A noite passada dormi toda a noite, mas,, de vez em quando acodava com o mesmo sonho, que era mais pesadelo do que sonho. Eu tinha ido para um daqueles encontros da empresa que implicavam dormir lá. Mas tinha tido reuniões até à última hora e, portanto, não tinha conseguido ir no autocarro que tinha sido fretada para o efeito. Mas a minha mala tinha seguido. Quando cheguei já o encontro tinha começado e já alguém tinha levado a minha mala para o meu quarto.
De notar que uma situação destas aconteceu uma vez. Eu sou muito cumpridora e pontual e, se tenho um compromisso, não aceito outros para o mesmo dia e hora, mas naquela vez, na realidade, tinha surgido um imprevisto a que eu não podia virar costas. Esse mesmo compromisso fez com que, de vez em quando, tivesse que me levantar para vir atender uma chamada cá fora. E assim também no meu sonho.
Mal jantei e, depois de jantar, ao contrário das outras pessoas que ficavam por ali a conversar ou iam fazer uma caminhada, eu continuava agarrada ao telefone, a acompanhar a resolução de um problema complicado.
Era tarde quando cheguei ao quarto. Tomei banho e deitei-me. Na vida real.
No sonho, de manhã acordava e, ao peparar-me paa me pôr a roupa fora da mala, não reconhecia a minha mala. Na verdade, não era uma mala, eram duas. Abria as malas e via roupa que não acabava. Era tudo meu mas, em vez da muda de roupa que eu sempre levava, havia ali roupa para mais de uma semana, e calças que já me estavam justas demais, camisas chiques de mais, apetrechos que jamais usaria num encontro de empresa. Fiquei pois desorientada com tudo aquilo. Comecei a vestir roupa, a tentar encontrar alguma coisa que me servisse e fosse adequada, mas nada me convencia. O tempo a passar e eu sem atinar. Entretanto, chegaram umas colegas que estranhavam eu não ter aparecido para tomar o pequeno almoço e me vinham alertar que tínhamos que fazer o check out e desandar rapidamente pois o encontro recomeçava às nove numa terra ainda longe. E isto de as reuniões começarem às nove a vários quilómetros do local onde dormíamos e em hora de ponta era o pão nosso de cada dia, coisa que me causava sempre muito stress.
Mas depois olhavam para mim e, com ar incomodado, perguntavam-me: 'Mas não tomas banho nem nada?'. e eu sentia que elas achavam estranho eu levantar-me e vestir-me sem me lavar, e dizia-lhes que gostava de tomar mas não tinha tempo mas que, de qualquer maneira, tinha tomado antes de me deitar e que só queria descobrir uma roupa que me ficasse bem. Elas estavam muito admiradas: 'Mas porque é que a tua mãe encheu duas malas de roupa?'. E eu ainda mais admirada fiquei: 'A minha mãe?'. Mas, ao dizer isso reparei que as duas malas não eram minhas, eram da minha mãe. E elas diziam que como eu estava ocupada a resolver um problemão, tinham achado melhor pedir à minha mãe que fizesse a mala por mim.
Eu estava admiradíssima, assustada, pois pensava que a minha mãe tinha morrido e afinal ainda estava viva. E tentava situar-me, em que ano estava, que confusão horrível era aquela na minha cabeça. E elas foram-se embora para não perderem a camioneta e eu ali estava, a cama já cheia de roupa, eu sem conseguir encontrar umas calças que me servissem, uma saia razoável, uma blusa que não fosse desajustadamente chique, o tempo a passar e eu, perplexa com o que estava a passar-se, pensava: 'Mas, que confusão é esta?, que coisa mais horrível, não a tenho ido visitar, não lhe tenho telefonado, pensava que tinha morrido, e, afinal, está viva...?'
E acordava. E custava-me a perceber que estava a sonhar. Pensava que estamos em 2026, que a minha mãe morreu no início de 2024, portanto, era um sonho. Mas foi difícil. E foi até de manhã.
Isto de escolher a roupa se calhar tem a ver com um almoço, também um encontro, dentro de dias e, na realidade, na minha cabeça já estou a equacionar o que levo vestido e, de facto, uma coisa é escolher sabendo que me já me ficou bem e outra é pensar que tenho que provar para ver se ainda me fica bem.
Mas foi um sonho que me deixou muito incomodada.
Claro que de dia estive feliz da vida, bem acompanhada e bem disposta, e nem mais me lembrei do sonho.
Mas agora, ao ver neste vídeo o momento em que ela diz que não consegue esquecer a mãe, voltei a pensar na estranha impressão que o sonho me deixou. Caraças.
De resto, não sou como ela: não tenho arrependimentos, pelo menos arrependimentos significativos, não lamento nada, acho que não deixei para trás nada que fosse importante, a minha mente não se ocupa com relacionamentos que se quebraram, não gostaria de voltar atrás para reparar alguma coisa.
Mas as pessoas são diferentes. Leigh Meinert. é diferente. E é muito sincera. E gostei de ouvi-la.
[Dá para escolher a legendagem em potuguês]
O Peso do Arrependimento: Encontrar a Paz na Complexidade da Vida
Muitas vezes sentimos que a vida se deveria resolver sozinha. As relações quebradas deveriam ser reparadas, as antigas feridas curadas e os arrependimentos transformados em lições que compreendemos. Mas algumas coisas simplesmente não se resolvem. Alguns relacionamentos permanecem rompidos. Algumas questões nunca são respondidas. E carregar esse fardo pode ser muito pesado.
Talvez a paz não esteja em reparar o que está inacabado. Talvez ela comece quando deixamos de esperar que tudo se resolva na perfeição. Algumas coisas permanecerão desarrumadas. E isto não é um fracasso, é simplesmente parte de ser humano. O que podemos fazer é acolher estas coisas com mais delicadeza e sermos um pouco mais gentis connosco próprios em relação ao que não podemos reparar.
Apesar de tudo, ainda há amor para dar e vida para viver. Podemos não ser capazes de reparar tudo do passado, mas podemos escolher a forma como nos apresentamos hoje. E está tudo bem se algumas partes das nossas vidas permanecerem desarrumadas. Uma vida com significado pode ainda florescer ao redor delas.
Com Leigh Meinert.
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