sexta-feira, outubro 08, 2021

Um novo normal - dias com um cão dentro

 



O dia foi quase normal. Aliás, se calhar, não foi 'quase', foi 'mesmo' normal porque o meu normal agora é o meu 'novo' normal. E botem aspas nisto tudo. É bem verdade, Leitor, um cão muda a nossa vida. Pior ainda se for um cachorro que, na volta, quando veio era ainda mais cachorro do que julgávamos. Diz a médica veterinária que provavelmente tinha sido tirado da mãe há pouco tempo, se não antes do tempo, e que pode ter acontecido que o aparelho digestivo ainda nem estivesse plenamente desenvolvido, adaptado à vida sem a mama da mãe. Não o saberemos. O pastor foi evasivo, disse que achava que, que talvez fosse..., ou seja, na volta, nem dois meses teria.

Conclusão: diarreias e mais diarreias, algumas (para não dizer muitas) dentro de casa. Duas em dois tapetes de arraiolos distintos. Coisa fina, portanto.

Idas ao veterinários várias, rações e latinhas de comida para experimentar o que funciona melhor várias. Medicamentos, análises, sei lá. E eu sempre a fazer figas para que não fique internado como, por três vezes, me disseram que era uma hipótese. Nem quero pensar. 

Uns dias murchinho, quase só a dormir. Depois arrebita e vira a casa do avesso. A casa -- disse bem. De cão de guarda para ficar na rua, em menos de uma semana estava um cachorrinho de casa, coisa mais fofa, bonequinho mais querido da sua dona. 

Agora está mais gordinho e eu fico toda contente quando faz menos cocó, quando o cocó é menos mole ou quando o vejo a portar-se mal. 

E se tem andado a portar-se mal. Como é possível? Esperto que só visto. Digo-lhe: 'anda, vem com a dona'. E ele olha para mim, certamente para ver se é para levar a sério e, depois, quando me vê a ir, lá vem também. Digo-lhe: 'anda beber agüinha' e ele vem e vai beber água.

Quando se apanha sozinho, age por conta própria. Arrasta o saco da ração para o meio da casa, vira a sua cama de pernas para o ar, destrói o caixote de cartão que tínhamos posto a separar a cozinha da sala e aparece-nos deitado ao lado da cama. O meu marido diz que o gajo é escapista. E eu acho que ele é, sem tirar nem pôr, o cão das minhas histórias, o terrível e maroto cão da Princesa Margaret que aparecia sempre onde menos se esperava.

O pior é que também é do caneco. Anda o tempo todo a esgaravatar a terra e a comer tudo o que encontra. Pode ser que as diarreias venham também daí. Ontem, estava no acesso à garagem que é de pedra. Então saltou-lhe mesmo à frente um pinhão, acabado de cair. Num acto reflexo, meteu-o na boca. Quando vi, dei-lhe um grito e ele, antes que eu tentasse impedi-lo, fez um movimento brusco com a cabeça para trás, como quem engole um comprimido sem água. E lá foi o pinhão. 

Quando alguém tenta tirar-lhe alguma coisa da boca, dá sapatadas, rosna, arreganha o dente, tenta morder. Toda a gente se assusta com aquela violência. Dois quilos e tal de cão em que metade é pelo e ali está, destemido e armado em leão. 

Pois bem, antes de ontem, apanhei-o a arrancar uma coisa do chão e a comê-la. 

Já o apanhei com caroços de nêspera, na casa da minha mãe tâmaras velhas, e raízes e toda a espécie de porcarias. 

Mas, então, tentei tirar-lhe aquilo da boca. Supostamente, quando se porta mal, atina se lhe agarramos pelo cachaço como os pais lhes faziam. Então, zanguei-me e fui aplicar-lhe esse correctivo. Eis senão quando o pequeno capeta se virou e me ferrou a mão, de lado, abaixo do polegar. Senti uma dor e, instintivamente, tentei soltar a mão, elevando-a. Pois bem. Veio agarrado à mão. Ou seja, com os agudos dentinhos ferrados na minha incauta mão, voou a metro e tal do chão. Com a dor sacudi-o e ele, então, despenhou-se lá de cima, caindo redondo no chão. Como ali o piso é inclinado, rebolou. Pensei, assustada: não pode ser... matou-se. Afinal, levantou-se meio aturdido, sacudiu-se e ficou como novo. E eu com dois buracos na mão a escorrer sangue. Parece-vos normal? A mim não. Agora tenho aquela zona inchada, meio escura e com dois ferimentos. 

E a brincadeira preferida é mordiscar-me os pés. Salta e corre e eu acho que ri enquanto me mordisca e eu tento escapar, ou correndo, ou sentando-me numa cadeira e colocando os pés em cima de uma cadeira para ele não os alcançar. Hoje, para evitar o desacato, que aquilo arranha e dói, calcei umas meias e substituí as havaianas por uns chinelos que não são de enfiar no dedo. Pois, o safado, ao ver que não tinha a perna ao vivo para se divertir, desatou a latir, a dar gritinhos, todo num frenesim. E puxava e repuxava as meias, uma coisa de não dar descanso.

Estou a ensiná-lo a ficar na cozinha e terraço da cozinha para ver se me deixa trabalhar.

Agora à noite, vindo do veterinário, vim aqui à sala ver o computador, a ver se havia caso. Pois, o danadinho esgueirou-se, deitou-se no chão para receber festa, e, passado um segundo, estava a querer roer os pés do sofá e, pior, o cabo eléctrico. 

E ainda não contei qual a brincadeira preferida: tentar arrancar as franjas das carpetes de arraiolos. Passo-me. Tento convencê-lo a entreter-se com uma corda com franjas que vendem nas lojas para animais mas o brinquedo não oferece os mesmos desafios que dar conta de coisas a sério.

E, note-se, esta sexta-feira faz quinze dias, apenas quinze dias, que vive connosco e, no entanto, os ensarilhanços em que já nos meteu e as peripécias e gracinhas que faz. Acorda-me quase de madrugada, obriga-me a cuidados, faz-me rir, enternece-me.

Portanto, como poderão constatar, este é o meu novo normal. 

Ainda assim, deu-me um daqueles apetites. 
Acho que não estou grávida, que isto é mesmo só gula. Outro bebé agora não vinha a calhar, já basta este mais novo que por aqui anda a dar-me cabo do juízo. 
Então, desviámo-nos -- no meio de uma Lisboa com um trânsito bem assanhado -- para eu ir comer um geladão. Ainda por cima não havia kumquat nem gianduja, os meus preferidos: foi arroz doce e rum com passas, mistura que veio a revelar-se bem virtuosa.

