A beleza é fundamental, já Vinicius o dizia. A inteligência é fundamental. O bom carácter é fundamental. A cultura é fundamental. O bom feitio é fundamental. Muitas outras coisas são fundamentais. Mas, de entre elas, uma se destaca: o sentido de humor.
Posso relacionar-me com muita gente mas apenas com a que revela sentido de humor eu sentirei vontade de manter a proximidade.
O sentido de humor é a manifestação mais evidente da inteligência mas é a inteligência condimentada com a graça de existir e a generosidade de fazer rir os outros.
O sentido de humor é o alfa e o ómega para se levar isto na boa. E só não acrescento a delta para não haver lugar a confusões que eu do merdinhas com totós quero é distância..
Pode alguém ser o máximo, pode saber Os Lusíadas de cabo a raso, a Odisseia de cor e salteado, simplificar os polinómios até os deixar em carne e osso, pode saber declinar todas as leis da termodinâmica e inventar ainda uma nova como quem não quer a coisa, ou cantar toda a tabela periódica, desde os clássicos até aos mais recentes elementos, pode não falhar um rio, um afluente, uma serra, saber todas as cordilheiras, picos, vulcões, reconhecer os eixos e a respectiva orientação dentro de cada cristal, pode saber reconhecer cada astro por mais longínquo que seja, saber de leis como quem sabe de fazer bolos, as receitas todas de cor, as manhas e os preceitos, um a um. Pode tudo. Mas, se não souber fazer-me rir aí, santa paciência, nada a fazer. Não tenho paciência para chatos. Tem que saber desarmar-me com uma piada, tem que ter a inteligência de juntar as pontas soltas e dar-lhes o mais inesperado e insólito laço, descobrir a brejeirice elegante que fará desatar-me a rir.
Não ter sentido de humor é pior que doença, é falta de gene, é deficiência irreparável, devia ser caso para enxerto ou para criar associação.
Em contrapartida, pode ter falta de muita coisa mas, se tiver sentido de humor e tiver o condão de me fazer rir, tenderei a desculpar todas as faltas. É o meu ponto fraco: gosto de quem seja capaz de me fazer rir.
Aliás, sentido de humor é mais do que fundamental. É o sal da vida. É anti-oxidante, anti-aging, é poção mágica, elixir da vida eterna.
De entre os vários tipos de humor prefiro o pouco óbvio, o insolente, o que contém alguma sofisticação, o que junta ao tempero um pouco de pimenta, o que é inesperado e até inapropriado, o que continua a fazer-me rir vinte ou trinta anos depois. Mas se for uma cambalhota trapalhona, um trejeito descarado ou um trambolhão bem merecido também não me farei rogada. Sou de riso fácil.
Em dia um pouco apático e em que as mãos se movem sobre uma massa algo informe em que se pressente a semente da desmotivação, em dia em que o dia que era para ser afinal não foi (o que me desiludiu, não o escondo) e em que, para ajudar à festa, o ferro de engomar não aqueceu causando um óbvio transtorno, chego aqui ao computador e apetece-me rir. Quem ri, seus males espanta.
E basta-me escolher um ou outro vídeo que o meu grande amigo do peito, o algoritmo mais fofo, logo percebe o que é que eu quero e desata a sugerir-me maluqueira atrás de maluqueira. Já estive a ver alguns a que não resisto.
E, para polvilhar o post, nada como as macacadas que aqui vêem. Há milhares.
Quem esteja por aí ensimesmado, sem encontrar motivo para sequer esboçar um leve sorriso, que veja aqui ou procure o que por aí há de risota. Não falta.
Permitam, pois, que partilhe convosco alguns vídeos já mais do que conhecidos mas que sempre me farão rir ou sorrir.
Vou ver se consigo, a seguir, ir responder aos comentários. Passou o fim de semana e, até ao momento, não consegui pôr nem os comentários nem o sono em dia. Entre caminhada, supermercado, ida a um sítio de que hoje não quero falar, vinda para casa, estar com parte da família depois de ter estado com outra parte um bocado antes, jantar, tratar de coisas e outras ainda por tratar, pouco tempo me sobra. Não sei como consigo esta proeza. Há cursos de gestão de tempo e eu, se calhar, deveria frequentá-los. Iriam ensinar-me a gerir prioridades. Se calhar deveria não ir a todas como agora tento ir. Mas vou porque quero e não porque seja obrigada. Portanto, abóbora.
Tenho estado aqui a fazer umas pesquisas para ver se mudo de opinião em relação a um certo tema ou para ver se reoriento os meus interesses noutro sentido. Mas como sou de amores à primeira vista não há racionalizações que me salvem. O meu marido chegou aqui e disse-me para eu validar algumas alternativas. Não me agradaram.
Entretanto, cá em casa, constatei que o meu menino mais velho já está declaradamente mais alto do que eu. E já está com voz grossa. E senta-se já à homem. Tem vontade de viajar. Falei-lhe no interrail e ficou interessado. Mal possa, far-se-á à vida. Tem um espírito independente e o apelo por ir conhecer mundo. Disse-lhe que tem que merecer confiança e mostrar que é responsável para poder ir sozinho ou com amigos para o estrangeiro. Diz que claro que sim. Acredito que sim e acredito que proramará tudo com minúcia.
O irmão candidatou-se a delegado de turma. Perguntei-lhe qual a sua proposta e porque haveriam os colegas de votar nele. A mãe perguntou-lhe se não ia haver debate e, se houver, se já pensou no que vai dizer. Virou-se para nós e, com ar de quem se vê forçado a dizer coisas óbvias, disse: 'É domingo, ao domingo não se pensa nisso...!'. E acrescentou que logo verá o que dirá. É intuitivo, emotivo e muito boa onda. Toda a gente gosta dele. A escola é nova mas já está como se toda a vida lá tivesse andado.
