Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

quinta-feira, setembro 03, 2015

Emoções fortes e poucas palavras


Tenho que dizer que hoje sinto-me sem palavras. Pode ser que, daqui a nada, já tenha conseguido superar este bloqueio que agora sinto. 

O dia começou-me feliz, uma grande notícia: as TACs já tinham revelado que os órgãos circundantes não estavam metastizados mas depois ficámos a saber que a coisa podia não ser assim tão simples. Só a análise aos gânglios que estão em volta da metade do órgão que foi extraída poderia revelar se estavam ou não afectados, o que indicaria o grau de desenvolvimento do carcinoma. Ora a análise veio negativa. Felizmente (mil vezes felizmente!) o mal estava mesmo confinado e tudo veio cá para fora. Nem quimioterapia vai ser precisa, mesmo na forma minimalista que estaria vagamente em hipótese (comprimidos tomados em casa). A alegria com a notícia foi mais que muita e quem há cerca de 15 dias estava numa cirurgia complexa hoje de tarde riu e bailou de alegria (e isto de bailar não é eufemismo - é mesmo verdade). Eu ainda disse: a ver se as partes que foram coladas não se descolam para aí... Mas que não, que também não estava aos saltos... Sendo assim, vá de bailar, pois então. Uma alegria e um alívio sem tamanho.

Por isso, susto para trás das costas.

Só que depois, de tarde, vi uma fotografia que me deixou de rastos. De rastos.

Há pouco recebi por mail fotografias de dois dos meus pimentinhas, felizes, de passeio pelo Minho, a tomarem banho de rio, a andarem de pónei, às cavalitas do pai. Riem, despreocupados, inocentes. E assim deve ser. E assim deve ser para todas as crianças do mundo.


Por isso, estou sem palavras, triste, triste, esmagada pela infelicidade maior para a humanidade que é termos o mundo a gerar situações destas. Um mundo assim é um mundo que não está a saber cuidar de si nem dos seus. Somos todos culpados de uma desgraça destas. 

Por isso, a menos que daqui a nada consiga afastar de mim esta angústia que me esmaga as palavras, agora fico-me por algumas fotografias feitas hoje. 


Num mundo normal, imagens destas, de um cão de água, radiante, a banhar-se na praia, não teria nada de mais.
O mundo fez-se para acolher todos, pessoas, animais.


Pena que este não seja um mundo normal e que, ao mesmo tempo que um cão brinca na praia, noutros lugares, crianças estejam a dar à costa.




Este ano temos visto vários árabes ou russos, nacionalidades que não eram comuns por estas bandas.
Por cá, a paisagem é tranquila, bonita, acolhedora.

Presumo que estes novos turistas estejam a fugir das cidades do sul que antes eram de veraneio e que agora são de imigrantes esfomeados pelas ruas e pessoas mortas nos areais.

Os veleiros sempre me atraíram. 
No entanto, nunca entrei em nenhum e duvido que alguma vez entre. 
Penso que deve ser uma canseira e provavelmente, volta e meia, quase morreria de medo, com medo de cair à água e levar com o barco em cima.
Mas, vistos de fora, os seus movimentos parecem-me um bailado feliz.

Por aqui os vejo a cruzarem o horizonte ou a deslizarem pelos seus limites, vogando entre azuis.

E penso nos outros, nos pobres, pobres, infelizes, que se metem em barcos sem condições e, no mar, perdem a vida ou vêem morrer os que lhes são queridos.


Ontem desejei felicidades à noiva e que tivesse muitos gaivotinhos. 
Acho que os meus votos já produziram efeito. Hoje lá andavam 3 gaivotinhos pelo areal. 
Estava vento ao fim da tarde e eles viraram costas ao mar, tentavam abrigar-se. 
Um pouco mais longe a mãe observava-os.

Até as gaivotas, por aqui, conseguem proteger os seus filhos.
Coitadas das infelizes pessoas que, tentando proteger os seus filhos da guerra e da miséria os entregam ao sepulcro do mar.
....

[De Arvo Pärt: Berliner Messe VII Agnus Dei - Elora Festival Orchestra & Singers]

..

Volto aqui uma hora depois de ter escrito o que acabaram de ler para dizer que hoje me fico mesmo por aqui. 

Tinha alguma vontade de falar na carta de Francisco, o Papa, ao querer o perdão para todos os pecados. 


Eu, que sou tão avessa a isto da culpa e do pecado e que sou tão dada a perdoar, a esquecer, fiquei contente com mais esta imprevisibilidade deste homem tão generoso, tão tolerante, tão inclusivo. Mas eu sou dada a perdoar tudo excepto aquilo que é feito por uns poucos contra muitos, por governantes a soldo contra um país inteiro, por exemplo. 
Mas nem é que queira mal às pessoas, quero é que sejam afastadas de lugares ou cargos onde possam prejudicar os outros. Por isso, não sou defensora de qualquer tipo de violência contra políticos estúpidos, gananciosos, relapsos ou simplesmente ignorantes ou incompetentes: sou defensora, sim, é que levem uma banhada nas eleições, que sejam varridos da história.

