Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, dezembro 02, 2014

Num momento estamos bem, no outro deixamos de estar. Mas, enfim, enquanto forem coisas menores, menos mal.


No post abaixo já falei das minhas leituras ao longo do dia, de Sócrates, do meu horóscopo, de um filme que metia escutas, de algumas memórias, de uma confissão, de uns quantos animais e, se calhar, de outras coisas, já nem sei.

Mas isso é a seguir. Aqui a conversa é outra.




Uma vez, era a minha filha pouco mais do que um bebé, talvez um ano e tal (já que eu ainda nem sequer estava grávida do meu filho), e estando eu reclinada no sofá da sala e ela feliz da vida a fazer gracinhas, eu a despertar o seu riso solto e ela a fazer-me rir a mim, numa de um imprevisto ímpeto de alegria como se estivesse a fazer o cúmulo das gracinhas, pegou numa caixa de cerâmica das Louças de Sant'Anna que tinha um cinzeiro acoplado e que estava no pequeno móvel encostado ao sofá, atirou-o ao ar. Felizmente a peça não caíu ao chão e, portanto, não se partiu e ainda a conservo. Está na mesa em frente da lareira in heaven. Quando os meninos lá estão, retiro-a para um sítio mais elevado para não desafiar a sorte. Mas nessa vez, há um bom par de anos atrás, a bonita peça de cerâmica não caíu ao chão porque caíu em cima da mim, mais propriamente em cima do meu nariz.

Dei um salto de dor, agarrei-me ao nariz, as dores no nariz são terríveis, as lágrimas corriam involuntariamente, ela, coitadinha, assustada, e eu aflita. Só que aos poucos o nariz foi inchando, os olhos inchando e toda aquela zona estava roxa. Um susto só de me ver ao espelho. Pensámos que era melhor ir ao hospital pois às tantas estava era com o nariz partido. 

Lá fomos, eu, muito jovem, o meu jovem marido e a bebé provavelmente ao colo, não sei. Quando lá cheguei, a médica que me atendeu olhou-me a mim e ao meu marido com suspeição. Como é que isso aconteceu? Quem leva um murro em cheio no nariz deve ser assim que fica. Aflita com dores e inferiorizada por me saber disforme, murmurei: 'Foi ela que me atirou uma coisa ao nariz...'. A médica com ar de quem achava aquilo inverosímil, 'Ela...?' olhando, sem acreditar, para aquele nico de gente. 'Como?!'. Claro que a miúda não teria força para me agredir com uma peça pesada, atirando-me à cara se eu estivesse de pé. Lá expliquei que eu estava deitada no sofá e ela, na brincadeira, tinha pegado naquilo e que a caixa tinha aterrado em cima de mim. A médica não queria ir na conversa e olhava ainda com suspeição para o meu marido e nós parecíamos que estávamos a encobrir um episódio de violência doméstica, atirando as culpas para uma criança quase de colo.

Voltei a sentir um olhar desconfiado do mesmo género quando fui ao hospital este fim de semana. Olharam-me com suspeição: 'Como foi isso...?'

Contei. Caí desamparada quando ia subir umas escadas, um pé no ar para alcançar o degrau e o pé apoiado sobre uma mancha de água estagnada escorregadia como óleo, levando-me a levantar voo para aterrar violentamente sobre um dos lados do corpo e batendo com a cara nos degraus.

Fiquei num lindo estado mas a ferida na cara ainda foi o menos já que má mesmo foi a queda sobre a anca. A radiografia parecia indiciar fractura dos ossos da bacia e isso assustou-me imenso e tive que fazer uma TAC. Mas o resultado descansou-me: apenas traumatismo. Mas que traumatismo... Umas dores que me retiram a mobilidade. Claro que estou medicada e tenho que estar em repouso pois sinto-me como se tivesse os interiores fora do sítio e despedaçados, dores que só visto. Valem-me as canadianas mas o diabo é levantar-me e deitar-me, umas dores nas costas e na bacia que me fazem quase ganir. O médico também recomendou que não me sentasse e, claro, evito ao máximo até porque me custa, claro. Disse-me que seria coisa para uns dias e, por isso, estou em casa, umas férias inesperadas.


Os meus filhos gozaram, 'Velhinha...! Não será caso para uma prótese na anca...?'.

Encontrei no hospital, por acaso, umas pessoas da família e uma delas, quando contei o que tinha acontecido, certamente porque estava preocupada com o caso do familiar e, portanto, distraída, perguntou-me 'Isso não será problema de falta de cálcio?'.

Não. Acidente puro. Se tivesse a mão no corrimão, se calhar não tinha voado ao pisar aquela água verde que deslizava como óleo.

E, afinal, do mal o menos. Não parti nenhum osso, não dei cabo da cabeça. E estou de repouso, no bem bom, não posso queixar-me de muito mais do que isto.

Agora os comprimidos dão-me uma sonolência terrível, passei o dia a ler e a adormecer. No domingo devia ter ficado em casa deitada mas não resisti a ir para casa do meu filho pois era o dia da mudança e a família reuniu-se toda para os ajudar. Estive quase sempre sentada ou encostada apoiada a qualquer coisa, e tanto que eu gostava de poder ajudar, mas não podia, entrevadinha de todo. A questão é que vim de lá ainda mais aflita e esta segunda feira estava pior e, por isso, a ver se consigo manter-me sossegada para me pôr boa.

Por isso, não sei se é deste estado que não se recomenda ou se é mesmo de falta de assunto, nem sei que vos diga.

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As fotografias são de Man Ray.

A música é Cinema Paradiso, Chris Botti com Yo-Yo Ma no violoncelo.

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Relembro: a seguir há muita conversa sobre o que li ao longo do dia, sobre o que concluí, sobre Sócrates, sobre pessoas que conheci, sobre a minha intuição, sobre o meu horóscopo. Uma salada, portanto.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira. 
E já sabem: isto é de se aproveitar bem enquanto não estamos doentes ou acidentados.

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7 comentários:

Vitor disse...

Os melhores votos de boas e rápidas melhoras, estimada UJM.
Ainda bem que não houve lugar a fracturas .
Melhores cumprimentos
Vitor

Humberto Barbosa disse...

Caríssima UJM
Votos de melhoras e que tudo corra pelo melhor.
Um abraço
HB

Anónimo disse...

Desejo-lhe rápidas melhoras, UJM.

Tive um acidente semelhante há dias, em casa. Tropecei e bati com a fronte no pavimento cerâmico.

Um abraço,

Conceição Teixeira

irene alves disse...

Minha amiga, lamento muito o que lhe
sucedeu. As quedas são sempre muito
perigosas! Desejo as suas rápidas
melhoras. Bjs.
Irene Alves

lino disse...

Rápidas melhoras!
Beijinho

Um Jeito Manso disse...

A Todos,

Obrigada. Agora estou a sentir-me já um pouco melhor. Embora hoje tenha uma dor nova nas costas e ainda tenha os movimentos muito presos, as dores dentro da barriga já estão francamente atenuadas.

Conceição: essa da sua pancada com a fronte é que também não foi coisa boa. É uma sensação estranha, não é? Uma pessoa cair desamparada...? E os perigos que estas quedas às vezes são.

Um abraço a todos!

FIRME disse...

Melhoras rápidas...já ! Isto anda muito morno,apesar das pérolas muiiiiito bem vestidas...Sempre gostei de moças poupadas no vestir...