De manhã, tínhamos recebido fotografia da menina num jogo de equipa. Mal a reconhecia. Estava de costas o que dificultava, mas também está crescida. Cresceram todos nas férias. Agora à noite foi o mano do meio com o pai, que ele tinha batido novo record, 5,5 km em 45 minutos sem parar. Estava todo contente na fotografia. Meu menino querido. De tarde, enviaram uma outra fotografia. Estavam com a bisa a lanchar, a bisa toda contente com o programa de festas. Contou-me que, depois, ainda foram lá para casa pois tinha feito crepes e bolo mármore. Estava toda contente com a alegria e inteligência dos meninos. Diz que o mais novo disse aos pais: 'fiz bem em programar este passeio'. De facto, já há algum tempo que andava a querer lá ir.
Tirando isso, também li a entrevista da Ana Cássia Rebelo que, em boa hora, aqui me sugeriram. Há qualquer coisa de surpreendente nela por, tão aberta e quase candidamente, se expor em toda a sua intimidade, não hesitando em revelar aspectos sensíveis da sua vida, incluindo a nível sexual ou das suas mais privadas vulnerabilidades. Mas ela fala disso como se falasse de banalidades. Deve ser desconcertante lidar de perto com ela. Lembro-me de quando revelava as mais incríveis intimidades, revelando até o nome da pessoa com quem partilhava esses momentos. Imagino que deve ter causado alguns dissabores a alguns dos envolvidos. Mas, na sua franqueza, ela parece ser como aqueles inocentes ou aqueles seres inimputáveis a quem tudo se deverá perdoar.
Diz ela na entrevista que gosta muito de ler e que, para ela, ler é mais relevante do que escrever. Senti alguma nostalgia pois também eu gosto tanto de ler e, no entanto, não ando a conseguir tempo para ler. E essa ausência cava um fosso dentro de mim. Mas, na minha deficiente gestão de prioridades, tenho cortado a leitura para conseguir acorrer ao demais. Ando a ler pouco, pouco, pouco. Tenho que ver se consigo corrigir isso pois sinto muita falta.
E agora vou ver se consigo ir aos comentários. E, a seguir, a ver se ainda vou passar alguma roupa a ferro.
Mas, antes, partilho convosco a actuação de Léa Kyle que sempre me deixa parva a tentar perceber como é aquilo possível. Não sei se é magia, se é ilusão de óptica, se é coisa do outro mundo. Mas é do caraças.
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As fotografias são de Izumi Miyazaki que aqui vem na companhia da Garota Não com o seu Monstro.
Nada como um bom surrealismo.
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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Gosto de fazer arrumações, das grandes. E, quando as faço, é de a a z.
Neste caso, com o movimento de translação que imprimi aos roupeiros in heaven, deu-se origem a uma das derivadas destas mudanças: a crivagem para ver o que deve ficar e o que deve ser dado ou ir para o lixo.
Há uma informação essencial para compreender a minha casa mas eu, como gosto de manter alguma reserva, não a transmito aqui. Por isso, não deve ser fácil perceber porque é que numa casa grande há tanta falta de espaços para arrumação. Mas acreditem que há. Por isso, aproveito todos os lugarzinhos possíveis para enxertar um armário onde guardar a tralha.
O meu marido massacra-me com um mantra que me recuso a interiorizar: diz que não há falta de espaço, há é tralha a mais. Aos anos que o diz. Em parte terá razão, não digo que não.
Quando se compra uma casa usada ou se fazem obras e grandes mudanças ou se aceita a casa como ela é e apenas se melhora uma ou outra coisa. Nós optámos pela segunda hipótese.
Uma das particularidades um bocado absurdas da casa é que, tendo a casa principal duas casas de banho, uma delas é tão grande, senão maior, do que o meu quarto. Um tamanho inusitado e sem jeito. Eu olhava aquele salão com irritação: um desperdício sem solução. Até que resolvi marimbar-me para a ordem natural das coisas e mandar fazer um roupeiro praticamente de parede a parede. Não é normal as casas de banho terem móveis destes mas azarinho.
Só que, como isto se deu numa outra encarnação, o roupeiro é de madeira maciça, cor de madeira, mais ou menos cor de mel. Se fosse hoje seria branquinho. Mas não, senhor, uma coisa imponente e despropositada na big casa de banho. Agora olho para ele e só me apetece pintar. Um dia ainda pego numas latas de tinta, talvez branco, talvez branco azulado, e graffito aquilo tudo, talvez um graffiti a dois tons.
Bom: aquele roupeiro tinha tudo -- roupas do meu marido que estavam boas e que eram boas mas, na altura, ou um pouco apertadas ou um pouco largas, lençóis, almofadas, pijamas, produtos de higiene. Ou seja, cheio como um ovo.
Depois havia o guarda-fatos ultra-vintage que era da mobília de quarto dos anteriores proprietários, daqueles móveis em mogno num castanho quase preto com o qual consegui conviver até há algum tempo mas que, progressivamente, se me tornou quase sepulcral. Já antes tinha colocado pedra mármore nos tampos da cómoda e mesas-de-cabeceira como forma de aclarar o ambiente. Agora o quarto está outro, como já antes o referi. Esse guarda-fatos foi para o quarto do estúdio, depois de esvaziado.
Na cozinha desse estúdio, para uma das paredes mandámos fazer um móvel, igualmente em madeira-madeira, também em cor-se-mel, creio que é cerejeira, igual aos demais móveis da cozinha. Por fora, são portas de alto a baixo. Mas, por dentro, esse móvel é um mundo. Tem roupeiro, tem arrumação, tem gavetas, tem uma parte despenseira. Também estava cheio.
E o que estava no quarto do estúdio, um de pinho-mel que, quando a minha filha era pequena, estava no seu quarto, foi para a casinha das ferramentas.
Ora, tudo o que estava dentro de cada um teve que saltar cá para fora para que a arrumação agora se fizesse racional, organizada, lógica, optimizada.