Chegámos de noite. E, porque esta sexta-feira vai ser uma friday à maneira, estive até há pouco a recuperar objectos e ornamentos indispensáveis à minha existência em certos ambientes e contextos. Uma dessas coisas foi a minha aliança. Desde meados de Março do ano passado que não a usava. O relógio também. Sempre que saio, quando dou por mim estou de mãos e braços nus. E gosto assim. São outros tempos pelo que é natural que haja outros hábitos. Mas esta sexta-feira é um dia dos velhos tempos. E eu, nestas coisas, dou muita atenção aos pormenores.

Tirando isso, neste meu dia, pouco mais digno de registo. O que houve foi, para falar curto e grosso, mais do mesmo.

O nobel da literatura foi, de novo, para alguém em quem nunca antes tinha ouvido falar pelo que agora aqui também nada posso dizer. Gostei de vê-lo e ouvi-lo, na televisão, a contar como soube da notícia. É bom quando a gente vê alguém que forçosamente há-de ter algum valor a agir na plena consciência da sua condição efémera e insignificante. Se há coisa chata nesta vida é ter que aturar gente que se acha importante e que se revela inconsciente da sua condição de passageira acidental.

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De Asaf Avidan, Les bal des folles. Peças de cerâmica de Keiko Masumoto

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Peço desculpa por andar a não responder a comentários mas vocês sabem lá o que isto tem sido...

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Desejo-vos uma happy sexta-feira

Tudo de bom: saúde, vida nova, esperança e alegria

quinta-feira, outubro 07, 2021

Teletrabalho ou presencial: dissertações com a malta da Porta dos Fundos à mistura

 


Acho que, sem prejudicar o trabalho, a quem possa e quiser trabalhar remotamente, se devem proporcionar condições e permissões para tal. Identicamente para quem quiser trabalhar presencialmente.

Tenho colegas que dizem não ter condições de privacidade em casa para o teletrabalho. Assisti a cenas hilariantes durante o teletrabalho. Um colega corria a casa com o computador na mão a ver onde conseguia ter rede e um mínimo de privacidade. Às tantas descobriu que no topo das escadas era um bom lugar. Os filhos estavam lá em baixo. Até que passava um a correr em tronco nu. Depois vinha a filha a perseguir o filho, depois aparecia a mulher a zangar-se com eles.

Outra tinha, volta e meia, o mais pequeno pendurado nela a dizer que estava cheio de fome. E os mais crescidos faziam-lhe sinais de longe que a faziam ter que interromper pois não os percebia. Dizia que não via a hora de poder trabalhar sem ter os filhos à perna,

Agora, vários que têm que ir pôr e buscar os miúdos à escola, preferem, in between, estar na empresa, num ambiente partilhado fisicamente com colegas.

Mas há outras pessoas, nas quais me incluo, que preferem um regime híbrido. Em teletrabalho excepto quando as circunstâncias requeiram a minha presença.

Ainda por cima o trânsito em Lisboa está como estava antes da pandemia e isso não apenas é inimigo do ambiente como inimigo da qualidade de vida pessoal. Estar horas em filas de trânsito é peditório para o qual já dei ao longo de milhares e milhares de anos e para o qual me falta cada vez mais paciência. Como dizia a mãe de um amigo, tia de umas manas bem conhecidas no meio beta da Linha, quando lhe pediam para fazer alguma coisa que a contrariava: 'Não tenho idade nem condição social para me sujeitar a isso'.

Outra coisa de que enjoei é de andar a comer todos os dias em restaurantes. Claro que poderia levar marmita mas, a sério, não é exactamente a minha praia e também já não tenho pachorra para me habituar a coisas para as quais não me sinto muito inclinada. Prefiro almoçar em casa.

Depois, sinto-me tão ou mais presente na empresa e na vida profissional por esta via do que antes. Ainda hoje tive uma reunião prolongada com um colega. Estamos tête a tête, falando sem barreiras, olhando-nos nos olhos. 

E a vantagem é que, sempre que posso, acabo uma reunião, levanto-me, vou tranquilamente à casa de banho, por vezes vou comer uma fruta, abro a porta ao canito, vou espreitar o que ele anda a fazer, depois chamo-o e entro noutra reunião. Sem stress, sem que ninguém me tivesse atrapalhado os planos. Na empresa, mal acabava uma reunião logo estavam uns quantos à minha espera para me dizerem qualquer coisa antes de eu entrar noutra. Quantas vezes me vi e desejei para conseguir ir à casa de banho? E esticar as pernas, espairecer, isso, então, estava fora de questão.

Claro que não são apenas vantagens: neste regime, uma pessoa tende a esquecer-se de fazer intervalos e pode dar por si trabalhando de sol a sol, não usufruindo de um mínimo de tempo livre para si próprio. Um disparate sem explicação. Falo por mim: em teletrabalho não gasto tempo em transportes ou em esperas nos restaurantes. E, no entanto, consigo a proeza de não me sobrar tempo para ler um livro ou para descansar um bocado. E isso está já identificado como um dos problemas do teletrabalho: uma pessoa habitua-se a estar sempre ligada, sempre disponível. É notoriamente algo que tem que ser melhorado. 

De todas as vezes que lá vou, tenho que ir mentalizada para que vou falar com este e com aquele, visitar instalações e ser apanhada por quem conseguir deitar-me a mão... mas trabalhar no duro como consigo trabalhar quando estou sozinha em casa, isso está quieto. Geralmente, sobra sempre para a noite. Mails, relatórios, apresentações: enquanto lá estou é para esquecer.

Já aqui o disse muitas vezes: o teletrabalho é tema que não deve ser visto como associado ao confinamento. Muitas pessoas desesperaram com o teletrabalho durante o confinamento pois tinham constantemente os filhos a solicitar atenção ou a fazer barulho, tinham o marido ou a mulher ao lado, tinham que prestar atenção a uns e a outros, pelo meio fazer refeições, tratar da casa. Não se deseja a ninguém. 

Mas o teletrabalho deve ser visto de per se, em situação normal, de não confinamento. Só assim, se poderá fazer uma correcta avaliação.

