Tem sido o barulho das serras eléctricas. Ontem estávamos, na sala, a conversar, eu e o meu marido, quando ouvimos um estrondo profundo e, ao mesmo tempo, seco. Eu disse: 'Foi abaixo'. O meu marido fez que sim com a cabeça. Tinham abatido o cedro gigante. O barulho sobre a terra foi violento.
Fui espreitar cá de cima. Estava a olhar para aquele volume de verde sem compreender bem onde começava e acabava a grande árvore, quando ouvi, vindo lá de baixo: 'Olá, menina, boa tarde!'. Apurei a vista. 'Aqui, em cima, no tronco!'. E lá estava ele, o mais acrobático, empoleirado em cima do tronco cortado. Quando viu que eu o tinha descoberto, fez-me adeus, todo orgulhoso da sua façanha. Cá em baixo o outro virou-se e fez-me também adeus. E disse-me: 'Isto vai!'.
Disse-lhe: 'Vocês tenham cuidado, não se magoem.' Riram-se: 'Esteja descansada. O pior já foi, já lhe cortámos a cabeça'.
Percebi que um tinha trepado a meia altura e tinha serrado a parte que jazia. Mesmo tendo caído apenas meia árvore, tinha sido aquele horrível som cavo, pesado.
Depois disso ainda estiveram durante mais umas duas horas a serrar. Estavam a cortar o tronco, as pernadas, a decepar todo o enorme corpo.
Quando se foram embora, já era quase noite, havia um intenso cheiro a madeira de cedro, um perfume maravilhoso. É, então, esse o cheiro que os cedros exalam ao serem esquartejados...
Hoje, de manhã, quando lá fui ver de perto, o cheiro ainda se fazia sentir mas já não era tão inebriante quanto o da véspera à noite.
O meu marido contou-me que os rapazes, ontem ao fim do dia, lhe tinham dito que, sem aquela árvore gigante, até veríamos melhor o pôr-de-sol, e fez questão de me dizer que concordava com eles. Talvez se veja melhor a linha de horizonte da serra em frente, mas isso não apaga a pena que sinto por termos destruído uma árvore tão vigorosa, tão bela.
Ainda há mais umas quantas para serrar mas já não é crítico nem tem a ver com a Kristin: é uma figueira que secou, um ramo grande de aroeira que está tombado demais, são dois troncos anteriormente cortados e que ficaram demasiadamente a sair da terra. E mais umas quantas pernadas. A serra elétrica do meu marido não tem dimensão ou força para ramos tão grossos. Durante o dia ele anda a desbastar árvores ou arbustos, mas de dimensão mais comedida.
Há bocado tive um sobressalto. Eu tinha-lhe dito que estava um folhado grande, muito tombado sobre o caminho, ali mesmo em frente, e que ele poderia cortar. Luz verde para cortar coisas é do que ele gosta. Passado um bocado, já ouvi a serra elétrica. Cortou, cortou, e eu nem estava a perceber o que é que ele tanto cortava. Mas estava ocupada com outra coisa, não fui investigar. Quando o meu filho me ligou, fui andar lá para fora enquanto falava com ele, e, para meu espanto, o folhado ainda lá estava. Em contrapartida, um vazio num outro lado. Um vazio difícil de perceber. Só quando acabei a chamada é que perguntei ao meu marido o que é que ele tinha feito. Achou que eu me tinha referido a outro, um que não estorvava nada, enorme, lindo. E deu cabo dele. Ao lado, no chão, um monte enorme. Fiquei para morrer. Nestas alturas só não fico possuída e à beira de apoplexia porque já aprendi a conter-me e a relativizar. Quanto a ele, nunca se dá por achado. Como se não tivesse feito um disparate de todo o tamanho, disse: 'Pensava que era aquele. E também não estava ali a fazer nada.' Respondi que, por essa ordem de razões, também ele, também eu, também tudo e todos não estamos cá a fazer nada. Mas, pronto, fazer o quê?, o mal estava feito. Coração ao alto.
Hoje o barulho foi o da roçadora: silvas, sobretudo. E ainda não estão todas. E ainda falta o tojo. O meu marido disse que ele tinham que ter cuidado comigo pois se eu via que tinham cortado orégãos não iria perdoar. Por causa disso, a produtividade não foi a maior. O meu marido diz que não é assim que as coisas se fazem, que o que se devia fazer era apontar para uma área e dizer: corte. Eu não concordo. Acho que tem que haver uma selecção. Claro que andar com atenção, a contornar os pés de orégãos não deve ser fácil.
Cá em cima, longe de cena do crime, chegava não só o barulho contínuo das roçadoras mas também o intenso cheiro das verduras sacrificadas. É um cheiro bom.
E ainda falta muito mais. Por um lado, sinto que estamos a fazer o que tem que ser feito. Compreendo e constato que, se nada fizermos, a natureza avança e toma conta de tudo. Misteriosamente constato também que este bocado de terra se tornou tão verdejante que, apesar de se terem estado a cortar tantas árvores, pernadas e arbustos, o que se vê e sente é ainda uma saudável mancha verde. Mas, ao mesmo tempo, sinto aquele instinto primário de viver no meio da natureza, de deixar que ela siga o seu curso.
Quando se passam assim vários dias, aqui hibernada, sinto que os conflitos absurdos que homens dementes levam a cabo perdem ainda mais o sentido. A meu ver, todos os esforços deveriam ser envidados para que o planeta fosse fértil, saudável, eterno, um lugar de leite e de mel, um lugar de grande beleza. Sei que isto é conversa de quem não vai além da primeira camada cutânea, de quem desconhece toda a espécie de tormentos e perturbações que habitam a mente de muitos humanos, que a guerra e o apelo pelo mal fazem parte da natureza desta nossa espécie. Mas tenho pena. Tanta ciência, tanto desenvolvimento e, afinal, pouco se encaminhou para extinguir a maldade e a vontade de destruição.
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Estive a ver o vídeo abaixo que gostava que também vissem: vê-se e quase parecem sonhos. Como é possível que ainda haja povos a viverem assim? Como devem ser felizes por desconhecerem a malvadez que se propaga como um vírus daninho nas zonas ditas civilizadas.
Humanos Inacreditáveis | 11 Culturas Extraordinárias que Não Vai Acreditar que Existem | 4K
Das tribos que vivem nas árvores da Papua aos nómadas do mar no Sudeste Asiático, dos guardiões do deserto do Saara aos monges espirituais do Butão, a humanidade adaptou-se aos lugares mais extremos e fascinantes da Terra.
- Tribo Korowai (Indonésia)
- Povo Maasai (Quénia e Tanzânia)
- Povo Yakut (Sibéria, Rússia)
- Nómadas do Mar Bajau (Filipinas)
- Povo Aymara (Bolívia)
- Povo Moken (Tailândia e Myanmar)
- Povo Dogon (Mali)
- Monges do Mosteiro Ninho do Tigre (Butão)
- Tribo Kogi (Colômbia)
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