Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, dezembro 31, 2015

No último dia de 2015





Como não sei se mais logo ainda consigo cá voltar, aproveito um pequeno intervalo para aqui vir estar um pouco convosco. Gostava de ser capaz de fazer balanços mas não sou ou, pelo menos, não sou capaz de os fazer bem feitos. Já basta ter que os fazer a nível profissional, que os faço à força, tendo que puxar pela cabeça, pensando no que aconteceu de mais relevante. Um sacrifício, isso. Para mim o mais importante é ter chegado aqui, hoje, e ter vontade de viver os dias que se seguem. E, sobretudo, saber que os que mais amo estão bem, felizes.

Contudo, se -- tirando aspectos mais reservados ou que envolvam outras pessoas -- tentar perceber o que mais me marcou, assim sem pensar muito, diria que me marcou um bocado esta constatação da fragilidade e, ao mesmo tempo, da resistência da vida. Pelos menos, por umas duas vezes, temi o pior em relação aos meus pais (e falo nisto agora porque já antes o falei). E, nessas duas vezes, felizmente, a turbulência foi ultrapassada. Mas ninguém é eterno. E tudo é muito relativo, o medo, a coragem, o orgulho, a alegria, a dor. Pode ser sempre em maior escala, pode desaparecer, pode ressurgir.
O meu pai tinha uma vida saudável, era um homem enérgico, com uma vida activa, o mais independente possível e agora está dependente, à mercê do efeito dos medicamentos que ora o deixam prostrado, sonolento, ora nervoso, inquieto, e, de vez em quando, tranquilo, normal. A minha mãe, que, desde então, tem sido o pilar daquela casa, com uma resistência, energia e alegria incríveis, afinal tinha, sem que o suspeitasse, um conjunto de células a desenvolverem-se desordenadamente, temendo nós que viesse por aí o pior, para ela, para o meu pai.  E, quase milagrosamente, ultrapassou tudo sem grande dificuldade e está bem.
Portanto, se a vida é frágil, é também inacreditavelmente forte. Nem sempre isso acontece mas, tantas vezes, me tenho admirado com a forma como o corpo humano parece dar a volta por cima. E a nível emocional a mesma coisa: frágil pode ser, por vezes, a mente mas, logo a seguir, como ela é capaz de se reorganizar, reerguer e seguir em frente... E isto, para mim, este mistério da vida, foi este ano muito marcante para mim e acho que sempre o será enquanto eu viver.

Por esta altura recebo visitas, telefonemas. Contam-me o que aconteceu com este, com aquele. Vão desaparecendo uns, vão nascendo outros. Um tem um filho problemático, problemas graves, outro vai ser avô, outro o filho arranjou emprego, outro o sobrinho foi para a ásia. Por vezes sinto que parece que estou, sossegada, no centro de uma roda que gira em minha volta.

No outro dia recebi um mail que começava assim Minha muito Estimada Amiga. Era um velho amigo, um Senhor, uma das pessoas extraordinárias que tenho conhecido ao longo da minha vida, agora já com uns belos setenta anos, reformado, alto e formoso na sua bela barba branca. Contava-me que tinha arrumado as pantufas, que o remanso não é para ele, e dizia que ia contar-me um segredo (descobrir o véu, dizia ele); um projecto que muito o andava a entusiasmar. Tinha tido uma ideia, a ideia foi ganhando asas, foi propor um projecto baseado nessa ideia ao Instituto Politécnico mais próximo do casarão de família onde agora passa grande parte do tempo, o Instituto gostou da ideia, vai basear nela uma cadeira-projecto no próximo ano lectivo, daí talvez partir para uma instalação piloto. Todo ele fervilhava na escrita. Já trocámos mais mails depois disto pois fiquei surpreendida com a inovação e oportunidade da ideia e com a criatividade e energia daquele homem. E eu fico comovida com a estima que pessoas que tanto admiro sentem por mim. Quando penso em momentos marcantes num ano que finda, ocorrem-me coisas assim.

Ocorrem-me também momentos que me aborreceram, coisas da fraca política nacional, consequência da falta de qualidade de tanta gente que ocupa cargos em que podem influir negativamente na vida das pessoa. Ocorre-me também, com agastura, a manipulação da opinião pública, a cada vez mais medíocre informação, a tendência para encharcarem as televisões de comentadores sem qualidade, sem relevância, sem cultura, que intoxicam a cabeça de quem os ouve.

E ocorre-me, de forma muito presente, o drama das guerras que o ocidente fomentou (e fomenta) e que têm feito germinar o pesadelo do terrorismo e provocado o êxodo brutal das populações atingidas. A infelicidade e a coragem dos que fogem da morte toca-me: ver aquela gente a atravessar o mar, em pequenas embarcações, com crianças, a chegarem com frio, fome, sede ou dando à costa como inúteis despojos, ou os que andam de noite pelas estradas, saltando vedações ou vivendo em campos de refugiados, é uma dor para a qual não conheço antídoto. 

Outra coisa que me preocupa é o estado de apatia e indigência anímica ou cultural ou nem sei o quê a que se chegou nos mais importantes organismos de condução da Europa. Pode acontecer de tudo que aqueles enfatuados burocratas, aquela babilónia de interesses contraditórios que nenhuma liderança conduz, não se mexe. Reuniões, cimeiras, encenações de apertos de mão, de gestão de agendas, de fotografias da praxe, tudo isso existe com fartura - visão estratégica, firmeza, humanismo, isso está quieto, isso perde-se no meio daqueles corredores e salões onde tudo se passa e nada acontece.

Claro que me anima a perspectiva de que um ciclo se está a encerrar e um novo a surgir. A austeridade desbragada que açoitou as populações para que uns quantos pudessem sobreviver incólumes talvez tenha os seus dias contados, especialmente enquanto linha ideológica dominante. Por cá e talvez um pouco pelos países europeus que mais sofrerem na pele as agruras dessa estupidez travestida de moral e de pensamento económico, começa a ensaiar-se uma nova forma de estar e eu espero que vingue e prove ser uma boa alternativa.

Espero também que, como consequência, os países como Portugal possam voltar a ser a casa dos que cá nasceram e que, fruto do desprezo com que foram rejeitados, se viram na contingência de ter que sair. Viver noutro país e experimentar novas culturas é bom e profícuo mas que isso seja uma escolha e não uma fatalidade.

Neste ano que hoje acaba li livros muito bons, ouvi música muito boa, vi exposições, filmes, bailados, fotografias, esculturas e paisagens que me encantaram mas não tenho ideia que tivesse sido diferente dos outros anos. A arte é intemporal e a natureza também. Reinventam-se a cada dia e nós reinventamo-nos com o seu contacto.

Escrevi muito aqui, as palavras escorrem-me de entre os dedos, os textos ficam sempre longos demais. Mas escrevo com prazer e gosto de saber que aí desse lado estão vocês, os que gostam de ler o que escrevo. Mesmo quando me dirigem palavras mais ásperas, gosto na mesma, dá-me vontade de responder, de provocar, divirto-me com isso. Sou talvez excessiva na forma como me expresso, no entusiasmo com que digo. Concordo que há aqui abundância. Se, ao vivo, não sou barulhenta ou espalhafatosa, aqui talvez passe essa ideia tal a profusão de palavras, de textos, de imagens, de tudo. Mas não tenho tempo para me domar enquanto escrevo nem, depois de escrever, para burilar a escrita, fica tal e qual sai. Provavelmente isto seja eu em estado bruto. Apesar disso, tomara que continuem a gostar da minha companhia.

