Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 14, 2015

Mas o seu marido não a ajuda, UJM? Só dá "recomendações"?? -- perguntaram-me. E eu, UJM, respondo.


Ontem escrevi um post no qual descrevi a canseira que, para mim, é sempre este pré-Natal, esta fase da compra de presentes que, este ano, estou a sentir de forma ainda mais agravada já que agora, para além de comprar os meus presentes, compro também os que a minha mãe vai oferecer. Uma Leitora, a quem agradeço, enviou-me indicação de um site no qual se fazem boas compras, a bom preço, objectos úteis - e tudo à distância de um clique. Mas nisto sou muito old fashion, gosto de ir às lojas escolher, gosto de avaliar alternativas, gosto de ver o que há para, então, optar por aquilo que eu acho que vai agradar mais ao destinatário. E tudo isto poderia ser um exercício de prazer -- porque a verdade é que gosto de fazer compras -- não fora a minha falta de tempo, o só conseguir ir a horas de ponta, ou a correr à hora de almoço ou, no meio da barafunda, ao fim de semana e, nesta altura, haver muita gente, muita confusão.

E depois, dado que tenho cá o jantar de Natal e que, este ano, é um jantar alargado, tenho que ir aprontando a casa para acomodar a festa; e, tudo junto, e tudo em acréscimo ao trabalho normal que me ocupa de manhã à noite, e agora, por sinal, com reuniões fora do local habitual, mais os afazeres domésticos comuns e os compromissos e deveres familiares, deixam-me francamente estafada.

Ao contar isto, falei nas recomendações do meu marido e nos ouvidos moucos que tantas vezes faço. E Leitor/a achou que eu, às tantas, era uma 'esposa' à moda antiga, eu a trabalhar e o meu marido a dar ordens ou palpites. Podia responder-lhe lá nos comentários mas prefiro fazê-lo aqui para que tenha maior visibilidade. Vou ilustrar o texto com árvores de natal porque é alusivo à quadra que atravessamos; mas não são umas quaisquer, não senhor, são árvores de natal feitas com livros.




Não quero, nunca quis, parecer uma pessoa perfeita. Não sou, muito longe disso. Nem quero que pensem que me calhou na rifa um marido perfeito. Não é, jamais aguentaria ser casada com um marido perfeito. Nem eu tenho um casamento perfeito -- nem sei se alguém o tem. De resto, abomino a perfeição.

Mas uma coisa é certa: sendo diferentes um do outro, quase simétricos em tudo, eu e o meu marido completamo-nos. Talvez eu não pudesse fazer o que faço e sentir-me livre como me sinto com outra pessoa, que não ele, ao meu lado.

Ajuda-me, sim, ajuda-me imenso. Por cada coisa que eu faça, ele faz muito mais. Quando me faz recomendações é porque já cumpriu a parte dele e acha que eu deveria também cumprir a minha. Aliás, tantas vezes, por vontade dele, fazia ele também a minha: eu é que o proíbo. Dou um exemplo. Há um sítio onde tenho os meus sapatos. Não sei porquê, nunca consigo ter aquele sítio organizado. É escusado. Volta e meia, quero uns e só encontro um dos do par. Outras vezes, penso calçar uns determinados e não consigo descobri-los. Ele passa-se, diz que se eu deitasse fora os que já não uso, já tinha mais espaço para aqueles de que preciso mesmo. Como se levanta bem mais cedo que eu, ao fim de semana, deita mãos à obra, organiza e arruma coisas, e, neste caso em concreto, por vontade dele pegava em metade dos meus sapatos e deitava-os para o lixo. Já lhe disse mil vezes que há assuntos que não são do pelouro dele, que não se meta, que não dê palpites. Mas qual quê?, volta e meia lá vem: não devias ir arrumar os sapatos? E, quem diz isso, diz outras coisas.


Exemplifico. Sem eu saber como, junto sempre uma tralha bestial no carro. Uns sapatos para um just in case (posso ficar sem um salto ou posso ficar com dores nos pés devido a alguns sapatos novos ou apertados), chapéu de chuva, sacos, uma manta grande para picnics, CDs vários, um pente, ganchos ou elásticos para o cabelo, mapas, um ou outro livro, papéis de reuniões que me esqueço de levar para o gabinete, brochuras, cenas, etc, etc. Da última vez que mudei de carro, e já lá devem ir quase uns dois anos, meti tudo o que cabia num saco e nunca mais me lembrei de tal coisa. No outro dia, num canto já não sei onde, ele descobriu o dito saco. No meio de ironias de toda a  espécie e feitio, recomendou: Olha lá, não deverias ver, daquilo que para ali está, o que é que é mesmo essencial...?

