Tenho tido uns dias ocupados. Como creio que já aqui tinha admitido, cedi à pressão para que a 'nossa' casa de banho fosse reconvertida. Relembro: digo 'nossa' porque é a casa de banho junto ao nosso quarto, já que a outra está bem e recomenda-se.
E, como sempre acontece, caí na armadilha do 'já agora'. Da base do duche já derivámos também para o lavatório. Novo, coisa diferente. E mexer nestas coisas implica parte do revestimento, parte do pavimento. E, já agora, a torneira do duche também nova, mais para cima. E o pior é que olho para a pobre coitada da casa de banho já com olhos de quem quer ver coisa nova e, portanto, já tudo me parece mal. Já não gosto dos toalheiros onde estão, já não gosto das prateleiras giratórias, já não quero ali o armário espelhado, dito dos medicamentos. Já tudo me parece a precisar de desandar. E o pior, pior mesmo, é que o meu marido não me refreia capazmente.
E o fogão, que já cá estava quando comprámos a casa (já lá vão 6 anos!), um bom fogão mas já certamente com alguns bons anos, também andava a pedir para ser posto em cima de um par de patins. Resisti. Resisti. Até que cedi. Também já encomendámos.
Todos os materiais, fogão incluído (embora comprado noutro local) só chegam a meados de outubro.
Hoje, enquanto caminhávamos ao luar, eu dizia: 'agora já está tudo encaminhado, tudo o que havia a encomendar está encomendado, já podemos tirar daí o sentido'. Ele disse: 'falta executar'. Exacto. Mas isso também já está contratado. O meu marido lembrou: não o conhecemos, não sabemos como é, vamos esperar que apareça, que trabalhe bem.
Claro. Vamos esperar.
Dá-se também outra circunstância: quando o meu marido se cansa dos programas de televisão comuns, ou vê futebol ou vê cozinhados (ele que pouco ou nada cozinha). Mas agora aparece (creio que no canal 24 kitchen) uma simpática e gravidíssima jovem senhora que remodela cozinhas, Ellen Marie Bennett. Ele ficou entusiasmado e contagiou-me.
Incrível o que há para arrumar coisas, as ideias, os truques, os apetrechos. Revejo-me nos problemas que levam as pessoas a recorrer a ela. A minha cozinha é aparentemente uma cozinha fantástica: ergonómica, com muita arrumação. Mas, para mim, não é o que eu gostaria. Tem armários até ao tecto, ou quase. Portanto, para chegar às prateleiras de cima só com mini-escadote. Às tantas não faço ideia do que está lá para cima. Mesmo com o escadote, vejo o que está à frente, não o que está para trás. E os compartimentos são um bocado estreitos. Portanto, as coisas estão um bocado salteadas.
A despensa é também um espaço pensado ao milímetro, ultra arrumação: prateleiras altas, fundas, com imensa arrumação. O pior é que são tão fundas que mal tenho percepção do que está lá para o fundo. As prateleiras lá de cima, então, são para mim um mistério. Por vezes, quando me encavalito no mini-escadote, vejo que, pelo menos à frente, estão uns tachos gigantes. Mas está tudo tão inacessível que, na prática me esqueço do que para lá está.
Somos todos escravos do que precisamos / Reduz as necessidades se queres passar bem
O meu marido diz: 'pego naquilo tudo e levo para a cave'. Não me parece lógico. Levar para a cave é, na prática, o mesmo que nos esquecermos das coisas. E tudo o que voltar a enfiar lá para cima, tem, na mesma, o destino traçado. Por isso, não sei qual a solução. Só se for pôr espelhos na parte de cima das prateleiras....
Outra coisa que agora questiono. Tenho duas gavetas ocupadas com panos de cozinha. Depois de vermos o programa, o meu marido questiona: 'para quê tanto pano de cozinha? duas gavetas desperdiçadas com panos!'. Mas eles existem, têm que estar em algum lado. É certo que estou longe de precisar de todos. Vejo que a dita Ellen, que coloca tudo em caixas e em prateleiras deslizantes ou em prateleiras com degraus, para tudo estar sempre à vista, coloca os panos da louça e das mãos em rolinhos, ao alto, numa cesta, e a cesta está numa prateleira. Talvez seja uma solução. E fica a gaveta para arrumar especiarias, por exemplo, que hoje tenho os frascos encavalitados em cima uns dos outros, de cada vez que quero um posso ter que tirar os outros todos.
Ou seja, agora olhamos para as coisas com vontade de reformular também tudo. Só que, ao contrário das cozinhas americanas que são gigantes, a minha cozinha é o que é, relativamente estreita, sem margem para grandes reformas. O mais que dá é para reorganizar, repensar as coisas.
E sei que esta conversa -- no meio da crise energética, no meio dos desequilíbrios de forças a nível internacional, no meio do pântano, que tende a ser infecto, da política nacional, num dia triste em que sentimos a falta do grande Jorge Palma -- é uma não-conversa, é uma futilidade, uma coisa de quem tem pouco com que se ocupar.
Pois, reconheço que sim -- mas fazer o quê? Sou assim, não sou de me deixar afogar em mágoas ou de me deixar ficar a carpir, sou mais de bola para a frente, enquanto houver estrada para andar acho que a gente deve continuar. Continuar com a vida de sempre, de todos os dias.
Se eu ainda estivesse a trabalhar, iria para o trabalho, trabalharia, embrenhar-me-ia na resolução dos mil problemas que me apareciam. Agora as minhas circunstâncias são outras. Já posso dar-me ao desfrute de me ocupar de temas banais que, provavelmente, são de fazer bocejar o mais careca. Quiçá até o mais cabeludo.
Quem sabe até, um dia destes, não partilho convosco a forma como o meu marido pegou nos meus chás e os arrumou tentando fazer mais ou menos o que viu lá a tal senhora fazer. E depois me dirão se o que ele fez está bem feito. A mim parece-me que tem sérias limitações, mas ele acha que sou eu a embirrar só por ele ter feito aquilo sem me consultar. Claro que não é. De qualquer forma, já arranjou uma solução. Só que, como ele diz, 'falta executar'.
Enfim.
Enquanto houver ventos e mar / A gente não vai parar
A gente vai continuar -- Jorge Palma
Desejo-vos um dia feliz

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