Para mim, que tenho boas condições e em que posso estar num canto e o meu marido noutro, a coisa funciona às mil maravilhas. Além disso, ele está em casa quando está pois, pela natureza do seu trabalho, muitas vezes quer estar lá, onde tudo acontece. Portanto, para mim funciona na perfeição

Sobretudo, o teletrabalho teria funcionado espectacularmente quando os meus filhos eram pequenos e eu sofria horrores no trânsito, tantas vezes parado, a imaginar que estavam à minha espera no colégio, frequentemente sendo quase dos últimos quando não mesmo os últimos. Perdi anos de vida com esses stresses em que me sentia totalmente impotente. Pensar que chegava ao colégio e que os via, sozinhos, sentados na escada da entrada à minha espera, despedaçava-me o coração. E tinha verdadeiro pavor de um dia lá chegar e de o colégio já estar fechado e de não os ver. Felizmente nunca aconteceu. Mas o que penei nesses anos só eu sei. 

Teria sido tão melhor se pudesse ter praticado um regime híbrido, por exemplo, podendo sair mais cedo para ir buscá-los à escola e depois trabalhar a partir de casa. Só que, nessa altura, nem internet havia quanto mais vpn's, videoconferências e essas modernices. 

Agora, havendo internet e todas as condições inerentes, acho que as empresas devem fazer um levantamento junto de cada serviço para saber quais as funções que podem ser exercidas remotamente e quais as pessoas que gostariam de se incluir nesse grupo.

Dizem as pessoas de RH, que tantas vezes gostam de complicar, que, se as pessoas estão muito tempo em teletrabalho, fica mais difícil controlar o seu trabalho ou conseguir que se mantenha o espírito de equipa. Talvez. Gerir equipas em que parte delas está noutro lugar requer outros cuidados. Mas quem já geriu equipas geograficamente distantes está habituado a minimizar os efeitos da distância física. Tem que haver mais reuniões por teams (ou zoom), tem que haver mais telefonemas, tem que haver situações de reunião física de vez em quanto. Nada de mais. Não vale a pena dramatizar. 

Mas, da mesma forma que defendo o teletrabalho na forma que descrevi, também defendo que não deve ser exclusivo (excepto se tiver mesmo que ser). Tal como imagino que aconteça com quem viva durante muito tempo sozinho, depois perdendo paciência para se adaptar às rotinas alheias, também aqui acredito que quem esteja exclusivamente em teletrabalho corre riscos de ter cada vez mais dificuldade em integrar-se na rotina do 'presencial'. Por isso, as pessoas verem-se, ao vivo e de quando em vez, é saudável e deve ser quase obrigatório para forçar os mais acomodados a saírem da sua nova zona de conforto. 

Mas tudo deve acontecer de forma natural, sem estigmas, sem preconceitos, com a humildade de quem trilha um caminho que é ainda um caminho de aprendizagem.

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Mas já chega de conversa bem comportada. Já está, até, a dar-me brotoeja. A esta hora só com grande esforço consigo portar-me bem.

Que entre mas é a maltinha da Porta dos Fundos.

Presencial

Não, não me obriga a voltar pro presencial, por favor, eu imploro! O Porchat exige que a gente se pinte de azul toda "sexta casual", tem treino obrigatório com o João Vicente às segundas, o Kibe fica andando com aquela farda pra cima e pra baixo e faz blitz todo quinto dia útil, fora o clube do livro do Gregório Duvivier que só indica poesia. Tava tão bem em casa assistindo cortes de podcast na hora do almoço sem ser julgado


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Inté

Saúde!

quarta-feira, outubro 06, 2021

Basta a tristeza e a confissão da vergonha?

 



Continuam a chegar as notícias: 330.000 crianças abusadas sexualmente, por gente da igreja ou de instituições geridas por religiosos, ao longo dos últimos 70 anos só em França. Ou seja, nestes anos, em média, todos os dias 13 crianças foram abusadas sexualmente.

Não há atenuante ou perdão possíveis para uma barbaridade desta dimensão. E não ocorreu num qualquer lugar recôndito do mundo em que a moral e a ética sigam padrões antagónicos aos do mundo dito civilizado. Não foi levado a cabo por arruaceiros armados, daqueles que raptam crianças e as violam, não se passou na Nigéria ou num qualquer outro ponto do mundo de que nos sintamos civilizacionalmente distantes. Não: passou-se em França e foi prática que chegou aos dias de hoje.

Já no outro dia aqui o escrevi. Quando no seio de uma qualquer instituição se passam crimes tão reiterados e tão espalhados, o problema deixa de ser apenas de quem, individualmente, os pratica mas da instituição que os encobre, de quem os protege, fazendo de conta que nada sabe.

A investigação francesa conclui outra coisa ainda mais preocupante: os números a que se chegou representam apenas uma ínfima percentagem dos crimes efectivamente perpetrados contra crianças. Na verdade, estima-se que o número de crianças abusadas em França por elementos ligados à Igreja Católica seja da ordem dos 5 milhões. 

Perante esta onda de vergonha que queima como lava ardente, não basta virem as hierarquias agora dizer-se indignadas e tristes. Perante um crime tão impunemente praticado ao longo de anos há muito mais a fazer.

O Papa Francisco, pessoa por quem sinto simpatia e me parece daqueles que está distante deste nojo, não deveria limitar-se a dizer-se envergonhado e triste. Deveria ordenar que, em cada País, sem excepção, fosse conduzida uma investigação independente para apurar o que se passa em cada diocese, em cada igreja, em cada sacristia. Tudo passado a pente fino. Doesse a quem doesse, até às últimas consequências. 

Todos os predadores, psicopatas ou simples tarados sexuais deveriam ser expulsos da Igreja e entregues à Justiça. 

Não é apenas ideia minha (e agradeço ao Leitor, que muito prezo e a quem muito agradeço, que me escreveu para me transmitir a sua opinião) mas o que penso é que muitos dos que vão para padres ou se acolitam nas suas hostes são pessoas (maioritariamente homens) que não encaram tanto o celibato como uma provação mas como uma capa que lhes permite melhor gerir e encobrir as suas mais inconfessáveis pulsões. Muitos serão homens atormentados sem coragem para assumir socialmente as suas orientações sexuais, outros serão psicopatas, predadores sem escrúpulos. Gente dissimulada. Gente perigosa.

Não são todos, claro, mas, a julgar pelos números, isso acontece em número significativo. E até para que não pague o justo pelo pecador é bom que a verdade se apure.

Com a noção de pecado tão venenosamente instilada desde a mais tenra idade nas crianças, com o pretexto do segredo tão caro à Igreja Católica e tão cuidadosamente treinado com a confissão, os criminosos estão à vontade para fazerem as crianças crerem que devem esconder o que se passou, que a culpa também foi delas, que, se disserem alguma coisa, vão causar sofrimento aos pais ou vão arder no inferno. Outras vezes, segundo ouvi em testemunhos, dizem que aquilo que se passa é a manifestação do amor de Deus, que eles foram escolhidos por Deus,  que tudo aquilo é uma coisa sagrada e, portanto, secreta.

