Já contei, desculpem por me repetir: quando andava na escola infantil, todos os dias, depois de almoço, a sala era posta às escuras, os colchões eram estendidos, se estava frio os cobertores eram distribuídos, e todo o mundo ia dormir a sesta. Todos menos eu. Não consegui dormir uma única vez.
À noite, desde sempre, queria ir tarde para a cama. Quando comecei a tomar o gosto da leitura mais a sério, lia até de madrugada. Estou a falar talvez a partir dos treze anos. A mobília do meu quarto tinha sido desenhada, imagino que pelo meu pai, talvez a partir de alguma fotografia que tenha visto em alguma revista estrangeira, não sei. Era uma mobília incrivelmente moderna para aqueles tempos, podia muito bem ser uma mobília actual. A cama ficava entre os móveis, que eram lineares, baixos -- ficava aconchegada, digamos assim. O que poderia servir de mesa de cabeceira era a bancada-toucador adjacente, onde estava um candeeiro articulado, também bem moderno para aqueles tempos. Isso permitia-me estar a ler com o candeeiro a apontar exclusivamente para a cama. Por vezes, se eu ouvia algum dos meus pais levantar-se durante a noite, apagava a luz à pressa. Outras vezes parecia-me que estavam só a mexer-se, não a levantar-se. Mas era a minha mãe que me enganava, para me apanhar. Ia pé ante pé até ao meu quarto e passava-me altas desandas por ser aquela hora e eu ainda a ler. Imagino que isso acontecia quando tinha aulas à tarde pois, se tivesse que me levantar às sete e tal, duvido que conseguisse estar até às três a ler. Mas ainda me lembro dessas noitadas dedicadas a uma literatura que absorvia como uma esponja, deslumbada, certamente sem capacidade para assimilar tudo o que devorava.
Mas estes meus hábitos noctívagos acompanharam-me toda a vida. Ou ficava a fazer tricot ou crochet ou a bordar ou a fazer tapetes de arraiolos ou a pintar ou, depois, agora, por exemplo hoje, a escrever no blog. O que calhasse. Não sei como me aguentava tendo que me levantar tão cedo e tendo dias tão exigentes. Tentava dormir pelo menos seis horas mas muitas vezes ficava-me pelas cinco. Muito mau.
Quando tinha reuniões fora de Lisboa e tinha que sair de casa às seis ou antes disso, com receio de não acordar, por vezes quase não dormia e aí sofria horrores para me manter acordada na viagem. E sentia-me toldada todo o dia. Dias complicados. Chegava a casa, à noite, espapaçada.
O que me valia é que, tirando esses dias fora, nos dias normais, mal caía na cama adormecia profundamente e era até de manhã. E, ao fim de semana, desforrava-me e parece que me recarregava.
Hoje reconheço o péssimo que esses meus hábitos noctívagos eram. Hoje, que posso acordar à vontade, reconheço quão melhor fico quando durmo bem. Mesmo se, ao deitar-me, acontece sentir alguma dorzeca algures, se durmo bem, na manhã seguinte estou (geralmente) boa.
Mas tenho que abrir uma ressalva: não é verdade que possa sempre acordar à vontade. Por exemplo, nas casas em frente ou ao lado contratam jardineiros. Ao passo que nós temos aparelhos elétricos que não fazem barulho, esses jardineiros usam corta relvas, aspiradores e corta-sebes a gasolina que fazem um barulho ensurdecedor, horrível, que me acordam. Como dormimos de janela aberta, o barulho entra todo. Outras vezes é o telefone que toca quando ainda estou a dormir. Ou, se pára algum carro à minha porta, o meu cão faz um cagarim tal que me acorda a mim e desestabiliza os cães de toda a vizinhança. Acontece também o meu marido aparecer a dizer: 'se queres ir ao ginásio e depois ainda vir fazer almoço, diria que é melhor levantares-te...'. Portanto, na realidade, são frequentes as manhãs em que sou acordada antes de tempo. Mas, enfim, nada que se pareça com as noitadas de antes.
Esse é um dos aspectos em que o meu desregramento não me deve ter feito nada bem. Outra coisa de que me arrependo é de, antes, não fazer exercício. Não tinha tempo. De facto, não tinha tempo. Mas, se tivesse pensado realmente na minha saúde, teria arranjado tempo. Não era capaz de estar indisponível. O meu tempo era todo tão preenchido que não via maneira de dizer, 'meus caros, santa paciência, mas não contem comigo entre as tantas e as tantas porque vou para o ginásio'. Claro que poderia ir à hora de almoço, mas sempre gostei de ter tempo para almoçar e fazer compras, porque, obviamente tinha que fazer compras. E, ao fim do dia, saía sempre tão tarde que já só me apetecia era ir para casa.
Em síntese, não fazer exercício e dormir pouco foi um disparate de todo o tamanho. Junta-se a isso os tempos em que fumava. Outro disparate. Não sei como não travei antes. Pensava sempre que um dia deixaria de fumar, mas esse dia levou uns bons anos a chegar. Disso arrependo-me bastante. Talvez seja das poucas coisas de que me arrependo sem reservas, daquelas coisas que, se fosse hoje, jamais teria acontecido. Mas não se pode voltar atrás no tempo. Por isso, o que há a corrigir não é amanhã, é hoje, é já.
Quanto ao sono, partilho um vídeo bem elucidativo, não com base em dicas ou bocas mas com base em ciência.
Preciso de Dormir. 7 Estratégias para uma Rotina de Sono
'Manual de Instruções para Humanos' -- Observador
Vamos para a cama tarde e pomos quase tudo à frente do tempo de sono. Ou temos filhos pequenos e nunca mais dormimos igual. O que explica isto? E porque é que uma sesta ou um comprimido não ajudam?
Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz. Tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos.
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