Finalmente, não queria acabar este post sem falar sobre o indizível. Em momentos de mistério, intangíveis e belos na sua inexplicação, reside grande parte da beleza da vida. São acasos, são instantes em que o fôlego se esvai, são emoções intraduzíveis em palavras, breves sopros de felicidade, como se o mundo todo convergisse para trazer até nós a alegria de um instante. Deles não sei dizer mais que isto. Mas sei que há que estar atento e disponível para que nos possamos surpreender e deleitar com o imaterial milagre que, de vez em quando, pousa à nossa frente, pronto para ser tomado nas mãos, guardado no coração.

Se em 2016 eu continuar a ter razão para pensar assim já acharei que continuo a ser abençoada.

Se alguém que aqui me lê pensar o mesmo, já me darei por feliz.

E se houver um pouco mais de paz, se houver um pouco mais de tolerância e generosidade, se houver um pouco mais de humanismo, um pouco mais de sinceridade e de dádiva, acharei que estamos no bom caminho.

E se vocês, meus Caros Leitores, tiverem saúde, sorte, alegria, afecto, motivação para ir em frente e para sair por aí procurando a beleza e o que há de novo, e sentirem que são úteis e que fazem parte da vida de alguém que vos ama, então terão certamente um excelente 2016.

Ao despedir-me de 2015, é isso que, do fundo do coração, vos desejo.



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Acabei de receber por mail, juntamente com os votos de um bom ano novo, uma música assim apresentada:
Sugestão musical para abrir o ano em beleza. Uma música que chegou no Outono de 2015. O kora de Ballaké Sissoko e o violino de Vincent Segal.  

Com todo o gosto, a partilho convosco



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As fotografias são de Alexander Yakovlev.  Lá em cima Bob Marley canta Somewhere over the Rainbow. Aqui acima Ballake Sissoko & Vincent Segal interpretam Niandou.

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Feliz 2016

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A excitação e o divertimento de uma mulher de 88 anos que contacta pela primeira vez com a realidade virtual. E Marcelo Rebelo de Sousa de visita aos bombeiros - ou a relevância de se poder vir a ter em Belém um presidente que almoce sandes mista acompanhada por sumol de ananás.


Uma jovem filmou a avó enquanto ela 'andava numa montanha russa'. A montanha russa não era de verdade mas a senhora reagia como se estivesse de pernas para o ar, pronta a sair disparada na curva seguinte. Sei bem o que se sente mesmo que apenas com um simulador.

Uma vez fomos ao Futuroscope em Poitiers. Os miúdos eram, então, já adolescentes. Tenho ideia que passei parte do dia a gritar, a rir e a armar um inacreditável espalhafato. Os meus filhos, especialmente ele, diziam 'calma, mãe, isto é a fingir' mas qual quê. Lembro-de de ir como se a conduzir um carro de corrida por uma estrada estreita de montanha, desfiladeiros à espera de um voo sem rede, curvas apertadas, descidas acentuadas, árvores à espera que o carro se desfizesse de encontro a elas. A cadeira em que estávamos sentados mexia-se para transmitir a sensação adequada, a de que estávamos tombados, a cair, e o barulho e a imagem nos quais estávamos imersos e aquela coisa das três dimensões, tudo aquilo era real demais. Para quem não viveu a experiência não é fácil de imaginar.

Outra era a montanha russa. Eu que, quando ando numa a sério, me desfaço em medo, achando que não vou escapar dali com vida, gritando desesperadamente e interrogando-me, interiormente, porque fui eu, uma vez mais, meter-me numa coisa daquelas, ali, que era uma das gigantes, nós de cabeça para baixo, uma velocidade tresloucada, em despiste - era uma coisa horrível. Bem me podiam, pois, dizer 'calma, é a fingir' que eu estava incapaz de discernir. Quando aquilo acabava, eu nem sabia onde é que tinha os pés, como é que se andava ou onde era a saída da sala. Nesse dia o meu marido arranjou uma: que estava aflito das costas, que não podia arriscar-se a ficar sem se mexer. Se calhar era verdade ou, pelo menos, meio verdade. Por isso esperava cá fora que nós de lá saíssemos. E saíamos meio esparvoados, rindo, eles logo a relatarem ao pai a barraquinha que eu tinha armado.

Na Disneyland há também destas coisas mas não tão realistas. Mas lembro-me que tinham lá um space shuttle ou coisa que o valha que devia ser coisa fina. Nesse, eu e a minha filha não fomos, tivemos medo, estávamos escaldadas de Poitiers. O meu marido, estrategicamente, tinha reuniões, não pôs lá os pés nesse dia. Lembro-me que o meu filho, que andou várias vezes de seguida, saía de lá com ar alucinado. Dizia que achava que tinha andado de cabeça para baixo pois lhe parecia que as bochechas estavam penduradas e a tremer. Ora ele não é bochechudo... Por isso, imagine-se o que aquilo devia ser.

Mas, por agora, vejam, por favor, o vídeo: é um fartote de riso. Foi divulgado neste dia de natal e o texto que o acompanha diz o seguinte:
My grandmother, Marie, tries Google Cardboard VR for the first time. She is watching a roller coaster simulation. We filmed this on vacation in Hawaii (Laupahoehoe) on Christmas morning. She will be 89 in March


...  ...

E que me desculpem os que gostariam de saber o que achei da entrevista do Marcelo ou de qualquer outra coisa do género, como, por exemplo, se a Judite Sousa ia de babete para não babar o vestido, se esteve o tempo toda derretida, olhando o seu idolatrado Professor com ar embevecido. 


A verdade é que não vi. Cheguei a casa à meia noite ou depois, nem sei. Não vi televisão, não sei de nada do que se passou nesta quarta-feira. Contudo, não sei se, podendo, veria. Nada do que ele possa dizer será novidade. 
Anos a fio a pregar na televisão, para Marcelo dar entrevistas é coisa que ele já tira de letra. Sabe os truques, sabe o que aumenta a audiência, sabe o que puxa ao sentimento. É afável, claro, mas não tem o perfil que eu acho relevante para a Presidência da República. É um entertainer, isso sim. E aí é dos bons -- dentro do género, claro.

A última que agora anda a ser propalada é que ele e o António Costa se dão lindamente -- como se pôr o Marcelo em Belém fosse a maior garantia de estabilidade que poderíamos ter já que, sendo amigos, o Marcelo não tirará o tapete ao Costa. Abóbora. Querem lá ver que a condição para se estar em Belém é gostar pessoalmente do Primeiro-Ministro. 

Nesse caso ter-se-ia que medir qual o que gosta mais do Costa: o Marcelo, o Nóvoa, a pimpolha ou a Marisa? Cá para mim todos gostam. E então? Tira-se à sorte? Ou submetem-se a um teste no polígrafo? Olha, essa era boa. O Marcelo ia logo à vida.

Não há pachorra para tanta manipulação da opinião pública. É permanente, senhores.

Há pouco vi de raspão, no noticiário (talvez no da uma da manhã), o Marcelo a mostrar o farnel que levava num saco de papel e, depois, à mesa dos bombeiros, eles a comerem uma tachada de qualquer coisa e ele, o demagogo perfeito, com a sua sandes mista no prato. E tal o destaque dado ao apontamento de reportagem em torno do farnel que quase também parecia que o que Portugal precisa mesmo é de ter em Belém alguém que, ao almoço, coma uma sandes mista e um sumol de ananás. 


Parece-vos isto normal? Se calhar é e, às tantas, eu estou é com sono ou com mau feitio. 

......

Bom, para o caso de isto ser mesmo eu que estou imprópria para consumo, despeço-me e vou pregar para outra freguesia que é como quem diz dormir o sono dos justos.

Amanhã, durante o dia, já que não trabalho e, até à tarde, estarei home alone, a ver se, no meio do que tenho que fazer, arranjo tempo para vir aqui desejar-vos umas boas entradas, quiçá até a escrever alguma coiseca.
.....

