Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, abril 27, 2016

De que matéria?



De que matéria é feita a emoção que sinto quando vejo uma tela encarnada, quase só uma mancha, quase só nada? Que parte de mim é activada para que eu sinta o peito a vibrar e eu com vontade de entrar dentro do vermelho, o meu sangue feito pigmentos derramados sobre a tela, eu feita o nada que habita uma tela inerte? Ou não é inerte a matéria que assim me convoca? É mesmo luz o que sai do coração da tela, uma alvura que não tem explicação, talvez leite, talvez nuvem, talvez apenas silêncio? Que laços se soltam desta tela para virem, assim, enlear-me, eu atraída pela injustificação que me prende? Sombras, rolos de fumo, o quê, em baixo, que nasce de dentro da matéria da tela, que nasceu das mãos de Rothko, que nasceu do nada que por vezes habitava a sua mente? 

Mas a tela não está agora aqui, o que está é uma representação sob um vidro, flocos feitos de ínfimos impulsos que atravessaram o espaço, que entraram nas redes invisíveis e infinitas que entretecem o espaço; e, no entanto, vendo o que estou a ver, sem querer, eu penso em mim, no museu, eu em frente da tela imensa e silenciosa, e eu com vontade que a tela seja oração e eu uma sombra passageira que passou por ali levando consigo a emoção de ver estes simples rectângulos cor de sangue e luz.

De que matéria posso eu falar quando falo do que estou a falar? De matéria nula, intocável, toda e só abstração?


E de que matéria é este meu sentimento de devoção, de enlevo, de encantamento, como se só de ouvir esta música eu me tornasse outra, melhor, como se por atravessar as minhas células, a música me transformasse, eu por momentos transcendente, ou não eu mas a matéria que em mim se transformou para recolher a impressão que a música quer deixar gravada na minha curta memória?

Ouço uma música assim e penso que algures dentro de mim há cordas invisíveis que se agitam como borboletas efémeras ou como um mar de papoilas ondulando ao vento. Saberia eu fotografar essas imagens invisíveis que se formam dentro de mim quando ouço uma música assim? 

E as searas coloridas que dançam suavemente num lugar luminoso dentro de mim quando ouço Horowitz a tocar Mozart serão iguais às vossas, Caros Leitores? Ou a vocês a música não desenha searas mas nuvens deslizando no céu ou pássaros brincando na rebentação das ondas? Ou apenas um lugar de recolhimento, uma capela vazia? 


E de que matéria é feita a minha curiosidade atenta quando ouço Sylvie Guillem falar enquanto o seu corpo se move como eu gostava que o meu soubesse mover-se? E que partículas elementares dentro de mim se agitam em uníssono, certamente em uníssono, uma manta de partículas movendo-se em sintonia, enquanto observo as longas pernas de Sylvie, a elegância das composições, a inquietação dos arabescos que desenha com o seu corpo, os seus braços longos como asas nuas?

Ou não há matéria envolvida nesta história? Apenas rastos que as partículas em movimento deixam em mim? Sonhos imateriais, ligações intangíveis?

E de que matéria é o movimento que conduz os meus dedos que deslizam pelo teclado em busca das letras que cheguem até vós como sinais de luz com significado, transportando até junto do vosso olhar a emoção que sinto no momento em que as palavras se formam, já soltas de mim?

Pergunto -- mas felizmente não posso responder, porque me desconheço.

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E, caso estejam para aí virados, queiram descer para irem visitar a Dona Guidinha e, a seguir, a poesia de Eugénio de Andrade.

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3 comentários:

João L. disse...

