Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, abril 22, 2017

Pecar contra os deuses
[Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes]




Para se ver como tudo é tão relativo. E, atenção, nisto que vou dizer não há ponta de certezas absolutas. Aliás, se eu tivesse levado a catequese a sério, a esta hora era muito bem capaz de estar para aqui arrependida... e ainda nem pequei. Que isto que estou a pensar deve mesmo ser pecado. E, se não é, para lá deve caminhar. Só pode.

Estou com paninhos quentes. Em vez de ir ao assunto, estou para aqui com rapapés. Já devem ter reparado.

A questão é que quero primeiro pôr-me no ponto para não irritar as leitoras catequistas que preferiam ver-me aqui a carpir, a contar do desgosto que me dá a minha celulite
(mas, azarinho, não a tenho) 
ou a chorar a minha neura e insegurança,
(azarinho, também não sinto tal -- e já bati, outra vez, três vezes na madeira não vá alguma leitora diabólica tecê-las), 
em vez de me verem a opinar toda sentenciosa. 

Por isso estou aqui nas boxes a ver se perco gás antes de começar a escrever. Mas isto custa.

Não quero irritá-las mas também não posso ficar o resto da noite para aqui a bater mea culpas no peito. Que maçadoras que são as catequistas moralistas. 


Quando agora forem ensinar o milagre da Nossa Senhora a aparecer aos pastorinhos, devem ficar a fazer figas para os meninos não andarem a ler os jornais porque isto de os padres e bispos andarem para aí a dizer que claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima (ia lá a Senhora vir por aí abaixo, a descer dos céus, para se ir pôr a atazanar o juízo a três pobres pastorinhos?) e que a palavra correcta não é aparição mas visão imaginativa, deve deixar sem chão muita catequista penitente.

Mas então onde é que eu ia?

Ah, sim. Não ia em lado nenhum.
Andei a passear à beira rio e depois fui jantar à praia e fiz cinquenta mil fotografias... e devem estar tão lindas... e eu sem energia para ir buscá-las à máquina. Tenho que me encher de coragem e ir porque, se não, que imagens vou eu usar aqui? 
Só coisas que me ralem.


Bem. Mas o tema hoje era para ser a subjectividade. Ou melhor: a subjectividade dos leitores ao apreciarem a qualidade da escrita. Podia ser doutra coisa qualquer mas hoje era sobre a escrita.

A questão é que não pode ser o mundo quase inteiro a estar errado e eu certa. Pois se há estudos, cátedras, adaptações a peças de teatro, prémios, traduções all over, a culpa só pode mesmo ser minha. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

E ainda não saí do ponto de partida. E isto tudo para não confundir a inteligência das minhas catequistas de estimação. Imagino as pragas que elas, a esta hora, já me estão a rogar.

Mas vá. Já chega de atirar bolas para o pinhal. Está mais do que na hora de chutar à baliza.

Pronto. Lá vai.



Gonçalo M. Tavares. Primeiro chuto.

António Lobo Antunes. Segundo chuto.

(Sei que nenhum dos chutos foi à baliza mas aí, lá está, já seria esperar de mais.)

Qualquer destes escritores dedica a vida à escrita, qualquer deles escreve que se farta, qualquer deles é incensado aqui e além mar, qualquer deles pode ser considerado um escritor de culto. E, no entanto, eu acho que o que eles escrevem é ilegível, ilegível no sentido de ser uma coisa maçadora, páginas e páginas de falta de assunto, páginas e páginas de uma escrita ora redonda, ora vazia, ora redundante, ora destituída nem sei bem dizer de quê.
Não se assemelham entre si, um inventa maluqueiras desprovidas de sentido e avança sem nada dizer, personagens com nome e histórias de vida desinteressantes, e uma escrita que se nos varre da ideia à primeira aragem. O outro fala, fala, intercala falas, rodopia, volta atrás, intercala pensamentos, anda para o lado, intercala falas alheias, deita-se de costas, deita-se de frente -- e não passa disso.
Em qualquer dos casos, no meio daquilo, podem aparecer coisas bem apanhadas. Também, em tantas centenas e centenas de páginas, era melhor que fosse tudo esfumável no instante seguinte. Não. Mas, no cômputo geral, vou ali e já venho.