Entretanto, até lá, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Sendo o último dia de 2015 é favor usarem-no bem, ok?

...

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Homens versus Mulheres
- descubra algumas diferenças e veja como juntos ganham outra graça
[E uns pós sobre mais esta agora dos investidores institucionais do BES poderem perder para cima de 2 mil milhões de euros]






Não sou grande frequentadora de blogs mas tenho a impressão que esta coisa das diferenças entre mulheres e homens deve ser, nesse fértil terreno, explorada à exaustão. Por isso, originalidade sobre o tema é missão impossível. Tenho também a ideia de que, se a coisa é escrita por homens, o objectivo é depreciar as mulheres. E vice-versa. Pois aí talvez eu consiga ser vagamente diferente porque não consigo alinhar nessa dicotomia e, sobretudo, por deformação formativa ou profissional, não consigo (nem em registo de conversa parvinha) fazer generalizações abusivas. 

Já muitas vezes aqui o disse: vivo, em grande parte, num mundo de homens -- e dou-me bem. 

Mesmo quando andei no liceu as turmas em que andei tinham para aí 10 raparigas e vinte rapazes. Mas nem é apenas dessa altura eu ter, como melhores amigos, os rapazes: isso acontece desde sempre. A minha grande amizade de infância não foi com outra menina: foi com um rapaz que era um ano mais velho que eu. Não é que eu fosse ou seja de tipo maria-rapaz. Não sou, antes pelo contrário. Sou muito feminina em tudo. Contudo, prefiro conversar com homens. Ainda hoje estive para aí uma hora ao telefone com um amigo. Falamos com uma proximidade enorme e não existe reserva no que dizemos.

O meu marido vai adorar esta!
Quando andei a estudar na faculdade, havia uma infestação de alunas, quase tudo umas marronas maçadoras. Claro que, por isso, tirando talvez aquela alentejana desempoeirada e extrovertida de que no outro dia falei, não conseguia manter uma conversa com aquelas chatas. Eu queria combinar ir ao cinema ou ver uma exposição ou passear e elas só falavam de dúvidas, de trabalhos, daquela matéria que eu via como poética e que elas viam como um calvário que era preciso percorrer. Por isso, nesse período eu enturmava-me sobretudo com um colega de outro curso, com o meu namorado da altura e com o que veio a seguir ou com os estudantes africanos. Havia um grupinho de colegas raparigas com quem ainda havia alguma afinidade mas nada por aí além: trocava instintivamente a companhia delas pela dos rapazes. Quando dei aulas, as professoras também, em geral, eram conflituosas ou desinteressantes. Uma ou outra mais divertida (e lá encontrei de novo essa tal outra colega) mas, uma vez mais, era com um colega que eu mais me enturmava, um bem apessoado sindicalista. 

Segundo um estudo da
Universidade de Wayne State é isto
mesmo que acontece: ao fim de pouco tempo
de separação os
homens sentem-se tristes e as mulheres libertas

A seguir, quando comecei a trabalhar em ambiente empresarial, quase tudo homens. Íamos num transporte dedicado, uma carrinha, e era eu e uns vinte homens. No local de trabalho, quase só homens, no refeitório idem. Nas reuniões,  eu a única mulher. E sempre na maior. Nunca tive que me masculinizar nem eles nunca me trataram com menos respeito.

Até me faz lembrar os meus filhos:
ele vai de vez em quando a um sítio barato,
dá uma rapada quase total:
ela faz um filme, gasta uma nota,
e vem igual

Uma das coisas maçadoras do convívio social com os meus colegas é que, quando levam as mulheres, eu levo o meu marido. E ele, naturalmente, enturma-se com os meus colegas e falam de política, de geo-estratégia, de história ou, na pior das hipóteses, de futebol. E eu, por uma espécie de sentimento de dever, fico no grupo das mulheres. E elas, regra geral, falam de empregadas, de assuntos domésticos, e, como parte são professoras, falam da falta de educação dos miúdos e da falta de educação dos pais dos miúdos. Tem graça mas, de forma geral, a conversa gira muito em volta disso. Salva-me uma que é médica (em S.José!) e que é maliciosa até dizer chega, quase fazendo corar o marido que, sendo um malandreco, ao pé dela parece um menino do coro. E vale-me também uma outra, pessoa conhecida, misto de cientista, de empreendedora e de crazy girl, que dá conta da cabeça do marido (e da cabeça do meu marido também, que a acha doida varrida). Mas, se essas não estão, dou por mim a fazer um esforço para não me raspar para o pé deles na primeira oportunidade. No entanto, quando me vejo na conversa, no meio de um bando de homens, penso que as mulheres deles podem achar isso estranho. 

Outra que confirmo:
apesar de ter um cabelo farto e forte,
vejo sempre se há algum shampoo milagroso
(nem sei para fazer que milagre);
o meu marido usa o gel de banho.

Enfim.

Portanto, resumindo: conheço razoavelmente quer a mentalidade quer o comportamento dos homens. E acho-lhes graça. E acho que a maneira de ser masculina e feminina se complementam, que os contrastes dão, por vezes, à vida sal e pimenta e, por outras, açúcar, mel e suaves licores. Ou luz e exaltação, por vezes, ou sombra e recato, por outras.

Quando às vezes penso que, para descansar o corpo e o espírito, não me importava nada de viver durante algum tempo num convento, ocorre-me logo que ou era em silêncio (coisa que não sei se suportaria durante muito tempo) ou, então, não descansaria enquanto não me visse livre de tanta mulher. Em contrapartida, não me importava nada de viver durante uns tempos num convento masculino. Se tivessem lá um coro gregoriano, então, havia de ser como viver às portas do céu. Não sei é se admitem mulheres-turistas num convento só de padres. Conventos mistos acho que ainda não há. (Ora aí está um belo nicho de mercado).

Adiante (que quero ver se chego ao fim do post sem pisar o risco).

Vem isto a propósito de, no outro dia, por mail, um Leitor , a quem agradeço, me ter enviado dois desenhos que ilustram o comportamento típico masculino ao comprar sapatos, que é racional e minimalista, ao passo que o das mulheres é caótico, quase delirante.


O meu marido é deste género:
o objectivo parece ser comprar
sapatos sempre iguais e só compra uns quando os anteriores estão velhos

Isto parece a conversa entre mim e o meu marido quando compro sapatos:

se deitasses fora os que não precisas, talvez tivesses onde arrumar esses;
ou:
não tens uns quase iguais a esses?
ou:
se em vez de comprares tanta porcaria, comprasses sapatos de jeito, bastava-te um par.

(Tenho que fazer um grande esforço de abstração para não ir na conversa dele)


Entretanto, vi uma coisa do género e fartei-me de rir: refiro-me aos desenhos com que fui enfeitando o texto provêm do Bright Side. Tudo verdade o que ali se descreve. Mas sou incapaz de, colocando os comportamentos lado a lado, dizer que um é melhor que o outro: são diferentes, e é na diferença que reside a graça. Eu, pelo menos, assim o acho.
...   ...

CASOS PRÁTICOS

1.

Um homem que sabe amar uma mulher

Até que tu vieste provisoriamente 
encher da tua ausência um coração 
que só a fome alimenta 
Até que tu poisaste tão serenamente 
como a tardia folha que tem 
insaciável vocação de chão


.....

2.

Um homem e uma mulher aprendendo-se e desaprendendo-se -- num telhado de zinco quente


 .....

3.

