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terça-feira, novembro 29, 2016

O PCP e o BE nas sondagens e nos actos





Vou dizer uma coisa.

Nas autárquicas, sempre que me pareceu ser a candidatura mais credível, votei no PCP. Ou melhor, na CDU, acho eu. Claro que não faço ideia qual a diferença entre a CDU e o PCP. Nem sei se CDU é feminina ou masculino pois não sei o que é o C. Podia googlar mas, a esta hora, não estou para isso. Nas legislativas nunca votei no PCP. É gente honesta, não tenho dúvidas disso, mas há ali uma utopia datada, improvável, que me afasta. Sobretudo, há uma forma sectária de ver o mundo. Ou talvez não seja isso, talvez seja apenas uma forma sectária de falar. Não sei. Sou próxima de pessoas do mais PCP que há, militantes, com vida pública ao serviço do partido. Contudo, não consigo falar de política com eles. Dá ideia que têm sempre um inimigo de estimação e que constroem a sua 'narrativa' em torno disso. 

Por isso, o PCP, apesar de reconhecer nos seus militantes uma genuinidade de intenções, não é a minha praia.

Sou, por natureza, despreconceituosa, aberta a ideia novas, gosto de pôr em causa tudo o que seja ortodoxia, não consigo aceitar que me condicionem a liberdade de pensamento e de expressão, sou uma desalinhada por natureza. Não poderia, pois, encaixar-me no PCP.


No Bloco de Esquerda também nunca votei. Ou melhor, votei no Miguel Portas para as Europeias. Mas, por cá, embora lhes reconheça algumas boas ideias e, por vezes, uma inegável capacidade de falar claro e de apontar o dedo a algumas anomalias do 'sistema', nunca votei neles. Sempre me pareceram um bocado inconsequentes, com muita sede de protagonismo, ávidos de mediatismo. Há ali um deslumbramento pelas suas próprias artes performativas que, por vezes, me enfastia. Outras vezes, parece que ficam cegos pelo tacticismo e, na prática, fazem o jogo daqueles a quem dizem combater. Tenho apreço pela inteligência acutilante de Louçã, tenho simpatia pelo humanismo de João Semedo, aprecio a empatia de Marisa Matias, acho que Catarina Martins tem uma combatividade desarmante -- mas, todos juntos, formam uma mistura que não acolhe as minhas simpatias. Acresce que acho que Mariana Mortágua não tem tento na língua, é muito auto-convencida, falta-lhe humildade e falta-lhe a autoridade que advém de uma vida vivida. E é um bocado exasperante constatar que ali, naquele Bloco, cada um pode exibir o ego a seu bel-prazer que não há quem se sinta com autoridade para mandar bater a bolinha baixa a qualquer outro.


Como já o disse muitas vezes, voto maioritariamente PS embora, como tenho confessado, parafraseando o O'Neill, seja na base do 'não me apetece mas voto PS'. Não me revejo nos jogos palacianos, não me revejo em amigalhices aparelhísticas, não me revejo no uso abusivo, para desviar atenções, do verbo fácil. E, por vezes, esses são tiques de que o PS padece (também versejei!). Mas, numa lógica de redução por absurdo, analisando pragmaticamente as alternativas, muitas vezes tenho chegado à conclusão que do mal o menos e, portanto, votei PS.


Mas, pelo que referi, não sou fundamentalista em relação a nenhuma das minhas ideias.


E é assim que é com pena e um sentimento de que uma injustiça está a ser cometida que vejo a fraca preferência dos eleitores pelo PCP que a última sondagem revela. 6% para o PCP é injusto. Desde que apoiou o governo PS, o PCP tem revelado uma enorme dignidade, uma atitude vertical e honrada. Não têm deixado de expor as suas razões, de encabeçar as suas lutas mas sempre de uma forma madura, sempre respeitando o acordo que fizeram, sempre de uma inteireza que deveria merecer melhor reconhecimento. Têm mostrado ser gente de bem e isso não é coisa pouca.