Porém, se me ativer ao êxito alcançado ou ao interesse que uma certa intelectualidade lhes dedica, sou levada a acreditar que me falta o neurónio descodificador daquilo. Quiçá, se eu fosse dada a tomar, cheirar, inalar ou injectar, pudesse olhar aquelas páginas e ver rios de talento, luz a irradiar das frases, pepitas a brilhar ao sol por entre os calhaus. Mas não sou dada a isso. O que a mnha mente capta é, tão só, o que os meus olhos lhe levam. O mal, cá para mim, não deve estar no que eles escrevem mas em mim que não li a Odisseia de cabo a raso, o Ulisses do Joyce, os vários tomos de Proust, a meia dúzia de livros da Ferrante, a Bíblia grega e as outras -- e, confesso, até o Rogeiro eu costumo evitar ouvir, desinteressada que sou de me instruir.

Portanto, atalhando razões: isto é tudo relativo e nunca se sabe se a culpa é do pecador, se é da catequista, se é do próprio pecado.

Ámen.


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Lá acabei por ir buscar as fotografias à máquina. Mas com que esforço...

(A primeira fotografia não foi feita ao cair do dia: foi feita de manhã, quando fui ver como estava o tempo.)

E eu estou a dedilhar no teclado e a dormir... e não faço ideia de que é que estou a escrever pelo que se a escrita estiver ainda mais ensarilhada do que a dos dois génios acima referidos, queiram sentir compaixão por esta vossa pecadora encartada.

Three Little Birds encontra-se aqui integrada no projecto Playing For Change

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NB: Nada contra as catequistas em geral. Acredito que haja muitas que o são por devoção e generosidade. Aqui refiro-me àquelas que o são porque não podem ser da polícia dos costumes, aquelas que se pudessem instituiam a lei do pensamento único e do sofrimento colectivo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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11 comentários:

Célia disse...

Ufffasss...Obrigada, UJM!
Tirou-me um peso de cima. Devolveu-me a minha autoestima! Exagero meu? Ná...ná.
Retratou exatamente o que sinto sempre que leio (tento) os dois autores.
E andava eu caladinha e temerosa de fazer frente a certas evangelizações!
:)

Anónimo disse...

UJM, isto às feministas é que deve apoquentar presumir que as ditas "catequistas" são senhoras, que eu nada vi nos comentários que o aponte... E se um senhor se sentiu ofendido, porque o desejo lhe vai/foi com o tempo?... Qual catequista, qual carapuça! Autêntico D. Juan se faz favor!
Bom fim de semana!
JV

bea disse...

Pois...não sei. Os gostos e leitura não são todos iguais e quem sou eu para desdizer dos seus que só espero não sejam mais Paulo Coelho de quem me deram agora outro livro e acho uma perda de tempo - bem como Rogeiro, o tal que sabe de tudo, mas não me alegra -; diga-se que até me magoa um bocadinho que uma amiga me dê tal coisa, mas paciência. Mas também lhe digo, essa amiga adora Paulo Coelho e não se abala a nossa amizade por tal pormenor.

Pouco me interessa se o dito Gonçalo ou Lobo Antunes são os deuses portugueses da literatura. Tal como a JM só leio o que gosto (Paulo Coelho pode esperar sentado) que não estou para perder o restinho do tempo que me falta com gente que até pode ser parente próxima da divindade mas não me apraz.

E, contudo, gosto de Lobo Antunes em todo o lado e mais algum (e não tenho pinta de intelectualidade nem é coisa que deseje ou me faça falta). Da mesma forma que me aborrece a prosa do Gonçalinho e mais do Saramago apesar de lhes reconhecer qualidade qb, pensando mesmo que o noso nobel nos deixa bem representados. Mas é como lhe digo, pelo menos nas leituras, faço o que quero e me apetece:).

No seu inverso, li Helena Ferrante e gostei; e o primeiro volume de "Em busca do tempo perdido" e também gostei, mas a biblioteca castigou até setembro o meu esquecimento na entrega de modos que.