Um homem e uma mulher aprendendo-se num espaço e num tempo só deles

...   ...
  • Lá em cima Anna Netrebko e Rolando Villazon são o par que se diverte, interpretando A Traviata de Verdi. Um prazer a dois, um prazer total.
  • Eunice Muñoz e Pedro Lamares dizem Ruy Belo. Mais um prazer a dois, desta vez temperado com palavras.
  • Elizabeth Taylor e Paul Newman vivem os altos e baixos de uma paixão encalorada em Cat on a Hot Tin Roof. Um tempestuoso prazer a dois.
  • Por último os bailarinos do English National Ballet, Erina Takahashi e James Forbat, numa coreografia de James Streeter, dançam um delicioso mano a mano: Bohemian Rhapsody dos Queen. Um prazer a dois, um prazer em que os corpos se entregam um ao outro outro, sem peso, sem sombras.
....

Esta nova tranche de resgate do Novo Banco, agora à custa dos credores obrigacionistas institucionais, mereceria aqui uma referência. É assunto que, apesar de ser, porventura, uma opção mais equilibrada face à alternativa de ir fustigar, de novo, os contribuintes, também não é isenta de dor para quem perde o dinheiro, nomeadamente para as empresas que tinham investido em obrigações do tipo das que agora, quais sardinhas de volta ao prato, regressam ao BES para se transformarem em nada.

Claro que, no meio da desgraça, há sempre uns quantos que, mal ouvem isto, esfregam logo as manápulas de contentamento: os grandes escritórios de advogados. A esta hora já deve reinar a efervescência. Processamos os gajos!
Contudo, hoje vinha com esta encasquetada e preferi converseta simples, música, dança, cinema e poesia a pôr-me com uma prosa enfadonha metendo números, bail-ins, regulações que são umas ceguinhas do caraças, gente que mente com quantos dentes tem na boca e etc. Talvez amanhã se estiver para aí virada.

Só de me lembrar que caíu o Carmo e a Trindade quando António Costa falou numas quantas surpresas que Passos Coelho e Maria Luís andavam a esconder: que não senhor, que com eles era tudo transparência. Está bem, abelha. Só trapalhices, lixo debaixo do tapete. 

O que eu, no meio da desgraça pegada em que estava parte do sistema financeiro português, só espero é que -- com este incompreensível mega-desastre do Banif e com, agora, mais esta bola a sair do saco, a capitalização necessária do Novo Banco -- se limpe de vez tudo o que há para limpar. É que já não há pachorra. Cambada. Espatifaram dinheiro como manteiga em focinho de cão. É que se há mais alguma bronca para rebentar que António Costa trate já de apagar o fogo, a ver se, depois, se deixa a economia funcionar como deve ser, sem ter que andar a alimentar o sorvedouro que são estes bancos privados tão maravilhosamente geridos. Caraças.
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Para os que ontem não repararam, sempre publiquei à hora de almoço, um post com dois stripteases para que as Leitoras possam avaliar qual se adapta melhor a si e para que os Leitores possam escolher qual o tipo de strippers que mais apreciam.
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Bem, por agora por aqui me fico.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira. 

terça-feira, dezembro 29, 2015

Dois tipos de striptease: é favor escolher


Tal como referi no post abaixo (no qual falei na insuportável Teresa Leal ao Coelho, no suposto fim da impunidade piropal e no bye bye do ex-irrevogável-Portas), agora vou mostrar duas mulheres num número de striptease. Como é sabido, o striptease é a forma decente de uma mulher se despir quando tem espetadores (ou, neste caso, por prudência, deveria manter o c, que, apesar de mudo, talvez imponha algum respeito?).

Adiante.

Ora, bem. Assim sendo, e dado que o Um Jeito Manso é, não apenas um blog de família mas, também, um blog que preza as boas maneiras, vou aqui partilhar convosco dois vídeos instrutivos. 

Assim, consoante o seu tipo corporal e os seus dotes vocais, as minhas Leitoras poderão avaliar qual o striptease que conseguirão fazer com maior competência. Despir, sim, claro; tirar a roupinha, com certeza -- mas não de qualquer maneira. 

E aos meus Leitores (homens) digo: também deverão despir-se com arte e boas maneiras mas, a menos que sejam do género da rapariga dinamarquesa, não deverão reproduzir os números que aqui irão ver. Poderão fazê-lo mais na base daquele GNR que foi apanhado a fazer strip. Não encontro o vídeo com o dito artista mas é capaz de ser qualquer coisa como isto.

Bem. Introdução feita, vamos lá, então, a isto.

1º caso de estudo


Em primeiro lugar temos uma moçoila com corpinho bem feito.
(Quando eu fizer uma dieta valente, a ver se não volto a ser assim. É só passarem as festas que a minha boquinha vai passar mais tempo fechada do que a manducar, ai não que não. Dieta rápida só mesmo com fomeca.)
Esta que aqui se mostra é capaz de saber tocar piano, ou pelo menos, parece ter vontade de aprender. Mas não canta. Eu, pelo menos, não a ouço. Só dança. E parece que a especialidade é dançar deitada. Não é difícil fazer isto e não arranja problemas a quem a vê. É brincalhona, mas as brincadeirinhas parecem inocentes. Portanto, esta modalidade é para quem não sabe fazer melhor e para espetadores pouco exigentes.
Mas isto, claro, sou eu a dizer. Na volta, sem dar por isso, estou mas é a ser invejosa, a padecer daquilo a que se chama invejinha branca (não sou santa - pode parecer que sou, mas não sou, ai Deus, e u é.

Chama-se, ela, Abbey Clancy e aqui  é filmada por Sam Faulkner para a revista Lover.



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2º caso de estudo


Em segundo lugar tenho uma outra, um género bem diferente. Esta não tem aquele ar tenrinho da Abbey. Tem generosa carnadura e elevados dotes canoros. Saem-lhe as carnes por tudo o que é decote e espartilho -- e a voz vem atrás (atrás e à frente que o vozeirão se projecta para bem longe).

Como é lógico, não se arma em menininha preguiçosa, não se espreguiça dengosamente: não, esta vai à luta e canta que dá gosto. É fogosa, toda ela é Carmen, toda ela transpira paixão. Uma mulher assim é para quem pode: deve inspirar respeito pelo que não será qualquer homem que conseguirá tê-la por perto.

Chama-se Anna Caterina Antonacci  e no vídeo abaixo interpreta Verdi: Grave a core innamorato... - "Un giorno di Regno"

O striptease não é total mas acho que a sua não-nudez será perdoada.


Resta-vos escolher. 
Às minhas Leitoras  digo que se apliquem nos treinos. 
E aos meus Leitores homens digo: faites vos jeux - ou seja, que género de mulher preferem?
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E, agora, se descerem, poderão ver gente mais vestida mas, cá para mim, piores companhias do que estas duas mulheres que aqui estiveram a partilhar connosco os seus generosos dotes.

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Alô, alô Teresa Leal Coelho! Cortar no pagamento de Horas Extraordinárias nos hospitais é, directamente, sinal de boa gestão...? Hello... Dahh...
E o fim dos piropos pro bono: tempos de sensaboria em perspectiva.
E o irrevogável (?) adeus do vice-Paulo Portas.


Jantar tardiamente tem vários problemas. Claro que poderia evitar um deles mas é esta coisa da curiosidade que matou o gato.
Não sei se é o gato ou o rato. Ao escrever isto, perguntei ao meu marido como é que se diz. Diz que nunca ouviu, que devo ter acabado de inventar. Mas acho que existe mesmo esta expressão. E se não é gato ou rato, muda-se a expressão para encaixar um coelho porque, desgraçadamente, parece que, sempre que há porcaria da grossa, há, por trás, mãozinha do coelho.
Adiante. Quero saber se há novidades, espreito a televisão e depois sai-me sempre a fava. O meu marido não quer ligar a televisão, diz que é uma paz poder jantar sem aquela gente a atentar-nos o juízo, no fundo acha o mesmo que eu, que, por cada um que diz coisa que valha, há meia dúzia de bimbos a dizer alarvidades. Mas eu persisto, nem sei bem porquê, é quase como se quisesse ver até onde vai a estupidez humana.