6% é o que o CDS também tem e o CDS é uma mão cheia de nada, um partido pífio, um bando de gente de cabeça oca, uma nítida nulidade. 


E custa-me ver como o BE, com toda o seu histórico de leviandades, algumas das quais bem recentes, consegue a preferência de 8% dos eleitores. 


Há nisto qualquer coisa de muito injusto.

A vida é assim, bem sei, cheia de injustiças, cheia de avaliações deficientes que conduzem a iniquidades. É dos livros: muitas vezes são os melhores que ficam pelo caminho. É da história: muitas vezes é por delicadeza que os melhores se deixam matar. É do dia a dia: muitas vezes são os que mais têm a dizer que menos são ouvidos.

Mas é por ser tão banal que nos conformemos perante toda a espécie de injustiças que a mediocridade vai alastrando como uma mortífera mancha de óleo, fazendo retroceder a civilização, anulando parte da elegância e da beleza da vida.

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E, por falar em beleza e em elegância, as pinturas são de Hiroshige (1797 - 1858) e é Jordi Savall quem interpreta 'Greensleeves'.

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Comecei referindo que ia dizer 'uma coisa' e acabei dizendo uma data delas. As minhas desculpas.

E agora, caso vos apeteça visitar o fantástico mundo das pessoas verdadeiramente inteligentes, queiram, por favor, descer até ao post que se segue.

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6 comentários:

Ana Vasconcelos disse...

Uma boa síntese da paisagem política portuguesa, UMJ. Abraços, Ana

bea disse...

Concordo: o PCP merece neste momento maior credibilidade do que os portugueses, se as sondagens acertam, lhe dão. Julgo que Mariana Mortágua sofre de juventude que não sabe esperar nem quer amadurecer primeiro, quer de atafulhado mudar o mundo; ou o partido onde está - é mal hoje muito comum. O CDS é um partido que não interessa nem ao menino Jesus e cai mal irmaná-lo em intenções de voto com o PCP: não têm nada a ver. Basta olhar ambos no antes do 25 de Abril. E até no depois. Ou avaliar o líder de cada um.

Cada vez sou mais independente e crítica em relação aos partidos. Embora reconheça que talvez façam falta trabalhando de outra forma. Os partidos, como os sindicatos, por mais que o digam e apregoem, estão a esquecer o cidadão comum, as pessoas por e para quem trabalham.

bea disse...

As flores são lindas e têm jeito de biombo asiático. E obrigada pela música.

Anónimo disse...

Subscrevo inteiramente! Assim a UJM poupa-me tempo a comentar (escrevo no telemóvel, no autocarro, enquanto salto de uma atividade para outra: ando num autêntico rebuliço), um grande viva para si!
E uma semana em grande!
JV

P. disse...

«Sempre me pareceram um bocado inconsequentes, com muita sede de protagonismo, ávidos de mediatismo. Há ali um deslumbramento pelas suas próprias artes performativas que, por vezes, me enfastia. Outras vezes, parece que ficam cegos pelo tacticismo e, na prática, fazem o jogo daqueles a quem querem combater”…”E é um bocado exasperante constatar que ali, naquele Bloco, cada um pode exibir o ego a seu bel-prazer que não há quem se sinta com autoridade para mandar bater a bolinha baixa a qualquer outro. quem dizem combater”- “Mariana Mortágoa”…”E custa-me ver como o BE, com toda o seu histórico de leviandades, algumas das quais bem “recentes, consegue a preferência de 8% dos eleitores.»
* Cara UJM, nem o “desaparecido” António José Seguro poderia dizer melhor sobre o BE! Ou até o Francisco Assis. Já vi textos do Assis, no passado, a dizerem coisas parecidas como estas. Se olharmos para o que dizem os Partidos, onde se incluiu o PS, quantas inconsequências não lhes vimos! Não creio que haja, no BE, nem sede de protagonismo, nem deslumbramento “pelas artes performativas, que por vezes enfastia” (noto aqui um certo “ressentimento” quanto à forma como o BE expõe as sua ideias na A.R, por exemplo), nem “cegueira pelo tacticismo acabando por fazer o jogo de quem querem combater” (esquecendo-se de outras atitudes quer do PCP, na presente legislatura e do PS no passado). Quanto à acusação uma exibição de “egos”, é injusta (mas legítima, estamos em Democracia), mas, sobretudo incorrecta, a avaliação que faz. O BE não é o PCP, nem o PS, nem o PSD, nem o CDS, muito certinhos, muito correctozinhos, muito todos mais ou menos obedientes à liderança. Há disciplina partidária, genericamente falando, mas quem ali está, está por acreditar num determinado projecto político, embora não deixe de ter ideias próprias. O BE é uma formação política um pouco diferente do sistema partidário vigente. E ainda bem que assim é. Quanto à M.Mortágoa, embora “sofra” de alguma juventude, tem personalidade, é articulada e tem feito, globalmente, boas prestações na A.R. (já para não voltar a recordar aquelas na Comissão Parlamentar relativas ao BES). E aqui, vieram-me à memória algumas das prestações de Passos e de Sócrates (sobretudo deste último), na A.R, quando exerciam as funções de PM, tantas vezes lamentáveis! O BE não é um clube de boas raparigas e bons rapazes, certamente, mas é bem melhor do que aquilo que aqui descreve (e tem gente muito qualificada, que em nada fica atrás do saudoso Miguel Portas!). Quanto às sondagens, limitam-se a reflectir a opinião e mesmo assim, com muitas cautelas e sopas quentes - do actual momento político. Serão, certamente, bem diferentes quando se aproximarem as próximas Legislativas e nessa altura logo se verá, quem vale o quê. Sinceramente, duvido que o PS chegue à (propalada) maioria absoluta, apesar do seu bom desempenho, genericamente falando. É um facto! E se o BE continua à frente do PCP, só por distracção não se percebe porquê. As tais “leviandades respeitam no ter votado, por exemplo, com o PSD e CDS no caso Domingues? Se essa criatura tivesse um pingo de vergonha, sobretudo depois de o PR ter dito o que disse, ou se demitia logo, ou apresentava imediatamente as declarações de rendimentos, em vez de o ter feito agora! A título de quê? Um tipo inconsequente, um gestor que não percebeu quais iriam ser as suas responsabilidades ao ir presidir a uma instituição bancária, estatal, como a CGD, como muito bem se explica num Blogue que costuma seguir, o Aventar e que, por conseguinte, nunca deveria ter assumido o lugar que aceitou. Bem fizeram os 3 Partidos que acabaram por o empurrar para a demissão, entre outras razões que terão que ver com as condições que, levianamente – aqui sim-, alguém no governo lhe propôs).
Estimada UJM, embora discorde desta sua análise, gosto muito de a ler. Defende (e ataca) com alma, com convicção, com argumentos e mesmo em total desacordo consigo, por vezes, aprecio esta sua atitude! Deixo-lhe um cordial abraço!
P.Rufino

Um Jeito Manso disse...

Com o sono com que estou, falo só com o P. Rufino (e as meninas que me perdoem):

Não me incomoda dizer coisas iguais às do Seguro ou do Assis. Algumas coisas acertadas eles hão-de dizer.

E também não me parece que abone muito a favor do BE, fazer comparações com momentos inconsequentes de outros partidos.

Não acho que o BE seja uma desgraça pegada mas acho que por serem como são não vão longe. Tantas fazem que aquilo ainda vai acabar por ser uma coisa de soma nula. A menos que atinem e ponham ordem naqueles egos pululantes.

Mas isto, claro, sou eu a falar. Admito que possa não estar a ver bem a coisa. O tempo o dirá.

E nada como termos pontos de vista divergentes. A sintonia absoluta não existe. Nada mais estimulante do que o confronto entre diferentes formas de ver o mundo.