Em especial quando a coisa me toca de uma forma profunda e, ainda mais, quando já aqui a abordei tantas vezes e segundo diversas perspectivas, evito falar. Soará a déjà vu, poderá ser uma seca.
Estou com o computador no colo e já me ocorreu escrever sobre diversos outros temas, mas a verdade é que não comecei, e isto porque o que se sobrepõe é o AVC do Markl.
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| AVC Imagem gerada pelo ChatGPT |
Por isso, rendo-me, não há volta a dar: é sobre isso que vou voltar a escrever.
Quando eu tinha uns quarenta anos, numa manhã, no trabalho, soubémos que um colega tinha saído a voar para o hospital, que tinha acontecido alguma coisa à mulher. Ninguém sabia ao certo o que seria.
Só apareceu no dia seguinte e por pouco tempo. Muito transtornado. A mulher tinha tido um AVC gravíssimo. Ele ainda não estava nele. Julgava, como eu também julgava, que era coisa que acontecia a pessoas mais velhas. Ela, jovem, magra, dinâmica, seria a última pessoa a quem se pensaria que podia acontecer. Factores de risco: fumar muito e, disse ele, parece que também poderia ter a ver com a pílula. Mas, ao certo, ele pouco sabia dizer, estava em pãnico. Esteve em coma, ela. Temeu-se o pior. Quando estava a trabalhar, ele mal conseguia falar no assunto, custava-lhe a acreditar. Com filhas pequenas, foi um pesadelo que se abateu sobre a família. Sobreviveu. Perdeu a fala, perdeu o andar. Teve uma recuperação lenta, difícil.
Anos depois, quando ela já trabalhava normalmente, estive num almoço em que ela estava na minha mesa. Fez-me muita impressão. O marido já me tinha avisado: normal, normal, ela não está, as palavras por vezes vão e não vêm. Por isso, eu já estava preparada. Talvez o que me tenha feito mais impressão é que continuava a fumar. Parecia inconsciente do risco. Mas, a falar, também exigia de nós uma atenção grande. Por exemplo, disse-me: 'passas-me aí o relógio?'. Fiquei a olhar, espantada. No entanto, vi que tinha estendido a mão na direcção do cinzeiro. Dei-lho, e ela agradeceu, aparentemente sem se dar conta da troca da palavra. Depois, mais à frente, queria dizer botão e dizia 'aquilo que entra na casa'. Mas dizia isto no meio da conversa, normalmente, como se não percebesse que, quando estamos a conversar normalmente, usamos palavras e não charadas. A seguir a conversa derivou para o ensino e ela, animadamente, queria criticar a reforma que a ministra tinha introduzido. Contudo, seguir a sua conversa foi um desafio. Apesar de me parecer que ela agia como se estivesse fluente, a sua conversa soava quase incongruente, embora me parecesse que talvez fosse porque não usava as palavras certas. Isto, enquanto fumava cigarro atrás de conversa. Quando comentei com o meu colega o facto de ela fumar tanto depois do AVC tão grave, ele encolheu os ombros: 'Já desisti. não é fácil... Percebeu isso, não percebeu?'. Noutra vez ele comentou: 'À vista desarmada parece bem, ninguém diz aquilo por que ela passou, recuperou os movimentos, anda bem, tem força nos braços. Mas a cabeça....'
Cada caso é um caso, disso não há dúvida.
O livro "Valsa lenta" no qual José Cardoso Pires relata como foi com ele: outros sintomas, outra evolução (e outra aflição).
Com o meu pai, metade do corpo foi à vida: a perna, o braço, e o campo visual daquele lado ficaram inactivos. Os movimentos da perna e do braço acabou por recuperar. A boca ao lado, ao fim de um dia ou dois estava normal. A fisioterapia faz milagres. Nunca simpatizou nem com andarilho nem com bengalas, quase como se quisesse preservar o orgulho de conseguir andar pelos seus próprios meios. Andava sozinho, embora agarrando-se aos móveis, subia e descia a escada sozinho, apoiado no corrimão, andava sozinho no jardim. O meio campo visual é que se perdeu irreversivelmente. E a orientação geográfica de proximidade, de início, também. Para sair do quarto, abria a porta do roupeito e ficava desorientado, sem perecber como entrar, para ir para a sala não sabia se era para a esquerda ou para a direita, quando estava na sala às tantas dizia que queria ir para casa, quando afinal o que queria era deitar-se.