Bem.

Ligámos a televisão e aparece a Leal ao Coelho a debater com o Bernardino do PCP. Vêm à baila as mortes que vão aparecendo como consequência de não haver pessoal hospitalar para prestar a assistência necessária. Agora foi o senhor que, no Algarve, com um AVC, foi mandado, horas depois, para Coimbra: não resistiu. Nos AVCs é essencial uma assistência imediata e o que as filhas descrevem é de anedota - só que não dá para rir.


Pois bem: esperta como só ela, a dita menina, querendo desculpabilizar o seu bem-amado chefe e o Paulo Macedo, sai-se com isto: que é preciso contextualizar e mais não sei quê, que os hospitais estavam descapitalizados e tal e coisa e que os cortes foram só nas despesas farmacêuticas e nas horas extraordinárias.

Claro que nada do que esta gente diz é para ser levado à letra pois, com uma assombrosa assertividade, dizem a primeira baboseira que lhes ocorre. Não faço ideia de onde é que cortaram ou deixaram de cortar e se foi com conta, peso e medida ou à bruta. O que sei são os resultados que estão à vista: uma penúria a todos os títulos que, em alguns casos, impede o Serviço Nacional de Saúde de ser o que deveria ser e o êxodo do pessoal especializado para os hospitais privados. Mas uma coisa merece reparo: se ela diz, com ar de chica-esperta, que cortaram nas horas extraordinárias então é porque acha que pagar horas extraordinárias é coisa supérflua, é cortar nas gorduras más, é como não deixar as enfermeiras usarem chinelos Louboutin. Não há paciência.

Eu explico à senhora-dona-deputada que parece que é vice presidente do PSD: quando alguém trabalha para além do seu horário normal, está a fazer trabalho suplementar. Ora se é certo que receber o pagamento do trabalho extraordinário é ter um complemento para o ordenado normal, a verdade é que, sem esse incentivo, ninguém no seu pleno juízo aceita trabalhar horas a mais, sistematicamente e por tuta e meia.

O tempo que as pessoas têm sem ser de trabalho não é só tempo de descanso: é o tempo para ter a sua vida normal. E, dizendo isto desta maneira, tenho que me corrigir pois não estou a ser correcta - o direito ao descanso não é coisa para piegas: o descanso é uma necessidade vital. Mas, passemos por cima desse pormenor e vamos, até, admitir que a senhora-dona acha que gentinha dessa não precisa de ter descanso ou, sequer, vida pessoal. Mesmo assim eu digo-lhe: muita gente, quem tem vida própria, usa essas horas para ir buscar e levar os filhos à escola ou para assistir aos pais, para fazer as compras para a casa, para tratar da casa, para tratar da família. Muitas vezes, se o trabalho extraordinário é recorrente, os trabalhadores têm que contratar empregadas domésticas que, de outra forma, não precisariam. Ou seja, de uma forma ou de outra, por não terem disponibilidade, as pessoas acabam por incorrer em mais despesas.

Por isso, se não são justamente compensados, trabalham o horário normal e chega. E pode acontecer que isto nem seja uma opção individual das pessoas (ah, hoje não me apetece trabalhar mais porque o que recebo não me compensa...!): pode acontecer que os gestores hospitalares, por não terem funcionários suficientes e por não lhes poderem pagar as horas extraordinárias, tenham, simplesmente, suprimido serviços: daí não haver médicos e enfermeiros depois das 20 da noite, não haver equipas de cirurgia ao fim de semana, etc.

Ora gerir assim é fácil: basta cortar a eito -- e que se lixe quem sofrer as consequências.
[Teve um AVC depois das 8 da noite? Azarinho
Rebentou-lhe um aneurisna ao fim de semana? Paciência, não tivesse rebentado.]
Eu disse que é fácil -- mas atenção: é fácil para quem não tem consciência que lhe pese, é fácil para quem não sabe fazer melhor, é fácil para quem não tem jeito para gerir a coisa pública.

Por isso, senhora-dona Leal ao Coelho veja se percebe o que é a vida real antes de se pronunciar. Ou veja se atina. É que já chega de tanta sandice dita com tom doutoral, ouviu?

Melhor ainda. Senhores da SIC: a que propósito é que ali têm aquela criatura que, para defender o dono, diz as barbaridades que lhe vierem à cabeça? 

Ou querem que a gente, mal a vê, corra a mudar de canal? Acham que o canal é sustentável com artistas destes?
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Nota de rodapé a propósito dos piropos



Com esta má notícia da criminalização dos piropos, será que já não posso tratar o láparo por coelho? Ou que já não posso tratar o Mendes por golden boy? E, se por aí nos aparecer outra vez o Lombinha dos Briefings, trato-o como? Por Lombinha mesmo? Não pode ser por ex-Secretário de Estado Lomba? Ou se um dia me aparece pela frente essa fera que dá pelo nome de Bruninho ou por Maçães-dos-Alemães, trato-o como? Assim mesmo? Já não posso piropeá-lo e tratá-lo por ex-Secretário de Estado? 


Não acredito. Não pode ser. Alguém que me revogue já, se faz favor, esse decreto. Que maçada.

E o vice-irrevogável, agora que parece que quer ir gozar do bem bom, quiçá tirar um curso de engenharia naval, deve ser tratado como? Por Portas dos Fundos? Querem lá ver que já não se pode tratar simplesmente por Paulinho das Feiras, ex-líder do ex-CDS?


Ah, outra coisa: devo mandar prender o meu amigo brincalhão que gosta de me chamar avozinha e dizer que é o lobo mau?

Que coisa, esta.

Este 2015 não me traz boas notícias, senhores?  


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A saída de Paulo Portas, segundo ele uma decisão de vida - o início da saída de cena de políticos que não deixarão saudades.


Como acima referi, Paulo Portas anunciou que não vai recandidatar-se à liderança do CDS. É o bye bye que se esperava. Todo prosa, desejou felicidades, que não tenham medo e mais não sei o quê. Mas a verdade é que, aqui chegado, sem votos avaliados e sem relevância, ultrapassado pelos acontecimentos, ninguém o quer, a sua histriónica nulidade é um peso que já ninguém quer carregar.


Paulo Portas de saída da vida política,
Cavaco idem.
Falta Passos Coelho. 
Expectável. No outro dia, um ex-jornalista que, em tempos, conheceu bem os bas-fonds da vida política e que acompanhou de perto a cobertura mediática de um dos casos mais falados da justiça portuguesa, dizia que, agora que os PàFs foram à vida, o tempo de impunidade de Paulo Portas irá acabar, que sempre assim é. Perguntei o que queria ele dizer: referiu uns quantos rabos de palha. Nada de novo. Dizia ele: não vão descansar enquanto ele não sair da frente do partido e, depois, muito dificilmente não lhe farão a cama. Questionei-o de novo. Referiu que que é dos livros, que há muita gente que teve que engolir o que ele quis porque ele estava do lado do poder. Não tendo poder nenhum, haverá muita gente que o quererá fazer pagar olho por olho, dente por dente. Não sei. Não sei de nada desse sub-mundo em que política e comunicação social frequentam o mesmo boudoir.