Quebrar a vergonha de quem encobriu segredos tão amargos durante anos, quebrar o esquecimento a que sempre quiseram forçar-se deve ser muito difícil. É preciso muita coragem para adultos -- que durante anos tudo fizeram tudo para apagar da memória a ignomínia a que foram sujeitos -- virem confessar que foram abusados. 

Mas só a sua denúncia pode ajudar a punir os criminosos.

E, volto a dizer, com um escândalo desta dimensão -- que se desenvolveu como um cancro metastizado no seio da Igreja Católica em França (e em todos os países em que escândalos idênticos têm rebentado) -- não é minimamente provável que o fenómeno seja local. O mais certo é que esta indesculpável e insuportável pouca vergonha grasse por todo o lado.

Por isso, se os Cardeais ou Bispos ou quem for da Igreja Católica de cada país não tomam a iniciativa de ordenar uma investigação rigorosa e independente, o Papa que a ordene. O Papa que passe das pias palavras aos actos.

E, se houver indícios, por pequenos que sejam, a Justiça que avance, primeiro com pés de lã para apanhar o máximo de suspeitos e, depois, que lhes caia em cima. A pés juntos. A pés juntos -- repito.

Os meus filhos andaram durante os seus primeiros anos num colégio diocesano. Andaram não por afinidade com os nossos princípios mas porque pensávamos que era a melhor opção, sobretudo do ponto de vista logístico e da sua protecção (tinha actividades, tinha amplas instalações, era vedado com segurança à porta, era perto de casa). Mas não estavam inscritos na Catequese e a sua participação em actividades religiosas ou afins era a mínima possível. Mas tinham aulas de Religião e Moral -- que creio que eram obrigatórias -- com um padre de quem apresentei queixa. Um homem cruel e estúpido em que bastava olhar-se para ele para que as piores suspeitas nos ocorressem. E mal achámos que já tinham autonomia para poderem ir e vir sozinhos para a escola, tirámo-los de lá e, em boa hora o fizemos, e foram para uma boa escola oficial que adoraram. 

Por isso, porque o contacto com a igreja ou elementos dela foi diminuto senão quase nulo, estou relativamente descansada em relação aos meus filhos. Mas, se os tivesse tido a andarem lá por dentro, estaria apreensiva. E não quero imaginar a revolta, a raiva, a sede de vingança que sentiria se viesse a saber que algum padre ou catequista ou afim lhes tinha posto a mão em cima ou feito algo bem pior. Não sou dada a violências mas acho que, em tal circunstância, não conseguiria conter-me e faria de tudo para lhes dar estaladas com toda a força de que fosse capaz, bofetadas que os envergonhassem e lhes doessem a bem doer. E haveria de lutar até ao último dos meus dias para garantir que tais porcos jamais pudessem voltar a aproximar-se de qualquer criança.

Penso que todas as pessoas de bem, crentes ou não crentes, católicas ou não católicas, deveriam exigir o conhecimento integral do que se tem passado e ainda passa em toda a Igreja Católica. Em cada país, em cada cidade ou aldeia, em cada diocese ou paróquia -- onde for. E, sem piedade, exigissem que se agisse, com mão pesada (embora justa), contra os criminosos. Crimes contra crianças indefesas não têm perdão.

E a Igreja que pense bem que meios tem para despistar que, os que a procuram como seus 'servos', não são senão servos da própria luxúria ou tara sexual. E, se não tem meios, que peça ajuda. Que nada sirva de desculpa para não agir.


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Infelizmente, a pedofilia não é o único cancro que mina a Igreja Católica no que se refere à sua doentia ligação às crianças.

Abaixo, um exemplo:

Como a Igreja Católica escondeu centenas de crianças irlandesas 


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E, no entanto, apesar de, de vez em quando, se falar e de parecer haver alguma indignação, a verdade é que a transparência na Igreja Católica não acontece. Quem sabe, parece preferir fazer de conta que não sabe, não viu e não fala. São cúmplices dos crimes. 

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terça-feira, outubro 05, 2021

Bem... se o Vai-Estudar-ó-Relvas apoia o Rangel... bem... então a conversa é outra...

 

Com os resultados das eleições, em especial com a conquista de Lisboa pelo Moedas, Rui Rio deu largas ao seu azedume e, em tom crispado e quase histérico, desatou a espadeirar não se percebeu bem contra quê ou contra quem. Ou seja, foi mais uma daquelas suas inconsequentes rixas contra incertos.

No entanto, consegue adivinhar-se o que lhe passou pela cabeça. 

As perspectivas de sair de cena a ganir, de rabo entre as pernas, não vieram a concretizar-se. E, acto contínuo, sem parar para pensar, resolveu pôr-se a cantar vitória. Pouco inteligente como é, não percebeu que não foi ele que ganhou: foi o Moedas. E, verdade seja dita, também não foi o Moedas que ganhou: foi o Medina que perdeu. Além disso, nada de grande foguetório pois o Medina perdeu por pouco. Se calhar, se, em Arroios, em vez da Margarida, dita A Gorda do Frágil, estivesse outra pessoa, a esta hora outro galo cantaria. É que ela não causou infecção apenas em Arroios, causou infecção no PS Lisboa (e, talvez, no PS em geral).

Mas no PSD a malta não é dada a grandes reflexões. É tudo muito pão-pão, queijo-queijo, mas na versão mais básica. São avessos a filosofias. 

Antes das eleições, os laparistas e demais esfomeados encheram-se de esperanças  achando que o PSD ia levar uma corrida em osso e que, por isso, o Rio se ia esbardalhar. E, sem grande tino, pensaram que branco é, galinha o põe e que, saindo o Rio, outro teria que para lá ir. Outro mais moderno, mais dado a causas fracturantes, mais amigo das novas causas. 

Mas nem quem pensou sabe bem o que querem dizer aquelas coisas nem quem se lembrou de escolher o Rangel pensou que o dito cujo, também conhecido por Galinha Cacarejante, não é propriamente conhecido por ser um moderno, amigo de causas fracturantes. Mas, lá está, com o espírito pragmático que por vezes os chicos-espertos têm, devem ter pensado: não é conhecido mas a gente põe o Daniel Oliveira (não o barbudo ex-BE mas o de 'o que dizem os seus olhos?'), a dar-lhe banho de fractura e ele sai de lá homossexual assumido e, de caminho, ainda o pomos a falar do célebre vídeo em que aparece a cambalear como o Vasco Santana em filme cómico. 