Muita coisa foi à vida. Temos levados sacos de roupa para aqueles contentores da doação de vestuário. Outras coisas vão simplesmente para o lixo. E tenho descoberto coisas surpreendentes. Hoje vi uma colcha de que não tinha qualquer ideia. É linda. Deve ter sido das tias do meu marido, quiçá até da avó. Não me lembro do nome do tecido, se é que é aquele de que hoje à tarde me lembrei. Tem um relevo, parece de seda, é espesso. É em tons de marfim. Pensei logo trazer para o meu quarto da casa nova. Mas, claro, lavei-a.
Quando foram as partilhas foi um processo tão atribulado, tão louco, que acabei por nem saber o que tínhamos trazido. Depois o meu marido também não queria usar nada daquilo. Por ele não tinha ficado com nada. Como elas tinham dito que gostavam que as coisas fossem repartidas pelos sobrinhos, cumpriu-se o desejo. Mas muita coisa foi para o lixo, logo no momento em que se separavam as coisas. Como eram coisas boas e bonitas e tão estimadas por elas, não consegui deitar fora o que trouxemos apesar do meu marido não querer ver aquilo nem pintado. Portanto, ficou tudo em sacos, na arca, ou encafuado nos roupeiros.
Agora, nestas arrumações, ao sair tudo à cena, descobri coisas muito interessantes. E nem ele sabe de quem é que as coisas são. A bem dizer nem eu sei. Às tantas também pode ser das minhas avós. O que sei é que são autênticas revelações.
E, claro, lavei tudo. Hoje foram mais três máquinas de roupa. O que me valeu é que, com o vento que esteve, estendido tudo ao sol nas cordas que prendemos entre as árvores, seca tudo num instante. Fica a roupa bem seca, rija, perfumada. Só depois arrumo nos seus novos poisos.
E tenho a dizer que sigo o método kondo. Sigo quer na seleção do que conservo e do que vai fora, quer na dobragem e acondicionamento. Gosto imenso de o fazer. E gosto de, depois, olhar para as gavetas, tudo tão bem organizado.
Tenho ainda a dizer uma outra coisa. Penso que já é sabido por quem por aqui me acompanha: acho piada às galinhas e aos galos enquanto objectos. Prestam-se a representações divertidas. Por isso, havia galináceos all over. Com o touch minimalista da minha filha, todos esses meus excessos foram recolhidos. Então não se sabia o que fazer a tanta bicheza, sendo que é bicheza esteticamente do meu agrado. Então, tive uma ideia. O meu marido, se estivesse aqui diria que isso é o pior, eu ter ideias.
Mas tive e estranhamente ele achou a modos que um disparate... mas não se opôs ferreamente. Portanto, a coisa concretizou-se. Uma vitrina é agora a capoeira em que se juntam quase todos os cacarejantes. Está na cozinha, ao pé do frigorífico. Está cheia. Mesmo assim não couberam todos pelo que há uns quantos tresmalhados.
Fiz o mesmo com os carrinhos antigos, uma colecção de quando o meu marido era pequeno. Estavam num rebordo da parede do antigo quarto do meu filho. Impossível limpá-los. Pensei no mesmo das galinhas mas numa versão diferente. Acho que ficou com piada e, da próxima, a ver se não me esqueço de fotografar.
E é isto. São duas da manhã, trabalhei que me desunhei durante todo o santo dia, e, como é bom de ver, daqui hoje não sai mais do que isto.
Ah, creio que não vale a pena dizer que o meu marido, com isto tudo, só não me rifa porque se calhar tem receio que ninguém queira habilitar-se. O que ele tem protestado só eu sei.
(Mas, no fim, quando vê tudo arrumado, clean e bem cheiroso, fica caladinho e eu percebo que gosta do produto final. Mas, porque acha que já merecia um dia de descanso, não diz nada para marcar a sua posição)
Poder-se-ia pensar -- se alguém pensasse sobre isso o que não é o caso -- que a parte mais substancial do meu dia teve a ver com o que fiz para justificar o que me paguem de ordenado. Pudesse eu aqui descrever e talvez até pudesse ter alguma graça. Personagens de filme não faltam, mulheres bonitas muito menos, homens para vários gostos também não. Até um que estava quase sem cabelo anda agora com frondosa melena. E sempre muita intriga. Romance, se houver, é clandestino. Comédia e tragédia também há -- e sempre em dose dupla.
Mas, se tiver que eleger os melhores momentos incluirei aqueles em que conduzi pela cidade branca, luminosa. Acompanhada pela Antena 2, rolando ao longo do rio, por entre árvores e flores, ou nas largas avenidas (em que felizmente se conduz devagar), de janela aberta, sentindo o calor suave, a brisa, os odores, vendo o movimento. Uma sensação boa de liberdade.
Decidi uma coisa: não deixei o carro no parque da empresa. Deixei-o antes, num parque público. Apeteceu-me muito andar a pé, por entre gente desconhecida, vozes de outras nacionalidades. Já estranho um pouco quando tenho que andar mais, na rua, de saltos altos. Mas rapidamente me habituo. O prazer de me misturar com pessoas, em especial com estranhos, com ente de todas as cores, idades e nacionalidades é muito grande.
Uma vez mais aconteceu-me o que ultimamente acontece sempre: esqueço-me de pôr o relógio, aliança ou anéis. Nem pulseiras. Braços e mãos nuas. Desabituei-me de os usar e agora parece-me que faz mais sentido ver-me assim.
Também muito boa a praia ao fim da tarde. Estava um pouco de vento, talvez uma aragem fresca. Ainda assim, estive de fato de banho. Caminhámos e depois sentámo-nos na areia. Levei a máquina, estive a fotografar. Outro prazer dos bons.
Gaivotinhos pequenos brincando à beira da água, casais passeando em contra luz, crianças correndo e mergulhando, jovens autofotografando-se, o espaço aberto e limpo, o som do mar e do vento - momentos bons.
