Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 08, 2014

Métiers d'Art - ou a arte ao serviço do charme discreto da burguesia. E eu e as minhas coisas.


No post abaixo já mostrei algumas obras de arte que adoraria ter e usar na minha cabeça. O artista é Philip Treacy and I love, love as suas peças.


Mas agora, aqui, se concordarem, vamos com La Javanaise



Lá está, em complemento do que no outro dia disse (que, se me quiserem subornar, poderiam tentá-lo oferecendo-me fantasy bras de todas as cores possíveis e imaginárias bordados com peças preciosas ), junto agora as peças que mostro no post já a seguir a este. E, se não for abusar da paciência dos que me quiserem corromper, gostava também de algumas peças das que se podem ver no vídeo seguinte.

Confesso: quando vejo coisas assim, dá-me vontade de me dedicar à concepção de modelos, à costura, à confecção de chapéus, aos bordados. Gosto do vagar e da entrega que acontecem quando uma pessoa está  afazer trabalhos manuais, em especial trabalhos que envolvem alguma criatividade ou em que dá para uma pessoa estabelecer objectivos (exemplo: hoje ainda quero fazer isto)

Houve uma altura em que me dediquei a fazer carpetes de Arraiolos. Escolhia tapetes que estivessem em museus para garantir que iria fazer uma réplica de um modelo original, falava com a D. Marcelina, grande especialista, que tem desenhos de tudo, ela adaptava o desenho à dimensão que eu pretendia, arranjava-me as cores originais das lãs e, durante meses a fio, à noite, eu, guiando-me pelo desenho em papel, bordava e bordava e bordava. Ficava até às quinhentas, o resto da casa adormecida tal como agora e eu, um candeeiro iluminando o meu espaço de trabalho, absorta, alheada do mundo. Já falei disso muitas vezes aqui e já mostrei as minhas obras.

Duas dessas carpetes estavam in heaven, na zona da casa em que ficam os hóspedes. Ora, por causa de alergias (ou potenciais alergias, especialmente por parte dos pequeninos), pediam sempre para eu as tirar quando lá dormiam. Estavam, portanto, mal aproveitadas. Com a falta de tapetes que o meu filho tem na sua casa nova que agora está em processo de arrumação e distribuição de mobília própria e 'herdada' (e com eles já lá instalados), essas duas carpetes foram para lá. Hoje, olhando-as, perguntou-me se eu não queria fazer mais duas. Pois, até me doeu. De gosto me atiraria ao trabalho.

Tanto que eu gosto de fazer tapete de Arraiolos e, olhando os três compartimentos em sequência da sala de estar, vê-se que vinham mesmo a calhar já que apenas um dos compartimentos o tem (a outra minha carpete está na sala de jantar).

Mas não dá.

A contragosto, disse-lhe que tirasse daí o sentido. Ou era isso ou é isto. Só tenho a noite para aqui estar e ambas as actividades são muito absorventes - e agora tenho pena de largar isto dos blogues.

Às vezes penso que, quando me reformar, talvez consiga disciplinar-me para ter tempo para ler, para escrever, para caminhar e fotografar, para voltar aos Arraiolos, para fazer peças de costura especiais, xailes bordados com pedras, coisas assim, e, claro, ocupar-me da casa. Mas ainda falta tanto tempo que sei lá eu. 

Hoje, ao almoço, dizia que, quando me reformasse, talvez me dedicasse à intervenção política. O meu marido riu-se, acha que, nessa altura já terei ultrapassado o prazo de validade para me meter numa coisa dessas. Também não tencionava inscrever-me nas Jotas, caraças.

Adiante.

Não sou só eu que ando empanada, a máquina fotográfica também não está melhor. 

Tiro uma ou duas fotografias e descarrega a bateria, um sufoco. Já não é a primeira vez que isto acontece mas tem-lhe passado. Agora está numa dessas alturas em que, a torto e a direito, lhe dá uma coisinha má.

No sábado, quando fomos ao campo buscar  as carpetes, eu quase deitada no carro, ainda tentei fazer umas fotografias enquanto dei uma circulada em passo de caracol mas se tirei uma meia dúzia foi muito. Sempre a descarregar-se o diabo da máquina, uma seca.

Eu que me desabituei de ver a vida sem a ajuda da lente, fico meio desasada.

Olho para as coisas e parece que estou a cometer uma infidelidade, passar por elas e não as amar a preceito, fotografando-as, não me deixa nada bem.




Estava tudo com umas cores tão ao rubro, tudo tão lindo e eu gostava tanto de vos mostrar. 

A terra está muito húmida e o perfume das folhas caídas a transformarem-se em húmus, o cheiro da terra fértil, o musgo muito verde e macio, tudo tão íntimo e acolhedor.




Mas, enfim, a ver se a máquina fica boa por obra e graça que é para eu não ter que me meter em trabalhos a pedir orçamentos para a reparar e as lojas já todas cheias e eu sem tempo para me meter no meio de barafundas.