E vai o Rangel e foi. Desmiolado e ávido que só ele.

E logo o Expresso o levou ao colo anunciando alto e bom som que, afastadas as teias de aranha, o caminho para o conhecido rangélico trauliteiro estava aberto. Ôpá: temos novo líder, festejaram eles. Efe-erre-á, á, efe-erre-á, á, aleqüi-alequá, chiripita tá-tá tá-tá.

Mas nestas coisas, às vezes, o entusiasmo é prematuro. Ou seja, a cena dá para o torto, murcha antes de tempo. Isto é, puseram-no a cacarejar cedo demais. Acto falhado. Com o resultado em Lisboa, o coito saiu interrompido. E o Rio, lerdo que só ele, com o Moedas na lapela, com aquele seu ar de quem se sente permanentemente em vias de ser fornicado, pôs-se logo a cantar de galo.

Mas eis que os marioneteiros começam a sair da sombra dando mostras de não querer deitar já para o lixo o investimento feito na imagem arcoírica do Rangel. O primeiro a assumir-se foi o Relvas. Menino dado à política da laranja-podre, aos negócios dos quais pouco se sabe e às jogadas de bastidor, o grande Relvas começou de novo a movimentar-se. 

Deve andar por aí a conspirar, telemóvel sempre em acção, a sua célebre lista de contactos a escaldar, quiçá, por vezes, pelos bares da beira rio ali para os lados de Belém, a falar com o Láparo, com a Albuquerque dos Swaps e com outras magnas figuras do período mais bolsonarista da história política portuguesa recente. Anda a catar apoios como quem cata piolhos. 

Mas eu, que faço parte da turminha do baldinho de água fria, tenho uma coisa a dizer. 

Não lhe vai correr bem como, de resto, na política nunca nada lhe correu bem. Por onde passa, deixa no ar aquele seu azeiteiro perfume a esquema. Para um dia poder vir a ser bem sucedido, teria que descobrir alguém mais apresentável, mais credível, menos cacarejante, alguém com quem se possa estar à mesa sem receio que se ponha a meter os dedos no nariz. Ou seja, o Rangel não serve.

Temos pena, ó Relvas, ainda não é desta que vais conseguir lá meter um segundo láparo. Mas, olha lá, ó Relvas, porque é que desta vez não te chegas tu à frente? Essa é que era de homem. Vá, Relvas, coragem, avança.

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A 1ª e a 4ª imagens provieram, em tempos, do saudoso blog 'We have kaos in the garden'

As outras circulam por aí

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E até já!

segunda-feira, outubro 04, 2021

Qual a explicação da Igreja Católica para haver no seu seio, nomeadamente entre os Padres, tantos pedófilos?


Dá, se é que nestes casos a aritmética funciona normalmente, cerca de 43 padres ou religiosos católicos por ano. É obra. Dir-se-ia que a Igreja Católica em França tem funcionado como uma agremiação de pedófilos. E falo em agremiação e não rede para não falar do que não sei. Mas uma coisa desta dimensão teria que ser conhecida pelas hierarquias. Se as hierarquias, sabendo, não fizeram nada, então, foram coniventes, deixaram que continuasse a acontecer, protegeram os criminosos. Não sei se, assim sendo, 'rede' não seria uma palavra adequada.

Não é só em França. De vez em quando rebenta um escândalo. Dá ideia que, de cada vez que alguém levanta uma ponta do véu, os factos rebentam como pipocas.

Deve haver uma explicação para isto, para haver tantos casos de pedofilia na Igreja Católica. 

Têm vindo a lume vergonhas idênticas noutras religiões ou seitas. Mas falo agora, em particular, desta Igreja que agora volta a ser notícia, a Igreja Católica. Porque há tanta pedofilia no seu seio?

Perante isto e uma vez que já percebeu que a denúncia não virá das suas hostes, pergunto: não seria de ver se, por cá, estaremos a salvo? 

Os Serviços de Inteligência ou quem quiserem não poderiam acompanhar alguns elementos e, perante algumas evidências ou suspeitas, arranjar maneira de fazer algumas buscas? Não deve ser preciso muito. E, uma vez encontrados indícios, deixar que a opinião pública saiba da suspeição. É sabido que, nestes casos, é preciso é de um gatilho. A haver casos, bastará que uns quantos casos venham a lume de uma forma mediática para que toda a gente que sabe de casos idênticos ou que sofreu no corpo e na alma abusos sexuais comece a arranjar coragem para se juntar ao coro das denúncias.

Não é fácil, e isso é conhecido, para uma pessoa abusada e a quem foi instilada vergonha de ter colaborado em actos impróprios, conseguir ultrapassar traumas, medos e vergonhas e vir, perante a família e a sociedade, confessar que foi abusada. Ainda mais se tiver sido por um senhor padre, pessoa supostamente acima de qualquer suspeita. Mas, quando o movimento é colectivo, quem está nessas circunstâncias percebe que não é um problema seu mas de quem molestou, encobriu, pactuou.

Mas, enfim, esta é a minha ideia ao ler os números chocantes do que se tem vindo a passar na Igreja Católica em França.


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O que são os Pandora Papers?

 

Devo dizer que acredito que Nuno Morais Sarmento, Vitalino Canas e Manuel Pinho não serão os únicos portugueses envolvidos. Estão a ser divulgados, creio, porque, sendo políticos, foram 'apanhados' no primeiro filtro da selecção. 

Acredito que, tal como de outros países., é provável que empresários portugueses e talvez gente do mundo do espectáculo e/ou futebol -- alguns se calhar de forma ocultada através de mulheres, filhos ou pessoas de confiança -- também de lá constem.

Como se refere nos vídeos abaixo, nem toda a gente que se movimenta nestes meios é criminosa ou a caminho de o ser. Haverá razões 'legais' que possam proteger alguns. E, note-se, que há muito boa gente do beau monde que não dá passo sem aconselhamento em optimização fiscal recorrendo aos melhores especialistas, frequentemente também muito bem integrados no beau monde (sejam de escritórios de advocacia sejam das melhores empresas de consultoria).

Relembro que quando se fala em paraísos fiscais não estamos forçosamente apenas a falar de destinos recônditos ou mediáticos. Também por cá (a nível insular) temos regimes fiscais de excepção e que são entidades que agem às claras que tratam da componente administrativa para que tudo esteja 'legal'. 

