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quarta-feira, abril 27, 2016

Dona Guidinha






Aos catorze anos, quando as nossas meninas são feitas de amor e de susto, Guidinha atravessou o impetuoso Curimataú, de margem a margem, só porque uma outra duvidou.

  - Duvida? - disse ela - grelando o olho.

Corou, conteve um ímpeto, e ganhou o meio do rio:

  - Apois lá vai!

Nadava de braça como os homens, e não como as mulheres, que trabalham com as mãos por debaixo d'água, pelo instinto de pejo, e vão assim batendo os pés à tona.


O pai tinha desgosto de que ela não fosse macho.

Casou Margarida, finalmente, aos 22 anos, já morto o velho Venceslau. Naquele sertão havia por esse tempo muita abastança, por modo que um grande pecúlio não era lá nenhum desses engodos. Os mancebos, que frequentavam a casa, frequentavam-na sem dúvida por causa da moça, por via de ser ela muito de liberalidades, muito amiga de agradar, não poupando nem mesmo as carícias que uma donzela senhora de si pode conceder sem prejuízo da sua física inteireza. Aconteceu a uns dois se lhe apegarem de rijo, porém as respectivas famílias, com a imposão que então os pais ainda abocanhavam, os desviaram; um deles, até à força bruta, quase amarrado, foi recambiado para Olinda, onde se ordenou.


Todavia, contando-se este caso ao Rev. Visitador, que nesse tempo era o cura de Russas de Jaguaribe, balançou a cabeça em ar de motejo e de antigo entendedor de mulheres e de namoros:

 -  Feiosa, baixa, entroncada, carrancuda ao menor enfado - disse ele - não admito que homem algum se apaixone pela filha do capitão-mor, salvo se não é aquela que tenho visto no Poço da Moita, onde cheguei a passar mais de uma semana com as febres. Vão ver que ela usou de feitiçaria... Ora se não é isso! Vão ver.

  - O Rev. Visitador ainda acredita em urucubacas?

  - Se creio! O Inimigo do género humano não dorme. E mulheres? Mulheres! mulheres! A nossa mãe Eva que não me deixe mentir.

Em todo o caso, razão tivesse ou não o sacerdote, é certo que o começo do tirano amor é sempre de umas exterioridadezinhas, pontinhas de dotes profundos, que, em faltando, a mulher parece antes um homem, ou antes um animal sem sexo. Margarida era muitíssimo do seu sexo, mas das que são pouco femininas, pouco mulheres, pouco damas, e muito fêmeas. Mas aquilo tinha artes do Capiroto. Transfigurava-se ao vibrar de não sei que diacho de molas.


Esposando ao Major Joaquim Damião de Barros, uns dezasseis anos mais avançado que ela na idade, passou a chamar-se Margarida Reginaldo de Oliveira Barros. Se, recebendo o nome do marido, ela fez tudo o mais que ordena a Santa Madre Igreja, a Deus pertence.

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O texto é um excerto de 'Dona Guidinha do Poço' de Manoel de Oliveira Paiva.
Dona Guidinha do Poço, escrito em 1892, é um dos maiores romances do Naturalismo brasileiro e possui uma história interessante: seus originais foram entregues pelo próprio autor ao amigo Antônio Sales, que entregou uma cópia a Lopes Filho, que a perde, e outra a José Veríssimo, que iniciou a publicação, interrompida com a falência da sua Revista Brasileira; no fim dos anos 40, porém, Lúcia Miguel-Pereira encontra uma cópia com Américo Facó, depois de intensa pesquisa. Ela publicou, finalmente, Dona Guidinha do Poço em 1952.
Escolhi a nossa bela Sara Sampaio para ilustrar o texto, como D. Guidinha.

Leonard Cohen interpreta The Gypsy's Wife


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1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Não conheço. Parece.me bem. Gosto destas dicas...
Travessuras da menina má - llosa-uma delícia. ..pudera eu e nem ia trabalhar. .lia...lia...