E acertar com a medicação foi difícil. Por vezes alucinava, dizia que havia uma fenda na parede, queria que a minha mãe chamasse um pedreiro para arranjar a parede. Outras vezes, dizia que tinha deixado ficar as chaves num sítio em que poderia vir alguém e pegar nelas. A minha mãe dizia que as chaves estavam no lugar delas e que não entrava ninguém dentro de casa que as levasse, e que não havia fenda nenhuma. Então, exaltava-se, gritava, achava que a minha mãe não ligava ao que ele dizia, achava que a minha mãe negava a evidência de uma corrente de ar que passava pela fenda. A minha mãe chegou a dizer que já não o aguentava mais naquele estado, e que eu fosse lá a casa resolver o assunto. Quando lá cheguei, vi que ele estava num estado de pressão assustador, parecia ir rebentar a qualquer momento, enervado, stressado, a tender para o agressivo. Consegui levá-lo ao hospital. Alteraram-lhe a medicação e ficou bem. Outras vezes estava num estado de prostração que nos deixava a temer o pior. A minha mãe ia falar com o neurologista que alterava a medicação e ficava melhor.
Passava temporadas muito bem. Autónomo a nível das refeições e da higiene, sentava-se e levantava-se sozinho, conversava normalmente. A perna e o braço que ao princípio não mexiam, voltaram a funcionar. Chegou a ir passar o natal a nossa casa, chegou a ir passar o dia à nossa casa no campo, andou por lá a passear (com a minha mãe ou eu a dar-lhe a mão), chegou a ir ao casamento do meu filho (quando foi o da minha filha ainda estava bem). Só declinou de forma muito evidente quando partiu o colo do fémur na sequência de uma queda e foi operado. A partir daí tudo se complicou de vez.
Quando vejo o Nuno Markl no seu passo ainda hesitante, quando o vejo com o braço inerte, inevitavelmente penso no meu pai.
Mas vejo como ele encara as limitações com sentido de humor e, aparentemente, sem pudor e sem receios. E constato como isso é positivo.
O meu pai não. Sentiu o que lhe aconteceu com tristeza, desânimo. E não gostava que o vissem assim. E não gostava de sair de casa não apenas porque parece que se sentia humilhado por outrora ser tão autónomo e em tão boa forma física e, naquela altura, já tão frágil, a carecer da mão de alguém. Sobretudo, apavorava-o a perspectiva de ter vontade de ir à casa de banho e, com a sua lentidão e dificuldades, não chegar a tempo. E isso, para ele, seria a humilhação maior, temia ser objecto de comiseração ou chacota.
A forma como o Markl brinca com a situação, apesar de ainda ter os movimentos da perna um bocado presos e de ter um braço ainda incapacitado, a forma como se arrisca a ir para um palco ou para um estúdio de televisão, talvez demonstrre que parte da forma como o corpo reage a uma rasteira destas tem muito a ver como o modo como a cabeça reage.
Enquanto teve energia e cabeça para isso, o meu pai empenhava-se fortemente na fisioterapia e nos exercícios. A sua tenacidade enchia-me de orgulho e os seus progressos espantavam-me. Mas tudo o que fazia, fazia sempre com tristeza, sempre como se a vida o tivesse privado do prazer de ter liberdade de movimentos e total autonomia durante os últimos anos da sua vida, como se percebesse que não poderia voltar a ir fazer caminhadas para a praia, não poderia voltar a ir passar férias no verão para o Algarve e na primavera para a Curia ou para um desses sítios de que tanto gostavam. não poderia voltar a conduzir, não poderia fazer as suas marcenarias, não poderia voltar a ir ao mercado comprar peixe fresco, não poderia voltar a fazer as suas belas caldeiradas para a família. Essa consciência das suas limitações faziam com que se sentisse diminuído e, no seu íntimo, ele sentia-o como uma condenação a uma morte antecipada. E talvez isso fosse um acelerador para o seu declínio, enquanto o optimismo e o sentido de humor do Markl talvez sejam um reforço vitamínico, um autêntico catalisador para uma recuperação mais feliz.
Mas não sei. Não há AVCs iguais. Não há pessoas iguais. Esta é uma realidade complexa (e temível).
Bom mesmo é prevenir o mais possível pois passar por uma destas não é bom para ninguém. E bom mesmo seria que houvesse instituições públicas que apoiem na recuperação de pessoas a quem isto acontece. Pessoas sem condições para estarem internadas meses numa clínica privada ou para pagarem fisoterapia privada três vezes por semana ao domicílio durante meses como fazem? Entregam-se à fatalidade de ficarem acamados até morrerem? Isso, sim, deveria ser objecto de reflexão para os nossos políticos. Toda a gente tem direito à dignidade e à recuperação na sequência de um acidente. E escrever isto não deveria soar a lirismo.

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