E, contudo, analisando a forma como aquilo funciona, espantamo-nos com o desplante de se ter uma tamanha fuga ao fisco de forma pretensamente legal. Quem defende aquilo, alega que, se não for ali, é noutro sítio qualquer. Tretas. Poderia não ser em lugar nenhum. E poderiam os gananciosos que querem pagar menos impostos, resignar-se a pagar pela mesma bitola que o comum dos mortais. Mas, enfim, se calhar isso seria num outro mundo, não neste.

E o que penso é que vai sendo tempo de os Estados se entenderem para acabar com esta descarada pouca vergonha. De facto, enquanto houver um, haverá hipótese de por lá passar o dinheiro.

Ocultar capitais ou usufruir de um regime fiscal especial ou seja o que for não me parece coisa compatível com a exigência democrática a que todos deveríamos estar obrigados. E já não falo em lavagem de dinheiro ou encobrimento de toda a espécie de ilicitudes. Acho tudo isso uma pouca vergonha, mesmo que apenas se trate de pagar menos impostos..

Mas se, em meu entender, as offshores e os paraísos fiscais deveriam pura e simplesmente ser banidos, que não se conclua que os três portugueses já identificados, lá por constarem dos ficheiros, praticaram actos ilícitos. Já se sabe que a comunicação social vai agora correr como um cão atrás de um osso em vez de ir ao fundo da questão.

E há um aspecto que eu gostaria de ver sociologicamente explicado: no caso mais benigno, o de apenas querer pagar menos impostos, o que leva alguém a correr riscos (legais ou reputacionais) para aforrar uns trocos como se fosse viver infinitamente? Não pensam, essas pessoas, que não faz sentido arriscar a prisão ou arrastar a sua honra pela lama, apenas para disporem de mais dinheiro para além do mais que muito de que já dispõem, como se fossem viver esta vida e mais dez a seguir? Acham que vale a pena o risco? Ou acham que nunca ninguém vai saber?

Há coisas que poderão fazer sentido nos regimes ditatoriais, oligárquicos, atrasados e fechados. Agora em países ditos civilizados, que sentido fazem estas práticas...? Ao pensar nisso, só penso que aquela gente o que é é uma cambada de burros.

Mas, enfim, a palavra à Guardian investigations team:

Pandora papers: biggest ever leak of offshore data exposes financial secrets of rich and powerful

(...) More than 100 billionaires feature in the leaked data, as well as celebrities, rock stars and business leaders. Many use shell companies to hold luxury items such as property and yachts, as well as incognito bank accounts. There is even art ranging from looted Cambodian antiquities to paintings by Picasso and murals by Banksy.

The Pandora papers reveal the inner workings of what is a shadow financial world, providing a rare window into the hidden operations of a global offshore economy that enables some of the world’s richest people to hide their wealth and in some cases pay little or no tax. 
There are emails, memos, incorporation records, share certificates, compliance reports and complex diagrams showing labyrinthine corporate structures. Often, they allow the true owners of opaque shell companies to be identified for the first time.

The files were leaked to the International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) in Washington. It shared access to the leaked data with select media partners including the Guardian, BBC Panorama, Le Monde and the Washington Post. More than 600 journalists have sifted through the files as part of a massive global investigation.(...) 

What are the Pandora papers? - segundo o The Guardian



What are the Pandora Papers? - segundo o Washington Post



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Até já

domingo, outubro 03, 2021

Um homem que partiu cedo demais

 


Ontem à noite pensei numa pessoa que me foi muito querida. Mais do que um colega com quem me dei muito bem, foi não apenas um amigo mas, sobretudo, uma pessoa que deixou as mais gratas memórias.

Já aqui falei dele algumas vezes, por vezes em episódios avulsos. Era daquelas pessoas de quem sempre se podiam contar muitas peripécias. 

No outro dia. falei de quando comecei a trabalhar em ambiente empresarial: uma grande, grande empresa, com uma longa, longa história, em que havia muita gente ainda a trabalhar de forma que a mim me parecia arcaica. Mas havia muita gente nova. Viviam-se tempos expansionistas, havia projectos com fartura e um enorme bando de jovens licenciados criava uma permanente animação um pouco por todo o lado.

Várias dessas pessoas acompanharam-me profissionalmente durante anos. Um deles viria a tornar-se um dos meus melhores amigos. Outro quase também. Outros apenas bons amigos (o que, convenhamos, não é pouco). Naquela empresa eram quase só homens e, com formação superior, as mulheres contavam-se pelos dedos da mão. Porque as coisas estavam organizadas dessa forma, eu quase apenas tinha contacto com os ditos licenciados. Até o refeitório tinha um horário e um local que eram destinados aos 'quadros'. Mas, elitismos à parte, era também uma questão geracional. As idades eram relativamente afins, as vivências também.

De todos aqueles jovens turcos, um destacava-se naturalmente. Não seria o mais 'apessoado' mas era um homem interessante. Mas era sobretudo um misto de muita coisa em generosas doses: hiperactivo, hiperdivertido, hiperinteligente. Onde ele estava, não havia lugar à monotonia ou à indiferença.

As mulheres caiam de amores por ele. A secretária do director era das mais apaixonadas. Mas havia outras. Tinham crises de ciúmes, ameaçavam denunciar-se umas às outras. Ele geria isso com boa disposição. Eram todas casadas e não era com ele. Tal como ele era casado e não era com nenhuma delas. Mas, se bem me lembro, tenho ideia que ninguém os censurava. 

Mais tarde, quando já éramos directores, uma equipa de, salvo erro, umas catorze pessoas, todos reconhecíamos que era ele o mais brilhante. Não era apenas a forma como delineava estratégias e as punha em prática mas também a forma como contribuía com boas ideias para as outras áreas, como trabalhava bem em equipa, como era sempre fair, como tudo o que dizia e fazia transpirava energia e joie de vivre.

Foi com ele que aconteceu aquilo de ter sido apanhado, fora de horas, no seu gabinete, a ter relações com uma colega de outro serviço. Toda a gente comentava e ele piscava o olho e ria. Nada parecia afectá-lo. Estavam em cima da mesa que, mais tarde, viria a ser a minha mesa de reuniões e da qual toda a gente dizia: 'se esta mesa falasse...'.  E ele, se o ouvia, ria-se. Era atrevido, descarado, bem disposto.

Numa altura, por razões que agora não vêm ao caso, a empresa quis aumentar brutalmente as vendas. 

A ordem era 'venda-se', 'alcancem-se as melhores facturações de sempre', 'esmague-se a concorrência'. Disseram-nos explicitamente: 'overbooking, se for caso disso'.  As nossas reuniões de trabalho eram de loucos. Ele vendia como se não houvesse amanhã. Na logística, nos aprovisionamentos, na produção, em todas as áreas, era a loucura. Dar vazão àquela avalancha de pedidos de compra por parte dos clientes era uma montanha russa em que uns dias nos ríamos e noutros nos pegávamos uns com os outros. Ele avisava: querem vendas, eu arranjo-as. Mas atenção que isso tem custos. Mil vezes, em público, avisou a administração. Mas alguém queria lá saber disso? Queriam era números.