À vinda da praia, porque sexta-feira é sexta-feira, passámos por um dos restaurantes que nunca desilude e fomos buscar comida. Ao aproximarmo-nos, um pequeno ajuntamento em movimento no passeio. Olhei. Reconheci uma candidata. Rodeada de uma dúzia de pessoas, uns já um bocado entrados, uns três ou quatro jovens que, creio, estavam a filmar, oferecia uma imagem de desolação. Estacionámos. Quando estava a ir para o restaurante, estava o grupinho a fazer o mesmo. Não sei se foram cumprimentar ou deixar folhetos. Uma coisa meio triste, fora do tempo. Ali ia aquele pequeno e desgarrado bando, sem vida, não se sabe bem a fazer o quê. O olhar da candidata cruzou-se com o meu. Ambas de máscara. Inexpressivos os olhares como se, quer eu, quer ela nos estivéssemos nas tintas uma para a outra. E era mesmo isso. Reparei que ao longo do passeio, se algumas pessoas se cruzavam com a fajuta comitiva, não se detinham nem prestavam atenção. A candidata mudou de passeio e vi algumas pessoas com instrumentos musicais. Não sei se iam improvisar alguma sinfonia ali mesmo. Mas nem eu quis saber nem os próprios também o queriam. Tinham os braços caídos ao longo do corpo e o instrumento pendurado na ponta da mão.
Não sei para que servem estas arruadas. Do que vi apenas servem para demonstrar à saciedade que não fazem qualquer sentido nem têm qualquer utilidade.
À noite voltei ao Homeland. Viciante, viciante. Uma qualidade inexcedível. O argumento, a dimensão psicológica dos personagens, o enquadramento político dos acontecimentos. E, claro, o mundo dos serviços secretos que é um mundo dentro do mundo e que é demasiado fascinante.
Agora estou aqui. É a minha última tarefa do dia: escrever no blog.
Lembro-me da Ana de Amsterdam que eu gostava tanto de ler. Contava coisas mirabolantes, sexo sem tino, bebida sem limite, desolações, tristezas, actos extremos. Não percebia se seria tudo verdade, se tudo mentira, se um misto. Parecia tudo verdade até as coisas que inventava. Havia sempre um elemento de surpresa e de insólito na sua escrita. E isso prendia-nos.
Tenho pena que tenha deixado de escrever o seu blog.
Mas isto para dizer que eu não tenho nada assim para reportar e que, quando abro o computador às tantas da noite, já cansada e perdida de sono, penso inúmeras vezes: para quê? o que tenho eu a dizer que valha a pena? E concluo, sem falsas modéstias, que nada. Mas gosto de escrever e, no fundo, no fundo, também tenho esperança que gostem (mesmo que só um bocadinho) das banalidades e insignificâncias que para aqui vou desfiando.
Quando me reformar e me dedicar à escrita das minhas memórias é que vão começar a aparecer histórias cabeludas. Me aguardem...
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As fotografias foram feitas esta sexta-feira e acompanham Mandy Patinkin, o fantástico Saul Berenson de Homeland, em I Have Found My Happiness
Há decisões muito difíceis. No dia em que nos despedimos (e mandámos abater) a nossa cadelinha mais linda jurei para nunca mais. Disse e pensei e disse e pensei e durante anos disse e pensei: 'não volto a passar por isto'.
Os seus últimos anos foram muito difíceis: teve um tumor maligno, foi operada, teve anemias severas, teve que levar transfusões. Teve que ficar internada e era tão doloroso para ela quanto para mim. Ela não devia perceber que estivesse tão fraca e tão doente e que eu a deixasse ali. Olhava-me com aqueles olhos meigos e tristes que se cravavam no meu coração. E eu pensava que sofria tanto por ela quanto sofria pelas pessoas da minha família que estavam doentes. Ou mais porque as pessoas percebiam e ela se calhar não percebia.
Quando estava em casa e estava doente por vezes estava muito bem e, sem aviso prévio, olhava-me e caia, inerte. Eu gritava, aflita, temia que ela tivesse morrido. Depois vinha a ela mas ficava trémula, cansada. Eram simples desmaios mas eu ficava aterrorizada com medo que nos morresse.
Nos últimos dias estava muito mal, não tinha força. Ela, que nunca fizera as suas necessidades em casa, não aguentava e fazia-as na porta do prédio ficando depois muito nervosa e envergonhada pelo que tinha acontecido.
Lembro-me de num desses dias, nos últimos, eu ir à janela e ver, lá em baixo, o meu marido com ela. Ela quase não conseguia andar, o meu marido quase tinha que transportá-la. Era tão triste. Os dois tão tristes. Eu tão triste vendo-os pela janela.
A médica já nos tinha dito que a qualidade de vida dela estava a degradar-se acentuadamente, que já não havia muito mais que pudéssemos fazer. Estava quase com treze anos o que para uma boxer já era idade avançada.
Naquele dia ela estava mesmo muito mal. Olhava-me com muita tristeza, quase sem conseguir mexer-se. Queria levantar-se e não conseguia. Olhava-me, pedia-me ajuda, e eu tentava ajudá-la mas ela não conseguia. A tristeza dela era imensa. E a minha também. Tinha vontade de chorar só de ver a tristeza dela certamente por não perceber o que estava a acontecer-lhe. Ou, então, por perceber o que estava a acontecer-lhe.
Nesse dia levámo-la, uma vez mais, à clínica veterinária. Eu temia e intuía o que ia acontecer. Nas outras vezes ela levava uma transfusão, ficava a soro, algum tratamento. E ficava melhor por uns dias. Mas eu sabia que já estávamos a prolongar a vida dela para além do aceitável. Sabia que já não havia salvação possível.
