quinta-feira, maio 21, 2026

Escrever para acordar a voz das raízes que se perderam

 

Estou a ver, na RTP1, um programa sobre 'o extraordinário percurso da comunidade portuguesa em França' e vejo diversas pessoas que têm apelidos portugueses misturados com franceses. E está a assaltar-me aquela dúvida que por vezes me ocorre. Mas não tenho a quem fazer perguntas.não tenho.

A minha avó paterna, que tinha casa e terrenos no Algarve, tinha por lá sobrinhos, primos direitos do meu pai. Portanto, seriam filhos de algum irmão ou irmã dela, que não conheci. Sei que tinham vivido em França e que até tinham dado um nome francês a uma das filhas. 

Eram quatro irmãos, essa, a mais velha, de nome francês, e que, segundo os meus pais, era uma mulher de armas, ambiciosa, que ia comprando terrenos e tendo grandes campos de amendoeiras, alfarrobeiras, oliveiras. Foi a ela que a minha avó, sem informar os filhos, vendeu, por tuta e meia, tudo o que tinha no Algarve, perto de uma zona em franco desenvolvimento, não longe das praias. O meu pai, quando soube, passou-se, ficou revoltado, ofendido. Ela manteve-se na dela: não via nele ou meu meu tio vontade de, no verão, irem acompanhar a apanha das amêndoas ou das alfarrobas ou a feitura do azeite. E que já encomendava essa supervisão à sobrinha. Ora, se ela dava valor, por que não entregar-lhe a ela os terrenos e as casas? O meu pai nem queria ouvi-la dizer isso, perguntava-lhe se ela ainda não tinha percebido que o valor daqueles terrenos e casas era muito, mas muito mais, que o valor do que de lá se extraía. Ela não queria saber. O meu avô dizia que as propriedades eram dela, ela é que decidia. Sempre foi uma espinha cravada na garganta do meu pai. 

Para além dessa prima, havia uma outra que se pensava que pudesse ter algum atraso. Quando lá estávamos, não dizia nada, olhava para nós, sorria e balouçava-se na cadeira. A irmã dizia que ela sabia governar uma casa, fazia de tudo, não tinha atraso nenhum. Nunca se percebeu. A minha avó dizia que ela não gostava de falar, era tímida demais, gostava de era de estar em casa, lá na dela, sem visitas. Nunca a ouvi dizer palavra que fosse. Os meus pais diziam que ela devia ser autista. Mais tarde, teve cancro e veio tratar-se no IPO. A minha mãe foi visitá-la mais que uma vez e, para sua grande surpresa, julgando que ia estar em silêncio ao lado dela, ela falou, e foi uma conversa estruturada, normal. Não efusiva, um pouco introvertida, mas normal. A minha mãe vinha dessas visitas perplexa.

E havia dois rapazes. O mais novo era magro, ágil, brincalhão, muito vivo. Lembro-me de o ver a cavalo, queria pegar em mim para me levar com ele e eu fugia, temia que ele me arancasse um braço se me içasse pelo braço. Lembro-me dele a apanhar figos a cavalo. A irmã mais velha, falava quase como se fosse mãe dele, dizia que era um maluco, que não tinha juízo nenhum. Emigrou para Austrália. A minha prima diz que se ela e os pais se encontraram uma vez com ele no Algarve, dizia que queria comprar uma casa cá para vir passar a férias. Não sei onde vive nem o que faz. Dele só sei como era tratado: Janico.

E havia o que era o grande amigo do meu pai e da minha mãe. Era da idade do meu pai. Tinha muita pinta. Casou com uma mulher lindíssima. Os meus pais passaram também a gostar muito dela. Vestia-se de uma maneira cuidada, lembro-me de a ver numa fotografia com um vestido branco com bolas escuras, uma gola branca, uma capeline branca, parecia uma estrela de cinema. No verão, eles vinham a casa dos meus pais ou da minha avó e os meus pais iam a casa deles. Depois tiveram um bebé que, naturalmente, era também muito bonito. Mandavam fotografias deles com o bebé. Tenho ideia que a minha avó era madrinha ou do baptizado do sobrinho ou de casamento pois não a tratavam por tia mas por madrinha. E enviavam-lhe, por correio, fotografias, feitas em fotógrafo profissional, com dedicatória 'à madrinha'. Até que aconteceu a pior desgraça possível: o bebé morreu. Ela foi dar com o menino, de meses, morto no berço. A família ficou toda consternada. Lembro-me bem do desgosto de todos. Para ela, então, a mãe do bebé, o desgosto foi fatal, nunca mais foi a mesma. À luz de hoje, presumo que tenha tido uma depressão profunda. E, nessa altura, isso não se tratava. Dizem que nunca mais foi capaz de rir. Uns dois ou três anos depois nasceu uma menina. Também linda, uma bonequinha. Mas nem o facto de ter um novo bebé trouxe alegria à mulher do meu primo. Pouco depois adoeceu. Morreu em pouco tempo, parece que com um tumor na cabeça. Mas toda a gente dizia: 'Morreu de desgosto'.

O primo do meu pai viu-se viúvo, com uma filha pequenina. Valeu-lhe a mãe ou a avó da mulher, nem sei qual o parentesco. Do que me lembro dela, era uma mulher de idade. E a menina tratava-a por avó. Lembro-me de passarem férias em nossa casa, já eu era mais crescidinha.

E, pouco depois, incapaz de continuar na casa onde lhe tinham morrido um filho e a mulher, esse primo do meu pai foi para Paris com a menina e creio que com a tal 'avó'. 

Sempre ouvi dizer que formou lá uma empesa, que era bem sucedido. Já eu não vivia em casa dos meus pais, talvez fosse quando estava na faculdade, sei que ele esteve lá a passar uns dias. Tinha uma mulher francesa, segundo os meus pais, uma francesa toda giraça, muito moderna, cabelo rapadinho, e já tinha uma nova filha. Disseram que a primeira menina já estava uma pré-adolescente muito engraçada e que a nova menina era também muito bonita. 

De vez em quando, se falavam deles, diziam que estavam integradíssimos na sociedade francesa, que ele era um empresário muito respeitado, as empresas tinham-se desenvolvido, e que as filhas certamente se teriam tornado umas mulheres elegantes e interessantes. Nem o nome delas eu sei.

E desse primo do meu pai também só sei que era tratado por Necas. Nem sei qual o apelido.

E já não tenho a quem perguntar. Deixei que morressem todos os que poderiam esclarecer sobre aqueles que, na minha família, vivem afastados.

Por isso, até poderia estar a ver ali na televisão alguns primos e não o saberia.

_________________________________

Desejo-vos um bom dia

Sem comentários: