Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 27, 2015

O amor em visita. Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite. E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha.




Folhas secas, caroços, pequenas pedras, restinhos de outras estações, de outros tempos. É mais pedra do que terra, a chuva cai e logo é absorvida e desliza pelas rochas e, logo, logo, a terra deixa de estar molhada, fica apenas macia, húmida, os restos do musgo de inverno ainda mais macios, e eu vejo um cogumelo que cresce gordo e quase me parece magia porque já não é tempo deles e este tem uma cor tão impossível, quase parece querer pôr-se da cor dos filamentos de musgo ou da terra e eu ando e é como se caminhasse dentro de uma gruta cheia de tesouros, e como se mil anjos, mil amores, mil sóis, mil sonhos, me acompanhassem.

A natureza tem segredos e eu gostava tanto de os saber mas tantos eles são que eu não saberia por onde começar a ouvir a confissão destas criaturas maravilhosas que a habitam. Então caminho em silêncio, tento ouvir murmúrios, vozes longínquas, pensamentos, sigilos, mistérios. 

E enquanto ando, anjos e sonhos em volta, cheia de amor, o olhar mergulhado nesta natureza que me abraça, junto a mim caminham também pétalas soltas, folhas douradas, doces recordações, saudades sem explicação, ventos perfumados, a chuva morna da primavera e as palavras do poeta - e, ao olhá-las, ao olhar as palavras do poeta, vejo-as com as patas na terra, as asas abertas, a saliva escorrendo, a pele suada, os olhos ardendo, as mãos abertas na minha direcção, chamando-me para o centro do fogo, para o ventre das nuvens, para a gruta secreta onde se acolhe o amor em visita.








Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.




- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. 




Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. 




Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos. 




Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.






Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.




Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue. 




Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

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Excertos transcritos e ditos (por José-António Moreira) de O amor em visita de Herberto Helder.


Fotografias feitas este domingo nesta terra que me abraça.

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Permitam que vos diga que, se quiserem a ver um carro a fazer o pino à beira do Tejo, no cais do Ginjal, desçam, por favor, até ao post a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
E que haja sempre beleza e poesia nas vossas vidas.

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