Cara UJM
queria sugerir-lhe um exercício: olhar para a tela de Rothko e fazer um esforço, um grande esforço, para ficar impávida (não impressionada para além do fica quando vê, por exemplo, uma placa de um semáforo com as mesmas cores); olha as cores e vê as cores, olha apenas para elas. Não sei se me atreva a sugerir-lhe o mesmo com a música de Mozart este é já um exercício para uma pós-graduação na indiferença !).
Eu não sei se sou capaz de fazer isto mas tenho tentado fazer este exercício com diversas coisas belas que me provocam emoções intensas, me deixam extasiado.
Há seguramente pessoas de outras culturas que o fazem naturalmente ou, até, nós próprios quando éramos crianças. Não sei se uma tela de, por exemplo, Jackson Pollock, teria o efeito que hoje tem em mim quando eu tinha seis anos. E tenho familiares e amigos, apreciadores de música e literatura para quem Rothko, ou Pollock ou Mozart ou uma cerejeira em flor, ou ... são mais ou menos indiferentes.
Ainda, se modular a concentração de neurotransmissores e neuromoduladores no cérebro modifica-se a experiências de percepção e as emoções associadas. O que sentiu pode deixar de o sentir em condições de modificações bioquímicas e neurofisiológicas.
Bem, isto era tudo para dizer que o que a UJM sentiu e descreve de um modo tão belo foi gerado e nasceu (no sentido literal) no seu cérebro. Não estava lá por default. Resultou de estímulos. mas feito de que matéria (?) como diz. Isto leva a pensar que há uma base física que suporta as emoções (vamos chamar-le emoção só para nos entendermos mas podemos chamar-lhe outra coisa) que sentiu. Tal como no caso da memória. O que é a memória? Tem um suporte físico? Em laboratório há paradigmas experimentais de memória e durante o processo da memória há modificação estrutural dos neurônios e também do metabolismo.
O modo como vai fluindo o seu texto, enredando-se nas perguntas, é muito bonito (parece até nem querer saber a resposta, não lhe é importante isso). Eu também não tenho respostas nem foi para isso que comecei a escrever este texto. Foi apenas para dizer que me parece que as construções e representações da realidade, bem como o feedback no orgão que as cria (o cérebro) - as emoções e as perguntas - resultam de interacções da matéria organizada em sistemas complexos. Isto é tudo muito superficial face à profundidade do que escreveu, bem sei.
Espero que não haja muito erros por ali acima porque já vai a noite adiantada,
Amanhã parece que vai estar um dia soalheiro. Já estou a sentir um bem estar só de pensar nisso, embora não tenha ainda acontecido. Mas é quase o mesmo que se tivesse, de facto, acontecido :)
Um belo dia para si
João

Um Jeito Manso disse...

João, o seu texto, só por si, activa em mim (a começar pelo meu cérebro?) mil movimentos convergentes. Penso que deveria ler com atenção cada frase, cada explicação e que deveria deixar que o raciocínio se organizasse - que de um lado ficassem as explicações físicas, do outro as químicas, e que, deveria conseguir organizar minimamente as peças do puzzle. Só que perante este tipo de temas parece que não consigo sistematizar as coisas, é como se sentisse que só consigo perceber alguma coisa se não perceber a matéria em capítulos. Ou melhor, como se, para perceber, tivesse que ver de longe, uma coisa como a pintura impressionista, manchas e pouco mais que, de longe, ganham sentido. Ou como se quisesse deixar espaços entre os capítulos para os preencher com qualquer outra coisa que não sei o que é. É como se dos mil movimentos que sinto que convergem, eu sentisse que faltam alguns para que a partitura se possa cumprir integralmente.

Talvez sinta a falta de saber perceber que convergem para as ondulações que acontecem dentro de mim as ondulações do espaço, as mesmas que me trazem emoções vividas a quilómetros de mim, por vezes a anos de distância (livros, pinturas e músicas feitas décadas ou séculos atrás).

Por isso, sim, João, não quero perceber porque sinto que ainda não estou em condições de poder perceber, parece que sinto que, se me contentar com o que sei, me vou abstrair do que não sei, e que é no que não sei que reside a explicação e a beleza destas coisas.

E estou a dizer isto e a pensar que eu nem devia escrever maluquices deste calibre porque são maluquices das sérias - mas, de facto, é o que penso e sinto e não vejo razão para me pôr a fazer de conta que penso outra coisa.

Quanto ao exercício que propõe, irei tentar e penso que me não seja difícil. Penso que me bastará tentar pôr-me na pele de outras pessoas. Quando vejo pessoas tão completamente indiferentes perante coisas que para mim são puro fascínio, olho com os olhos delas e consigo perceber o seu alheamento. A questão é que é tão inexplicável que, se eu quiser explicar, perde-se a magia e a coisa fica mesmo banal.

Por vezes, perante situações absurdas com as quais tenho que conviver, eu costumo fazer um gesto de lado, na testa, e digo (a quem seja de minha confiança) que tenho que baixar a potência da minha exigência, da minha lógica, da minha intolerância à mediocridade, para que a minha cabeça consiga aceitar a realidade. E fazendo o gesto parece que reduzo mesmo a minha impaciência e quase fico zen.