E posto isto, respeito o seu ponto de vista que é um no meio de tantos onde o meu está também. Mas sempre lhe digo que essa coisa de não haver assunto não me parece critério. Até por, no caso de Lobo Antunes, ser falsa. No outro não sei que me aborrece ler-lhe a qualidade e não me caem os parentes na lama por isso.

Não acredito que as catequistas leiam jornais. E, se lerem, dirão que é mais uma heresia a que nem os padres escapam. Mas ainda bem que - alguns - não escaparam, que essa coisa de Nossa Senhora com os pés em cima de uma nuvem que é vapor de água e portanto ela descalcinha em cima dos ramos magoa um bocado e ia logo encher o céu de lixo com os pezitos assim cheios de fuligem arbórea; e também não sei se há por lá carrinhos de linha e agulhas para coser as vestes que decerto rasgaria no encrespado da azinheira. Portanto, é de interesse imanente e transcendente que se deixe ficar onde está e vele por nós que ela é que tem a coroa (está bem que já não temos monarquia, mas, em todo o caso, D. Duarte Pio não foi lá abarbatar-lha e continua rainha). E parece-me que tem bastante que fazer e pode mesmo não dar conta do recado.

Tenha um bom sábado, na paz dos anjos (com nossa senhora a acompanhar).

Um Jeito Manso disse...

Olá bea, bom dia,

Aqui a correr que já estou atrasada que o sábado vai ser longo tantas as voltas a dar e já estou a ser interpelada. Mas não podia deixar de dizer: Paulo Coelho jamais.

Nota: o Lobo Antunes dos primeiros livros, sim. O Lobo Antunes as Crónicas também. Agora os romances que vem escrevendo...

Mas vim aqui também para lhe dizer que gostava que lesse o Ensaio sobre a Cegueira do Saramago. Mesmo que não siga mais nenhuma das minhas recomendações, siga esta, ok, bea?

E agora tenho mesmo que ir...

Um sábado feliz!

Maria disse...

Não consegui deixar de me rir com os comentários por ai abaixo
Sabe o que costumo dizer a essas pessoas tão amargas que se julgam sabedoras da vida?Mando-as tomar chá de urtigas porque uma das suas propriedades é ser muito bom para desintoxicar.
há pessoas que só conseguem viver na amargura. xô xô xô arreda arreda

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Há uma pessoa, idosa, das minhas relações que é desse tipo: tem e sempre teve uma vida desafogada, um bom emprego e reconhecimento do seu trabalho, um marido que sempre a tratou bem, a respeitou, filhos com saúde, com bons empregos, netos saudáveis, estudiosos, que não andam em qualquer tipo de dependências (apanham as suas pielas volta e meia, em dias festivos, mas isso faz parte de crescer) pois todos os dias aquela mulher tem que se estar sempre a queixar de alguma coisa... uma canseira.
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São pessoas cujos circuitos dos neurotransmissores/sinapses em algum ponto estão disfuncionais
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A nossa arte está em, não os podendo afastar, sabermos não deixar que nos contagiem porque se não a epeidemia passara a pandemia.
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Ainda ontem com uma amiga, daquelas amigas de 30 anos, com quem falamos pouco mas que sabemos estar lá quando é preciso... telefonou-me: o filho com uma esquizofrenia diagnosticada há vários anos, teve mais um surto em que foi necessário um internamento. Pois ela já lida com isto como se de uma gripe se tratasse. Acabamos a falar de tudo e mais alguma coisa e no fim rimos de alguns disparates da vida dos que conhecemos e marcamos um jantar para a próxima semana.

Um bom fim de semana, UJM
Beijos

GG

Rosa Pinto disse...

Ora viva.
Não podia estar mais de acordo.
Esta coisa das redes sociais (filtrando tem muita informação - pelo menos dos eventos que vão acontecendo e que eu gosto de assistir) mas por outro lado deprime. Todos já leram este e aquele escritor....eu que até nem me considero muito lerda...fico pasma. Escritores difíceis...ao fim de meia dúzia de páginas fico inquieta, não me concentro e a minha imaginação foge para longe dali.
Identifico-me com o que escreve aqui - hoje.
Há qualquer coisa na personalidade do comum dos mortais de se associar ao estrelato.(vulgo lambe botas) e os iluminados de se colocarem em bicos de pés. (muitas vezes sob a capa da timidez. e quando aliado à falta de respeito pelos outros é de bradar aos céus)
Mas cá sigo acreditando naquilo que penso - muitas vezes abanando por incertezas. Hoje venho até aqui e ao ler sinto-me mais leve.

