Há temas que me são caros, talvez porque encerrem um enigma que não consigo deslindar. O tema da arte é um deles. O que é a arte? Como distinguir se uma obra é arte, se é artesanato, se é artifício, se é uma mera provocação?
Imagino que isto seja tema de estudo nos cursos de Arte ou de História da Arte. Poderia, agora, ir pesquisar sobre o que se diz sobre o tema, talvez até interrogar as inteligências artificiais, mas não quero. Prefiro que permaneça sem resposta.
No outro dia, ao conversar com uma amiga que ensina e pratica a matéria, ela dizia que também não tem resposta: qual a fronteira entre uma escultura e um objecto de decoração? Quando a dúvida lhe ocorre, ela sabe formular a pergunta mas não arrisca na resposta.
Desde muito cedo me interessei por arte. Enquanto estudava na faculdade, era rara a semana em que não me enfiava na Gulbenkian. Como entrei para a faculdade aos dezassete anos, posso dizer com segurança que parte de mim se formou nessa altura, no contacto directo com todas as formas de arte.
Já contei várias vezes o efeito que uma grande exposição do Miró provocou em mim: espanto, dúvida, admiração, alegria, incompreensão. Isto também é arte?, perguntava-me eu. Na altura não consegui assimilar tudo. Ao longo dos anos, as imagens foram fazendo o seu caminho dentro de mim. Algumas palavras foram criando raízes. Fascínio. Liberdade. Como se consegue ser tão livre a ponto de encher telas com cores e símbolos e estrelas e pontinhos? Como se consegue ser tão livre a ponto de fazer peças com escadas, sapatos e peças de roupa? Como se consegue que aquelas cores e formas façam tanto sentido?
E aquela exposição de Rodin, que comoção. Não conseguia deixar de andar de volta daquelas figuras. E depois a obra que mais me marcou, quase a mais insignificante. Até hoje, uma imagem que ficou gravada em mim. Voltei ao puro encantamento ao revê-la, anos mais tarde, em Orsay. Celle qui fut la belle Heaulmière. Uma escultura relativamente pequena, uma mulher curvada, enrugada, os seios esvaziados, caídos, o ventre lembrando talvez distantes maternidades. Outrora bela. Aquela que em tempos foi bela. A inclemência com que se pode olhar para um corpo velho e apenas ver nele a sombra do que se foi.
Tive vontade de chorar pela beleza da mulher, ainda tão bela na sua nudez sugada pelo tempo. Arte, sem dúvida. Arte maior.
Tantos exemplos. Um dos casos que mais me toca, não apenas porque é dos pintores que produz em mim um impacto emocional mais forte, mas também porque me deparo com a total indiferença, senão mesmo repúdio por parte da maioria das pessoas com quem falo. Rothko. Não tenho como explicar. Leio que acontece muitas pessoas ficarem em frente de uma tela de Rothko e chorarem. Comigo aconteceu isso. Sempre me senti inexplicavelmente atraída pelas suas pinturas. Conhecia de livros, de vídeos, de documentários. Mas quando me vi em frente a uma, de uma dimensão maior que eu, fiquei quase hipnotisada, não conseguia dizer nada nem afastar-me dela. Parece que me apetecia entrar por ela adentro. E, estando ali, ao vivo, apercebi-me de nuances de cores, da transição esfumada entre as faixas de cor de que não tinha tido ainda total percepção, e isso provocou em mim um efeito ainda mais imersivo. Quem não vê ali nada, não consegue sequer perceber o que digo. Acham que aquilo não vale nada, dizem que o filho ou neto de cinco anos faz melhor. Já ouvi esse comentário mil vezes. Mesmo que se saiba que o valor de mercado é brutal, cada tela vale muitos milhões, ainda assim consideram que as excentricidades do mercado não transformam uns borrões sem graça nenhuma em arte. E eu não sei rebater. Sei apenas que, para mim, é arte, arte suprema, intemporal, quase imaterial. Não sei dizer se o que ali vejo é beleza. Creio que é mais que isso, é transcendência. Não sei o que é o espírito, não sei mesmo, mas creio poder dizer que as pinturas de Rothko alcançam o que em mim há de mais espiritual.
Mas tudo isto é subjectivo.
Estava agora a escrever e a lembrar-me de um dia ir a conduzir e ouvir uma entrevista a um escultor de cujo nome não me recordo. Contava ele tinha uma vez estava a esculpir uma figura meio abstracta que, na ideia dele, simbolizaria a compaixão. Estava a trabalhar nisso com as suas ferramentas, a aperfeiçoar a peça. Então, entrou uma pessoa no espaço onde ele estava a trabalhar e, ao ver a figura que ele estava a esculpir, emocionou-se e benzeu-se, como se aquilo não fosse o bocado de pedra no qual ele estava a trabalhar mas um personagem religioso a quem já se devia respeito e devoção. Ele contava isso com alguma estranheza e, ao mesmo tempo, com indisfarçavel emoção, como se a peça naquele instante tivesse deixado de lhe pertencer, como se tivesse adquirido alma e voado. E eu, ao ouvi-lo, percebi como pode ser estranho tanta gente rezar e benzer-se e dirigir-se ao divino quando está em presença de peças esculpidas por uma pessoa. Acontece e alguma explicação há-de haver.
Nestas matérias em que a subjectividade impera, não há conclusões: há mistérios. E é na ignorância da sua explicação que poderemos maravilhar-nos, deixando-nos levar nas asas dos indecifráveis enigmas. Afinal a arte está em quem a sente -- talvez seja isso. Só isso.
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Não me canso de ver vídeos sobre Rothko mas aqui contenho-me e coloco um com apenas um minuto, um shot, coisa que se pode ver quase de penalti

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