Das melhores coisas que ouvi sobre o envelhecimento foi que envelhecer é o que acontece quando tudo corre bem.
Concordo plenamente.
Aparareceu-me, no Instagram, a Bárbara Norton de Matos dizendo mal de umas e outras que não assumem que fazem 'picas' e que tentam fazer crer que estão lisinhas e esticadinhas sem nunca terem ido às 'picas'. Ela, pelo contrário, assumia que ia regularmente e que eram (e são) picas por todo o lado. Dizia que obviamente não tem um pele impecável, sem olheiras e sem rugas, só por si, que é muita pica all over. Não ouvi tudo, há em mim qualquer coisa que, mesmo que surpreendida com o que ouço, rejeita ficar a ouvir. Penso: 'quanta futilidade, credo!', e desando. Mas depois fico a pensar que o mundo é inclusivo, há pessoas de toda a espécie e feitio, e ainda bem que há tanta diversidade. Seria um tédio insuportável se toda a gente fosse como eu. Mas, portanto, retomando: não me informei sobre o que era e eu é que fiquei a perder, agora não sei dizer, tenho ideia, mas não garanto, que são injecções de botox, de ácido hialurónico e de mais qualquer coisa. Isto tendo ela quarenta e tal anos. Dir-se-ia que não precisaria de se injectar toda. Mas aos quarentas e tais pelos vistos quer-se parecer ter vinte. E, pensando bem, qual o mal? Nenhum.
Na volta há aqui um preconceito meu que me leva a compreender que ideia é esta de as pessoas quererem envelhecer parecendo sempre jovens. Mas, dito isto, tenho que confessar que, por vezes, olhando-me ao espelho, penso que, na volta, estou é a ser parva pois, se calhar, com meia dúzia de picadelas ficava com uma aparência mais juvenil. São contradições, bem sei. Felizmente, ocupam um espaço diminuto na minha cabeça. Penso e, mal desvio o olhar do espelho, já se me varreram da ideia.
Não sou de filosofar pelo que não vou pôr-me para aqui a dizer que envelhecer é uma maravilha, só sabedoria. E não digo porque não acredito nisso. Desde que nascemos que não fazemos outra coisa senão envelhecer e, depois, não ganhei sabedoria nenhuma, ganhei foi cada vez mais consciência da minha ignorância. De resto, gosto do que gostava, embirro com o que embirrava, desato-me a rir com o que sempre me fez rir, emociono-me com totozices que não lembram a ninguém e parece que me mantenho calma quando toda a gente está em ebulição.
A nível de saúde, tinha, com alguma frequência, dores inflamatórias em algumas arrticulações, à vez. Por exemplo, às vezes calhava ser um joelho. Mas também aconteceu uma vez num pulso. Sem se perceber bem o que teria desencadeado isso. E isso incomodava-me um bocado pois pensava: será que, quando for mais velha, vou ter isto com alguma frequência e fico impedida de fazer caminhadas, de ir ao ginásio, de nadar? Felizmente comecei a tomar meio comprimido por dia -- metade de um comprimido que é minúsculo (a minha nora deu-me uma caixinha-guilhotina, verdadeiro ovo de colombo, para resolver a dificuldade de partir ao meio um nano-comprimido) -- e não voltei a ter qualquer problema. Uma coisinha ínfima está a resolver um problema que, quando aparecia, me incomodava bastante. Deixa-me cá bater três vezes na madeira que isto de a gente se gabar parece que atrai. Mas isto para dizer que o que era uma chatice, até parece que se evaporou. Na volta, a menos que seja um problema daquelas que a gente se verga de medo, vai havendo solução para tudo, pelo menos para que vamos conseguindo levar a vida na boa. É não desistir, procurar solução. Não pensar: 'ah, isto é natural, é da idade'. Da idade, o escambau. Se é chato, tem é que se resolver.