Por isso, vamos ver se os próximos tempos, com Paulo Portas sem a impunidade parlamentar e apeado das várias geringonças do poder onde, ao longo de anos, medrou, não serão mesmo tempo de apedrejamento público daquele que foi um dos piores políticos deste País.
Se o forem, não contarão com o meu contributo. Acho sempre que julgamentos políticos se fazem nas eleições, julgamentos criminais fazem-se nos tribunais e que julgamentos morais fazem-se no recato da consciência de cada um. Por isso, espero que se saiba fazer essa separação, agora que Paulo Portas vai sair da política pela porta pequena. 
Entretanto, já ouço, na televisão, as comentadeiras de serviço, num frisson, frou-frou, a antever que o futuro dele talvez passe por se juntar à irmandade das santas inhas que, de balcão em balcão, vendem opiniões a copo. Havia de ter graça, tê-lo, papagaio avençado disfarçado de senador, todo poseur, a debitar postas de pescada a propósito de tudo e de nada. A menos que lhe pusessem pela frente a Ana Gomes - aí dificilmente sairia inteiro do estúdio.

Mas não sei, não faço futurologia. Contudo, se pudesse dar-lhe um conselho, dir-lhe-ia que, qual Julia Roberts (só vi o filme, não li o livro), fosse fazer um périplo de tipo 'comer-amar-rezar', até podia levar um camera man atrás para nos brindar, mais tarde, com o making of, ou, então, que fosse simplesmente meditar para a Índia, ou, melhor, que se tornasse missionário e fosse construir escolas para as bandas do Machu Picchu -- coisas assim, nessa base. Longe de nós, quero eu dizer.
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E, a propósito de apedrejamentos na praça pública, que entrem os meus amigos do circo voador.

Stoning - Monty Python's Life of Brian


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As duas últimas imagens que usei na ilustração do texto provêm do saudoso Kaos. As restantes provêm do imenso espaço sideral da net (que é como quem diz).
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Estava a pensar fazer um post sobre as diferenças entre homens e mulheres mas meteu-se isto que acabaram de ler e agora já não tenho fôlego. Talvez amanhã.

Então, pus-me a fazer um post sobre striptease, mostrando dois estilos muito diferentes para que as minhas Leitoras, consoante o seu tipo, se inspirem e se preparem para surpreender alguém no réveillon e para que os meus Leitores, homens, avaliem bem qual o tipo de stripeasers que preferem. Já está quase pronto, o meu little post, mas está a dar-me a travadinha, sono, sono, e, portanto, vou deixá-lo em banho-maria para lhe dar os toques finais amanhã de manhã ou à hora de almoço. Durante o dia sairá à cena. 

Até lá, despeço-me já, desejando-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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segunda-feira, dezembro 28, 2015

Casinhas às cores, delicados mirós, corpos flutuando ao vento, muita beleza em azul


O mar descansa-me. Uma manhã de inverno ameno, andando junto à água, é um privilégio de que, sempre que posso, usufruo. Com mau tempo também gosto mas o passeio não poderia ser tão longo como este que vos vou contar.

Quase ninguém. Uma paz imensa, uma largueza de horizontes, uma frescura branca, a música das ondas e do vento ao de leve, roçando a areia.

As gaivotas adultas deviam andar ao largo. Por aqui, apenas gaivotinhos brincando tranquilamente na água, uns afoitando-se junto à rebentação, outros, talvez outras, vendo-se ao espelho no pano de água que se estende pelo areal. Quando me aproximo, esta jovem levanta ao de leve a cabeça, confere que não vou perturbar e depois continua.




Ao longo da praia vou vendo as casinhas coloridas, quase casinhas de brincar. Alguém as imaginou, escolheu os materiais, as cores. Algumas simulam moradias de veraneio, sóbrias, janelas dando para um varandim onde deve ser bom ver o sol fazer de conta que mergulha num mar em chamas. Ou ver a neblina branca por onde se escondem os barcos, os pássaros, as ausências, os dolentes silêncios.


Deve ser bom estar lá dentro destas casinhas ouvindo o mar. Deve ser ainda melhor em noites de vendaval como o que agora se levantou, que bem o ouço, de rugidos do mar, de gritos de gaivotas. Deve ser bom ler um livro dentro de uma casa destas, ouvindo música, a música dos homens, e, ao fundo, a música do mar, do vento inquietando o mar, das sereias inquietando os pescadores. Deve ser bom.


Como será uma casa destas por dentro? Gostava de ver. Terá confortos? Ou será quase nada, um colchão, uma mesa e cadeiras, um armário? Tanto faz. Quem faz o ambiente são as pessoas, o que faz a magia é o espaço que nos envolve.

Sempre desejei ter uma casa junto do mar. Uma vez andámos à procura de uma casa rente ao mar. Mas as casas que víamos eram casas impreparadas, e um alertava para as humidades, outros para os salitres, outros para a pesada manutenção. E os miúdos não queriam, estavam habituados a estar no centro, à mão de semear para qualquer amigo. A custo desisti. Conformei-me com a cidade mas o apelo do mar é sempre muito forte.


Nos dias de marés vivas deve ser assustador, terror de que uma onda vadia arraste a casa para o mar alto, a despedace sem clemência, destrua memórias, apague os gemidos de amor que se inscrevem nas suas paredes.

Mas elas sobrevivem. Pintadas, arranjadas, as cores alegres de quem está habituado a conviver com os prazeres primários: o prazer do sol sobre a pele, o prazer da água sobre o corpo, o prazer do amor no meio de nada. O prazer de viver.


Vou caminhando. Não tenho pressa, tenho uma vasta extensão de areal à minha frente, tenho um mar muito belo ao meu lado. De vez em quando tenho que correr: uma onda mais forte traz a água até mais longe, quase me molho.

Quando se recolhe, observo os pequenos despojos. E o que vejo são composições graciosas, a aleatoriedade feita arte, o outono longínquo trazido pelas águas até aqui, até junto aos caminhos que os meus passos desenham.


Tal como há tempos, penso em Miró. Sinais, signos, estrelinhas, pontos de luz, conchinhas, pedrinhas, restos de vida que o mar afeiçoou. Não mexo em nada. Limito-me a ver a harmonia das composições: uma pena quase azul, uma pena maior -- e eu penso que, talvez, com ela eu conseguisse escrever, inventar um abecedário invisível, escrever palavras cá minhas que o vento levaria, que o mar guardaria, que as ondas levariam até alguém que as soubesse decifrar -- e uma outra mais escura, e uma folha trazida de longe, bolinhas brancas, um pauzinho. E eu em volta, maravilhada, fotografando, soletrando sóis, árvores, amores intemporais, alegrias, saudades, poemas cheios de luz.


Mais à frente, outra imagem que me deixa fascinada. Fascino-me com coisas assim. Há muita beleza não declarada, invisível. Há muita beleza que se constrói por quem pousa, ao de leve, o olhar. Há beleza que é só nossa, secreta, misteriosa. O tempo acrescenta nuances -- uma sombra que prolonga o movimento, um desenho que se adivinha como se tivesse saído da nossa imaginação, talvez a dolorosa e bela tatuagem no coração de um amante inexistente --, o mar lava o supérfluo, deixa os ramos nus, a pele macia, e tudo é quase branco, quase novo, um ramo que é quase imaterial, talvez o bouquet que alguém, lá longe, quis atirar ao mar para que eu, aqui, o olhasse embevecida. Mas pode ter sido apenas o vento, ou talvez a mão de alguém sem corpo, sem nome, talvez alguém de um outro tempo, de um outro mundo, alguém que sonha os meus sonhos e adivinha as minhas palavras.


E eu deixo para trás o belo ramo que se espraia na areia, e sigo. Sei que, um outro dia, o terei de novo; talvez um dia pegue nele e o guarde comigo, num lugar especial. Talvez nesse dia ele esteja ainda mais requintado na sua essência branca, mais depurado, mais pronto para ser meu.