E então cometi o acto mais cobarde e imperdoável da minha vida. Quando lá chegámos, não consegui sair do carro. O meu marido levou-a e ela, milagrosamente, ainda conseguiu ir pelo seu próprio pé. Foi como se o seu corpo, num último acto de resistência, quisesse dizer-nos que ainda não estava no fim. Ficou no passeio parada a olhar para trás. Uma vez mais não percebia. Eu a vê-la a olhar para mim, admirada por eu não ir com ela, eu a saber que devia estar a vê-la pela última vez. Eu a pensar que deveria ir, deveria ficar a abraçá-la. Eu sem ser capaz. Não posso esquecer-me. Por mil anos que viva não me esquecerei dela, virada para trás, a olhar para mim e eu, coração destroçado, fechada no carro, a chorar.
Foi o meu marido sozinho com ela. Ia carregado de tristeza. Não falava. Nenhum de nós conseguia falar. Ele entrou na clínica e eu fiquei no carro a vê-los entrar.
Quando me ligou, já eu estava no meu gabinete. Não conseguia falar. Mas também não precisava de falar. Desatei a chorar. Quando um colega meu entrou no meu gabinete, encontrou-me lavada em lágrimas, destruída pela tristeza.
Ainda agora, enquanto escrevo, não consigo evitar: estou a chorar. Tantos anos depois, ainda não me recompus da perda daquela cãzinha doce e meiga que fez de nós a sua família.
E durante todos os anos tenho pensado: não aguentarei passar por outro desgosto assim.
Mas não posso pensar apenas nos seus últimos tempos pois antes houve todos os anos de imensas alegrias. As vezes que corria na praia, as vezes em que ia no carro e muito anos de chegarmos à praia já estava numa alegria, a animação em que ficava quando íamos para o campo, as vezes que saltava de alegria quando chegávamos a casa, as vezes em que, mal adivinhava que íamos sair, se punha à porta à nossa espera, as vezes em que se abraçava aos meus filhos, aconchegada, recebendo e retribuindo a mais pura ternura, as vezes em que nos desafiava para a brincadeira, as vezes em que mostrava que nos compreendia e nos amava incondicionalmente. Não posso esquecer o afecto que nos ofereceu nem a nossa alegria por percebermos que adorava o nosso afecto.
Ao fim de tanto tempo consigo escrever sobre esse ser tão especial que habitou as nossas vidas.
Se calhar isso quer dizer que, finalmente, estou preparada para ter outro cão.
Regressei ao trabalho nesta segunda-feira. Não sei se posso dizer que tive férias. Dez dias de muito trabalho, isso sim. E foi até ao último minuto de domingo.
Esta semana foi o retomar de uma coisa que, verdadeiramente, não chegou a ser interrompida. Um ano atípico a todos os títulos.
Mas, no fim de um período muito intenso (e os últimos dias das supostas férias foram-no), chega a ressaca. Mais uma ressaca.
Mal me sento aqui à noite, começo a adormecer. Depois são micro-sestas mas, ainda assim, pequenos instantes em que perco a consciência. Micro sonos profundos mesmo que durem apenas dois a três minutos. Mas, mal acordo, logo volto a adormecer.
É fruto dos dias actuais e do lastro dos dias de ««««férias»»»»
Nestes dias, de cada vez que me chega um problema só me apetece dizer que já chega. Ainda no outro dia, a minha menininha, num dia em que esteve cá em casa, vendo-me a ter reuniões ou a fazer telefonemas (e, numa das reuniões, estava sentadinha ao meu lado, num plano mais baixo e muito lateral, longe do alcance da câmara), perguntou-me: 'Mas... exactamente o que é que tu fazes...?'. Deu-me vontade de rir mas fiquei sem saber bem o que dizer. Se calhar disse-lhe que resolvo problemas. É que a toda a hora me dizem: 'Temos um problema'. Quantas vezes confesso: também não sei, não tenho varinha de condão, vamos pensar nisto, vamos ver se surge uma boa solução.
Estes dias têm sido férteis: ainda agora, perto da meia-noite, recebi mais um mail daqueles que me deixam sem saber o que fazer: ou adopto a linha dura e que se lixe ou me encho de paciência e vou ver se há uma soluçãozeca de compromisso. De tarde uma daquelas longas conversas: complicações umas atrás de outras. Às tantas eu disse: resolver isto não é de um dia para o outro, é trabalho de anos. E tive vontade de acrescentar que não sei se vão poder contar comigo durante todos os anos que seriam necessários. Depois a conversa já tinha a ver com problemas em empresas noutros países e que o melhor seria lá irmos. Ouço isto com uma apreensão que se move em segundo plano. Se isto fosse há dez anos, talvez eu encarasse todos estes problemas como estimulantes desafios. Agora vejo-os quase como se se tratasse de uma realidade que vai para além da minha linha do tempo.
Há dias recebi uma mensagem de uma amiga que, na sequência de uma queda na praia, à beira-mar, imagine-se, arranjou um sério problema numa perna. Tanto tempo teve que estar em casa, mal andando e em fisioterapia, que, às tantas, pensou que o melhor que fazia seria reformar-se antecipadamente. Não quis saber de penalizações. E perguntava-me ela se eu também não tinha vontade de mandar bugiar 'esses gajos'. Não sei responder. Gostava que fosse menos intenso, que não tivesse que estar a toda a hora a saber de chatices sendo que sei que não apenas toda a gente acha que estou lá para os resolver como, também eu, acho que o dever e o sentido de responsabilidade me impelem a isso.
E isso cansa-me. Ou melhor: desgasta-me.
Entretanto, a minha mãe vai recomeçar as suas aulas. E, com isso, recomeçam os seus dramas. Há um programa que, se não me engano, se chama 'Depois vai-se a ver e nada', Assim os dramas da minha mãe. Grandes dramas e, afinal, não há qualquer crise. Contudo, a ela são cenas que lhe tiram o sono, que a enervam e a fazem ter vontade de desistir -- e que, por incrível que possa parecer, quase a põem a chorar. Para a ajudar, abro a caixa de correio dela para perceber o que é que desapareceu ou o que é que tem um rectângulo branco à frente que não a deixa ver e... está tudo normal, tudo à vista.
