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quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Juan, o jovem namorado da velha pintora
- um segredo bem escondido (pelo menos de mim)




Quantas  vezes já eu aqui disse que me atrai a vida livre dos artistas? Tanto, atrai-me tanto. Especialmente de pintores. E quantas vezes já aqui falei de Georgia?
São as suas flores, é ela, o seu rosto, o seu porte, a sua determinação, toda a sua vida.

Quando nova, Georgia rompeu todas as regras: teve um caso com um homem casado, deixou-se fotografar nua, não se importou de posar mostrando o seu corpo livre. O homem que tal paixão despertou foi  Alfred Stieglitz (com quem foi casada entre 1924 e 1946), fotógrafo, promotor de arte moderna, galerista, mais velho que ela 23 anos.

aqui falei deste amor, e já várias vezes aqui a trouxe. Qualquer coisa na independência e na liberdade intrínseca desta mulher tão rija me cativa. Nos últimos anos o seu rosto adquiriu os traços de uma rude camponesa. Era muito bela. Devia ser fascinante -- como são todas as mulheres inteligentes, livres e irreverentes.




O abandono de Georgia à câmara de Alfred, o abandono do seu corpo ao olhar do amado, em algumas o olhar de desafio, o sorriso disfarçado -- e, em todas, a expressão da uma vontade própria que não se deixava sujeitar. Olho-a e imagino-a a dizer:
Esta sou eu. Olha-me. Vê como o meu cabelo se espalha, olha como os meus seios quase cabem nas minhas mãos. Olha-me. Guarda-me nas tuas fotografias. Guarda-me dentro de ti. Mas deixa-me livre.
Alfred quis casar-se com Georgia apesar de Georgia não o querer. Casaram. Foram amigos, cúmplices.

Georgia e Alfred

E depois há a sua arte. Gosto das pinturas de Georgia, gosto mesmo. Há uma sensualidade desmedida, uma exuberância cromática que não acautela limites. Algumas vezes tentei pintar flores como as dela, mas não consegui, não consegui desimpedir-me, tinha muitas fronteiras na minha cabeça e as minhas mãos não conseguiam dar o salto. Nunca mais tentei. Não se deve tentar que as mãos voem mais alto do que a cabeça.


Mas eu não sabia uma coisa: não sabia que em 1973, Juan Hamilton, então um jovem ceramista com 27 anos e com falta de dinheiro, tinha procurado emprego junto de Georgia que tinha 85 anos -- e que isso foi o princípio de uma história em que os intervenientes tinham 58 anos de diferença de idade.


Não sabia que, aos poucos, se tinha desenvolvido entre eles uma grande estima, e mais e mais estima. Juan era o empregado de Georgia, o homem forte que trabalhava com vigor, que a transportava, que carregava as suas coisas, que estava sempre à sua disposição, em quem ela descarregava, se fosse caso disso, a sua impaciência ou ataques de fúria.

"She was no flower. When she was in a bad mood, boy, she was tough!"


Juan foi a sua companhia, o seu amparo, a sua alegria, o seu último amor.

(Ao ler esta história, não pude deixar de me lembrar de outros casos de que aqui já falei como o de Marguerite Duras e Yann Andréas, outro amor improvável).

Os conhecidos que, ao princípio não estranhavam - afinal era normal que uma mulher daquela idade tivesse um jovem empregado para a ajudar em parte das tarefas -, por fim começaram a temer que ele estivesse a aproveitar-se de uma indefesa idosa. Juan tinha-se tornado indispensável nas viagens, nas visitas, em casa, na cama de Georgia.

Ela tranquilizou-o: afinal se um homem velho arranjasse uma mulher nova, haveria algum mal? Então porque haveria ela de coibir-se de ter um jovem amante? Ele que não se ralasse com o falatório.
"Georgia said, 'All the men artists can have young women, but people think it's shocking that I might have a young man in my life,' " he continues. "Of course, she'd gotten over the sensitivity—you wouldn't believe the things that were said about her and Stieglitz. He was 23 years older than her, and still married to his first wife when they began their affair. Imagine such behavior! Photographing her nude, and so forth. I'd get upset about what people said, but she'd just say, 'Oh, for Christ's sake, Juan, what do you care what they think? Just focus on your work.' "
E era possessiva, insegura, ciumenta como uma adolescente.
"Once, when we were in New York, a wealthy friend of Georgia's asked to borrow me to hang pictures in her penthouse," Hamilton says. "I went over and did it, and it wasn't a big deal, but Georgia was so angry when she found out. She said, 'The nerve of her. I know she had other intentions.' I'm not going to speculate about what those intentions were, but the woman had recently separated from her husband, so you can guess. But that's all trash talk, and that's what people like to do—gossip."

Isto diz Juan Hamilton que tem agora 70 anos. Georgia O'Keeffe morreu em 1986, quase com 100 anos. Juan, no fim, casou-se com outra mulher e ela achou bem: 'Good. You'll need somebody when I'm gone.' "

Georgia deixou-lhe as suas duas casas e muito dinheiro. Ele esclarece:
After O'Keeffe died, Hamilton quickly gave over most of what she'd left him to her family's estate, which is now controlled by a board of trustees (he serves as a special consultant). "There was a lot of talk about how much money I got, but I turned down a huge amount just to have my freedom," he says. "I'm not living off what Georgia left me; I've been living off my own work and wits."

Toda esta história pode ser lida no artigo da Harpar's Bazaar: EXCLUSIVE: GEORGIA O'KEEFFE'S YOUNGER MAN

(Georgia O'Keeffe's intimate relationship with Juan Hamilton, 58 years her junior, was an art world scandal. As London's Tate Modern museum prepares to mount a new O'Keeffe retrospective, Hamilton talks about their bond)
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Vídeo com Georgia O'Keeffe na sua casa no New Mexico em 1977, quase com 90 anos



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Lá em cima, Sara Gazarek interpreta Dear Someone


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E, aos que ainda não viram, queiram, por favor, descer até ao post abaixo: A todos quantos parecem ter sido afectados pelo Zika-B (dedicado às viúvas do láparo e ao próprio que, tão afanosamente, procuravam pelo Plano B. Isto, claro, antes de terem visto um novo osso, o da nacionalização do Novo Banco, e já andarem todos num excitex: béu-béu, béu-béu)

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E um bom dia a todos.

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4 comentários:

P. disse...

Você desencanta e surpreende-nos com umas histórias deveras interessantes! É esta variedade de temas nos Post que escreve que enriquece este seu Blogue.
Continue assim!
P.Rufino

Anónimo disse...

Corrijo: você Encanta-nos! Ora bola o engano!
P.Rufino

Anónimo disse...

«desencanta» fez-me todo o sentido, caro R. é o que, frequentemente, sinto neste espaço.


cumprimentos de bom dia.

A.S.

de·sen·can·tar - Conjugar
verbo transitivo
1. Quebrar o encanto de.
2. Descobrir, achar (coisa muito escondida ou abandonada em sítio escuso).
3. [Figurado] Tirar a ilusão a.

"desencantar", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/desencantar [consultado em 26-02-2016].

Anónimo disse...

Percebo. Registo. Obrigado.
Cordialidade,
P.Rufino