Mais à frente, uma menina dança, salta, contorce-se: parece uma flor oscilando ao vento. Junto a ela um cão que, certamente habituado à graciosidade da dona, já nem a olha. Brinca à sua volta, inocente e livre como ela. E a menina bailarina brilha como um raio de luz pousando no areal, e as suas pernas curvam-se no ar e toda ela é graça, ausência de gravidade, suave leveza. A vida inteira pela frente e ela ainda sem saber que são loucos os caminhos que se lhe hão-de desenhar ao longo dos tempos (assim ela os saiba perceber), que são imprevisíveis os jardins, os labirintos, os atraentes abismos, as perigosas escarpas de onde se alcança a melhor vista, que é bela a vida, tantas as sombras, tantos os esconderijos, tantos os miradouros, as grutas, os píncaros, o infinito fundo do mar, os bosques acolhedores, o amor dos homens, a ternura dos abraços. E que raras são as palavras capazes de dizer o que vai no mais fundo de nós, e que férteis são os ventos que transportam as gotas do mar e o perfume das flores de carne e paixão, e que amáveis são as mãos que escrevem, que afagam, que amam, e que doces são os olhares que se escondem lá longe, lá longe.


E eu continuo. Na volta, mais calor, o mar mais tranquilo. Nada e ninguém perturba a paz que o ondular suave do mar nos traz.

E, então, mais à frente, um outro corpo oscila. Olho-o. Durante muito tempo assim está este homem, parece um caule elegante balouçando ao vento. E um outro cão. Este descansa, talvez medite, talvez pense na graça das coloridas casinhas ou se admire com a força dos braços do seu jovem dono. Amor fiel e incondicional o de um cão pelo seu dono: o dono demora-se e ele, paciente, aguarda.

Talvez o jovem aspire o perfume que sobe da areia molhada, talvez goste de tocar o céu com a pele nua dos pés, talvez imagine que caminha sobre o azul intangível do imenso espaço.


Caminho para regressar, sem tempo, com vagar. 

Um corpo reluzente em negro sai do mar transportando uma esguia concha branca. Do outro lado, as serras desenham sombras azuis sobre o céu azul, elevando-se sobre as águas também azuis. Olhando bem, vê-se que, naquilo que talvez sejam cidades, os pontinhos brancos são casinhas, talvez casinhas de brincar habitadas por pessoazinhas de brincar, iguais a mim e a si, Leitor, pequenos seres, irrelevantes na nossa pequenez face à imensidão da beleza azul desta natureza generosa, tolerante, abençoada. Podia esta paisagem ter sido imaginada, um sonho, um deslizar do pensamento sobre o vago ondular da espuma do mar. Mas é verdadeira. Aqui, só eu sou inventada.

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Muitos dos que me lêem são de longe. Todos os dias, muito mais de cem pessoas chegam do Brasil e quase outras tantas dos Estados Unidos e outras de vários outros países. Todos os dias, desde há muito tempo. Talvez sejam leitores regulares, talvez já sintam que me conhecem, talvez gostem de estar perto das minhas palavras. Penso que, a esses em especial, tenho o dever se mostrar os lugares que me trazem esta felicidade simples e boa. E, mesmo de entre os que são de Portugal, talvez haja quem não tenha a sorte de sentir o bem-estar feito de passeios dados na areia molhada, num tranquilo dia de maresia branca evolando-se de águas azuis. É dezembro, já foi o natal, e em vez de andar sobre a neve, os meus pés procuram a água do mar, esta água bravia, cheia de vida. É dezembro, o ano está a acabar, e eu sinto-me cheia de sorte por saber que, aí desse lado, está alguém que gosta de estar aqui comigo. 

Sorrio enquanto escrevo e só tenho pena de não saber depositar o meu sorriso nas vossas mãos, no vosso olhar. E de não poder levar-vos o perfume molhado das águas do mar.
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Balada del mar no visto

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As fotografias foram feitas neste domingo de manhã no vasto areal da Caparica, um lugar de sumptuosa e tranquila beleza.

A música, The heart asks pleasure first, da autoria de Michael Nyman, pertence ao filme O piano

Para os que nunca viram este mar -- o poema Balada del mar no visto é de León de Greiff cuja voz se ouve no vídeo.

Mis ojos vagabundos,
mis ojos infecundos...:
no han visto el mar mis ojos,
no he visto el mar!
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E, embora depois de ter escrito isto e de ter escolhido estas fotografias para vos mostrar, não me apeteça, digo-o na mesa: a seguir encontrarão um texto escrito num outro comprimento de onda. Aí falo sobre a entrevista concedida a Judite Sousa pelo incontornável Jorge Jesus e, ainda pior... falo também sobre o golden boy Marques Mendes, um que também já podia ir pregar para o deserto (é que já não se aguenta tanta conversa maltrapilha, com casacos tão apressadamente virados do avesso e sempre com aquele sorrisinho lampeiro de vizinha linguaruda que já cansa).

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Comentadores vão comentar a incomentável entrevista de Jorge Jesus no Jornal das 8 na TVI com uma Judite Sousa vestida de pomba gira. Pior que o Jesus talvez só mesmo o vira-casacas do Marques Mendes. Que agonia!


Depois do bocado que vi, sinceramente não sei o que há para comentar 
-- O vestidinho branco da Judite Sousa? A maneira esdrúxula como se apresenta de pé, sem saber bem onde pôr as pernas, as mãos e as incomentáveis toilettes que lhe arranjam?
-- O hábito insuportável que aquele enfastiado Jorge Jesus tem de tratar por tu os que estão à sua frente quando, afinal, parece que se está a referir a si próprio?
-- O dinheiro indecente que ele, tal como numa escala superior, o seu amigo 'José', ganham?
Pois não sei. Do pouco que vi, só isso chamou a minha atenção. E, mesmo assim, uma atenção mínima, incapaz de dizer uma palavra mais sobre o tema.

E cheguei a ele, foragida do golden boy Marques Mendes na SIC que agora critica o anterior governo como se, antes, não tivesse sido seu acérrimo defensor. 


Paulo Macedo, o ex-Ministro da Saúde
que os comentadores levaram ao colo
(muito competente! - incensavam os papagaios)

Se quisermos ter a personificação a la minute de um vira-casacas podemos olhar para ele. Descarado, ar ladino, sempre lampeiro, não há incómodo que o moleste. Agora todos têm que se justificar: o Passos que parece ter estado a empurrar o medonho buraco do Banif para depois das eleições, a ministra Maria Luís, incompetente mas incompetente de uma incompetência nunca vista, oito vezes chumbada por Bruxelas, o Carlos Costa que só fez porcaria desde que está no BdP, o ministro Paulo Macedo que cortou mais que devia e que não soube organizar a coordenação entre hospitais e serviços. 


Tudo varrido pelo catraio Mendes. Língua de palmo, a dele


A vizinha comentadeira não quer cá saber de misérias: apoiou essa gente? Ah, sim, talvez, mas isso foi antes, agora as circunstâncias são outras. 

Se nunca antes teve vergonha e medrou no insano panorama político português, porque haveria agora de mudar de feitio? Nada. Está tão bem assim: moldável que dá gosto, sempre pronto para uma mãozinha. 
Hoje, como quem não quer a coisa, gabou a PT, que debaixo da Altice, está a modernizar a rede e mais não sei o quê - como se ele percebesse alguma coisa disso. Devem ter-lhe soprado que dava jeito que, en passant, deixasse cair essa. E deixou. Isso para ele é canja de galinha. Diz o que for preciso.

E vir'ó milho.

E agora aqui está, na TVI 24, um painel de comentadeiros a opinar sobre o Jesus. E só não peço para mudar para outro canal porque ouvi que na TVI está a dar a final ou a semi-final da Quinta das Celebridades, coisa fina. Só tretas. Talvez na Dois esteja a dar alguma coisa que se aproveite.


