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segunda-feira, abril 27, 2015

O carro que fez o pino no cais do Ginjal


Carro virado sobre parte do cais do Ginjal que abateu.


Agora parece que os carros com guindaste não se arriscam a ir tirá-lo com medo de irem também parar lá abaixo
nem o barco também com guindaste lá consegue acostar porque o rio ali é baixo.

Mas acredito que não seja o novo Tollan, um Tollan em seco.



Cais do Ginjal antes do carro capotar.

Como se vê, parte do cais já tinha abatido (vedação provisória a seguir ao guindaste) e o espaço para circulação automóvel já era muito limitado


Tudo aquilo ali é periclitante. No Ginjal as paredes ameaçam ruir, os tectos quase não existem, os muros ameaçam abater, agora há lixo e um colchão na entrada que ao fundo tem uma escadaria que leva não sei onde, os gatos vadios andam a ser alimentados por senhoras que os enchem de ração e esparguete. Apenas as gaivotas se mantêm livres, em boa forma e felizes.




Mas o que eu gosto daquelas paredes gastas, esventradas, cheias de desenhos, de onde nascem flores, por onde por vezes entram pessoas ou sombras, onde há cães que meditam frente ao rio, onde os pescadores, habituados que estão a tanta beleza, já nem olham para os veleiros que deslizam, nem Lisboa ali tão perto, tão, tão bela.

E o que eu gosto daquela proximidade do rio, do cheiro a maresia, do fresco que se aspira e que traz uma leveza que me dá vontade de voar, e do azul de tantas cores que há nas águas, no céu, no ar que as gaivotas atravessam, dos abraços dos namorados que se sentem tão apaixonados perante tanta beleza, dos barcos pequeninos dos pescadores, dos veleiros silenciosos, dos cacilheiros, dos grandes navios, das pontes tão elegantes.








Mas tudo aquilo é instável. O cais do Ginjal abateu na altura em que o carro com um casal e uma criança ia a passar. Muitas vezes me interrogava se um dia isso não ia acontecer. O cais tem fendas, tem zonas em que se nota a vulnerabilidade. Por desconhecimento ou aventureirismo alguns carros afoitavam-se. Também há os que vão abastecer os restaurantes. Algum dia ia acontecer.


E há as varandas que parecem levitar de tão soltas estão, paredes que parecem desafiar a lógica dos materiais ao manterem-se de pé. Não há muito tempo, dentro de uma daquelas casas abandonadas, morreu um rapaz soterrado sob uma parede. Tudo tão frágil, ali.

Vamos ver o que vai acontecer. Li que interditaram agora aquele passeio mas ainda hoje de manhã lá passei. Tanta beleza deve estar acessível a toda a gente - mas em segurança.


1 comentário:

Rosa Pinto disse...

Lindas fotos. Beleza imensa nos transmite o Tejo.