Se grande parte dos dias podem ser bons apenas porque não são maus, outros há que são bons porque são mesmo muito bons. Felizmente não tenho de que me queixar, mas há situações que, mais do que serem-me agradáveis, são verdadeiros presentes da vida.
Toda a minha existência tem sido feliz, ou, pelo menos, boa, e cada vez mais penso que isso se deve, sobretudo, a ser descomplicada, a não querer saber do que me aborrece e a dar muito valor ao que me apraz. Raramente me aborreço com o que não tenho, raramente desejo o que sei que está fora do meu alcance. E digo raramente para não dizer nunca. Pelo contrário, contento-me com pouco. E também não quero saber do que dizem ou pensam de mim. E não é por arrogância, é mesmo porque nem me ocorre ligar a isso. Muitas vezes já aqui disse, e disse-o com sinceridade: acho-me muito básica, muito primária, quase ao nível dos animais que se dão por felizes com o que têm e que vão às estrelas quando recebem qualquer coisinha, em especial quando dada com afecto.
E este meu sábado foi mesmo muito bom. Não abano o rabo porque estou sentada a escever, mas, por dentro, estou toda sorrisos e agradecimentos mil. Reencontrei uma vez mais muitos amigos que vêm de um outro tempo, do tempo em que tínhamos todos o futuro inteiro pela frente.
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| Imagem gerada pelo ChatGPT para ilustrar aquilo de que aqui falo |
O futuro agora é mais curto. Mas não interessa, tudo é bom enquanto dura.
Senti a falta dos que não puderam ir e não pude deixar de sentir ainda mais dolorosamente a falta dos que entretanto partiram. Quando estive pela última vez com estes, os que entretanto partiram, não sabia que não haveria próxima vez, e eles, se calhar, também não. É muito triste que tenham sido levados. Parece que não faz sentido, que foi injusto, que eles não mereciam ser afastados da festa que pode e deve ser a vida.
Mas é o que é. E a vida continua. Por vezes faz sentido invocar alguns lugares comuns e este é um deles: a vida continua. E há que agarrá-la bem porque, como sabemos, é fugidia, tantas vezes traiçoeira.
Por isso, é com ambas as mãos que agradeço a vida que me habita, a vida que habita os meus, a vida daqueles a quem quero bem, a vida daqueles que me acompanharam quando eu era uma jubilosa menina e que agora, tantos anos depois, ainda partilham aqueles instantes de cumplicidade e empatia que parece que nos uniram para a vida.
Quando falo sobre estes felizes reencontros apetece-me sempre falar, mais em particular, de alguns dos meus amigos. Num dos últimos, no dia seguinte tinha uma mensagem de um deles. A filha tinha lido o que eu tinha escrito e percebeu que eu estava a referir-me ao almoço a que o pai também tinha ido. Ligou ao pai e ele logo descobriu o enigma. O blog é anónimo mas é escrito por uma pessoa com uma vida real e, por vezes, alguns apontamentos, sabe-se lá como, chegam a quem os consegue decifrar. E eu, mais do que surpreendida, fico feliz, quase como se fosse um milagre.
Desta vez tenho que reconhecer: contei à menina que me ofereceu a linda árvore que me foi dada como sendo da baunilha mas que, afinal, não dá baunilha mas, sim, umas delicadas florzinhas violetas que se alegram quando o sol lhes dá, que não apenas estou no instagram como tenho este blog. Por isso, para ela, o blog não é anónimo.
Ao longo dos anos, aqui, o recordar os meus tempos de menina e adolescente, várias vezes me referi a ela. Ela diz que, naquela altura, era tímida, apagada. As pessoas têm percepções de si próprias que muitas vezes não correspondem às percepções alheias. É o caso. Nunca a achei apagada. Pelo contrário, sempre a achei a mais bonita de todas e muito sincera, genuinamente boa pessoa, divertida, muito espontânea. Nós duas, em conjunto com uma outra, ríamo-nos imenso, achávamos graça a tudo, entre nós ríamo-nos dos traços pitorescos dos outros, imaginávamos situações divertidas. Não tínhamos segredos. Eu, pelo menos não tinha, partilhava dúvidas, amores, contava tudo o que sentia ou pensava, falava das minhas ideias, e sentia-me sempre acolhida por elas.
