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sexta-feira, agosto 25, 2017

Bonecas e bonecas


Por vezes, vejo uma coisa e resvala-me a reacção para a incompreensão. Depois, dou-me conta do preconceito que me enforma e logo tento condescender, aceitar a diferença, perceber que há quase sempre uma causa profunda para aquilo que, à superfície, parece uma aberração.

E é neste ponto que agora estou: tentando não fazer juízos de valor e puxando pela minha mais profunda aptidão para aceitar que tudo (ou quase tudo) deve ter o seu lugar no mundo e ser respeitado, apesar de tudo.

Lulu Hashimoto, a ‘living doll’ model, poses on a crossroads in central Tokyo

(The Guardian)


Lulu Hashimoto é uma boneca humana. Na prática, uma pessoa mascarada. Melhor, a usar um disfarce. O outfit inclui máscara, cabeleira, vestuário e meias. Quem criou a personagem Lulu foi Hitomi Komaki, uma designer de 23 anos.


Lulu não é a única. Vai participar no concurso Miss iD, um concurso no qual participam avatares, bonecas, figuras da ficção digital -- cerca de 4.000, ao todo. 
The pageant, which includes "non-human" characters generated by artificial intelligence and three-dimensional computer graphics for the first time, will announce a winner in November.

Lulu's ability to blur the line between reality and fiction has mesmerized fans on social media, where the Lulu Twitter and Instagram accounts have drawn tens of thousands of followers. (...)

Começamos a entrar naquele extraordinário mundo novo em que as coisas ganham vida própria e em que começamos a assistir a episódios que parece não fazerem sentido, pelo menos à luz da tradional racionalidade humana.

Não vou chamar para aqui o que para aqui não é chamado mas uma coisa é certa: a facilidade com que algumas pessoas se deixam seduzir por uma realidade paralela em que a desumanização parece coisa atraente deveria dar que pensar.

Por cá ainda não estamos tanto nessa. O Japão e países quejandos são terreno fértil para bonecas com toque humano, que simulam emoções e que conversam como gente. E robots de toda a espécie. E jogos que conduzem humanos. Para nosso bem, a nossa bem amada santa terrinha parece ainda estar distante dessa realidade transformada.

O aborrecido disto é que, com a facilidade e abrangência da difusão de novidades e aberrações, o que parece uma tontice no fim do mundo, num instante está a ser adoptada por gente perto de nós. E mesmo que não seja adoptada, é tacitamente aceite. A desumanização vai seguindo o seu caminho perante a desatenção dos humanos.

Aqui há dias uma notícia assustadora da qual (quase) ningém deu notícia.

Facebook shut down an artificial intelligence engine after developers discovered that the AI had created its own unique language that humans can’t understand. Researchers at the Facebook AI Research Lab (FAIR) found that the chatbots had deviated from the script and were communicating in a new language developed without human input. It is as concerning as it is amazing – simultaneously a glimpse of both the awesome and horrifying potential of AI. (...)


Coisa aterradora. Dizem que este motor de Inteligência Artificial foi travado. Mas terá sido? É que tudo isto se traduz em programação que facilmente é copiada por um qualquer artista que resolve dar-lhe continuidade sem que ninguém se dê conta. Termina assim o supra citado artigo: If the AI is communicating using a language that only the AI knows, we may not even be able to determine why or how it does what it does, and that might not work out well for mankind.

Um outro artigo merece atenção e, de novo, recomendo a leitura integral: Silicon Valley siphons our data like oil. But the deepest drilling has just begun. Personal data is to the tech world what oil is to the fossil fuel industry. That’s why companies like Amazon and Facebook plan to dig deeper than we ever imagined .

 An Amazon Go ‘smart’ store in Seattle.
The company’s acquisition of Whole Foods
signals a desire to fuse online surveillance with brick-and-mortar business.
[The Guardian]

What if a cold drink cost more on a hot day? Customers in the UK will soon find out. 
Recent reports suggest that three of the country’s largest supermarket chains are rolling out surge pricing in select stores. This means that prices will rise and fall over the course of the day in response to demand. Buying lunch at lunchtime will be like ordering an Uber at rush hour.
This may sound pretty drastic, but far more radical changes are on the horizon. About a week before that report, Amazon announced its $13.7bn purchase of Whole Foods. A company that has spent its whole life killing physical retailers now owns more than 460 stores in three countries. (...)
Não é a partir da boneca humana Lulu que podemos inferir que o mundo está a caminhar para a sua destruição. Não é. Mas aqui e ali vamos vendo como são acarinhadas manifestações destas, em que as pessoas se disfarçam de não-pessoas ou em que,alegremente, se põem em pé de igualdade pessoas e não-pessoas. E parece que não percebemos que já há funções desempenhadas por não-pessoas e que o caminho que se está a percorrer relega-nos a nós, pessoas, para um papel que pode vir a ser marginal (na melhor das hipóteses).

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A girl holds a picture of her brother,
who was allegedly killed in Yemen’s ongoing conflict, during a rally against Saudi-led airstrikes

[The Guardian]



E, enquanto isso, no mesmo mundo, exactamente no mesmo pequeno planeta, assiste-se a manifestações que vão no sentido exactamente oposto. Ou não. O mesmo desprezo pelos humanos. Não será por via da robotização mas da mais pura maldade. Ou não. Ou não. Há conceitos que não têm o mesmo significado quando as culturas prezam valores distintos.  Na fotografia acima uma menina que quase parece estar vestida como uma bonequinha  -- mas que, infelizmente, vive uma vida que não é brincadeira nenhuma -- também numa rua e, identicamente, em Sana’a tal como em Tóqio, ninguém parece prestar-lhe muita atenção, como se nada destoasse da normalidade. Mas, por aqui, no Iémen, não é lugar para a delicada Lulu Hashimoto se vir fazer fotografar .

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No meio deste mundo díspar e perigoso, mil vezes as rêveries que nos trazem alegres melodias, sorrisos, tules, cores de rosas, elegâncias. Alienação, talvez. Mas qualquer coisa à escala humana, não ameaçadora. O vestido parece um vestido de boneca, ela é bonita e poder-se-ia dizer que é bonita como uma boneca mas, convenhamos, é uma mulher que não esconde nem desmerece o seu género humano.

Consegue usar alta costura na sua vida real?


A música é Mademoiselle Melody por Pierre Terrasse, La Griffe. 
A modelo é Solange Smith e veste um vestido de Giambattista Valli.

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Contradições


The Contradiction of Silence -- coreografia de Alexander Ekman



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