Voltando a casa do meu filho: gostava de vos mostrar alguns pequenos espaços para que vejam como, depois de tanto trabalho (que ainda não acabou, ainda este domingo ele se levantou quase de madrugada para fazer lá mais uns trabalhos), a casa está mesmo bonita, nem parece possível. Estava a cair de podre, esventrada, esburacada e agora está arranjada, luminosa. A ver se a safada da máquina atina que eu fotografo alguns recantos, até vos poderia mostrar as ditas carpetes.

Este domingo o meu marido e o meu filho estiveram a montar candeeiros e estantes, e eu, a minha filha e a minha nora estivemos essencialmente a arrumar livros que parecia que não acabavam, A minha filha de cada vez que lhe aparecia mais um Le Carré até se passava, lá tinha que arranjar espaço na estante, tirando outro para outra prateleira. Mas eu, tanto que gosto de arrumar livros, mal me podia dobrar e levantar com pesos pelo que não fui de grande ajuda.

Entretanto, os pimentinhas, nas sete quintas, brincavam e corriam, felizes da vida. A minha nora tinha feito um bolo pelo que já havia no ar aquele perfume a casa de família, bolos mornos a sair do forno.

Não sou dada a grandes elucubrações sobre qual o sentido da vida ou sobre a definição de felicidade. Há coisas em que as teorias não ajudam nada. Também não ajuda a gente imaginar grandes filmes, grandes epifanias emocionais e intelectuais, como se a vida, para ser boa, tivesse que nos fazer sentir sempre nos píncaros e, ao mesmo tempo, nos proporcionasse a capacidade de teorizar sobre o assunto. Eu disso não sei nada.

Eu sou mais de coisas simples: arrumar estantes em conjunto, o cheiro a bolo acabado de fazer, um abraço bom de criança, a união entre os nossos filhos, a vontade de fazer coisas agora e daqui por mais alguns anos, o ler um livro que me dá a ver mundos novos, o gostar de estar aqui a conversar convosco. Fico feliz com coisas assim. Chega-me.




[Claro que há mil coisas que me tiram do sério e me revoltam mas isso não me faz esquecer a capacidade de me sentir bem com coisas simples como as que referi.]

Bem. Já me distraí na conversa.

Estava era para falar do evento em Salzburg organizado pela Chanel. Métiers d'Art. Uma sumptuosidade, uma fonte de inspiração, uma graciosidade nos gestos, uma beleza de cores e movimentos, uma vontade de ir a correr arranjar trapinhos, pedrinhas, agulhas, pegar no meu dedal que é de prata e que tem sobrevivido sabe-se lá como, pôr-me a fazer coisas assim, bordados, enfeites, peças de cor e luz. 








O espaço, a talha dourada, os tapetes, os espelhos, a luz das velas, tudo tão perfeito. Um mundo de fantasia. O charme discreto da burguesia.

E, para melhor se ver o ambiente, o requinte, a sofisticação, eis algumas entrevistas com celebridades que assistiram ao evento - que, como todos os eventos Chanel, foi luxuosamente encenado.





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E já falei demais, credo, as minhas desculpas. Nem vou reler pois estou cheia de sono pelo que peço que relevem as gralhas.

Rapidamente a ficha técnica:

A música lá em cima é Madeleine Peyroux interpretando La Javanaise.

As quatro últimas fotografias fi-las no sábado in heaven. As primeiras referem-se ao desfile Chanel Métiers d'Art Paris-Salzburg 2014/2015.


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Relembro: no post abaixo há mais obras de arte. Imperdíveis de lindas que são. Só tenho pena de não lhes poder deitar a mão. Pior que isso, se as tivesse, teria que as ter dentro de uma vitrina ou, se calhar, de um cofre. Onde é que iria usá-las? Raio de país que nem isto nos permite.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom feriado. 
Saúde e boa disposição é o que vos desejo. E harmonia na vossa vida, que também ajuda.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Conciliar tecer um Arraiolos, com o manter seu Blogue deve ser difícil. Não deixe essa sua arte de os fazer, mas, na medida do possível, tente harmonizar ambas estas grandes qualidades que possuiu, o de ter concebido um excelente Blogue, com o fazer um belo Arraiolos. Gosto muito dessas suas fotos rústicas - cheiram a campo - que aqui coloca. Aquela humidade que o Outono foi trazendo e que ficou com o Inverno, já à espera, basta ver as recentes temperaturas. Confesso que, nestas datas, me sabem bem. Reconstruir uma casa é uma coisa fascinante. Meu filho, mais novo, teve, aqui há um ano, tarefa semelhante ao do seu. Sobre livros, também gosto do J.Le Carré.
E, nisto me vou. Passear com os cães, depois ficar ali um tempinho em frente da lareira a ler e ir dormir de seguida.
Tivemos o neto e ascendentes por cá. Uma alegria! Embora o nosso outro filho, tenha entretanto partido, de regresso ao país que o acolheu. Sempre defendi que tivessem carreiras internacionais (que já tiveram e que agora um mantém, embora, assim o esperamos, o outro, mais dia menos dia, regresse a esse tipo de vida, que já era o dele. Até por serem fluentes em inglês - e outras línguas. Não temos problemas com as ausências, mas com os maus salários daqui, daí que sempre os incentivei a partirem para onde a vida lhes sorrisse melhor).
P.Rufino