Seguimos cursos distintos, eu saí logo de casa dos meus pais, só ia ao fim de semana, enquanto elas continuaram a viver em casa. Portanto, deixámos de nos ver. Não havia telemóveis, as comunicações eram complicadas para quem não frequentava os mesmos lugares. Arranjei novos amigos, casei, fui viver para outra cidade. A vida levou-nos para caminhos distintos.
Mas eu pensava muitas vezes nelas. Com uma delas ainda mantive algum contacto, ainda a visitei levando já a minha filha, ela também já com um filho. Com a outra não.
Por obra e graça de algumas almas generosas que fizeram o trabalho de formiguinhas, encontrando o contacto de uns e outros e fomentando a reunião, voltámos a encontrar-nos todos. Uma felicidade.
Com essa minha amiga -- a que se lembra de si própria como sendo uma menina tímida e apagada mas a quem recordo como luminosa e de uma inocência extraordinária, tocante mesmo --, voltei a sentir aquela compreensão que sempre senti. Parece que adivinho o que ela pensa, e solidarizo-me com tudo o que ela diz e pensa e sente. Mesmo quando ela, adolescente, se encantou por uma pessoa que a mim me parecia não reunir as características de príncipe encantado com que ela sonhava, eu compreendi. Eu olhava para ele e pensava que ele não seria o amor para a vida inteira com que ela sonhava, e tinha pena, mas, ao mesmo tempo, percebia o que nele a encantava: a subversão, a suprema irreverência, a ideia de liberdade. E, por isso, tenho ideia que não fui capaz de lhe dizer o que achava dele, dizer que não fosse por aí, pois, tal como ainda hoje penso, se calhar não é para a vida toda, mas, enquanto durar, talvez a faça feliz, e essa felicidade não lhe deve ser negada. E quando a felicidade, mesmo que incompleta ou breve, dá frutos, então, claro que vale a pena. Que se esqueçam as desilusões e que se louve a felicidade dos frutos que o romance fez nascer.
O tempo passou, as nossas vidas andaram para a frente. Percursos diferentes. Mas, dentro de mim, ainda sinto que, se ela precisar, estarei lá para ela. Sempre, incondicionalmente.
Também me apetece falar de uma outra, amiga mais tarde, mas muita amiga nos tempos de faculdade. Alegre, alegre, brincalhona, por vezes truculenta, tiradas divertidas, por vezes com uma deliciosa malícia. Cumplicidade também total. Acompanhou os meus tempos animados a nível amoroso, brincava com isso. Nunca tive segredos com ela. Sabia das minhas dúvidas, da minha queda cada vez mais fatal por um e pelo meu desligamento cada vez mais irreversível de outro. Assistiu a tudo. Ainda me lembro de estarmos as duas, eu à espera de um, e ela anunciar com sobressalto na voz: 'Olha! Ele vem aí!', como se estivesse a avisar-me que o outro tinha aparecido, e eu, em pânico, a pensar que a coisa ainda ia dar para o torto, os dois frente a frente. Depois ria-se do susto que me tinha pregado. Continua igual. Brincalhona, leve, leve, amiga da boa disposição.
E talvez amanhã fale de outras duas. Não hoje que o texto vai longo.
Só lhes desejo bem, a todas. A todas e a todos, que nisto, como em nada na vida, não sou sexista. Que tenham saúde. Que a vida lhes corra o melhor possível. E que por muitos e bons anos continuemos a encontrar-nos, a gostarmos de estar uns com os outros.
E, de resto, talvez não seja preciso muito para sentirmos momentos de felicidade, talvez baste apenas reconhecer como felizes estes momentos em que nos sentimos bem.
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Desejo-vos um belo dia de domingo

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