Até que mudaram os ventos. O objectivo do record de vendas tinha sido atingido. 

Quando as canas por apanhar começaram a aparecer, quem tinha pedido, a qualquer custo, um valor extraordinário de vendas, saltou fora. Havia muitos incobráveis. Ele tinha vendido sem acautelar se os clientes tinham capacidade financeira para pagar a tempo e horas. Por muito injusto que fosse, quem estava no degrau acima, ao querer desresponsabilizar-se, fez a jogada clássica: começou por lhe fazer a vida negra para, de seguida, convidá-lo a sair da empresa.

Com a alegria de sempre, ao ter percebido o descaminho que aquilo ia levar, deixou de descartar os convites que frequentemente recebia. E, quando o outro o convocou para o convidar a sair da empresa, ele surpreendeu-o, apresentando a carta de demissão.

A notícia caiu como uma bomba em toda a empresa. Toda a gente gostava dele. O administrador iniciou, então, uma sistemática e furiosa campanha para o denegrir. Lembro-me muito bem disso. Como a campanha não lhe estava a correr muito bem, desencadeou uma caça às bruxas. Se sabia que alguém falava com o antes bestial e, depois, besta ou o defendia, era logo objecto de repreensão e velada ameaça.

Até ao dia em que descobriu que a sua secretária estava a organizar um jantar de despedida. Aí a sua campanha redobrou. Sondava-nos tentando saber se alguém se tinha inscrito, se já se sabia quem ia, dizia que quem estivesse a favor do outro estava contra ele. Fui pessoalmente alvo de toda a espécie de pressões. 

Ninguém se descoseu. 

Junto ao rio, num espaço gigante, juntaram-se centenas de pessoas. De todo o lado, vieram os seus colegas e ex-colegas, directos e indirectos. Foi um jantar muito animado e, ao mesmo tempo, muito emotivo. Penso que ainda tínhamos a esperança que o administrador voltasse atrás, que ele voltasse atrás. Havia surpresas e presentes para ele. Quem falava estava comovido. Mas ele, falando para aquele espaço imenso pejado de gente, falou com a sua alegria habitual. Desdramatizou. Era apenas uma nova etapa da sua vida.

E partiu. Ninguém acreditava naquilo. Como poderia a empresa tê-lo deixado ir embora?

Mas nas empresas a injustiça é frequente. Tão frequente que já ninguém se indigna muito.

Na empresa para a qual foi, toda a gente o passou a adorar. Era impossível não. Era daquelas pessoas que desenvolvia natural empatia para com os outros e que rapidamente apresentava resultados. E o seu sorriso, a sua inesgotável energia, a sua frontalidade e a sua inteligência eram irresistíveis.

Até que, pouco depois, veio a terrível notícia: tinha cancro. Foi um murro no nosso estômago. Não era possível. Não queríamos acreditar. Aquela energia, aquele poço de saúde...

Mas parecia que não era dos mais graves, continuava a trabalhar, muita gente lá nem tinha ainda dado por nada. Ia fazer os tratamentos e de lá seguia para o trabalho. 

Descansámos. Haveria de se pôr bom.

Algum tempo depois, chegaram novas notícias: parece que afinal não estava nada bem. Tinha alastrado.

Por essa altura, um dia, ao fim do dia, quase lusco-fusco, cruzámo-nos: ele descia num sentido, eu subia noutro. Ouvi apitar e alguém chamar o meu nome. Era ele. Disse que estava tudo a andar bem, sorriu, perguntou por mim, perguntou pelos meus filhos. Depois as filas andaram. Dissemo-nos adeus, até um dia destes. Apesar da fraca luz do fim do dia, pareceu-me bem encarado. Comentei isso no dia seguinte. Vinha do trabalho, de janela aberta, certamente a ouvir música, sorridente, igual ao que sempre foi. Não lhe notei sinais de dor ou mal estar, de preocupação, de tristeza, de que a sua vida estivesse por um fio. Nada. Pelo contrário, parecia que estava para dar e durar.

Dias depois chegou a notícia que ninguém queria ouvir: tinha morrido. A nossa consternação e pesar foram imensos. Não conseguíamos acreditar.

A capela mortuária estava cheia e o largo passeio também cheio. Colegas das duas empresas, todas as suas namoradas, todos os seus amigos. Ninguém conseguia aceitar ou perceber a injustiça que tinha acontecido. Da capela chegava o choro lancinante do pai. A mulher estava inconsolável. O filho, jovem adulto, era fisicamente igual a ele. Ambos, ele e a mãe, amparavam o senhor que, vergado pela dor, chorava: 'não devia ser permitido um filho ir antes do pai...'.

Isto já foi há algum tempo. 

Mas tento não me esquecer dele. A vida vai passando por nós, muitas pessoas vão ficando para trás, desaparecendo. Mas algumas foram tão especiais que é bom que, quem delas gostou, não as esqueça. Não sei bem porquê porque, na verdade, é tudo tão efémero, tão volátil, que não sei se a gente se lembrar faz alguma diferença -- mas sinto que é assim que deve ser.


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Pinturas de Zhao Mengfu (1254–1322) ao som de Take This Waltz por Leonard Cohen

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, outubro 02, 2021

Romãs a caminho de serem rubras-romãs para retribuir a gentileza da autora dos Atalhos de Campo

 

Quero agradecer-lhe as suas lindas romãs já com o rubor de Outubro. Mas, sem caixa de comentários aberta ou endereço de mail para onde se possa escrever, tem que ser mesmo aqui, desta forma a modos que esdrúxula. 

Estão lindas, T, certamente com uns belos e sumarentos bagos, bons para trincar. E a fotografia fá-las parecer ainda mais sedutoras.

As minhas são umas meninas do coro ao pé das suas que já se mostram maduras e prontas para serem degustadas. 

Como abaixo de pode ver, as minhas estão quase todas inocentemente verdes com excepção de duas que começam a dar o ar de sua graça. E já caíram umas duas cujos bagos não provei pois, quando dei por elas, já estavam rodeadas por uma nuvem de mosquitinhos que chegaram antes de mim.