Mas penso em quem criou ou fomentou situações como as que assolam países como a Síria, a Líbia ou outros de onde fogem estas gentes todas, penso nos assassinos que, com o caminho livre, se arvoram em estadistas e destroem pessoas, monumentos, história, penso em todos os políticos de meia tigela, burocratas insensíveis e bem pagos, bruxelistas da treta, gentinha desqualificada que por aí anda emproada enquanto se assiste a estas centenas ou milhares de pessoas que morrem afogadas, asfixiadas, cansadas na beira da estrada, penso no menino morto na praia e nos outros meninos e em todos, em todos, e fico angustiada -- perdoar-lhes, Papa? 

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Tentem ser felizes, apesar de tudo, está bem?

..

8 comentários:

Humberto Barbosa disse...

Boa noite caríssima UJM
Boas notícias e acredite que fico feliz, muito feliz mesmo.
Desejo-lhe o melhor, acredite.
A foto da criança na praia...O que está a acontecer ????
Tenho uma sensação de revolta, de impotência indescritíveis...
Desejo-lhe uma boa noite e tudo de bom
HB

Silenciosamente ouvindo... disse...

Também fiquei feliz por esse seu familiar
ter tido notícias fantásticas sobre o seu
problema de saúde. Acabo de perder um
familiar com um caso quase fulminante.
Daí, penso, compreender melhor a sua algria.
Sobre a foto dessa criança, e de tentas outras
crianças que caminham kilómetros e kilómetros
em busca??? pensam que a Europa é a felicidade,
e meu Deus o que ainda terão que sofrer?
Que mundo é este?
Que políticos são estes que provocam as guerras?
Que impotência nós sentimos...
Bj.
Irene Alves

Rosa Pinto disse...

Boas notícias.
Como diria a minha mãe - nem sempre o diabo está atrás da porta.
E dance. o MAIS POSSÍVEL!

bEIJO que hoje merece em duplicado

Anónimo disse...

A imagem da criança morta, na praia, é um murro no estômago! Um tipo vê aquilo e dificilmente não se comove. Tinha a idade do nosso neto. É caso para nos interrogarmos: e o que vai fazer esta Europa perante estes acontecimentos? Que solução irá encontrar?
Compare-se com a sucessão de reuniões quando foi da Grécia e a rapidez em encontrar uma "solução". Dá que pensar!
P.Rufino
PS: associo-me ás felicitações aqui colocadas por outros comentadores sobre as notícias da saúde de sua mãe.

Pôr do Sol disse...

Deixe-me dar-lhe um abraço e dizer-lhe que fiquei muito contente com as boas noticias. Ainda bem que nem o tal comprimido necessita tomar. Os efeitos secundários não são nada simpaticos.

O Minho é maravilhoso para uns dias revigorantes. Os seus pimentinhas voltarão ainda mais alegres e saudáveis. Que Deus os proteja.

Foi mais uma fotografia horrivel das noticias que todos os dias nos chegam sobre o sofrimento de tantas crianças. Deixa-nos desanimados. Os padres têm uma explicação, mas não compreendo.

Tambem não compreendo esta abertura a refugiados que são empurrados como uma semente de consequencias muito graves, e nada se faz para combater o mal na fonte.

Quando tiver os seus meninos de regreço, traga-os até Oeiras, ao Parque dos Poetas, agora com a segunda fase inaugurada. Será um dia muito bem passado, onde a cultura a poesia o lazer se misturam e, com imaginação (a da minha menina) e um salto aterra na ilha do Bugio e vai descobrir o farol por dentro, tal a ideia de proximidade.

Um beijinho e continuação de boas férias e de saude, o nosso grande patrimonio.

Pedro Soares disse...

Não tenho palavras, ou pelo menos sinto que estariam a mais depois dos sentimentos expressos no seu texto.
Obrigado, muitas vezes.

Francisco Clamote disse...

Olá!
Só para agradecer a sua visita e para a felicitar: cada "post" seu é um "espanto".
Quanto ao meu "Flora da Arrábida", suponho que nada se passa de errado. A mim, pelo menos, nunca me apareceu qualquer aviso de virus.
Saudações cordiais.

Tété disse...

Olá Tazinha!
As imagens são aterradoras e chocantes sem que consigamos conter as lágrimas. Pobres crianças, pobre mundo aquele em que vivemos.
Parabéns pelos resultados das análises. Eu não lhe disse que o que vai para o balde já não conta?
Muita saúde e felicidades para si e todos os que fazem parte da sua turma maravilha.
Continuação de umas boas férias.