Uma coisa, tudo isto....
Às seis e tal parecia que a jornada tinha terminado. Peguei no computador e fui lá para fora. Tinha um vestido de alças e estava descalça. Abri uma cadeira ao sol, preparei-me para ver uma série. Pus o pc ao colo. Entretanto, ao olhar para um dos pés, o que estava no alinhamento do computador, pareceu-me a atirar para o verde. Olhei melhor. Parecia o pé de uma morta. Fiquei um bocado espantada. Pensei que era do sol. Pus-me à sombra. Olhei para os pés. Não havia dúvidas: um dos pés parecia descorado, para além de doente, aliás num tom mais para lá do que para cá, esverdeado mesmo.
E, às tantas, tive uma epifania. No domingo, tinha pegado na lata de spray verde claro e tinha voltado a pulverizar os més da mesa de apoio. Como ando sempre descalça, devo ter apanhado com o spray no pé. E, como não dei por nada, não o esfreguei convenientemente. Provavelmente já esteve mais verde e foi saindo com os banhos dos dias in between.
Agora, para descansar a cabeça, voltei à Netflix. Depois da extraordinária Mare of Easttown, segui para uma recomendação do meu filho. Homeland. Segurança Nacional. E, uma vez mais, estou agarrada. Que série extraordinária. Quantos layers, quanta densidade, que textura. O argumento, as representações, tudo.
Ao ir ao Youtube ver se havia um trailer para aqui o colocar, percebi que esta é uma série que tem anos, super premiada, que já passou na Fox. Provavelmente é uma das que o meu amigo viciado em séries já estava farto de me recomendar. Mas, uma vez mais, chego atrasada. Estou a ver isto como se fosse absolutamente actual, absolutamente novidade, absolutamente imperdível. E, para meu espanto, tem já carradas de temporadas. Portanto, não vou fazer o papelinho de absolutamente totó partilhando aqui o trailer de uma coisa podre de conhecida.
Mas partilho estas fotografias, incríveis Obtive-as via Guardian e a identidade do fotógrafo encontra-se na legenda das fotografias que lá estão. Poderão também saber como contribuir para tão nobre causa.
The Taliban takeover of Afghanistan has severely affected women’s rights, and especially the lives of female journalists. The NWMI (Network of Women in Media, India) has launched a print sale, with all images donated by the Associated Press, to raise funds to help those journalists with evacuations and resettlement, to rebuild their lives, and to tell their stories
Imagino que quem saiba fazer leituras sociológicas consiga estabelecer correlações entre a moda e a sociedade em que se insere.
A minha mãe há dias falava da moda dos vestidos a dois tons de que eu nunca antes tinha ouvido falar. Explicou que isso mais não era do que aproveitar restos de tecidos e, com eles, fazer uma peça única. Contou que se lembra de, quando era miúda, ter um vestido verde com florzinhas e outro num outro verde -- e um terceiro com o tecido que sobrara de ambos. Penso também na disruptiva moda da minissaia que era quase um manifesto a favor da liberdade por parte das mulheres.
Nestas minhas limpezas e arrumações saíram-me à cena alguns vestidos do final dos anos 80, princípios dos 90. Havia umas lojas nas Amoreiras que tinham vestidos vindos de Inglaterra que me faziam perder a cabeça. E como por essa altura ia com alguma frequência a Paris trazia também de lá vestidos que me encantavam. Vestidos e não só. Lembro-me de ter comprado um casacão encarnado, desestruturada, largo, macio, que adorava usar. Agora, ao ver essas peças que guardei com carinho, acho uma moda exagerada, exuberante. Seria talvez a época dos yuppies, dos deslumbramentos. Talvez essa moda espelhasse o ar daqueles tempos. Deitei tudo fora.
Depois a moda foi-se simplificando, democratizando, nivelando estratos e estratos etários. A profusão de grandes lojas de pronto-a-vestir de boa qualidade a valores acessíveis veio a reflectir aquilo a que se assistia noutros fóruns: a grande circulação entre países, os programas Erasmus, os voos aéreos a baixo custo, os acordos entre países do espaço europeu -- e tudo o mais -- deitaram abaixo as fronteiras e as barreiros e a moda perdeu o elitismo, a exclusividade. Novos e velhos, ricos e pobres e, por vezes, homens e mulheres, vestem-se agora, no mundo ocidental, praticamente da mesma maneira.
E eis que chegamos a 2021, um dos malfadados anos Covid mas também o ano em que, graças à vacina, as sociedades começam a dar passos no sentido da retoma de alguma normalidade. Depois de os grandes espectáculos, galas e desfiles terem estado suspensos, eis que os temos de volta. Com os devidos cuidados e as necessárias adaptações mas, santíssimo sacramento, com que vigor os temos de volta!
Vale tudo: os vestidos de princesa, os vestidos de diva, os vestidos de maravilha, os vestidos-manifestos, os vestidos andróginos, a pura loucura, o puro nonsense. Não sei se é um tremendo boom de criatividade, se é uma explosão da vontade de liberdade, se é um valente pontapé nos preconceitos e nas baias. Vale tudo. E vale tudo com um sorriso de provocação e boa disposição. É como se, em tudo, houvesse um statement: viemos para ficar, faremos o que nos der na bolha.
A gala que teve lugar no pátio do Metropolitan Museum of Art de Nova York -- onde se junta tudo o que é personalidade que sabe usar a moda -- mostrou modelos que certamente ficarão para a história. Desde a exuberância ficcionada do mundo dos youtubes, dos influencers, até à irreverência mais inesperada, à leveza etérea de modelos saídos de contos de fadas, a modelos inusitados e fantásticos que parecem inventados para o mundo do gaming, desde a sensualidade mais tradicional è exibição mais arrojada da animalidade que existe dentro da mulher -- de tudo ali se viu.
