Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, julho 18, 2014

Digo 'rosa' e digo qualquer rosa e todas as rosas no universo inteiro.










O que nós então não sabíamos, e por isso não podíamos prever, é que se o genial nos retirava da miséria do quotidiano, das pequenas doenças inerentes ao quotidiano, ao mesmo tempo, nos preparava e infectava doenças maiores, incuráveis, tais como a doença da temporalidade ou a absoluta consciência da finitude, o que é o mesmo, ou próximo.

Só o genial nos podia poupar, embora nunca irreversivelmente e em definitivo, do pavor do tédio.

O que distingue a genialidade da inteligência, mesmo da inteligência superior, agora que volto a pensar nisso, e suspeito, aliás, que me estou mais uma vez a repetir, um dos sintomas mais naturais da idade avançada, talvez por já nada encontrar de novo à sua frente para ser vivido, e tem, assim, de regressar sem fim ao mesmo, que não voltará a ser vivido.






A inteligência é uma espécie de velocidade, de destreza, de facilidade em ligar isto com aquilo, de relacionar o que num primeiro momento não parece relacionável, de encontrar algo comum ao que parece irrecusavelmente dividido, enquanto a genialidade é a invulgar capacidade de construir um mundo, cada génio o seu, onde passa a viver no mais completo isolamento, e solidão.



(...)




Digo rosa e digo qualquer rosa e todas as rosas no universo inteiro. Porque as palavras são a primeira manifestação do espírito, o que pertence, não ao mundo, mas sim ao que está fora do mundo para poder falar dele, dando sentido ao que por si não tem qualquer sentido, uma estonteante acumulação de factos e mais factos. As palavras têm asas, e voam, por isso mesmo que são, não isto ou aquilo, mas sim o voo entre isto e aquilo, entre tu e eu, intrépidas sobre os abismos, ligando o que está separado. 




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O texto pertence ao livro Espécie de Amor de Pedro Paixão.


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A menina lá em cima é russa, chama-se Alisa Sadikova e tinha na altura 9 anos, quando tocava harpa, em 2012, no St. Petersburg State Conservatory: The Fountain Marcel Lucien Grandjany.


E aqui ficam os meus agradecimentos ao Estimado Leitor que tão gentilmente me enviou este vídeo.

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As fotografias são de Man Ray.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Aquela Alisa é simplesmente fabulosa! Tenho um ou outro CD, um deles, de Bach, onde a harpa tem um papel relevante. Magnífico!
P.Rufino
PS: que é feito da "nossa" Lídia? essa extraordinária comentadora!