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domingo, novembro 09, 2014

Toda a nudez será perdoada


Há coisas para as quais é preciso coragem. Uma delas é uma pessoa vestir-se com roupa que quase sugere a nudez.

Nunca me vesti assim, não sou suficientemente corajosa. Saber a gente que, mal chega a um sítio, toda a gente vai ficar de olhos postos em nós deve ser altamente inibidor.

Se vejo alguém a olhar-me para o decote ou para qualquer outro ponto, mesmo que inocente, fico logo com vontade de me deslocar até um sítio onde haja um espelho para ver se está tudo como deve ser.

Quando era jovem vestia-me como gostava, ignorando o efeito. Vestia shorts e blusas justinhas, vestidos curtos e colados ao corpo, o que me apetecia. A primeira vez que o meu marido reparou em mim e me trespassou com um olhar de tipo rx tinha eu um vestido verde-relva-viçosa de um tecido que devia ter viscose, parecia seda mas com pouco brilho e era macio, e era justinho e curto e sem mangas e um decote grande atrás e à frente e eu usava-o sem soutien para não correr o risco de se verem as alças. Durante muito tempo, ele lembrava-se deste vestido e perguntava porque não o continuava a usar. Mas eu já tinha perdido a inocência, já sabia o efeito que ele podia provocar, e, além disso, já me ficava justo para além da conta pois uma coisa é ter-se 18 ou 19 anos e outra é ter vinte e poucos mas já ter tido crianças, amamentado, etc.

Sophia Loren explica que estava a olhar
para o decote de Jayne Mansfield
porque teve medo que tudo naquele vestido explodisse
- BOOM! - para cima da mesa

Acontece-me às vezes estar junto a uma mulher que está excessivamente provocante e tenho que me esforçar para não me pôr a olhar, não vá alguém pensar que estou a passar-me para o outro lado. No outro dia, estive perto de uma jovem que se apresentava em ambiente profissional como se, a seguir, fosse atacar na esquina. Tudo ali era despropositado. Dei por mim a olhar e logo de seguida me arrependi pois quem me visse ainda poderia pensar que me estava a deleitar, mas a questão é que queria observar a extensão do disparate: estava de shorts de renda preta, estava de blusa decotada de forma quase escandalosa, saltos ridiculamente altos. Mas depois ocorreu-me que uma pessoa que sai assim de casa para ir trabalhar só pode estar à espera de chamar a atenção pelo que não seria de espantar que eu estivesse estupefacta.

Há tempos houve, no grupo onde trabalho, um curso sobre dress code. As mais jovens ou as que cultivam curvas mais sinuosas ainda se moderaram durante uns tempos mas o dá ideia que despique entre elas leva-as a excederem-se na criatividade. Há dias, na altura dos calores, quando entrei no elevador, estavam duas mulheres e dois homens que, de tão perfeitos, pareciam descontextualizados. parecia-me que estava a entrar dentro de um anúncio Dolce & Gabanna. Altíssimos, perfumados, vestidos como se fossem desfilar, elas impecavelmente maquilhadas, vestidas com saias curtas, pernas torneadas e bronzeadas, muito bem penteadas, uma coisa do além, eles identicamente produzidos como se fossem participar num filme. Nunca antes os tinha visto, nem sei se trabalhariam lá, na volta eram consultores ou advogados (também pode ser que tivessem ido lá rodar um anúncio).

Também no outro dia, estive numa reunião alargada em que participou uma advogada de um dos grandes escritórios da capital. Deveria medir metro e oitenta ou mais mas depois tinha uns saltos de uns 13 cm e ainda ficava mais crescida, e toda ela elegantérrima, cabelos muito compridos, um fato de seda em branco e preto. Por baixo do blaser, uma blusa branca quase transparente, quase inexistente. Quando ela entrou na sala, toda a gente ficou quase em estado de choque. Um colega meu segredou-me 'Yves Saint Laurent...? Deve ser. No mínimo...' e sorriu, malicioso. Ao longo de toda a reunião os meus colegas não tiraram os olhos da exuberância dela e todos eles sorriam por tudo o que era poro.

Mas, enfim, cada um anda como lhe apetece e é de louvar as pessoas que não receiam concitar sobre o seu corpo os olhares alheios.

A Harper’s BAZAAR dedica um espaço à evolução do vestido nu e tem graça ver como a vontade de mostrar o corpo através do vestuário não é de hoje.



Marilyn Monroe (a foto da esquerda mostra-a em 1962 na Casa Branca quando foi cantar os Parabéns a Você ao Presidente, seu ex-amante),
conhecida por usar vestidos que levava os outros a pensar: 'Estarei a ver qualquer coisa que não era suposto ver?'




À esquerda, Toni Braxton em 2001, 

ao centro Kate Mosse e Naomi Campbell em 1993

e Rihanna em 2014, num vestido reluzente que deu que falar (ou terá sido o corpo dela que deu que falar?)



- ou a arte de tapar o corpo mostrando-o - 
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E, por falar em corpos que parecem pedir a nudez, 

Charlize Theron: Dior - J'adore


(na Galeria dos Espelhos do Palácio de Versailles, França)




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E, por falar em corpos que são belos (nus, pintados, ou vestidos) e se movem com extrema beleza,

Grupo Corpo - Sem mim




Coreografia: Rodrigo Pederneiras
Música: Carlos Núñez e José Miguel Wisnik (sobre canções de Martín Codax)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo.

E não se deixem influenciar: agasalhem-se que parece que vai continuar friozito.

(Já os meus Leitores brasileiros bem devem poder descascar-se à vontade que o tempo aí deve estar a ir para o bom, não é?)

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2 comentários:

Bartolomeu disse...

Em boa verdade, só o corpo é verdadeiro e natural. Tudo o resto é acessório e descartável...

Um Jeito Manso disse...

Bartolomeu, olá!

Bons olhos o vejam! Fiquei contente por revê-lo!

Obrigada pela visita e pelo comentário.