E que não se olhe para isto como um desfile em que a futilidade se deu a luxos e provocações nunca antes vistos. Não. O tema não é para leigos, é para sociólogos e para antropólogos.
The Met Gala has returned to the steps of the Metropolitan Museum of Art after a year off due to Covid-19. There were multiple show-stopping outfits from Lil Nas X while Kim Kardashian and her estranged husband Kanye West turned heads by dressing entirely in black, even their faces. Amid the glamour, some guests highlighted social issues. The Democratic congresswoman Alexandria Ocasio-Cortez had 'tax the rich' written in red across the back of her white gown and the sports star Megan Rapinoe carried a clutch bag with the words ‘in gay we trust’
De vez em quando o algoritmo do YouTube sugere-me os vídeos de Thoraya Maronesy, uma jovem simpática que consegue a proeza de arrancar os mais sentidos e secretos testemunhos a estranhos que se cruzam com ela nos jardins em que monta arraiais com o seu equipamento.
Já algumas vezes aqui tive Thoraya. Esta coisa de alguém, quando instado a isso, ser capaz de contar os segredos mais intensos ao mundo, surpreende-me. E o facto de parecer que toda a gente guarda um segredo pronto a ser divulgado parece-me extraordinário.
Em contrapartida, perante os que me são mais próximos não guardo segredos. Falo abertamente e, se calhar, até um bocado desabridamente, do que penso.
Em momentos em que alguns rodeios ou meias palavras seriam aconselháveis eu falho: digo o que penso sem delongas. Nisso como em tudo na vida acho que é um disparate perder tempo ou persistir em caminhos errados -- e não consigo dizê-lo de outra maneira. Se alguma coisa me preocupa, não está na minha natureza escondê-lo. Verbalizo-o abertamente. Por isso, intriga-me a capacidade que algumas pessoas têm para esconder o que pensam, o que sentem, o que querem. Pensarão que têm duas vidas? Esta para ser desperdiçada e outra, então, para compensar o tempo perdido na primeira? Não percebo.
Imagino-me a ir um dia num parque e a ser abordada por uma qualquer Thoraya desta vida. Não gosto de virar as costas a um desafio, muito menos a um tão engraçado e, ainda por cima, conduzido por uma pessoa tão simpática. Mas, mesmo que quisesse corresponder, de que segredo poderia eu falar?
Mas o desafio desta vez é outro e é ainda mais tentador: escrever uma carta a alguém que se ame ou amou. E a este desafio eu não viraria costas.
Gosto de cartas de amor. Já o disse: prefiro recebê-las. Mas, se tiver que escrever uma, escrevo.
Aliás, aqui, vendo bem, quantas vezes já as escrevi? Se me desse ao trabalho de reuni-las, obteria um livro inteiro de declarações de amor.
Aquilo de que não tenho experiência é de escrever cartas de amor, ou melhor, declarações de amor, a quem não me ame. Não me lembro de alguma vez ter gostado de alguém que não gostava de mim. Acho que não é mérito: é pragmatismo. Lá está: aversão a perder tempo. Também não me lembro de esconder o meu amor, mesmo no início. Sou mais de seduzir, desafiar, agir à descarada.
Vita brevis. Esse é o meu lema, esse é o fio condutor dos meus actos. Vita brevis. Ou seja, bola para a frente e força nisso.
Não me imagino a consumir tempo de vida a esconder um amor. Claro que poderia acontecer estar apaixonada por quem não gostasse de mim. Mas aí acho que via a coisa com realismo: santa paciência, não dava, não dava. Partia para outra. O que não falta são homens e, no meio de tantos, algum haveria de ser a meu gosto e sensível aos meus encantos. Agora estar a querer alguém e, em vez de ir à luta, às claras, deixar-me estar a queimar tempo com platonices, fosquices, suspiros pelos cantos, tristezas eternas, isso não. Não faz o meu género. Pode ser muito poético mas não é para mim. Eu, nisto dos amores, sou mais prosa. Poesia sim mas como preliminar, como acompanhamento ou como sobremesa. A substância, para mim, está na prosa. E prosa em versão hands on.
Carta de amor? Sim, até poderia aqui escrever uma a um amor imaginário, ficção da pura a fingir de verdadeira.
Meu amor, por onde andas? Espero por ti e nada me dizes. Saberás a dor em que a minha alma fica? Saberás o vazio que cresce no meu coração? Espero que me procures, todos os dias o espero, todos, e não vens. Como negar, amor meu, que sinto a falta das tuas doces palavras e das tuas tórridas tentações? Sinto tanto a tua falta. Por onde andas? Os anos passam e as nossas mãos não se tocam e os nossos corpos não se encontram. Porquê? Que sentido faz isso? O que andamos a fazer? Não queres experimentar o azul dos mais longos abraços ou o branco da luz do êxtase? Não fujas de mim. Não fujas. Estou à tua espera. Vem.
Poderia continuar, escrever uma carta de amor a preceito. Gosto de derramar palavras de amor. Mas não escrevo. E não o faço por respeito para com os pinga-amores que suspiram, suspiram mas não passam disso, ou que sonham, sonham e não acordam para a vida. Também têm direito a achar-se especiais. Por isso, não escrevo. Fico-me por aqui na companhia dos bem dispostos amantes impossíveis que Thoraya tão bem sabe apanhar.
Strangers Confess Their Love Through Love Letters Um projecto de Thoraya Maronesy
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E, já agora, a propósito de cartas de amor, com vossa licença, uma vez mais:
“My dearest one" Benedict Cumberbatch reads Chris Barker’s letter to Bessie Moore
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Haley Reinhart interpreta Can’t Help Falling in Love
Pinturas e escultura representando Diana, essa grande dissimulada, essa grande maluca.
Não tenho conseguido responder aos comentários pois o tempo não me chegado ou, se me chega, o sono tira-me o tapete. Adormeço mesmo sem dar por isso. As minhas desculpas. A ver se consigo pôr o sono em dia para ver se isto entra os eixos. Aceitem as minhas desculpas.