E coisas assim, geralmente polvilhadas com gozações, piadinhas. Adora picar-me. E eu sei que ele tem razão - só que me apetece mais fazer outras coisas. Azarinho.

Embora, para não lhe dar trunfos, geralmente não o confesse, reconheço: é mil vezes mais organizado que eu, mais previdente, mais disciplinado. Claro que, ao fim de tantos anos, já aprendeu a tolerar esta minha maneira de ser; mas isso não o impede de tentar, ainda, ver se me educa - o que, claro está, me irrita. Às vezes, diz à minha mãe que ela não soube educar-me. A minha mãe ri-se, diz que desistiu.


Dou outro exemplo da nossa interacção. Hoje resolvemos ir ao centro comercial junto à hora de almoço esperando que não estivesse tanta gente, para ver se acabávamos as compras de presentes para a minha mãe dar aos netos e bisnetos. Contudo, não me levantei cedo, a caminhada foi demorada pela razão que conto no post abaixo, atrasei-me, já não fomos à hora que ele teria querido.

Ao andarmos lá, à procura de outra loja para comprar esses outros presentes, vimos o Soleil Sucré. Dado que ele andava a querer saber o que me havia de dar a mim pelo natal e eu que não queria nada, please, nem me falem em presentes, achou por bem que eu fosse ver se alguma coisa me agradava. Não me fiz rogada. E claro que muita coisa me agradava. Experimentei vários conjuntos e acabei trazendo dois que ali estão agora devidamente embrulhados para irem para o sapatinho. Pelo meio, ainda fomos almoçar já mais à hora do lanche do que outra coisa. Às tantas, diz-me ele: Olha lá, não tinhas uma blusa por baixo?. Olhei para mim e não percebi: Uma blusa por baixo? Não, que ideia. Tinha uma blusinha fina e uma casaquito leve por cima. Ora, entre a blusa e o casaquito, ainda ter outra blusa? Tipo pullover? É coisa que não uso. Que ideia. Mas ele explicou: Uma blusa debaixo da outra. Parece que não estavas tão transparente. Olhei então melhor e fiquei de boca aberta. Estava com o soutien todo visível. A blusinha era transparente e, por isso, em casa, por baixo tinha, de facto, vestido um daqueles tops justinhos, de alcinhas. E estava sem o top! Nem queria acreditar. Confirmei, Mas eu tinha-o...! Lembro-me muito bem de o ter vestido. não ia sair de casa assim. Ele gozou logo: Está-se mesmo a ver: deixaste-o, com certeza, quando estiveste a provar os soutiens. Gaita, de facto, só podia ter sido isso. Lá fui; só faltava mais essa para nos fazer perder ainda mais tempo. Mas, para minha surpresa, a rapariga disse não tinha visto nenhum top. Garanti-lhe que o tinha e a rapariga garantiu-me que lá não tinha ficado. Fiquei parva. O meu marido gozava: Deve ser assim que volta e meia apareces em casa sem a roupa interior: perdes e nem dás por isso

De repente, parece que até sentia frio, tanta a falta que o top já me fazia, e tive que andar a apertar o casaquito para não andar ali na maior transparência. Intrigada com aquilo, já pensava que tinha ido alguém logo a seguir a mim e se tinha abotoado com a blusita. Mas a rapariga tinha dito que, logo que me tinha atendido, tinha recolhido as peças que eu não tinha levado e que não estava lá mais nada. Mistério...! O meu marido foi gozando cada vez mais e eu também cada vez mais divertida com o disparate da situação, já perdida de riso. 

A seguir fomos a uma sapataria comprar umas galochas para os miúdos e eu catrapisquei logo uns sapatos lindos para mim, ainda por cima a bom preço. Só que, com tanta risota, já estava era com vontade de ir à casa de banho. Lá fui num instante. Quando puxei as calças para baixo, uma aparição: o top enrolado à volta da cintura. Para provar os soutiens, tinha tirado as alças e, instintivamente, tinha-o puxado para baixo -- e nem mais me lembrei. Quando saí da casa de banho e contei ao meu marido, ele encolheu os ombros e disse: Não me admira. Tudo é possível. E lá voltei para as galochas e lá trouxe também os tais belos sapatos de camurça altos em tom nude. Claro que ele gozou ainda mais comigo, Tinhas tanta falta desses sapatos, não era? Não, talvez não, mas é um belo presente de natal a juntar aos conjuntinhos de lingerie do Soleil Sucré.