Penso que já contei que durante muitos anos, muitos mesmo, sempre que encontrava alguém que não via há anos, essa pessoa olhava para mim e dizia com ar admirado que eu estava sempre na mesma. Nunca levei muito a sério pois não podia ser verdade que parecesse ter congelado no tempo. Mas é um facto que creio que a partir da covid me mofifiquei. Não sei por passar tantas horas sentada, ao longo de meses, em teletrabalho, em reuniões ao computador, se alguma vez teria que fisicamente ceder à passagem do tempo. No entanto, creio que continuo a ser a mesma pessoa a nível de descomplicação, de relevar os disparates, os meus e os dos outros (os disparates inofensivos, bem entendido), de seguir adiante e nunca ficar a empreender nas coisas, de gostar de coisas novas, de me perder de encantamento com a arte, com a beleza natural, com os meus.
E deleito-me com a tranquilidade da imagem de dois patos a deslizarem num lago ao por do sol, com um passeio num caminho ladeado por conjuntos de ciprestes. Coisas simples. Vim do passeio de alma lavada, feliz da vida.
E estivemos, eu e o meu marido, a escolher caixas de arrumação e frascos para diferentes fins, a medir gavetas e prateleiras, a pensar no que lá vamos colocar -- e pode parecer estúpido eu dizer isto, mas é verdade: gostei. Só pensar em como vai ficar tudo tão mais organizado já me dá prazer.
Como se levanta bem mais cedo que eu, quando acordei, o meu marido avisou, no gozo: 'se precisares de ajuda no percurso dentro da cozinha, diz'. Percebi logo que tinha andado, outra vez, a mudar o sítio das coisas. Fui abrir armários e várias coisas desapareceram, outras estão acomodadas noutros lugares. E, misteriosamente, sobra espaço. Como fiquei tão agradada e o vi tão orgulhoso dos seus feitos não quis entrar em pormenores. O que desapareceu? Para onde foi? -- Foram perguntas que não fiz pois as respostas poderiam causar-me frenicoques. Assim, olha, deixa andar. Que está muito melhor, está. E que vai tudo ficar melhor com as caixas, de diferentes tamanhos e materiais, tenho a certeza que sim.
E faz sentido eu ficar tão bem disposta com uma parvoíce destas? Pois... se calhar não. Mas quem é que disse que tudo tem que fazer sentido?
Hoje ao fim da tarde, ao virmos para casa, o sacrista do carro voltou a acender todos os alertas e a perder força, e estávamos a ver jeito de não chegarmos a casa. Mas chegámos. Não sabemos é se amanhã trabalha ou se tem que ir outra vez de reboque. No sábado tenho uma deslocação imperiosa e não ter carro vai ser uma maçada das antigas. Devo ter que ir e vir de uber o que é chato porque é longe que se farta, não me apetecia nada. Só conseguimos marcar para o concessionário para meados do mês que vem. Deve ser uma avariazeca da treta, um mau contacto elétrico ou coisa do género, pelo menos assim o esperamos. Só que é intermitente e na oficina multimarcas onte vamos não conseguem descobrir. É uma chatice mas, enfim, há coisas piores e não vou estar a apoquentar-me com isso. Mas esta atitude não tem a ver com a idade pois, noutros tempos, eu não conseguiria viver sem carro. Hoje consigo. Mas os tempos são outros, se antes o carro tinha um problema, era problema que não era meu: um motorista enarregava-se de tratar do assunto, de me entregar um carro de subsituição, e eu nem queria cá saber o que é que o carro tinha ou deixava de ter. Agora estamos por nossa conta, essas mordomias acabaram-se. Mas aprendemos a viver sem elas, e tudo bem.
E agora vou mas é dormir que estou com a impressão que este texto andou para aqui aos ziguezagues. Sono, sono, sono.
As imagens foram geradas, segundo requisitos meus, pelo ChatGPT.
Deixo-vos com o Luís Osório que é menino para uma prosa bem mais burilada do que a minha.
Envelhecer | Postal do Dia | Luís Osório | Antena 1
Envelhecer é tramado e uma oportunidade. Ser velho é tudo e o seu contrário. Mas é o único tempo em que a Sabedoria pode ser alcançada, a capacidade de estarmos para lá do corpo.


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