E, sendo escassos os meios de agradecimento, para ver se o meu obrigada aparenta ser um pouco mais composto, permita que se nos junte um jovem que me traz cativa: Sheku Kanneh-Mason, aqui interpretando Blow The Wind Southerly


Obrigada, T.!

sexta-feira, outubro 01, 2021

A vida e o amor dos pouco normais

 



Quando deixei o ensino e entrei no mundo das empresas sofri um choque monumental. Vinha fresquinha da faculdade e do mundo civilizado e fui parar a um antro de velharias. Havia gente nos escritórios em número que me parecia irracional, trabalhavam de maneiras que me pareciam irracionais, falavam uma língua que, toda ela, me parecia irracional. 

Do terreno, de manhã cedo, chegavam resmas de papel com os 'apanhados' do dia e noite anterior. Os papéis eram distribuídos por aquela gente toda que os 'tratava' noutros mapas. Tudo manual. 

Para mim tudo aquilo era um pesadelo. O ambiente era óptimo, muita gente nova, mas os novos encaixavam naquela máquina trituradora a que os mais velhos se tinham fortemente apegado. Toda a gente a fazer 'mapas' à mão, quanto muito com a ajuda de máquinas de calcular. Os 'mapas' finais eram enviados para a dactilografia para seguirem em letra de forma para os escritórios centrais. 

Quando me viam mais aborrecida com aquele atraso de vida, diziam-me que era mesmo assim mas que, rapidamente, eu seria transferida para os escritórios centrais onde me esperava um daqueles desafios que aparece uma vez na vida, aquele para o qual tinha sido contratada. 

Nessa altura conheci pessoas incomuns. Uma das mais estranhas era o Doutor Figueiredo. Avisaram-me que era uma pessoa difícil, que não valia a pena contar muito com ele. Mas, para um determinado assunto, só ele me poderia elucidar. 

Fui ao gabinete dele. Era um homem estranho. Amorfo. Um vago sorriso. Praticamente não falava. Pedi que me explicasse o assunto. Fazias pausas longas e desconcertantes, falava de forma vaga, outras vezes entrava num pormenor tão exaustivo que se perdia a noção do que se estava a falar. Ao fim de horas, exausta, saí dali sem perceber qual era o problema dele.

Todos os dias a meio da manhã e a meio da tarde juntávamo-nos na copa e era uma risota, um mundo de histórias para comentar. Os mais novos animavam o grupo mas por lá passavam todos, incluindo os mais velhos. Quem nunca lá punha os pés era o Dr. Figueiredo. Chegava de manhã, estava fechado no seu gabinete até à hora do almoço, depois ia almoçar ao refeitório, sempre sozinho, regressava ao gabinete e saía sempre à mesma hora. 

Enquanto lá trabalhei, raramente o via. Ninguém falava dele. Penso que toda a gente se esquecia da sua existência. 

Anos depois, quando alguém me falava daquelas instalações da empresa, eu perguntava: 'Que é feito do Dr. Figueiredo?'. E a resposta era sempre a mesma: 'Lá está'. Mil reestruturações se faziam, mudanças, promoções, transferências. Toda a gente, de uma maneira ou de outra, toda a gente mudava. Excepto ele. Acho que se esqueciam da sua existência. 

No outro dia uma ex-colega ligou-me. Falámos de mil coisas e, às tantas, diz-me ela: 'O sogro do meu filho é que teve Covid. Ninguém sabe como ele a apanhou pois nunca sai de casa e não se dá com ninguém.' Depois lembrou-se: 'Se calhar, lembra-se dele. É o Dr. Figueiredo' Fiquei banzada. 'O Dr. Figueiredo? Mas casou-se? Teve filhos? Como foi isso possível?' Ela riu-se: 'Agora está viúvo. Mas a mulher ainda era pior que ele... Uma coisa mesmo estranha... Quer dizer... a gente acaba por se habituar àquilo... Mas tiveram uma filha. A minha nora. Uma rapariga inteligente, bem disposta. É professora.'. Eu estava pasmada: 'Não falava, não interagia. Como arranjou mulher?' Ela ria. Confirmou: 'Um mistério. Não fala, nisso está igual. Mas havia de vê-lo com os netos. Brinca, deixa-os arranjar o jardim com ele. Os miúdos gostam muito dele'. Disse-lhe: 'Nunca percebi como é que uma pessoa tão estranha foi capaz de tirar um curso'. Ela disse: 'Tirou. E lê muito. E, sabe lá, toca muito bem piano'.  Ainda fiquei mais espantada. 'É autista?'. Ela confirmou: 'Sim. Mas não há muito tempo que se sabe disso. Sempre passou por ter um feitio esquisito. Diziam que era autista mas era no gozo, sem saberem o que diziam. Afinal é mesmo.'.

Como a prima silenciosa do meu pai. Nunca falava. No verão, juntavam-se os primos no Algarve. Toda a gente falava, eu e os outros miúdos faríamos barulho, era uma animação. Grandes mesas com comida feita no fogão de lenha, uma alegria. E ela, sorrindo, muda. Cresci a pensar que ela não falava mesmo. Toda a família pensava que era atrasada. Foi mais tarde, quando teve cancro e esteve internada na Palhavã (como, na altura, se designava o IPO), que, indo a minha mãe lá visitá-la, ela a surpreendeu, falando. Afinal falava, afinal não era atrasada. A minha mãe disse que o que ela era, era autista e que nunca ninguém quis saber de procurar saber alguma coisa sobre o assunto. Achavam que ela era diferente, esquisita, e aceitaram isso sem querer aprofundar o assunto. Vivia fechada dentro dela própria. Mas sorria, um leve e ausente sorriso, ouvindo as conversas.

E uma coisa é certa: se tantas vezes não nos entendemos a nós próprios, se temos reacções que nos surpreendem, se tantas vezes não entendemos as voltas que a mente dos que nos são próximos dão, se o cérebro é ainda um território por descobrir, imagine-se a dificuldade em perceber os que preferem não comunicar. 

Claro que o autismo já não é hoje o mistério que era há uns anos. Mas, ainda assim, não deixa de ser difícil lidar de perto com quem não segue o padrão de comportamento dito normal, sendo, tantas vezes, emocionalmente inalcançável.

O vídeo abaixo, que muito vivamente recomendo, é emocionante, em especial nos momentos em casal. Há ali uma comovente fragilidade mas, ao mesmo tempo, uma extraordinária força. 

Que sabemos nós do que é ser ou não ser 'normal'? 

How Autism Feels, From the Inside


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Pinturas de Leonora Carrington ao som de Brightside pelos The Lumineers

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Desejo-vos uma sexta-feira à maneira. 
Tudo de bom. Dia de borga.
Peace and love.