No fim, vem carregado com sacos e eu sem nada, ou, se tanto, com dois ou três saquitos insignificantes em termos de peso. Peço-lhe que me deixe ajudá-lo. Cavalheiro como é, não quer. Dantes dizia, no gozo, que eu queria que ele fosse às compras comigo porque gostava de andar com um chameau para me carregar os sacos. Ultimamente tem-se esquecido disso, do camelo: diz que eu gosto de andar com um black da Casa Africana. No outro dia, disse isso quando vínhamos a sair do Toys 'r us e ele carregado com sacos; quando dei por ela, estava um negro mesmo ao pé de nós. Zanguei-me, que não é coisa que se diga, que, ouvindo, até podem pensar que é racista. Diz que não tem nada a ver, que é aquilo de antes, na Casa Africana, na Baixa, terem 'pretos' para levar os sacos das freguesas. Como se ele fosse desse tempo... mas, enfim, gosta de dizer essas parvoíces para gozar comigo. Não me deixa levar nada e depois finge que eu é que gosto de andar feita marquesa, com ele, ao lado, carregado de sacos.


Portanto, Caro/a Leitor/a que me perguntou se o meu marido não me ajuda, se só dá 'recomendações': a verdade, verdadinha, é que nem sei o que seria de mim se não fosse ele. E é que nem é bem ajudar: ele faz muito mais do que isso. Ele apoia-me, suporta-me, aguenta-me.
[Imagino que ele, ao ler isto que agora estou a escrever, fique todo contente por ver que reconheço os factos; mas, conhecendo-o como o conheço, quando esta segunda-feira almoçar com ele, já sei que só vai dizer alguma coisa se eu lhe perguntar e, mesmo assim, é capaz de fazer um ar displicente e, no gozo, dizer que eu deveria ter aproveitado para contar mais algumas peripécias que atestassem o meu mau comportamento e o comportamento exemplar dele. Terei que lhe explicar que isso já seria demais. É que convém que não se se torne muito convencido.]
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Muito gostaria ainda de vos convidar a descer até ao post já aqui a seguir para vos mostrar o presente que um Leitor deixou num esconderijo especial e que me deixou, como sempre, muito emocionada e agradecida.
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4 comentários:

Anónimo disse...

Deve ser bom viver assim, comprar o que se precisa e o que não se precisa. Sem problemas, na boa, como costuma dizer. Deve ser bom viver na boa.

Anónimo disse...

Bem me lembro de ver o "preto" à porta da dita Casa Africana. Normalmente, um rapazito, que na altura parecia ser da minha idade. Já foi há tanto tempo assim?
Mozi

Um Jeito Manso disse...

Caro Anónimo/a,

Pode crer que sim, e sinto-me agradecida por isso. E mais: não me esqueço nunca que bom mesmo é que haja uma classe média com excedentes mensais que lhe permitam comprar coisas e manter a economia a funcionar, a gerar o pagamento de impostos, etc.

Se toda a gente viver com dificuldades, não haverá comércio, não haverá produção local, não haverá pequenos serviços locais, não haverá IVA, haverá mais desemprego, etc. A solução para um país não passa por ter a economia assente essencialmente no consumo interno mas, enquanto não haja uma produção nacional virada sobretudo para a exportação, demos todos graças por haver quem possa comprar coisas que precise ou não precise.

Uma das piores coisas que o governo de Passos Coelho fez foi quase acabar com a classe média. Com isso quase fez ruir o equilíbrio económico no qual assentava o tecido social português.

De resto, espero que uma vida boa esteja também ao seu alcance. Deverá, aliás, estar ao alcance de todas as pessoas.

Um Jeito Manso disse...

Olá Mozi, boa noite,

Não sei. Ouço falar disso mas nunca presenciei, presumo que tenha sido há muito tempo. Não foi?

Há pouco tempo, ao passar por um grande hotel numa das grandes avenidas de Paris, vi um daqueles empregados fardados, de luvas, que vem abrir a porta a quem estaciona junto à porta. O empregado era branco, falava francês-francês, mas todas as pessoas que vi a saírem dos grandes carrões eram negras. Pensei, na altura, que era uma cena de tipo 'casa africana' mas virada do avesso. Enfim, fruto dos tempos - se bem que agora, com a crise do petróleo, por exemplo Angola já não gera o nível de riqueza que dava origem ao aparato do tipo que relatei.

Um abraço, Mozi.