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segunda-feira, maio 02, 2016

Flores em Maio -- this is heaven to me
[E a natureza fractal da pintura de Pollock]


O perfume é intenso. A natureza impõe a sua tremenda energia. Tudo rebenta: os botões de flor, as folhas, as ervas, o mato, as árvores. Onde havia caminhos, há agora uma camada de pequenas hastes que ondulam, apenas aparentemente frágeis, douradas pela luz do sol. E eu baixo-me, encosto-me ao chão, quero vê-las como elas são, orgulhosas e belas.



Por todo o lado há arbustos, cores, os amarelos são intensos e a delicadeza das pequenas flores oculta a aspereza dos espinhos. Os pássaros estão doidos de alegria, cantam à desgarrada, todo o espaço está ocupado com a vibração dos odores e dos cantos. 


Por vezes, nos lugares de mais sombra, a terra rescende a uma humidade íntima, um cheiro morno e doce, perigosamente feminino.

E as flores neste sítio são virginais e, dengosas, colam-se à nossa pele, devem ter muito açúcar a circular na sua seiva.

A minha mãe sempre disse que a vegetação aqui é idêntica à da Arrábida. Por isso, quando no outro dia vi o livro 'Flores da Arrábida', Guia de campo, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos, agarrei logo nele. Agora, consigo dar nome à flores com que por aqui vou enchendo a minha alma (seja lá o que for isso da alma).

Estas aqui abaixo são as Cistaceae. Passo as mãos por elas, tento soletrar o seu nome, quero que me reconheçam como igual.


Depois, por onde passo vou vendo composições cromáticas que me lembram pinturas. Frequentemente vejo Pollocks onde outros verão mato para limpar. A sobreposição amigável de gerações de pequenas plantas, umas maduras, outras que despontam, outras já secas, cada uma de sua cor, um emaranhado cromático que me dá vontade de me deter, decompor o que vejo em camadas, acrescentar dimensões de visão, certa de que, à medida que for aprofundando o que vejo, mais dimensões se hão-de revelar.

Pollock, com a sua abstracção resultante de gestos quase incompreensíveis é, para mim, um fiel retratista da realidade que os meus olhos vêem.


Sei que os campos têm que ser limpos mas esta é, para mim, uma altura de luta. Dever-se-ia meter uma máquina pelos campos adentro ou avançar com uma roçadora e isso é o certo, e eu tenho que aceitar que deveria render-me aos argumentos racionais, mas tudo isto por aqui, para mim, é sagrado: os pés de alecrim, as hastes de rosmaninho, as bocas-de-lobo, as marioilas, as roselhas, as mais humildes ervinhas. Tudo, para mim, deveria ser preservado, respeitado -- sinto-me sem direito a destruir tamanha beleza.


Quando vejo os lírios-roxos, Iridaceae, baixo-me para os fotografar. Por vezes, deixo-me tentar a procurar o melhor ângulo, tenho vontade de abrir as suas frágeis e belas pétalas para desvendar a sua intimidade. Mas é tão fino e macio o seu tecido que logo receio molestar, penso que são obras de arte que não devem ser tocadas. As cores são tão belas, o desenho das pétalas tão elegante, tudo tão delicado e superlativo que eu penso, muito sinceramente, que aquela flor atingiu, na sua evolução, um grau de sofisticação de que eu ainda me sinto muito longe.


Mas estar a eleger uma flor como a mais perfeita e sofisticada é um exercício absurdo. Na natureza há lugar para muita beleza, é tolice estar a eleger um ou outro dos seres que a habita.

Como poderia eu colocar num patamar menos honroso a madressilva, Caprifoliaceae, o arbusto do qual nascem caprichosas e perfumadas flores que nunca me canso de fotografar? Passar ao fim do dia junto a um destes arbustos é colher uma sensação inebriante.


E há a macieira. Por esta altura nascem flores de uma delicadeza e beleza que me encantam. Deve ser tanta cor e perfume que atrai a passarada. Como os compreendo. Pudesse eu e por aqui andaria também de manhã à noite vendo a natureza a existir em plena liberdade.

Daqui por algum tempo, haverá maçãs que ficam sempre pequeninas. Doces, doces. Mas os pássaros não as deixam crescer. Mal se adoçam logo eles as debicam. Para eu lhes levar a melhor tenho que as comer ainda pequenas e pouco doces -- senão nem chego a prová-las. Mas os frutos são mais dos pássaros do que meus. Gosto que eles tenham que comer por aqui para que por aqui fiquem, que gosto tanto de os ouvir, de os sentir a levantar voo das árvores baixas quando eu passo ao pé deles.

Poderia continuar por aqui a mostrar-vos as flores que me acompanham quando estou in heaven mas sei bem que uma coisa é estarmos nós emocionalmente próximos de uma coisa ou de uma pessoa: para nós tudo nos maravilha, não nos cansamos de olhar ou de louvar mas, para quem a eles é alheio, não tem graça nenhuma, é uma maçada.
Por isso, termino já. Mas termino com os cachos de uma das robínias. São tão lindos. Olho-os recortados em branco contra o azul do céu e fico assim, a olhar, tão feliz: parece que a perfeição que observo atesta a maravilha que é este nosso mundo. Que sorte a nossa podermos testemunhar tanta beleza.

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Já agora deixem que partilhe convosco:

Marcus du Sautoy explica a natureza fractal da pintura de Pollock




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Lá em cima Madeleine Peyroux interpreta This is Heaven to Me

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana, a começar já esta segunda-feira.


1 comentário:

João L. disse...

Que extraordinária ideia; os gestos aparentemente ao acaso de Pollock e a natureza. E que maravilhosa fotografia. Inesquecível.