se afastar e ir tentar ler o livro para mais longe. Fiquei a pensar que o que para mim era a felicidade de nos ver a todos, unidos, vendo as crianças a crescerem juntas, bem dispostas, brincalhonas, para aquela senhora não passava, com certeza de uma maçada, a maçada da situação de uma família ruidosa ali por perto, a impedi-la de se concentrar na sua leitura. Assim é a vida. Interesses e motivações contrárias tendo que partilhar o mesmo espaço. Ou nem isso, talvez apenas circunstâncias díspares que acabam por levar as pessoas para mundos diferentes.

Quando regressámos a casa, já as crianças começavam a dar mostras de algum sono e já estava a escurecer. Parte do grupo foi à sua vida e outra parte veio para cá. Lanche, filme, pequena sesta, o bom aconchego familiar. Passava das 8 da noite quando a casa ficou silenciosa.

Da parte que me toca, não poderia querer um melhor começo de ano.

Nunca me senti atraída por réveillons em hotéis ou restaurante ou coisas do género. Até não há muito tempo, o nosso grupo de família alargada rodava entre si a casa onde se fazia a passagem de ano. Era um grupo enorme e muito divertido. Mas depois, há algum tempo (e naquela altura em que se diz que os homens já deviam 'ter idade para ter juízo' mas parece que viram adolescentes, com paixões arrebatadas) aconteceram divórcios que introduziram alguma perturbação, até porque o membro que mais animava a festa foi um dos que se separou e já não dava para manter a ex juntamente com a que veio a seguir. E aconteceu, também por essa altura, os filhos adolescentes começarem a ir um para aqui, outro para ali, e era difícil conjugar os programas dos pais que não queriam afastar-se muito dos filhos. A coisa foi-se circunscrevendo mas uma coisa tem sido uma constante: estar junto dos meus filhos no dia de Ano Novo. A família cresceu e já não são apenas eles e, portanto, a animação é agora ainda maior e, confesso, mais feliz.

Contudo, dizendo isto, penso nos que não têm família ou amigos ou os que os têm num número mais restrito. E fico até um pouco sem jeito, com receio que, por contraste, se sintam mais sós. Mas, como tão bem aqui se lê, saibam que não são os únicos. Há tantas pessoas nessas circunstâncias, que não faz sentido que alguém se sinta particularmente desolado por isso (e isto já para não falar nos que estão sozinhos por pura opção ou nos que, estando ou não sozinhos, não são dados a folguedos - e estou a lembrar-me de um amigo meu que sempre fez questão de passar o ano a dormir porque acha uma palhaçada os festins para celebrar uma coisa que, segundo ele, não tem nada que celebrar). 

E se descrevo a minha vivência é não apenas porque gosto, fica um pouco da minha vida aqui registada, mas também porque, justamente, alguns dos Leitores ou Leitoras com menos família e que, nestas ocasiões, pouca vontade têm de festejar, me dizem que gostam de ler e ver o que são estes meus dias em família pois é quase como se já sentissem que eu sou a família que não têm. E eu, muito sinceramente, não lhes quero faltar.

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Há pouco, ao ligarmos a televisão, apareceu-nos um senhor com ar de estar mais para lá do que para cá a dizer coisas, sentado ao lado de uma mesa onde uma moldura tinha ali pegado de estaca. O meu marido fez um zapping a todo o vapor que era o que lhe faltava entrar o ano a aturar aquela múmia quase paralítica.

Passado um bocado, noutro zapping, estava outro mal encarado a falar, um de farta cabeleira grisalha de quem eu, até há algum tempo atrás, achava que tinha um certo charme mas a quem agora acho que não passa de um fala barato com ar de quem nunca dorme o suficiente. Falava sobre a conversa do primeiro (digo eu; mas, às tantas, ainda estava era a falar sobre os submarinos que parece que foram abordados no discurso do chefe) e o meu marido praguejou e rapidamente mandou-o também às urtigas. Por isso, não sei de nada desses assuntos que dizem respeito a senhores requentados. Este ano de 2015 tem que ser bom e, para começar, já estamos a ser mais selectivos: nada de ervas daninhas, lesmas, papagaios, láparos, múmias. 
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E que entre a música:


Imagine - Playing for Change



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E ando com uma vontade de dançar, rir e estar na boa que só visto.


Nazareth pelo Grupo Corpo Companhia de Dança


(Coreografia de Rodrigo Pederneiras. Música de José Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth)


Uma alegria!



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Permitam que me repita: tem que ser um grande ano, este 2015.

E, no meio desta ligeireza, com muita força desejo também que se olhe a sério, mas muito a sério, caraças, para flagelos que envergonham quem assiste a eles como o do navio com 450 imigrantes a bordo que está sem energia ao largo da costa de Itália ou as formas modernas de escravatura a que Francisco, o meu Papa mais querido, se referiu.


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E, já agora, desejo-vos em particular, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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