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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

N' O Instante antes do beijo diz o meu nome





Não quero o primeiro beijo:

basta-me 
O instante antes do beijo.

Quero-me 
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo. 

O lábio ardendo
entre tremor e temor, 
o escurecer da luz 
no desaguar dos corpos: 
o amor 
não tem depois. 

Quero o vulcão
que na terra não toca: 
o beijo antes de ser boca. 


[O Instante Antes do Beijo de Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas']


Diz o meu nome 
pronuncia-o 
como se as sílabas te queimassem 
                                  [os lábios 
sopra-o com a suavidade 
de uma confidência 
para que o escuro apeteça 
para que se desatem os teus cabelos 
para que aconteça 

Porque eu cresço para ti 
sou eu dentro de ti 
que bebe a última gota 
e te conduzo a um lugar 
sem tempo nem contorno 
(...)


(...)
No húmido centro da noite 
diz o meu nome 
como se eu te fosse estranho 
como se fosse intruso 
para que eu mesmo me desconheça 
e me sobressalte 
quando suavemente 
pronunciares o meu nome 


[Excerto de Diz o meu nome de Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho']

_____

A escultura lá em cima é Psyché ranimée par le baiser de l’Amour de Antonio Canova (1757 - 1822)

A primeira fotografia é de Doisneau: Le baiser de l’Hôtel de Ville, 1950

A terceira mostra Alain Delon e Romy Schneider durante a rodagem do filme 'A Piscina', 1968

A dança é Paris Is Kissing pelos bailarinos do Dot Move sobre «Dans Tes Yeux» originalmente interpretada por Anis, cantada por Tiwayo.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira

.....

3 comentários:

P. disse...

"Como se cada beijo
Fora de despedida,
Minha Cloe, beijemo-nos, amando.
Talvez que já nos toque
No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
E que no mesmo feixe
Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida
a)Ricardo Reis (Odes)"

P.Rufino

João L. disse...

Tenho a fotografia do beijo do hotel de Ville de Doisneau na estante em frente à minha secretária, no meu local de trabalho. Li, em tempos (não sei onde), uma história sobre esta fotografia que avançava a tese de que, apesar de parecer ter sido obtida num disparo espontâneo (à la Cartier-Bresson), trata-se, de facto, de uma composição encenada. Não retira muito à arte mas provocou-me um pequeno desencanto.

Anónimo disse...

Ela:
Ah, meu amor,
como desejo que você me beije!
Prefiro o sabor dos seus carinhos
ao dos melhores vinhos;
sim, prefiro desfrutar
o aroma do seu perfume:
você é o meu perfume!
Depressa,
leve-me com você!
Leve-me para casa,
príncipe da minha vida!
Façamos uma festa,
Alegremo-nos.

in Cântico dos Cânticos

GG