De resto, acho que escuso de dizer que gostei imenso do que escreveu. É o tipo de palavras que ficam a 'trabalhar' sozinhas na minha cabeça, como se a quererem encontrar o caminho certo não sei para onde (como aquelas suas estradas para nowhere).

Um dia de sol para si, João. E obrigada.

P. disse...

Olá UJM!
Acho curioso este seu fascínio por Rothko. Ao que fui sabendo, Rothko ansiava por uma arte capaz de abarcar a amplitude e a profundidade das emoções humanas. O formato em que veio a concentrar-se a partir de 1948, da tela vertical em grande escala, apresentava os tais dois ou três módulos de cor, nos quais o espectador “podia meditar e cuja vibração recíproca sugeria visões subcutâneas e de diálogo interior (confesso que acho isso uma treta).” Ao que parece, as cores vibrantes das telas como a que nos mostra pertencem a um período em que o artista se sentiria muito entusiasmado “com o tal novo campo emocional” que estava a explorar. Todavia, esse tipo de atitude que se impôs acabou por começar a perturbá-lo e na opinião de alguns críticos, a partir dos finais de 50 a sua obra tornou-se “tragicamente sombria”, embora o suicídio só acontecesse algum tempo depois. Interessante foi o facto de ele ter sido pouco complacente com a publicidade comercial, que já se fazia sentir. Já Jackson Pollock, aquela cena dele na barraca, em Long Island (NY), é absolutamente surreal (“lá dentro, o pincel de Pollock sobrevoava um pedaço de tela que cobria o chão, chicoteando e salpicando, enquanto o pintor se deslocava de um lado para o outro, percorrendo a corrida de obstáculos que ele próprio criara”). Existe uma filmagem de Pollock a simular que suspende um pincel seco sobre a sua conhecida obra, “Número 32”, pintada em 1950 – mesmo assim, a mais sóbria das telas da “atordoante série de quatro anos que veio a encarnar os sonhos modernistas de liberdade pura e absoluta.” Pollock teve como se sabe alguns problemas com a bebida e “pretenderia superar os seus mentores, Picasso e também Miró, graças a uma energia interior.” A sua arte, mesmo assim, foi rapidamente reconhecida como a mais interessante da época, porém, uma conquista precária, visto algum tempo depois de ter pintado o tal Nº 32 o desgaste da encenação da sua arte perante uma equipa de filmagem fê-lo voltar ao álcool, levando-o a um declínio pessoal que terminaria no tal acidente de viação uma meia dúzia de anos após. Alguns críticos perguntam, hoje: “seria a arte de Pollock um ritual sagrado, ou uma acção libertadora? Ou então um respingar grosseiro e até machista de materiais industriais a granel? Ou uma compreensão pós-cubista, ou uma fusão de linha e espaço?” Por mim, como já tive ocasião de referir, não sou sensível a este tipo de expressão artística, acho que roça o delírio e constitui até um abuso do conceito de Arte. Nessa altura, outros houve cujos estilos me deixam igualmente perturbado, como Graham Sutherland, Francis Bacon (detesto-o), Jean Dubuffet, Willem Koning, embora aprecie na Escultura, Giacometti, por exemplo. Cara UJM, isto da Arte tem que se lhe diga. A sua definição e conceito terá, sempre, a ver com quem a aprecia – ou não, com quem se identifica, compreende, ou se extasia – ou não, perante determinada obra. Digamos que a Arte hoje em dia já tem também a ver com aquilo que cada um aprecia e sente perante um quadro, ou uma escultura, ou uma composição musical, por exemplo. É um bocado subjectivo talvez. Tem a ver com cada um. Acredito, todavia, que será a História que, um dia, terá a última palavra. Algumas destas obras passarão a notas de roda-pé, enquanto que outras permanecerão. Já não estaremos cá para ver quais. A terminar, este tipo de concepções artísticas faz-me lembrar o tal “quadro” que um grupo de crianças, em Barcelona, “criou” sobre um tela, atirando tintas ao calha e que depois veio a ser exposta e os comentários que obteve do público em geral – que muito o apreciou! E, se ninguém o denunciasse, seria...Arte! Pois claro...
P.Rufino