Saímos muito tarde do campo. Só vi as imagens da cerimónia de adeus a Jorge Sampaio à meia noite ou quase, nem sei. Momentos muito dignos e muito emotivos. Do que vi, em especial nas palavras dos filhos, pareceu-me que houve uma autenticidade e uma clareza que honraram a memória de Jorge Sampaio não apenas enquanto figura pública mas também enquanto pai, certamente um pai muito querido.
Vi ali uma dimensão superior que não é muito habitual. Parece que, de repente, se sentiu uma convergência no sentido de uma escala de altos valores morais, éticos, cívicos, bem acima das pequenas irrelevâncias que parecem corroer o quotidiano da vida social e política em Portugal.
A organização do espaço, um certo distanciamento a que a covid obriga, a contenção e, ao mesmo tempo, a emoção que perpassava por todos parecem ter contribuído para que a despedida a Jorge Sampaio tivesse sido um momento ímpar.
Perante estes momentos e perante a saudade que ele nos deixa, pouca vontade tenho de falar das minhas coisinhas.
Mas a vida da gente é também a vida de todos os dias, a vidinha, a nossa vidinha. E este blog é apenas o despretensioso canto para onde venho ao fim do dia para descansar a cabeça.
Por isso, apesar de sentir o peso emocional da partida de um homem bom que era uma referência da defesa da democracia, da liberdade, da inclusão, do respeito pela dignidade e do direito ao futuro, vou escrever algumas palavras sobre o meu pequeno dia.
Arranjámos duas pequenas plataformas com rodinhas e porque devo ser casada com um hércules de verdade, ele conseguiu levantar o bisonte em peso enquanto colocávamos as ditas plataformas por baixo. E assim, com o bisonte montado num carrinho, levámo-lo caminho afora até à casinha das ferramentas.
Só que cometi um tremendo erro. Estava incumbida de medir o animal e a porta da casinha por onde deveria entrar. Concluí que passaria à justa. Contudo, lá chegados, percebemos que qualquer coisa não estava bem. Medi o corpo do animal e porque à vista desarmada se via que a base e o tejadilho eram mais largos, medi o que estava mais à mão: a base. Só que, hélas, o tejadilho tem mais dois centímetros que a base. Portanto, missão abortada.
Uma vez mais o meu marido tinha uma solução: desfazermo-nos do pouco-amado guarda-fatos. Mas eu não desisto assim tão facilmente.
Pensei, então, em colocá-lo no quarto do estúdio. Para isso, ter-se-ia que retirar o pequeno roupeiro que lá estava, o que era do quarto da minha filha quando era miúda, que iria, esse sim, para a casa das ferramentas.
E foi o que fizemos. Foi uma empreitada pesada, a la Ilha de Páscoa. O meu marido, sempre com medo que me dê algum fanico, está o tempo todo a mandar-me não empurrar, não levantar, não puxar, não fazer força. Por isso, para além de empurrar, levantar, puxar, carregar, estou sempre a ser impedida de fazer o que me apetece ou, pior, a ser admoestada.
Mas fez-se.
A arca, a famosa arca, está a esta hora na mala do carro. Tivemos que rebater os bancos. Agora era tarde e estávamos exaustos e cheios de fome, já não deu para tirá-la do carro.
De lá, da arca dos mil tesouros, saiu um grande e quentinho cobertor, vários naperons de renda e lá continuam lençóis e toalhas e renda e bordados, parte dos quais, provavelmente, do enxoval de tias há muito falecidas.
Entretanto o 'tasker' que ia montar o roupeiro no nosso quarto e outas insignificâncias e que estava escalado para as dez da manhã, apareceu às cinco da tarde. E, em vez de trazer um ajudante, apareceu sozinho. Portanto, em desespero de causa, o meu marido acabou a montar sozinho duas das peças cuja montagem pagámos ao tasker e, ainda assim, acabámos por sair de lá à hora a que deveríamos estar aqui, banhos tomados, jantares despachados. Um desespero.
Antes de sairmos ainda lavei o chão das divisões por onde o artista andou e arrumámos parte das roupas no novo e alvo roupeiro. Mas a casa ficou longe de ficar bem arrumada. Não gosto nada de sair e deixar a casa sem ser como gosto de vê-la ao regressar: tudo limpinho e arrumadinho. Mas estávamos cansados, com fome, com a viagem pela frente. Coração ao largo.
Mas o quarto está outro. Parece que cresceu. E é agora um lugar de serenidade e leveza. A diferença que faz ter as divisões com móveis escuros ou com móveis claros. A nossa disposição, queira-se ou não, ilumina-se. Acho que o guarda-fatos, que agora navega noutras paragens, não vai escapar a, um dia destes, ser pintado de verde claro ou de cor-de-rosa suave, pó de giz (quiçá até às cores).
Sobre duas das pequenas outras peças que vieram para além do roupeiro falarei noutro dia: cada uma tem um uso atípico e, diria, algo arriscado. Mas não digo nada. Talvez mostre fotografias daqui por uns dias.
Esta segunda-feira retomo a rotina pré-férias e talvez consiga ter uns dias mais descansados. Não sei se posso dizer que tive férias mas, nestas coisas, é mesmo assim: cada um tem aquilo que merece.
E, por ora, é isto.
Ah, só mais uma coisa: ao telefone com a minha mãe, disse-me ela com voz embargada, certamente com os olhos cheios de lágrimas: 'Se o teu pai ainda fosse vivo, fazíamos hoje...' Interrompi-a para ver se não rompia mesmo em pranto: 'Eu sei, faziam anos de casados'. Sinto muita pena por ela, por saber que fica triste por não tê-lo cá para festejar com ela.
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Pinturas de Lucien Freud e uma fotografia dele, em plena acção. Jack Johnson interpreta Gone com Ben Harper
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Uma semana feliz a começar já por esta segunda-feira