De qualquer forma, acho que não tarda aqui o camarada vai ter um assomo de fúria, porque acho que ele pensa que o homem é bom treinador, mas ainda não conseguiu engoli-lo como treinador. Volta e meia acha que ouvi-lo é tratamento agressivo demais para a sua boa vontade. Ouço-o sempre a falar com desagrado dele. Dele e do Bruno de Carvalho. Também não pode com esse.  Acho que ele pensa que o Sporting, com estes dois, perdeu um bocado daquela velha mística na qual ele se revê.

Enfim: temas que não me interessam.

E, entretanto, boas notícias: já mudou de canal. Eu não disse? Foi rápido: há coisas que ele não aguenta mesmo.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Estamos na última semana do ano. Tomara que a próxima seja a primeira de muitas, muitas, muitas, mil vezes melhores do que as deste 2015 que tão desengraçado foi.

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domingo, dezembro 27, 2015

As habilidades da minha mãe, uma jovem prendada e bem disposta com 82 anos


Tarde com sabor a natal na casa dos bisavós. Como contei, as visitas e as comemorações começaram a seguir ao almoço da véspera, com visita a uma das bisas, depois houve o jantar, depois o dia, e prolongaram-se até a este sábado à tarde, com visita aos outros bisavós. 

Depois de passadas várias tormentas e apesar de já estamos preparados para que, a todo  minuto, as coisas se podem alterar (porque, temo-lo aprendido a duras custas, o que é uma coisa pode passar ao estado oposto no instante seguinte), por estes últimos dias, felizmente, parece reinar a acalmia. O meu pai hoje estava muito tranquilo, com apetite, e conversou, queria saber se já tínhamos lanchado, e falou-me que recomeçou a fisioterapia e que lhe fez bem, que a fisioterapeuta lhe disse que pode ser que consiga, de novo, voltar a andar (a minha mãe, quanto a isto, encolhe ao de leve os ombros, já tem dúvidas), e, no fim da conversa, rematou que, 'para aqui estou, não passa disto - estou a viver da reforma'. A minha mãe riu-se, diz que se ele soubesse que o dinheiro da reforma não lhe chegava para as despesas, lhe custaria ainda mais: mas, felizmente, chega e ele, pelo menos, quanto a isso está descansado. (Sei bem o desgosto de quem sabe que tem despesas que não consegue suportar.)

No meio de todos os sobressaltos, a minha mãe mantém-se activa, sempre bem disposta, com uma pedalada fantástica e com um gosto actual que faz as maravilhas de todos.

Hoje tinha um poncho para a bisneta que ela adorou: vestiu e já não quis tirar -- todo giro e com uns pompons com as cores das rosetinhas floridas da orla. É a sua última obra; mas já está a planear camisolinhas para os netos e um poncho para a neta. 


Dois dos outros bisnetos estavam com casacos de tricot também feitos por ela. Quentinhos, confortáveis e sempre como novos.




Na fotografia acima, o mais crescidinho, está com um livro que tinha acabado de receber. Digo livro mas, na verdade, nem sei se é um livro ou um jogo.

No outro dia, Leitor, por mail, perguntava se, por estas bandas também tínhamos atirado a toalha ao chão. Claro. Nada a fazer. A coisa é de tal ordem que eu já só recebo instruções por escrito e não é por mais nada, é apenas porque não consigo fixar, é toda uma nova realidade, um mundo estratosférico que desconheço. Há uma coisa que é o Minecraft e o que se pretendia era o Red Stone e que, como digo acima, eu ainda não percebi de que se trata, e era o lego Ninjago não sei quantos, com um misto de nave espacial e de bicho do além, o jogo para a PS3 que era exactamente o não sei quantos e nenhum outro e mais uns bonecos para os ditos jogos (e já nem consigo dizer o nome, já se me varreu. Seria Highlanders?) e os bonecos Hulk e não me lembro do nome do outro, embora estes sejam mais identificáveis. Felizmente, para ela a coisa foi mais normal, um pianinho e, para o mais pequeno, tal como para o seguinte (aquele a quem eu chamava ex-bebé mas que está tão alto que já não chamo tal coisa) foram legos mais normais, da série City, com helicópteros, barcos salva-vidas, crocodilos e coisas reconhecíveis. E galochas e chapéus de chuva. Ou seja, para o mais crescido a realidade já é a tender para a realidade paralela, o irmão para lá caminha enquanto os outros ainda pisam solo familiar. Mas com certeza, não tarda, estarão também a querer coisas estranhas que pertencem a um mundo que eu não sei a que galáxia pertence. 

Depois dos presentes, o lanchinho, já todos desertos de fome, como se não comessem há anos.

Na minha mãe, apesar de super avisada para não se pôr com trabalheiras, a vontade de pôr uma boa mesa, com acepipes a gosto de cada um dos convivas é mais forte do que todas as recomendações

Não tirei uma fotografia à mesa que estava um espectáculo, nem, em particular, ao bolo de chocolate e ao clafoutis de maçã (que adoro!) mas, num ápice, antes que desaparecessem, ainda consegui fotografar um dos pratos das tostas que estavam deliciosas. A minha mãe descobre sempre coisas boas para fazer, que nos surpreendem e deliciam. Estas estavam barradas com queijo-creme e, por cima rolinhos feitos com uma fatia de queijo flamengo com um espargo verde lá dentro e um meio tomatinho cherry. Que agradável e vistoso, com o adequado toque natalício.


Ainda mais deliciosos os crepes -- mas a fotografia ficou desfocada, nem a devia colocar aqui. Fez crepes e recheou-os com ricotta, espinafres salteados e salmão fumado. A mesma mistura encarnada e verde e tão, mas tão, bom, macio, suculento.


Viemos de lá já anoitecia, distribuídos por carros, apertadinhos, e, naquele em que vim, viemos na maior alegria, ouvindo os Tais Quais (presente de natal), com acompanhamento por parte dos viajantes, tudo cantando. No dia de natal, uma outra avó tinha brindado os convivas com a sua bela voz, entoando o cante alentejano, e uma das canções que cantou foi justamente o Limoeiro que também figura neste CD.

O meu marido diz que, no carro em que ele veio, foi a mesma coisa: toda a gente cantava ao som de um cd que tocava alto e bom som.

Hoje tinha um comentário dizendo que este é o blog da abundância. Talvez seja, sim. Quando me dá a veneta, disparo abundantemente, se me dá para o sentimento, a emoção é abundante e, quando relato estes momentos familiares também conto a abundância de cantorias, alegrias, comes e bebes, e animada convivialidade.

Tendo para a imoderação, confesso. Por ser extrovertida, não me retraio na manifestação de pensamentos e sentimentos. Felizmente, tendo a relativizar o que de menos bom me acontece e a vibrar com o que me agrada. Como, às vezes, aqui conto, não é que não tenha problemas como toda a gente os tem, e, como eu, têm problemas as pessoas do meu núcleo familiar mais próximo. Mas temos isto em comum, todos: chatices para trás das costas e vamos mas é curtir a vida no que ela tem de bom. E tem tanta coisa boa. Termo-nos uns aos outros é uma dessas coisas boas - talvez a melhor de todas.
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Podia agora ter aqui uma das músicas que veio animando a viagem mas, com vossa licença, faço uma inflexão.


Amira Willighagen interpreta O Holy Night (St. Jacobs Church, The Hague) - cantando para uma senhora com 105 anos no Concerto de Natal  2015, num programa de televisão dinamarquês

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A ver se consigo fazer, nestes dias que antecedem o fim do ano, um balanço do que se passou (livros, filmes, passeios, etc) ou um caderno de intenções para 2016. Tenho muitas dúvidas que o consiga, não sou dada a isso, esqueço-me do que se passou e gosto de deixar ao improviso o que vem. Mas, enfim, talvez consiga tentar. 
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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