E sim...há muita, mas mesmo muita mente formatada. Mesmo com instrução.
Fica um desabafo.
Em conversa com uma amiga (daquelas que não gosta de cozinhar) vi que na sequência de uma frase dela a minha resposta não foi a seu jeito. Há uma certa ligação de inteligência e liberdade a pessoas, neste caso mulheres, que não gostam das tarefas domésticas. Nada mais errado e digo-o aqui porque acho que é um pouco como eu. O cozinhar e a lida da casa enriquece o coração, dá-nos liberdade e gozo pela vida. Eu sou tão mais liberta do que ela!

Tenha um bom fim de semana.

bea disse...

JM

É livro que não possuo. Por razões pessoais e sem relação formal à escrita de Saramago, tenho-me afastado da obra o quanto posso. Mas talvez seja chegado o tempo de parar com o "pai, se é possível, afasta de mim esse cálice" e bebê-lo. Prometo: um dia, leio.
Quanto a Lobo Antunes: a cada um a sua opinião.

Rosa

as tarefas domésticas, em meu entender, são uma necessidade. Há quem mais se esmere. E quem menos. Não as encaro senão como veículo da liberdade individual. E nem sei se a liberdade se mede por aí. Explico: o meu espírito desarrumado convive mal com desarrumação e sujidade. Coisas que me agradam, vêm depois. Ou não terei com elas o mesmo prazer. Quem pode, paga. Quem não pode, faz. Mas também é verdade que há coisas que preferimos fazer. Porque são o nosso amor prolongado, um cuidado e carinho sem mão que fica pela casa, dentro do frigorífico, no interior dos armários, nos vidros das janelas, nas caixas das persianas...
O projecto de nos fazermos livres é sempre projecto. E a liberdade de uns não é a liberdade de outros.
Bom Domingo

Um Jeito Manso disse...

Rosa, bea,

Eu que não sou um modelo de arumadora, tenho, contudo, prazer em fazer limpezas. E se não tenho grande prazer na rotina de limpar o pé ou aspirar, tenho, no entanto, o prazer de varrer, lavar, lavar o chão, lavar casas de banho, afastar sofás para limpar por baixo, aplicar óleos nos móveis, sacudir tapetes... etc, limpezas das pesadas mesmo.

E gosto de saber de produtos de limpeza, gosto de experimentar produtos para limpar o forno, a placa do fogão, o frigorífico. Coisas assim.

E também gosto de passar a ferro. E já contei que, quando tinha tanque, gostava imenso de lavar roupa à mão.

Não sei se é libertador, se é apenas uma forma útil de queimar calorias e espairecer o espírito.

Mas mim vezes mais prefiro conversar de coisas destas, de limpezas e assim, do que de falar mal de empregadas domésticas. Isso acho que nunca fiz.

E uma boa semana a ambas!

Um Jeito Manso disse...

Célia,

Gostei de ler o que escreveu. Já somos duas. É que uma pessoa, às tantas, até fica a pensar que é burrinha por não perceber a qualidade que os outros incensam, não é...?

Mas, enfim, se há quem goste deles é porque alguma coisa do que escrevem terá valor... Ou será aquilo do amarelo?

Uma boa semana para si, Célia.

Um Jeito Manso disse...

Olá JV, grande JV!

Então será que não foi uma catequista mas um Don Juan...? Na volta...

Alguém cansado com o santo matrimónio e a defender as puladas de cerca...? Será...?

Mas porque é que ele se terá irritado comigo? Que pule à vontade, ora essa.

:)

E venha sempre aqui, JV, que a sua energia é contagiante.

Uma semana fantástica para si, grande JV!

Um Jeito Manso disse...

Olá GG,

Pois gostei de ler sobre a sua experiência de vida e sobre a sua visão sobre a vida. Partilhamos o gosto pelo espírito 'boa onda', não é? Se vem nuvem negra, saímos de baixo, pois então... Para quê cultivar o mau astral, não é?

E uma semana á maneira para si, GG.